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Sinopse
Na trama, Dorothy 'Dot' Lyon (JunoTemple) tem uma rotina comum de dona de casa, até que eventos inesperados revivem traumas do passado e a vida pregressa de fora da lei de Dot.
FARGO - 5.ª TEMPORADA (2023) - Crimes ocorridos em 2019 na cidade de Scandia, Minnesota. Na pequena cidade de Scandia, no Minnesota, a dona de casa Dorothy (Juno Temple) tem sua casa invadida e é raptada, sendo resgatada pelo patrulheiro Witt (Lamorne Morris). Ela nega o sequestro pois não queria publicidade com fotos suas, para não ser descoberta pelo ex-marido violento Roy (Jon Hamm), influente xerife do condado. Ele a captura, reunindo uma grande milícia armada até os dentes em sua fazenda para evitar sua libertação. A Guarda Nacional é chamada - muita ação e tensão - uma temporada para fechar com chave de outo. Me chamou muito a atenção o primeiro episódio, onde tivemos uma trilha sonora com nada mais, nada menos que YES, RUSH e GRAND FUNK RAILROAD. Gostei e recomendo.
Porque não dei 5 estrelas logo? Tem a ver com o estilo das obras dos irmãos Cohen, produtores desta série, na qual o traço inegável da dupla, que percorre todas as temporadas, expõe a violência em estado bruto de tal maneira que chega a ser risível, embora não esvaziada de horror. Eu não aprecio esta marca, por achar que contribui para a banalização e a desumanização presente em tantos eventos violentos da vida real. Mas tenho que admitir que são roteiros estupendos. Essa 5a temporada ainda aborda a misoginia, o machismo e a violência embutida na concepção religiosa do papel da mulher. E é primorosa nisso. Os personagens, mesmo os nauseantes e desprezíveis, como a sogra, em sua arrogância bilionária, revelam possibilidades de esperança, se afetam, demonstram aquilo tão belo que chamam sororidade. Eu me apaixonei pela personagem principal, a atriz desempenhou maravilhosamente aquela "McGyver" inquebrantável, sob a aparência frágil. Os flash backs entram elucidando pontos da trama, aos poucos compondo o mosaico do tempo presente. Tudo caminha para aquele acerto de contas que faz a alegria dos seguidores de qualquer novela. E tem algo mais, algo muito assustador e enigmático, o personagem do "comedor de pecados", um homem que vem cobrar uma dívida. Olha...
Em Fargo quinta temporada, a violência aparece como eco: não um evento isolado, mas uma lógica que se repete. No xerife, o eco surge como colapso narcísico, quando o nome e a autoridade se duplicam, ele reage com agressividade para restaurar a fantasia de posse. Em Dot, o eco é traumático: outras mulheres viveram a mesma perseguição, revelando que não se trata de um homem, mas de um sistema, corpos que se amontoam. Quando Dot se esconde na fossa do rancho Tillman, o lugar onde corpos se amontoam sem nome, ela entra no território do bode expiatório: ali, a violência deposita seus restos para que a ordem siga intacta. É significativo que ela seja resgatada justamente pelo "comedor de pecados", figura que carrega a culpa alheia para que outros possam seguir “puros”. Dot segura um osso e teme, mas aceita a ajuda dele para sair daquele lugar, não porque confie, mas porque reconhece a lógica do lugar. O xerife, antes, fala do “nome escrito nos ossos” que é a ideia de que a identidade pode ser reduzida a um traço final, ao determinismo, fixado até morte. Dot tenta mudar de nome para escapar desse destino; a fossa revela o preço quando essa recusa ocorre. Fargo sugere que a luta de Dot não é só por sobreviver, mas por impedir que seu nome seja inscrito como "culpa" nos ossos de um sistema e por atravessar a sujeira sem se tornar o depósito dela. A temporada expõe a inversão clássica da violência (DARVO): o agressor se apresenta como vítima e tenta empurrar a mulher ao lugar de agressora por resistir. Esse mecanismo ecoa práticas arcaicas como o “comedor de pecados”, onde a culpa é transferida a um corpo para que a ordem se preserve. No plano psíquico, o xerife e a executiva podem ser lidos como núcleos introjetados em Dot: o masculino punitivo que reivindica posse e o polo hiperfuncional que sobrevive por dissociação. O horror máximo emerge quando a violência deixa de perseguir e passa a usurpar o lugar do sujeito, quando o agressor tenta falar desde a posição da vítima, atacando a fronteira do Eu. A cegueira de Gator sela essa lógica: não falta visão, falta reconhecimento. É a ignorância escolhida que o torna inapto e mantém o patriarcado operando por repetição. Fargo mostra que essa violência não quer apenas controlar o outro, quer ocupá-lo. Fargo foi uma série interessante, muito legal o raciocínio.
Sensacional! A melhor temporada de todas, atuação impecável de Juno Temple!
O sarcasmo e o absurdo andam de mãos dadas nessa série.
Juno Temple e Jennifer Jason Leigh são os destaques.
FARGO - 5.ª TEMPORADA (2023) - Crimes ocorridos em 2019 na cidade de Scandia, Minnesota.
Na pequena cidade de Scandia, no Minnesota, a dona de casa Dorothy (Juno Temple) tem sua casa invadida e é raptada, sendo resgatada pelo patrulheiro Witt (Lamorne Morris). Ela nega o sequestro pois não queria publicidade com fotos suas, para não ser descoberta pelo ex-marido violento Roy (Jon Hamm), influente xerife do condado. Ele a captura, reunindo uma grande milícia armada até os dentes em sua fazenda para evitar sua libertação. A Guarda Nacional é chamada - muita ação e tensão - uma temporada para fechar com chave de outo. Me chamou muito a atenção o primeiro episódio, onde tivemos uma trilha sonora com nada mais, nada menos que YES, RUSH e GRAND FUNK RAILROAD. Gostei e recomendo.
Porque não dei 5 estrelas logo? Tem a ver com o estilo das obras dos irmãos Cohen, produtores desta série, na qual o traço inegável da dupla, que percorre todas as temporadas, expõe a violência em estado bruto de tal maneira que chega a ser risível, embora não esvaziada de horror. Eu não aprecio esta marca, por achar que contribui para a banalização e a desumanização presente em tantos eventos violentos da vida real. Mas tenho que admitir que são roteiros estupendos. Essa 5a temporada ainda aborda a misoginia, o machismo e a violência embutida na concepção religiosa do papel da mulher. E é primorosa nisso. Os personagens, mesmo os nauseantes e desprezíveis, como a sogra, em sua arrogância bilionária, revelam possibilidades de esperança, se afetam, demonstram aquilo tão belo que chamam sororidade. Eu me apaixonei pela personagem principal, a atriz desempenhou maravilhosamente aquela "McGyver" inquebrantável, sob a aparência frágil. Os flash backs entram elucidando pontos da trama, aos poucos compondo o mosaico do tempo presente. Tudo caminha para aquele acerto de contas que faz a alegria dos seguidores de qualquer novela. E tem algo mais, algo muito assustador e enigmático, o personagem do "comedor de pecados", um homem que vem cobrar uma dívida. Olha...
Em Fargo quinta temporada, a violência aparece como eco: não um evento isolado, mas uma lógica que se repete. No xerife, o eco surge como colapso narcísico, quando o nome e a autoridade se duplicam, ele reage com agressividade para restaurar a fantasia de posse. Em Dot, o eco é traumático: outras mulheres viveram a mesma perseguição, revelando que não se trata de um homem, mas de um sistema, corpos que se amontoam. Quando Dot se esconde na fossa do rancho Tillman, o lugar onde corpos se amontoam sem nome, ela entra no território do bode expiatório: ali, a violência deposita seus restos para que a ordem siga intacta. É significativo que ela seja resgatada justamente pelo "comedor de pecados", figura que carrega a culpa alheia para que outros possam seguir “puros”. Dot segura um osso e teme, mas aceita a ajuda dele para sair daquele lugar, não porque confie, mas porque reconhece a lógica do lugar. O xerife, antes, fala do “nome escrito nos ossos” que é a ideia de que a identidade pode ser reduzida a um traço final, ao determinismo, fixado até morte. Dot tenta mudar de nome para escapar desse destino; a fossa revela o preço quando essa recusa ocorre. Fargo sugere que a luta de Dot não é só por sobreviver, mas por impedir que seu nome seja inscrito como "culpa" nos ossos de um sistema e por atravessar a sujeira sem se tornar o depósito dela.
A temporada expõe a inversão clássica da violência (DARVO): o agressor se apresenta como vítima e tenta empurrar a mulher ao lugar de agressora por resistir. Esse mecanismo ecoa práticas arcaicas como o “comedor de pecados”, onde a culpa é transferida a um corpo para que a ordem se preserve.
No plano psíquico, o xerife e a executiva podem ser lidos como núcleos introjetados em Dot: o masculino punitivo que reivindica posse e o polo hiperfuncional que sobrevive por dissociação. O horror máximo emerge quando a violência deixa de perseguir e passa a usurpar o lugar do sujeito, quando o agressor tenta falar desde a posição da vítima, atacando a fronteira do Eu.
A cegueira de Gator sela essa lógica: não falta visão, falta reconhecimento. É a ignorância escolhida que o torna inapto e mantém o patriarcado operando por repetição. Fargo mostra que essa violência não quer apenas controlar o outro, quer ocupá-lo.
Fargo foi uma série interessante, muito legal o raciocínio.