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O filme ficou, durante algum tempo, engavetado, mostrado apenas para alguns amigos. Um filme repleto de plasticidades (sem fazer dessas o grande mote), poético e ao mesmo tempo chocante em seu transe de sons, cores e efeitos.
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Fata Morgana é o nome de um efeito ótico, uma espécie de miragem, que se produz graças a uma inversão térmica. No filme, o efeito pode ser notado a partir de imagens do deserto do Saara. Narrado pela crítica e historiadora do cinema franco-alemã Lotte Eisner, por quem Herzog sempre nutriu grande admiração, este documentário absolutamente conceitual está dividido em três partes, expressando uma espécie de crítica do cineasta à civilização: criação, paraíso e idade do ouro .As paisagens do deserto africano ocupam o centro do palco neste documentário poético e surreal. Nas longas tomadas de viagens de extensões desoladas de areia, a presença humana é traída apenas por um avião abandonado, acidentes de carro, prédios desmoronados e gado morto. O primeiro capítulo, "Criação", combina cenas dessa paisagem atemporal com a voz da historiadora e ensaísta de cinema alemã Lotte Eisner, contando o mito da criação do povo K'iche da Guatemala. É um conto de tentativa e erro, dos fracassos miseráveis antes da chegada da peça final do quebra-cabeça: a humanidade. Nas seções seguintes - “Paraíso” e “A Idade de Ouro” - Werner Herzog apresenta cenas envolventes com vários compatriotas, incluindo uma zoóloga cativada por lagartos, uma professora instruindo seus alunos africanos sobre o uso da frase Blitzkrieg ist Wahnsinn (Blitzkrieg é uma loucura) e um bando de turistas risonhos. Herzog descreve seu filme como uma elegia de ficção científica sobre a insanidade do colonialismo. Ele logo abandonou o enredo pretendido em favor de um foco exclusivo nas imagens. Como a câmera de Hertzog, montada em cima de um trailer VW, explora o deserto como se fosse um planeta alienígena intocado, não é difícil vê-lo como uma espécie de nova terra. Gostri bastante!
Não é a trilha de Popol Vuh, a banda alemã de krautrock, quem divide com Leonard Cohen a tarefa de animar as imagens de Herzog no Saara: a narrativa em voz off de criação do mundo é o próprio mito maia do Popol Vuh onde Cucumatz, Tepeu e Huracán se alternam na criação a partir do nada desértico. O olhar de Herzog reverbera a tradição romântica e alemã das ruínas, aplicada aos fragmentos da civilização ocidental (os restos de aviões, carros) numa paisagem da alteridade africana e permeada por uma narrativa americana do novo mundo. É uma colagem poética sobre o próprio princípio e a possibilidade de criação a partir da desolação, da devastação (blitskrieg is insanity/in paradise, ruins are happiness) que reflete a fúria dos deuses maias sobre os homens, impelindo-os a uma nova matéria mais forte e resistente que a anterior.
Leonard Cohen + Werner Herzog = <3
Duvidoso.
Herzog inventa um gênero novo (inclassificável), composto por uma mistura de realismo fotográfico e miragem, que configura-se como um documentário surreal, no qual a visão de elementos nunca vistos e a paisagem típica do deserto subsaariano atingem os olhos com uma intensidade particular, levando o espectador a uma espécie de transe. Um espetáculo que dá à fotografia uma prioridade incontestável, com sua potência luminosa rara e constante, criando, juntamente com a trilha musical (que vai de Popol Vuh a Händel, Mozart e Leonard Cohen) uma sensível, harmônica e refinada composição narrativa. Uma visão pessimista do progresso humano em relação ao retorno à natureza.