“Tudo começa com dois”: partida / retorno, terra / água, história / turismo… A partir do antigo mito da fundação do Vietnã - uma batalha entre dois dragões - e do equilíbrio entre a terra e a água que define o país geograficamente, Trinh Minh-ha compõe um palimpsesto de palavras e imagens filmadas em 1995 em vídeo Hi-8, depois em HD em 2012. Palavras, sobrepostas, vêm e vão como um ballet gráfico que adiciona uma camada à arqueologia visível na paisagem, uma mistura de antigas tradições e tentativas autoritárias de erradicá-los.
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"Camera memory for human forgetfulness or is it the other way around?"
Reassemblage (Remontagem, no Brasil) foi o primeiro projeto fílmico de Trinh T. Min-hà (em algum lugar eu tinha visto que ela havia realizado outros curtas antes, mas imagino que me confundi ou a informação estava errada); um ensaio visual filmado em Senegal comentando sobre representações etnográficas de culturas nas produções documentaristas, o convencional, sobretudo na cinematografia ocidental. Nesse estudo sobre mulheres da zona rural senegalense, ela disserta que "não pretende falar sobre, apenas falar ao lado". Dessa forma evitando a posição dominante da câmera e a passividade do documentado, o que configura uma ética fílmica e a busca por uma verossimilhança da realidade maior.
Esse conceito somado ao que veremos mais em Sobrenome Viet, Nome Nam se manifesta nos créditos iniciais de Naked Spaces, onde Trinh se apresenta como montadora, escritora, etc; contudo quando se credita como diretora, ela insere um "X".
Em Sobrenome Viet, Nome Nam; Trinh desmonta a autoridade do discurso ao nos apresentar em primeira instância o que aparenta ser um documentário tradicional sobre mulheres vietnamitas que relatam
suas condições de vida no Vietnam a partir de uma perspectiva feminina.
Contudo nessa primeira parte do documentário, a mise-en-scène e a decupagem vai tornando forma se valendo como não convencional. Somado à isso, os relatos parecem artificiais, com todo um aspecto de recitação. É o primeiro atrito entre espetáculo e espectador.
Ainda no decorrer desse interessante, outras escolhidas de Trinh trazem mais inseguranças, há digamos uma espécie de
uma poluição sonora quanto imagética (sons se sobrepondo, textos dos relatos no próprio relato) como também uma desconexão imagética com a sonoridade, já que vários elementos (vide vozes, textos, imagens e tradução [ponto importante aqui] nunca coincidem totalmente). O que nos parecia um campo conhecido, se transforma em uma área cinzenta, trazendo todo um estranhamento. Essa desconfiança aumenta ao vermos que os relatos exibidos são encenações por atrizes vietnamitas. Os relatos iniciais de fato são reais, mas no filme são reinterpretados. A
própria Trinh comenta sobre a escolha discursiva documentarista que tende a ser homogênea, um pouco da premissa de eu tenho que confirmar minhas hipóteses, e ideológica, afinal de contas quem escolhe os escolhidos? Trinh expõe que filmou 150 entrevistas para obter as cinco que entraram na versão final do filme. Desse modo, não existe representação neutra. Documentário não é verdade - é construção.
Partindo da desconfiança radical da imagem proposta por Trinh em sua filmografia, Forgetting Vietnam aborda sobre memória e indaga se de fato os arquivos por si só preservam a história, impedem o esquecimento, ou à história passa a ser arquivos? Quando o Museu do Ipiranga reabriu, acabei ganhando um par de ingressos e uma coisa que me chamou a atenção foi a falta de criticidade, diferentemente do proposto pelo MASP e Pinacoteca, por exemplo. Tudo estava exposto, limitando de forma passiva a experiência do espectador. Esse comodismo de acreditar que só os arquivos por si só valerem além de certa ingenuidade é nocivo. Esquecemos a história porque temos documentos que façam esse papel por nós? Essa ausência de criticidade histórica não seria uma condescendência para a narrativa hegemônica se sobressair?
Voltando a questão das imagens, lembro dos inúmeros devaneios que tive ao assistir Je Vous Salue, Sarajevo; além de toda a força da imagem utilizada por Godard e seu excelente ensaio, me perguntei se seria possível realizar outro ensaio com outras inúmeras fotografias, mas me perguntei se não haveria uma banalização imagética, tanto de saturamento como de domesticação de traumas, normalizando o abominável. Por último, adiciono nossa realidade comportamental com as redes sociais, com tamanha infodemia que nos sobrecarrega e toda a experiência instagramável influenciada pelos algoritmos, onde substituímos experiências. Realmente estamos vivendo isso ou só documentando?