Dirigido por
Duração
O filme se situa entre o final do século 18 e o início do século 19 e investiga dois ícones de dois mundos opostos e vizinhos: Casanova e Drácula, entre o Iluminismo e Romantismo. Inicialmente, ele segue as conquistas espetaculares e as aventuras de um Casanova maduro, viajando nas terras do norte. O aparecimento de Dracula irá resultar numa alteração, a atmosfera se tornará cada vez mais desagradável, até um final inesperado e misterioso.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Dentre o cinema contemporâneo, diverso em tendências, com ritmos polarizados, do mais "slow" ao mais "clipado" e com concepções novas e próprias de mise en scène, há cada vez mais experiências cinematográficas distintas e, por que não, estranhas. Sobre a última, com certeza "A História da Minha Morte" tem grande participação, em tal grupo dos "esquisitões". Albert Serra tem bastante consciência disto, o que às vezes não me parece tão bom assim.
O diretor é fixado em realizar filmes com personas históricas, ficcionais ou factíveis, e o mais interessante de suas histórias de época é a energia única que possuem quando projetadas na tela. Existe um projeto de vulgarização do mítico, dos personagens históricos bem estabelecidos no nosso imaginário coletivo, uma banalização que desfigura o "fantástico" de Casanova e da Europa que o circunda.
Vicenç Altaió, como o já ancião sedutor italiano, está sempre falando, professando sua filosofia e contando suas aventuras, numa posição de arauto dos libertinos meio que esperada do personagem. O diferencial aqui é que talvez pouco importe o conteúdo de suas falas, o mais interessante está na sua forma, como ele se gesticula enquanto come, como acena com a cabeça numa conversa ou como se esforça pra ler no escuro. E se sua risada afetada o destaca, destaca tanto quanto o cacoete de um tio mais velho.
Uma atmosfera vulgar mais aguda do que as desromantizações de Fellini e Pasolini sobre os "épicos" antigos, mas que ao contrário do que possa parecer à primeira vista, essa é uma atmosfera de maior estranheza do que de humanização, não há aproximação daquele mundo, é mais uma espécie de elucidação histórica do que normalmente nos é negligenciado. Aliás, não há muita identificação com o serviçal que recolhe a vasilha de fezes do seu mestre enquanto o ouve citar escritores.
A experiência por si só é um pouco exaustiva, não apenas pelo ritmo lânguido de uma história bizarra (o que não é problema), mas também pela grande arrefecida das imagens que não apresentam o maior ponto de interesse da obra, isso é: Casanova, que não são poucas.
Contudo, melhor seria se este fosse meu único problema com a obra, porque o ponto que mais me desgosta é a aparição bizarra da figura do Drácula.
Bizarro não seria problema em tal trama experimental e insólita, mas o surgimento vampiresco está mais próximo do fortuito, nesse sentido. Há quem veja na virada sobrenatural um paralelo lírico, um final que retorna a um novo mítico grotesco criado por Serra, porém estou longe de concordar com tais comentários. O personagem do Drácula não está inserido lá para observamos suas particularidades como indivíduo, tal como é com Casanova. Muito menos há qualquer ligação estabelecida entre as duas figuras, senão as especulativas, para determinar um "fim poético".
Penso que os surgimentos sobrenaturais na narrativa se satisfazem com a própria estranheza que geram no tom do filme. Serra está se divertindo em levar sua história pra um caminho obscuro, em aguçar ainda mais o exotismo distinto de sua trama. A questão é que isso não é sinônimo de qualidade.
Não é uma experiência cinematográfica essencial, muito longe disso. Mesmo antes do conde vampiresco aparecer (o que diminui o filme) esta já não era uma obra que evocasse excelência, mas mesmo assim está distante de ser ruim um filme que tem, num dos seus auges, Casanova fazendo força e se contorcendo na privada.
Obra-prima. Pena dessa galera aí embaixo detonando, rs.
Tá ai um filme que não vi sentido em nada e não entendi completamente nada.Nunca me senti tão desesperado em terminar um filme,parabéns aos envolvidos!
Como sempre eu assistindo todas as imundice que aparece!!
Sem dúvida é um filme difícil e bastante excêntrico, mas não vamos denegrir ainda. Há uma atmosfera sombria, provocativa e um tanto mórbida que anuncia um percurso trágico. Talvez o maior trunfo da trama seja transportar o espectador para o século XVIII e colocá-lo naquele estilo de vida frugal do campo, onde Casanova e pessoas simples conviviam mergulhados num naturalismo sonolento. A reconstituição de época, porém, é fascinante: os objetos à mesa, a decoração nobre nas paredes, a mobília antiga, as janelas que tomam paredes inteiras, as velas espalhadas pelos cômodos (pois não havia energia elétrica ainda). Algumas cenas parecem até pinturas, feitas em tons sóbrios. O diretor nos obriga a sentir aquele tempo, aquelas pessoas, aquele lugar. E que aflição tudo aquilo, apesar da estética! Os personagens circulam quase como fantasmas, alguns vivem em total silêncio, outros vivem para seduzir, outros apenas para comer, e Casanova tenta fazer tudo isso em uma rotina que não se explica, que não tem fundo. E daí surge "aquela risada irritante e persistente" do nobre, que não sabe o que fazer com a própria existência. E para quebrar com a rotina dessas pessoas, eis que surge um personagem novo, vindo do outro lado do rio, que tem por hábito sugar o sangue de suas vítimas enquanto seduz...
Bem, não é necessariamente um filme de horror, mas que o conjunto da obra traz um tom sinistro, isso é inegável. Acredito que a experiência será válida se for sentida nestes moldes, o que por si só se mostra bem diferente comparado às produções europeias sobre "realidades fantásticas".