No seu primeiro longa de ficção, o americano Jem Cohen traz para a tela a influência de seus documentários e trabalhos em vídeo-arte, cujo foco é o homem e seu entorno estritamente urbano. “Horas de Museu” é uma surpresa tão inesperada, que poderemos até esquecer do seu hibridismo, tal a “gentileza” com a qual Cohen nos convida a participar de sua pequena e delicada história. Bobby Sommer (que ficou conhecido como promotor de shows de bandas famosas, entre os anos 60 e 70) é Johann, um guarda do Museu de História da Arte (o Kunsthistorisches), em Viena. Seu trabalho consiste em “vigiar” as pessoas que visitam o Museu, além de, já que o tempo lhe permite, tecer comentários sobre os visitantes e, também, sobre as obras ali expostas – com uma especial atenção ao trabalho do pintor flamengo Pieter Brueghel (1525-1569). Um dia ele se depara com Anne (Mary Margaret O”Hara), uma americana que está na cidade para visitar uma prima, que há muito não via e que está em coma num hospital. Sem muito dinheiro, Anne passa as horas no Museu até pedir informações a Johann e, a partir daí, ele demonstrar interesse em lhe ajudar e ser o seu guia por Viena. Entre o Museu e as obras, a cidade e as pessoas, o diretor tece um belo e misterioso comentário sobre a vida, a arte e os afetos sinceros. Com uma sutileza e sensibilidade rara, “Horas de Museu” nos pede aquilo que parece ser a “condição” primitiva do cinema: o olhar. Mas não um olhar qualquer. Há de ser atencioso, delicado e, tal como o filme, gentil. E olhar com atenção, parece nos avisar Jem Cohen, através de uma cena de fulgurações epifânicas, é como desnudar-se. Um belo e delicioso cinema.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Marília Mendonça: Sentimento Louco
Sinceramente se você não for amante de museus ou de Viena certamente o resultado não agradará até porque não há conteúdo fora disto. Uma ou outra aula de história acoplada a uma amizade meio capenga em filme um tanto desengonçado e esquisito.
Meio parado em algumas transições, mas quando engrena te deixa completamente imerso na história.
Quem sabe um dos melhores filmes sobre amizade já feitos, já que ele extrapola tanto esse conceito. Na verdade, o modo que o filme trata a relação dos seus personagens e de si mesmo com o ambiente físico de Viena e do museu funciona justamente pra isso, ao meu ver. A nostalgia, a beleza, a realidade como arte, o passado e o presente, as tradições, as pessoas e o que foi e não foi: tudo parece o cerne da visão do filme em relação ao espaço e parece ser o mesmo que aproxima os dois personagens. Não é a toa que o desenvolvimento da "trama" é feito completamente em cima das visitas dos personagens a lugares da cidade ou de história contadas de um para o outro sobre locais e acontecimentos. Mas tudo isso só funciona porque o filme realmente sabe olhar para os seus espaços físicos de uma forma incrível, muitas vezes mergulhando fundo em seus conceitos (documentário sobre um local, a explicação no museu e o final, principalmente), mas sempre de uma maneira muito sóbria, contínua e cheia de interesse - que se resume bem naquele momento do filme em que os personagens discutem o quanto uma pintura parece que não tem muito a oferecer, que "veio do nada e acabará no nada" e que era fácil de observar, mas, se olhada atentamente, haviam muitos detalhes ocultados em suas sombras. E tudo acaba, por fim, remetendo a o que os planos finais do filme propõem, basicamente ensinando o telespectador a como ler e ver aquelas imagens e meio que apontando como o filme quer tratar tanto dos pequenos detalhes delas, mas também de tudo que as envolvem e dela como si mesma, a aproximando mais do que nunca da arte. Ali, ele se assume como um exibicionismo formal, mas que, ao mesmo tempo, quer ir muito além disso.
É um filme. É uma aula. É cinema para quem não tem pressa.
Bastante interessante este filme-documentário, tendo como cenário, na maioria das vezes, o museu Kunsthistorisches. Bacana.