“Ele morreu sozinho no campo numa manhã de verão enquanto sonhava com a lua, seis semanas depois um girassol nasceu em sua cabeça”
São tantas coisas expressadas nesses pequenos buracos queimados desta película de memórias e de vida de Bill, ou de nossa película da vida. São as histórias que preenchem o vazio, é se olhar nas repetidas rotinas e pensar se aquilo é o que precisamos ou se somos escravos de nós mesmos ou de nosso (des)conforto que fingimos serem completos para nós, mas não chegam a suprir a vida que tivemos a sorte ou a azar de receber.
São tantos dias bonitos que vivemos São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos que não São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos que não me lembro que São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos que não me lembro que são tantos dias bonitos que vivemos.
Bill ou nós ou eu vivemos em tantos dias bonitos que não sabemos se o dia bonito foi ontem quando acordamos e olhamos para o celular Se o dia bonito foi nessa manhã quando acordamos e olhamos o celular e vimos que ontem acordamos e olhamos o celular, pois clicamos em curtir na mesma foto só que hoje tinha um filtro diferente.
São tantos dias entre nós que olhamos essas telas, do celular ao cinema e viajamos para tantos lugares, inventamos tantas histórias que não sabemos se vivemos para vê-las ou se vivemos para viver a nossa vida ou se vivemos para viver nossa vida que é ver essas outras histórias.
Bill despertou em uma manhã e reparou que sempre colocou a chave no mesmo lugar, em outro dia ele percebeu que todos tinham o mesmo rosto, em outro dia ele percebeu que todos tinham o mesmo rosto que desviavam entre si, em outro dia ele percebeu que todos tinham o mesmo rosto que desviavam entre si por que não queriam se lembrar dos mesmos rostos que viam todos os dias.
Se a vida é uma repetição de dias bonitos, bom, que dia bonito hoje :)
Neste terceiro capítulo, Don Hertzfeldt atinge o auge:conta uma história mais detida - a imersão no Alzheimer do protagonista - e apieda-se dela de maneira brilhante e não emocionalmente inverossímil. O desfecho do projeto de vida do mesmo é natural (em mais de um sentido) e encantador. Um filme-consolo, uma obra de amor à vida que se esvai, mas que, enquanto isso, tanto nos oferece, tanto nos deslumbra. Soberbo! Pura demonstração de afeto, ainda que permeado pelas dores, pelos traumas vicinais, pelos abandonos e palavras não ditas, pelos sentimentos interditados e desejos inalcançados, pelos gozos repetidos... Soberbo! (WPC>)
- E também pode ser difícil para Bill saber quais de suas memórias são reais e quais foram imaginadas. Quando o cérebro enfrenta uma grande perda de memória, frequentemente preenche o espaço em branco com histórias inventadas memórias falsas, pessoas que nunca existiram, conclusões inventadas para tornar os dias menos confusos e de alguma forma racionalizar o que está acontecendo com ele.[Tá aí minha desconfiança com a psicanálise de Freud]
- O médico fica calado por um momento e então diz para Bill que ele não tem muito tempo de vida: Está um dia realmente agradável. Ele decide dar uma volta no quarteirão. Ao lado da estrada, ele vê o pé do tênis de uma mulher cheio de folhas e isso o enche com uma inexplicável tristeza. Ele desce a rua ao lado e vê cores surpreendentes no rosto das pessoas ao redor dele, detalhes nesses belos muros de tijolos e plantas por onde ele passou todos os dias e nunca notou. O aroma do ar parece diferente, mais claro, e as correntes abaixo da ponte parecem estranhas e vívidas, e o sol aquece seu rosto e o mundo é desajeitado e lindo e novo. Parece que ele esteve sonâmbulo Deus sabe por quanto tempo, e alguma coisa violentamente o despertou. O tapete de seu banheiro é deslumbrante. As manchas em seu armário de madeira barata mexem em algo profundo dentro dele. Ele está fascinado pela maneira que suas toalhas de papel bebem água. Ele nunca deu valor a essas coisas. Todos esses detalhes que ele nunca notou. Detalhes que ele nunca notou Ele está vivo, ele está vivo. Ele está vivo, ele está vivo. Nunca notou. Ele está vivo.
- [...] memórias construídas sobre memórias. Até a vida se tornar um clico interminável. Ele será pai de centenas de milhares de crianças que terão seus próprios descendentes dos quais ele lentamente perderá a conta com o passar dos anos. e essas milhões de belas vidas eventualmente serão varridas da Terra. Ainda assim, Bill irá prosseguir. Ele aprenderá mais sobre a vida que qualquer outro ser na história, mas a morte será sempre uma estranha para ele. Pessoas irão ir e vir até os nomes perderem o sentido, até pessoas perderem o sentido e desaparecerem completamente do mundo. E ainda, Bill viverá. Ele fará amizade com os novos habitantes da Terra, seres de luz que o veneram como um deus. E Bill viverá para além deles...
É bem interessante, contemplativo, te faz pensar sobre a vida e o que faz ela especial.
“Ele morreu sozinho no campo numa manhã de verão enquanto sonhava com a lua, seis semanas depois um girassol nasceu em sua cabeça”
São tantas coisas expressadas nesses pequenos buracos queimados desta película de memórias e de vida de Bill, ou de nossa película da vida. São as histórias que preenchem o vazio, é se olhar nas repetidas rotinas e pensar se aquilo é o que precisamos ou se somos escravos de nós mesmos ou de nosso (des)conforto que fingimos serem completos para nós, mas não chegam a suprir a vida que tivemos a sorte ou a azar de receber.
São tantos dias bonitos que vivemos
São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os
São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos
São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos que não
São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos que não me lembro que
São tantos dias bonitos que vivemos para suprir os dias bonitos que não me lembro que são tantos dias bonitos que vivemos.
Bill ou nós ou eu vivemos em tantos dias bonitos que não sabemos se o dia bonito foi ontem quando acordamos e olhamos para o celular
Se o dia bonito foi nessa manhã quando acordamos e olhamos o celular e vimos que ontem acordamos e olhamos o celular, pois clicamos em curtir na mesma foto só que hoje tinha um filtro diferente.
São tantos dias entre nós que olhamos essas telas, do celular ao cinema e viajamos para tantos lugares, inventamos tantas histórias que não sabemos se vivemos para vê-las ou se vivemos para viver a nossa vida ou se vivemos para viver nossa vida que é ver essas outras histórias.
Bill despertou em uma manhã e reparou que sempre colocou a chave no mesmo lugar, em outro dia ele percebeu que todos tinham o mesmo rosto, em outro dia ele percebeu que todos tinham o mesmo rosto que desviavam entre si, em outro dia ele percebeu que todos tinham o mesmo rosto que desviavam entre si por que não queriam se lembrar dos mesmos rostos que viam todos os dias.
Se a vida é uma repetição de dias bonitos, bom, que dia bonito hoje :)
Assistido em 18/04/2020
Neste terceiro capítulo, Don Hertzfeldt atinge o auge:conta uma história mais detida - a imersão no Alzheimer do protagonista - e apieda-se dela de maneira brilhante e não emocionalmente inverossímil. O desfecho do projeto de vida do mesmo é natural (em mais de um sentido) e encantador. Um filme-consolo, uma obra de amor à vida que se esvai, mas que, enquanto isso, tanto nos oferece, tanto nos deslumbra. Soberbo! Pura demonstração de afeto, ainda que permeado pelas dores, pelos traumas vicinais, pelos abandonos e palavras não ditas, pelos sentimentos interditados e desejos inalcançados, pelos gozos repetidos... Soberbo! (WPC>)
Muito doido esse filme. Gostei, mas não sei opinar. Ainda estou processando todo essas informações...
Alguns trechos me chamaram atenção
- E também pode ser difícil para Bill saber quais de suas memórias são reais e quais foram imaginadas.
Quando o cérebro enfrenta uma grande perda de memória, frequentemente preenche o espaço em branco com histórias inventadas memórias falsas, pessoas que nunca existiram, conclusões inventadas para tornar os dias menos confusos e de alguma forma racionalizar o que está acontecendo com ele.[Tá aí minha desconfiança com a psicanálise de Freud]
- O médico fica calado por um momento e então diz para Bill que ele não tem muito tempo de vida:
Está um dia realmente agradável. Ele decide dar uma volta no quarteirão. Ao lado da estrada, ele vê o pé do tênis de uma mulher cheio de folhas e isso o enche com uma inexplicável tristeza. Ele desce a rua ao lado e vê cores surpreendentes no rosto das pessoas ao redor dele, detalhes nesses belos muros de tijolos e plantas por onde ele passou todos os dias e nunca notou. O aroma do ar parece diferente, mais claro, e as correntes abaixo da ponte parecem estranhas e vívidas, e o sol aquece seu rosto e o mundo é desajeitado e lindo e novo.
Parece que ele esteve sonâmbulo Deus sabe por quanto tempo, e alguma coisa violentamente o despertou. O tapete de seu banheiro é deslumbrante. As manchas em seu armário de madeira barata mexem em algo profundo dentro dele. Ele está fascinado pela maneira que suas toalhas de papel bebem água. Ele nunca deu valor a essas coisas.
Todos esses detalhes que ele nunca notou.
Detalhes que ele nunca notou
Ele está vivo, ele está vivo.
Ele está vivo, ele está vivo.
Nunca notou.
Ele está vivo.
- [...] memórias construídas sobre memórias. Até a vida se tornar um clico interminável.
Ele será pai de centenas de milhares de crianças que terão seus próprios descendentes
dos quais ele lentamente perderá a conta com o passar dos anos. e essas milhões de belas vidas eventualmente serão varridas da Terra.
Ainda assim, Bill irá prosseguir.
Ele aprenderá mais sobre a vida que qualquer outro ser na história, mas a morte será sempre uma estranha para ele. Pessoas irão ir e vir até os nomes perderem o sentido, até pessoas perderem o sentido e desaparecerem completamente do mundo.
E ainda, Bill viverá.
Ele fará amizade com os novos habitantes da Terra, seres de luz que o veneram como um deus.
E Bill viverá para além deles...
Alguém sabe onde posso achar legendado?