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Data de lançamento
31 Julho 2025Duração
Um casal em crise decide se mudar para uma cidade isolada no interior dos EUA. No entanto, o que parecia ser uma chance de recomeço logo se transforma em pesadelo, pois uma presença sobrenatural começa a abalar profundamente sua relação, afetando não apenas o vínculo emocional entre eles, mas também suas mentes e corpos.
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Tosco
Achei meio bizarro e até engraçado em algumas partes.
Bem boa a metáfora
Há algo na iconografia de Juntos que me parece dizer, desde o início, que esse não será exatamente um filme sobre “estar junto”, mas sobre o que acontece quando estar junto começa a ameaçar a existência de dois.
O casal está há dez anos junto e se muda para uma cidade do interior para finalmente morar na mesma casa. Curiosamente, ainda não se nomeiam como marido e mulher, mas como “parceiros”. Há algo nessa palavra como dois sujeitos ligados por uma "União", mas que ainda preservam certa diferença. E então aparece aquela imagem extraordinária da caverna, uma abertura enorme, estriada, úmida, viscosa, com água em seu interior. Parece simultaneamente uma caverna, uma ferida, um tecido inflamado e cicatrizado, e sobretudo, um orifício corporal. Quase um ânus. E nesse filme não consegui deixar de pensar na aproximação simbólica entre ânus e aliança. Não porque uma aliança seja simplesmente “anal”, mas porque ambos podem figurar uma questão fundamental o limite entre dentro e fora, entre reter e expulsar, entre unir e separar. O ânus é uma fronteira corporal. A aliança é uma fronteira relacional. Um delimita o interior do corpo; a outra deveria delimitar um “nós” sem apagar o “eu” e o “você”. Até a forma é sugestiva, o círculo do orifício e o círculo da aliança. O círculo pode unir, conter, proteger, mas também pode se fechar. E é justamente aí que Juntos se torna perturbador, o casal parece atravessar o limite da aliança e entrar numa experiência de fusão. Já não se trata de dois sujeitos que escolheram permanecer juntos, se integrar. O corpo começa a tornar literal aquilo que o amor frequentemente diz metaforicamente: “Somos um só.” Mas talvez haja algo de monstruoso nessa frase quando ela deixa de ser metáfora. E o filme parece perguntar em que momento a intimidade deixa de ser vínculo e passa a ser indiferenciação?
Essa questão fica ainda mais perturbadora quando pensamos na história de Tim. Na infância, sua mãe permaneceu durante dias ao lado do cadáver do pai. O corpo morto continuava dentro da casa, e o odor da decomposição se espalhava. Em outra lembrança, o pai exige que Tim limpe repetidamente um quarto porque há um cheiro horrível que ninguém consegue localizar. Só depois se descobre o cadáver de um rato sobre a luz, sendo cada vez mais queimado pelo calor. É uma imagem aí há algo morto, escondido, que não foi verdadeiramente separado e enterrado, e justamente por isso continua produzindo efeitos. O morto permanece presente através do cheiro. O odor é particularmente interessante porque não respeita fronteiras. Não precisamos ver aquilo que cheira mal. Ele atravessa a casa.
E aqui a dimensão anal da leitura ganha força, retenção, sujeira, controle, expulsão, odor, dejeto, domínio e separação. O rato, habitante dos buracos e dos lugares ocultos, também aparece como uma espécie de retorno daquilo que deveria permanecer escondido. Por isso a associação com o Homem dos Ratos, de Freud, me parece produtiva. Não no sentido de afirmar que o filme “representa a fase anal”, mas porque ele constrói uma verdadeira gramática anal, mas o ponto não é simplesmente “o ânus” é a experiência de controle sobre uma função corporal que passa a ser objeto de expectativa dos adultos na infância por exemplo, quando a criança descobre algo como: “Eu posso reter ou liberar algo que o outro deseja que eu retenha ou libere.”, sendo assim aquilo que se retém, aquilo que precisa sair, aquilo que contamina, aquilo que se tenta limpar, aquilo que permanece escondido e aquilo que retorna. E então a caverna reúne tudo isso. Ela parece um grande interior corporal. O casal entra nela, bebe sua água e, depois, seus próprios corpos começam a perder os limites. É como se a narrativa realizasse uma pergunta "se eu entro completamente em você e você entra completamente em mim, onde termina um e começa o outro?" Talvez seja por isso que a criatura que surge posteriormente pareça tão estranha, ela não é simplesmente Tim, nem Millie. É um terceiro corpo produzido pela impossibilidade de separação. Uma espécie de criatura sem forma, monstruosa, um relacionamento quase "seita", e esse conjunto não no sentido sexual estrito, mas porque as diferenças que constituíam cada sujeito começam a desaparecer. Tim é músico. Millie é professora. Cada um tem sua trajetória, seu desejo, sua relação com o mundo. A própria chegada à cidade é marcada pela paixão de Millie, um professor diz que é maravilhoso encontrar alguém que ainda traz paixão, porque todos ali parecem já estar mortos.
E talvez essa fala seja uma pequena chave do filme. Paixão é vida. Mas paixão também pode consumir. A tentativa de devolver vitalidade à relação pode se transformar justamente naquilo que ameaça destruí-la, a impossibilidade de permanecer separado. Por isso, talvez a questão central de Juntos não seja simplesmente “dependência afetiva”.
É algo mais primitivo sobre que acontece quando duas pessoas tentam resolver a angústia da separação através da fusão?
A resposta do body horror é literal, onde nasce um corpo que já não sabe onde começa e onde termina. E então sobre o filme eu volto à imagem inicial da caverna que parece um ânus, uma ferida e um útero ao mesmo tempo. Um lugar de interioridade, passagem, secreção, retenção e transformação. Talvez ela seja o próprio círculo da aliança 🤷♀️. Talvez Juntos seja o horror de descobrir o que acontece quando esse “entre” desaparece. Quando o círculo que deveria unir dois sujeitos se fecha completamente, ele deixa de ser aliança.
Vira uma cavidade, uma ferida. Mas no fim, aparentemente o casal conseguiu se integrar numa figura que contém a própria alteridade.
esse e Bones and All na lista de filmes que eu não deveria ter achado fofo mas achei