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Leandro e Tocho, dois ladrões espontâneos, invadem uma tabacaria com o intuito de conseguirem algum dinheiro rápido para algumas de suas necessidades básicas, mas surpreendem-se com a reação firme da dona do estabelecimento, que, após vários desentendimentos e confusões públicas, passa a nutrir simpatia pelos bandidos, tal qual acontece com sua sobrinha, inicialmente feia, mas que desperta para o amor e para a sensualidade de forma contrária à repressão e às propagandas hipócritas das instituições governamentais ...
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"La estanquera de Vallecas", dirigido por Eloy de la Iglesia, é uma ótima comédia que não se resume ao humor tolo. Baseado na peça teatral de José Luis Alonso de Santos, o longa transforma um assalto frustrado a uma tabacaria em Vallecas, em um retrato crítico da sociedade espanhola dos anos 80. A ousadia do diretor está em misturar comicidade com denúncia social, expondo as fragilidades das instituições e a desesperança de uma população marcada pelo desemprego, pela violência urbana e pelo avanço das drogas.
A narrativa mostra como políticos se aproveitam de escândalos midiáticos para ganhar notoriedade em época de eleição, enquanto a polícia, ineficiente para resolver até um caso simples como o assalto a uma tabacaria, não hesita em recorrer à violência contra os moradores do bairro. Vallecas aparece como um distrito revoltado e descrente, onde a solidariedade popular surge como resposta à ausência de confiança nas autoridades. Nesse cenário, os bandidos não são retratados como vilões perversos, mas como ladrões inexperientes, vítimas da fome e da falta de oportunidades, roubando para sobreviver.
Os assaltantes fazem duas reféns: a dona da tabacaria e sua jovem sobrinha. Desse convívio forçado aflora a humanidade escondida por trás de cada personagem. Entre diálogos tensos e situações inesperadas, surgem vulnerabilidades, afetos e até momentos de ternura, mostrando que, em meio ao caos, há espaço para solidariedade e compreensão. Eloy de la Iglesia, com sua coragem artística, transforma uma comédia em um filme que denuncia desigualdades, critica a política e a repressão policial, e ao mesmo tempo celebra a capacidade humana de encontrar laços mesmo nas circunstâncias mais improváveis.
Vi o filme pensando que se tratava de uma obra menor de seu diretor, por mera obrigação contratual, dado que esta foi a última obra que ele realizou antes de se retirar para livrar-se do vício em heroína. Porém, a riqueza do humor socialista e ricamente denuncista, inspirado em Buñuel, cativou-me a passos largos, deixando-me tão vitimado pela dita Síndrome de Estocolmo quanto as personagens femininas deste filme... Incrível como o diretor consegue transmitir a EXTREMA SIMPATIA que sente pelos delinqüentes, como ele consegue justificar atos extremados, explicados num diálogo fabuloso entre Justa e Tocho: "para vocês é bem mais fácil roubar um pobre, não é?". Resposta: "- Claro que sim, são tantos..."
Insisto: é uma comédia, gargalhei o filme todo, mais isto não implica em dizer que estes risos pensados e programados pelo roteiro bloqueiam nosso fervor crítico contra o oportunismo midiático e governamental, contra os policiais corruptos que se dizem defensores de moral e usam as mesmas drogas e corruptelas que suas vítimas populares, contra a hipocrisia que condena uma das mais longas e belas situações chistosas de preliminares sexuais que eu vi recentemente... Um filme popularesco e belíssimo, do começo ao fim. Surpreendi-me por completo!
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