O longa-metragem de estreia de Camilo Restrepo estabelece a visão pessimista da Colômbia a partir da maneira com que marginaliza o protagonista, que sobrevive sabe Deus como em subempregos e perdido em devaneios e delírios. Não conhecemos Pinky, não sabemos o que passa no interior de sua cabeça ou de seu coração. Pinky é como um destes milhares de rostos que, nos sinais de trânsito, esmolam sua sobrevivência, ou apenas transitam a ermo nas avenidas das metrópoles, e com os quais firmamos breve, mas marcante contato visual, até que desapareça o homem e reste a ideia de como o Estado falhou a sociedade a partir do desamparo do indivíduo.
Pinky é a realidade no estado bruto, sem remorso de quem é/foi, sem sonhos de quem será/ia, anestesiado após a dor e exclusão. É um emaranhado de fios de cobre, brutalmente arrancado do corpo onde funcionava, e obrigado à ressignificação no caldeirão onde irá ter seu destino moldado ao destino de outros que estavam na mesma situação. Camilo Restrepo o vê mais como ideia, como dispositivo, menos ser humano. Talvez seja esta a razão por que a forma empregada pelo cineasta tenha atraído mais minha atenção do que a pessoa em frente as telas.
Filmado em 16 mm, no que confere bastante granulação na fotografia noturna e também espreme a razão de aspecto (o tamanho da tela) e, por consequência, aprisiona Pinky no próprio destino, Los Conductos, o filme de estreia do diretor, é crítico em como enfia seu dedo na ferida não somente da Colômbia, mas dos países cujos valores sociais deveriam ser avaliados não através de estatísticas e números que nada dizem, e sim da forma com que o mais miserável de seus membros (sobre)vive. Contudo, embora não perca a força, a crítica narrativa perde substância quando age igual ao objeto, e despreza Pinky em troca do discurso.
Tenho a impressão de que conheço este diretor de alguma lugar, mas não encontrei nenhum de seus curtas-metragens entre os vistos. Já devo ter lido algum elogio aos seus experimentos realistas, que encontram uma valiosa síntese aqui. A narrativa não é fácil: vai e volta no tempo inúmeras vezes, confundindo-nos quanto àquilo que é narrado pelo protagonista como se tivesse acontecido com outrem, quando, em verdade, tratava-se de sua própria vida. Neste sentido, o filme assume-se como uma inteligente e sensível demonstração de ressignificação do cotidiano tormentoso de um homem submetido a múltiplas marginalizações. Toxicômano, mendigo, fanático religioso, inevitavelmente um bandido: todas estas são facetas que aplicam-se sobre Pinky nalgum momento. Impressionei-me com a sua beleza física, por mais que as condições dificultosas de existência urbana esforcem-se por enfeá-lo. O desfecho é magistral: não obstante ser curto, é sobremaneira perturbador - e ótimo! A fotografia em 16mm é magnífica, bem como a erupção da Música e os questionamentos sobre a corrupção dos "cidadãos de bem" colombianos! (WPC>)
O longa-metragem de estreia de Camilo Restrepo estabelece a visão pessimista da Colômbia a partir da maneira com que marginaliza o protagonista, que sobrevive sabe Deus como em subempregos e perdido em devaneios e delírios. Não conhecemos Pinky, não sabemos o que passa no interior de sua cabeça ou de seu coração. Pinky é como um destes milhares de rostos que, nos sinais de trânsito, esmolam sua sobrevivência, ou apenas transitam a ermo nas avenidas das metrópoles, e com os quais firmamos breve, mas marcante contato visual, até que desapareça o homem e reste a ideia de como o Estado falhou a sociedade a partir do desamparo do indivíduo.
Pinky é a realidade no estado bruto, sem remorso de quem é/foi, sem sonhos de quem será/ia, anestesiado após a dor e exclusão. É um emaranhado de fios de cobre, brutalmente arrancado do corpo onde funcionava, e obrigado à ressignificação no caldeirão onde irá ter seu destino moldado ao destino de outros que estavam na mesma situação. Camilo Restrepo o vê mais como ideia, como dispositivo, menos ser humano. Talvez seja esta a razão por que a forma empregada pelo cineasta tenha atraído mais minha atenção do que a pessoa em frente as telas.
Filmado em 16 mm, no que confere bastante granulação na fotografia noturna e também espreme a razão de aspecto (o tamanho da tela) e, por consequência, aprisiona Pinky no próprio destino, Los Conductos, o filme de estreia do diretor, é crítico em como enfia seu dedo na ferida não somente da Colômbia, mas dos países cujos valores sociais deveriam ser avaliados não através de estatísticas e números que nada dizem, e sim da forma com que o mais miserável de seus membros (sobre)vive. Contudo, embora não perca a força, a crítica narrativa perde substância quando age igual ao objeto, e despreza Pinky em troca do discurso.
Tenho a impressão de que conheço este diretor de alguma lugar, mas não encontrei nenhum de seus curtas-metragens entre os vistos. Já devo ter lido algum elogio aos seus experimentos realistas, que encontram uma valiosa síntese aqui. A narrativa não é fácil: vai e volta no tempo inúmeras vezes, confundindo-nos quanto àquilo que é narrado pelo protagonista como se tivesse acontecido com outrem, quando, em verdade, tratava-se de sua própria vida. Neste sentido, o filme assume-se como uma inteligente e sensível demonstração de ressignificação do cotidiano tormentoso de um homem submetido a múltiplas marginalizações. Toxicômano, mendigo, fanático religioso, inevitavelmente um bandido: todas estas são facetas que aplicam-se sobre Pinky nalgum momento. Impressionei-me com a sua beleza física, por mais que as condições dificultosas de existência urbana esforcem-se por enfeá-lo. O desfecho é magistral: não obstante ser curto, é sobremaneira perturbador - e ótimo! A fotografia em 16mm é magnífica, bem como a erupção da Música e os questionamentos sobre a corrupção dos "cidadãos de bem" colombianos! (WPC>)