Um grupo de crianças refugiadas de guerra, acompanhadas por um freira, segue num vôo rumo a Luanda, capital de Angola. Ao chegarem ao aeroporto, N’dala, um menino de 12 anos, consegue fugir do grupo e parte para descobrir a cidade. Enquanto a freira empreende uma investigação na tentativa de encontrá-lo, acompanhamos N’dala em sua jornada pelas ruas movimentadas da capital.
É lá que ele conhece o velho pescador Antonio, que o ajuda e com quem faz amizade. Também cruza com pessoas mal-intencionadas que tentam prejudicá-lo. O grande sonho do menino é voltar para a aldeia de onde teve de fugir e na qual seus pais foram mortos. O enredo proporciona um mergulho na conturbada situação política de Angola e nos efeitos da guerra para seus habitantes.
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O filme Cidade Vazia (2004), dirigido por Maria João Ganga, pode ser lido como uma metáfora audiovisual das tensões em Angola: tradição, modernidade e cultura política. Além de ocupar um lugar central na história recente do cinema angolano por ser uma das primeiras produções de ficção do país a ganhar visibilidade internacional após o fim da guerra civil (1975~2002).
O protagonista N’Dala, órfão da guerra civil, encarna o resultado mais dramático de um país dilacerado por quatro décadas de conflito. No filme, fica evidenciado que a independência não trouxe estabilidade, mas a intensificação da guerra civil, marcada por disputas internas pelo poder. Essa longa violência deixou cicatrizes sociais profundas na população angolana. O filme articula as consequências de todo esse contexto em Angola, como a memória da guerra, exclusão social e a formação da identidade do povo. O título remete tanto a sensação de vazio existencial do protagonista quanto ao vazio coletivo deixado pela destruição da guerra civil. A cidade, populosa e vibrante, aparece paradoxalmente vazia em afetos, perspectivas e garantias para as crianças.
O filme também constrói a narrativa de forma que dramatiza, no plano individual e simbólico, as tensões entre tradição e modernidade que marcaram a história de Angola no período pós-independência. (Interessante correlacionar isso analisando o discurso do MPLA, durante a luta anticolonial, pois no período pré-independência eram exaltados os elementos da tradição como formas de resistência e identidade, porém, no pós-independência, esse discurso foi alterado para o projeto do "homem novo", no qual a tradição era desqualificada como um sinal de atraso, tribalismo e obscurantismo). O protagonista, N’Dala, portanto, representa esse choque. Ele é um menino do interior, marcado pela guerra, que chega a Luanda em busca de um novo destino. Sua origem remete a um espaço mais próximo das tradições, ligado ao campo e as práticas comunitárias. Já na cidade, onde ele desembarca, simboliza a modernidade: urbana, caótica, marcada por desigualdades, violência, mas também por promessas de futuro. Essa oposição não é apenas espacial, mas existencial. N’Dala, desenraizado, não se reconhece plenamente nem em sua herança tradicional, pois a guerra lhe roubou família e vínculos. E também não se reconhece na modernidade que Luanda oferece, uma modernidade degradada, que não cumpre a promessa de progresso. Ele vive, portanto, a condição de transição, o vazio que intitula muito bem o filme.
Cidade Vazia é mais do que um drama social, é um testemunho sobre as marcas da guerra civil em Angola, narrado pela ótica da infância. Maria João Ganga oferece um cinema de resistência, que não apenas denuncia, mas também provoca reflexão sobre a reconstrução social e afetiva de um país. Apesar das limitações técnicas, trata-se de uma obra pioneira e de grande valor histórico, estético e político para o cinema angolano e africano em geral
Primeiro filme angolano que vejo. Visto finalmente em 05.09.22
- Mas seus pais morreram, não dá mais para vê-los.
- Aqui não, aqui não é o céu de Bié!
Confesso que tive que dar um pause no filme nessa hora para refletir e me recompor.
Não é um filme primoroso na parte técnica, as atuações são fracas e o orçamento deve ter sido baixíssimo, mas consegue alcançar o que se propôs a fazer.
Não posso esquecer de mencionar o paralelo lindo entre uma cena desse filme, quando N’dala vai para a praia a noite, e o maravilhoso "Moonlight".
Merecia 3.5 estrelas, mas essas duas cenas são tão incríveis que tive que subir a nota.
A pergunta que fica é:
Será que ele reencontrou com seus pais no céu de Bié?
É um filme um tanto precário na parte técnica. É evidente que não teve um orçamento razoável e nem um grande equipe por trás; só não digo que é totalmente amador porque as atuações são bem naturais, então nesse quesito a direção pareceu saber o que estava fazendo. Mas como é comum nesse tipo de produção, é um filme que te mostra as coisas de uma perspectiva que os de grande orçamento não costumam mostrar e acho que o final trágico deve funcionar com bastante gente, mas não me impressionou muito. Quero dar mais uma chance em outra oportunidade no futuro, como nenhum momento me impactou, acho que não assisti com a atenção devida e talvez não tenha absorvido bem a construção da história até seu desfecho, mas até lá, a nota é 2.
Primeiro comecei nos filmes americanos e nacionais. Depois quis variar e vi uns filmes espanhóis, mexicanos e argentinos. E agora resolvi que vou variar de vez, e minha primeira aposta foi esse filme angolano. Tenho um amigo angolano e foi muito interessante ver esse filme, conhecer um pouco sobre o cinema desse país, a cultura, a música, as guerras, as religiões, os costumes e etc. =)