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Sinopse
Baseado na novela homônima de Dennis Murphy, conta a história de um Sargento e sua constante luta interna para superar a irresistível atração que sente por um jovem soldado, num sufocante cenário pós-Segunda Guerra Mundial.
Na época certamente se enxergaria como uma amor reprimido mas em 2025 certamente estamos falando de um caso de abuso sexual e de abuso de poder . Nossa sociedade já não aceita mais esta relação de um velho porco açoitando sexualmente seus subordinados sejam homens ou mulheres então no fundo minha reação é repulsa pelo personagem de Steiger , maravilhosamente bem interpretado, mas nunca de compreensão sobre suas ações ou que me gere empatia. Mesmo assim no geral achei um filme morno.
Gostei, fez lembrar do magnífico filme Deuses e Monstros, já é difícil não ter um amor correspondido, mas a dor é mil vezes maior quando o outro é hetero, nos sentimos um lixos, inferiores como se fossemos um E.t
A rigidez da vida militar e a repressão da homossexualidade se encontram de maneira impactante nesta obra sensível e pungente de John Flynn (mais conhecido pelos seus inferiores filmes "exploitation"). Em "The Sergeant", acompanhamos a estória do sargento Albert Callan (interpretado por Rod Steiger), um veterano de guerra que começa a comandar um campo de soldados em uma região isolada da França. O longa se inicia com um prólogo em preto e branco no qual presenciamos o sargento matar obstinadamente e animalescamente alguns soldados inimigos; é uma cena forte que demonstra não só o ímpeto destrutivo do personagem, mas uma certa vazão erótica que tais atos sórdidos o propiciam - quando ele mata há um alívio em seu semblante e quando ele asfixia um homem e cai junto ao seu corpo no chão, seus gestos denunciam um homoerotismo, um carinho distorcido pelo soldado que matou.
O filme ganha cor e vemos o sargento iniciando seu trabalho no campo de soldados. Ele é implacável e autoritário, mas por trás de toda rigidez naturalmente há a perversão e quando digo perversão é óbvio que não falo da homossexualidade em si, mas na maneira torta pela qual se manifesta no contexto da vida do sargento - uma vida militar espartana de severa repressão. Durante uma inspeção o sargento de repente se vê fascinado por um dos soldados - um jovem atraente, alto, loiro e de físico atlético, o oposto do sargento atarracado e abatido. Diante súbita paixão, o sargento vai paulatinamente tentando aproximar-se do rapaz, convencendo-o a trabalhar para ele em seu escritório (um trabalho claramente inadequado a suas habilidades) e usando de sua autoridade e poder para garantir que o jovem não possa rejeitá-lo. O longa vai se tornando tenso, pois sabemos desde o começo que o jovem possui uma namorada e que a violência internalizada do sargento e seu próprio ódio de si não tolerarão rejeição de bom grado.
A relação entre o sargento e o jovem soldado se torna curiosa, pois o jovem não o rejeita inteiramente; apesar de um estranhamento inicial, ele também começa a gostar da companhia do sargento e até a admirá-lo, de maneira que por um breve momento supomos que ele também possa ter algum interesse para além da amizade e da profissão. No entanto, logo percebemos também que o soldado não é mais que um menino ingênuo e educado, completamente alheio as intenções românticas do sargento e que eventualmente, quando as coisas ficarem claras, algo violento certamente se manifestará, afinal o sargento é uma panela de pressão que explodirá ou no êxtase do desejo ou da violência.
Rod Steiger está excelente no papel e é surpreendente que não tenha sido indicado a prêmios americanos na época (talvez o tema controverso seja o motivo). O ator imbui o personagem de uma intensidade que o tempo inteiro ameaça romper seu verniz de diligência e austeridade. Seu sargento Callan acaba nos comovendo, pois apesar de saber que o desejo homossexual que sente pelo jovem soldado é inaceitável tanto para ele quanto para o mundo em que vive, este desejo se torna sua razão de viver, seu objetivo maior e, para atingi-lo, tudo vale menos dizer o que de fato sente ou expressar-se fisicamente e o que resta são estratagemas e sabotagens para manter o jovem soldado por perto, seja sabotando seus encontros com a namorada ou forçando-o a trabalhar horas extras apenas para aproveitar um pouco mais de sua presença. Todas suas patéticas atitudes passam a girar em torno do rapaz, seja para puni-lo por frustrar sua intenções ou simplesmente para mantê-lo à vista. Claro, é uma forma doentia de afeto, uma obsessão sinistra, mas é a única forma possível de "amor" para o miserável sargento.
É interessante também a maneira como "The Sergeant" explora a relação do soldado com ele mesmo, já que no decorrer do filme o vemos encarnar diversos papéis tipicamente masculinos - do beberrão inconveniente, do piadista fanfarrão, do machão tirânico, do mulherengo desapegado, do sargento implacável - e ainda assim, testemunhamos nenhum deles o servir, mas apenas camuflar sem qualquer convicção um interior marcado por carência, incompreensão e desejos recalcados. Quando o final trágico finalmente chega fica o mal estar e a constatação de que naquele mundo austero - surdo e cego à subjetividade -, mas encorajador da guerra e da violência, o resultado não poderia ter sido outro.
Quase um Brokeback Mountain dos anos 60. The Sergeant tem uma interessantíssima fórmula e belíssimas passagens - só acho que os últimos minutos de filme poderiam ter ficado mais no campo das ideias do que nas imagens explícitas e melodramáticas, o filme teria sido finalizado de forma mais poderosa! Mas é uma grande obra com grande atuações.
Rod Steiger, veterano do cinema estadunidense, que atuou ao lado do Marlon Brando em Sindicato de Ladrões, interpreta um tenente homossexual que cai num espiral de desejo e obsessão por um soldado do seu quartel, interpretado por John Phillip Law (o anjo de Barbarella).
The Sergeant (Na Solidão do Desejo) é um filme com tudo a seu favor: elenco de peso, trama que podia ter sido escrita pelo Tennessee Williams; fotografia e sets realçando a tensão sufocante de desejo com a atmosfera desoladora do pós-guerra; período que marcou o fim do Hays Code (1968), o que simbolizaria, a partir dali, dentre outras coisas, liberdade autoral na representação de personagens homossexuais no cinema sem a necessidade de eufemismos e subtextos.
No entanto, um potencial desperdiçado. A atuação irretocável do Steiger em sua batalha interna é quase inteiramente prejudicada pela personalidade antipática, austera e beberrona de seu personagem, do qual não se sente empatia, mas pena. Sua rigidez vai se transformando gradativamente em ações infantis, exageradas e constrangedoras (algumas cenas são sofríveis), mesmo mantendo uma certa coerência, pois tudo era fruto da repressão dos seus desejos mais íntimos durante toda uma vida dedicada ao exército.
Além disso, dois aspectos bastante incômodos, naturalizados na era Hays e que infelizmente permaneceram no filme: associação, indireta ou não, entre desejo homossexual e alguma espécie de trauma (neste caso, os horrores da guerra); e desfecho drástico, afinal nada mais indigno que um honrado tenente revelar-se gay em rompantes públicos e melodramáticos de desespero.
Apesar dos pesares, um clássico, pois marca uma transição importante no retrato do homossexual no cinema. Traz duas cenas muito marcantes: esse beijo e uma alusão fálica das mais indecentes que já vi na vida. Uma pena que falte um toque de Blanche DuBois na loucura e decadência que tomam conta do protagonista. Tornaria o filme muito mais proveitoso.
Na época certamente se enxergaria como uma amor reprimido mas em 2025 certamente estamos falando de um caso de abuso sexual e de abuso de poder . Nossa sociedade já não aceita mais esta relação de um velho porco açoitando sexualmente seus subordinados sejam homens ou mulheres então no fundo minha reação é repulsa pelo personagem de Steiger , maravilhosamente bem interpretado, mas nunca de compreensão sobre suas ações ou que me gere empatia. Mesmo assim no geral achei um filme morno.
Gostei, fez lembrar do magnífico filme Deuses e Monstros, já é difícil não ter um amor correspondido, mas a dor é mil vezes maior quando o outro é hetero, nos sentimos um lixos, inferiores como se fossemos um E.t
A rigidez da vida militar e a repressão da homossexualidade se encontram de maneira impactante nesta obra sensível e pungente de John Flynn (mais conhecido pelos seus inferiores filmes "exploitation"). Em "The Sergeant", acompanhamos a estória do sargento Albert Callan (interpretado por Rod Steiger), um veterano de guerra que começa a comandar um campo de soldados em uma região isolada da França. O longa se inicia com um prólogo em preto e branco no qual presenciamos o sargento matar obstinadamente e animalescamente alguns soldados inimigos; é uma cena forte que demonstra não só o ímpeto destrutivo do personagem, mas uma certa vazão erótica que tais atos sórdidos o propiciam - quando ele mata há um alívio em seu semblante e quando ele asfixia um homem e cai junto ao seu corpo no chão, seus gestos denunciam um homoerotismo, um carinho distorcido pelo soldado que matou.
O filme ganha cor e vemos o sargento iniciando seu trabalho no campo de soldados. Ele é implacável e autoritário, mas por trás de toda rigidez naturalmente há a perversão e quando digo perversão é óbvio que não falo da homossexualidade em si, mas na maneira torta pela qual se manifesta no contexto da vida do sargento - uma vida militar espartana de severa repressão. Durante uma inspeção o sargento de repente se vê fascinado por um dos soldados - um jovem atraente, alto, loiro e de físico atlético, o oposto do sargento atarracado e abatido. Diante súbita paixão, o sargento vai paulatinamente tentando aproximar-se do rapaz, convencendo-o a trabalhar para ele em seu escritório (um trabalho claramente inadequado a suas habilidades) e usando de sua autoridade e poder para garantir que o jovem não possa rejeitá-lo. O longa vai se tornando tenso, pois sabemos desde o começo que o jovem possui uma namorada e que a violência internalizada do sargento e seu próprio ódio de si não tolerarão rejeição de bom grado.
A relação entre o sargento e o jovem soldado se torna curiosa, pois o jovem não o rejeita inteiramente; apesar de um estranhamento inicial, ele também começa a gostar da companhia do sargento e até a admirá-lo, de maneira que por um breve momento supomos que ele também possa ter algum interesse para além da amizade e da profissão. No entanto, logo percebemos também que o soldado não é mais que um menino ingênuo e educado, completamente alheio as intenções românticas do sargento e que eventualmente, quando as coisas ficarem claras, algo violento certamente se manifestará, afinal o sargento é uma panela de pressão que explodirá ou no êxtase do desejo ou da violência.
Rod Steiger está excelente no papel e é surpreendente que não tenha sido indicado a prêmios americanos na época (talvez o tema controverso seja o motivo). O ator imbui o personagem de uma intensidade que o tempo inteiro ameaça romper seu verniz de diligência e austeridade. Seu sargento Callan acaba nos comovendo, pois apesar de saber que o desejo homossexual que sente pelo jovem soldado é inaceitável tanto para ele quanto para o mundo em que vive, este desejo se torna sua razão de viver, seu objetivo maior e, para atingi-lo, tudo vale menos dizer o que de fato sente ou expressar-se fisicamente e o que resta são estratagemas e sabotagens para manter o jovem soldado por perto, seja sabotando seus encontros com a namorada ou forçando-o a trabalhar horas extras apenas para aproveitar um pouco mais de sua presença. Todas suas patéticas atitudes passam a girar em torno do rapaz, seja para puni-lo por frustrar sua intenções ou simplesmente para mantê-lo à vista. Claro, é uma forma doentia de afeto, uma obsessão sinistra, mas é a única forma possível de "amor" para o miserável sargento.
É interessante também a maneira como "The Sergeant" explora a relação do soldado com ele mesmo, já que no decorrer do filme o vemos encarnar diversos papéis tipicamente masculinos - do beberrão inconveniente, do piadista fanfarrão, do machão tirânico, do mulherengo desapegado, do sargento implacável - e ainda assim, testemunhamos nenhum deles o servir, mas apenas camuflar sem qualquer convicção um interior marcado por carência, incompreensão e desejos recalcados. Quando o final trágico finalmente chega fica o mal estar e a constatação de que naquele mundo austero - surdo e cego à subjetividade -, mas encorajador da guerra e da violência, o resultado não poderia ter sido outro.
Quase um Brokeback Mountain dos anos 60. The Sergeant tem uma interessantíssima fórmula e belíssimas passagens - só acho que os últimos minutos de filme poderiam ter ficado mais no campo das ideias do que nas imagens explícitas e melodramáticas, o filme teria sido finalizado de forma mais poderosa! Mas é uma grande obra com grande atuações.
Rod Steiger, veterano do cinema estadunidense, que atuou ao lado do Marlon Brando em Sindicato de Ladrões, interpreta um tenente homossexual que cai num espiral de desejo e obsessão por um soldado do seu quartel, interpretado por John Phillip Law (o anjo de Barbarella).
The Sergeant (Na Solidão do Desejo) é um filme com tudo a seu favor: elenco de peso, trama que podia ter sido escrita pelo Tennessee Williams; fotografia e sets realçando a tensão sufocante de desejo com a atmosfera desoladora do pós-guerra; período que marcou o fim do Hays Code (1968), o que simbolizaria, a partir dali, dentre outras coisas, liberdade autoral na representação de personagens homossexuais no cinema sem a necessidade de eufemismos e subtextos.
No entanto, um potencial desperdiçado. A atuação irretocável do Steiger em sua batalha interna é quase inteiramente prejudicada pela personalidade antipática, austera e beberrona de seu personagem, do qual não se sente empatia, mas pena. Sua rigidez vai se transformando gradativamente em ações infantis, exageradas e constrangedoras (algumas cenas são sofríveis), mesmo mantendo uma certa coerência, pois tudo era fruto da repressão dos seus desejos mais íntimos durante toda uma vida dedicada ao exército.
Além disso, dois aspectos bastante incômodos, naturalizados na era Hays e que infelizmente permaneceram no filme: associação, indireta ou não, entre desejo homossexual e alguma espécie de trauma (neste caso, os horrores da guerra); e desfecho drástico, afinal nada mais indigno que um honrado tenente revelar-se gay em rompantes públicos e melodramáticos de desespero.
Apesar dos pesares, um clássico, pois marca uma transição importante no retrato do homossexual no cinema. Traz duas cenas muito marcantes: esse beijo e uma alusão fálica das mais indecentes que já vi na vida. Uma pena que falte um toque de Blanche DuBois na loucura e decadência que tomam conta do protagonista. Tornaria o filme muito mais proveitoso.