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Data de lançamento
29 Dez. 2010Duração
Um retrato íntimo de um relacionamento que está em franca desintegração. Com um romance outrora cheio de paixão, Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) são casados e têm uma filha de cinco anos. Na esperança de salvar seu casamento eles reservam um quarto no motel, relembrando anos atrás quando se conheceram, se apaixonaram e fizeram seus primeiros planos cheios de vida e esperança.
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Como pode muita gente não entender a Cindy? Ela é a representação de uma mulher sobrecarregada, que tenta ser o que é esperado dela e por guardar tanto pra si suas frustrações e decepções, acaba sendo trazido a tona de forma tóxica.
Como quando eles estão no motel e ela começa a bater nele. É incrível o trabalho que essa atriz fez, porque da para sentir o tempo todo nas cenas do presente o quanto ela não gosta mais do Dean, não sente desejo por ele. E ela mesmo se frusta por isso, da para ver que ela quer que de certo (ela rejeita o médico imediatamente falando do marido), por isso não consegue por pra fora, porque o próprio marido que diz a amar tanto não tenta entende-la e não esta aberto a conversa, só que tudo sai de uma alguma maneira, e a forma que saiu foi nesse tipo de comportamento - a violência contra o Dean, o jeito que ela o trata.
Mas ele é muito pior e mais perigoso. Enquanto a Cindy é transparente, ele é carismatico e paga de apaixonado. O maior perigo de alguém é aquelas pessoas emocionadas, que dizem tanto mas transmitem tão pouco nas suas ações o sentimento. Amar não é falar, não é dizer "me diga o que mudar, eu obedecerei" - as falas e o jeito que o Dean age são tão apaixonadas e a mercê de alguém que acabamos não vendo o quanto ele é ruim pra ela.
Ele é manipulador, da para ver desde o momento que ela ta gravida e ele força ela a contar pra ele (ao invés de dar espaço pra pessoa); ele vive socando as coisas quando se frusta. Ele vive bebâdo, como ela fala, e as cenas que vemos na casa da a entender que ele não faz a parte dele como adulto funcional (sempre vemos ela limpando, ela cuidando, e ele levando na brincadeira ou não fazendo nada). Ele aparece no trabalho dela bebâdo e envergonha ela e ainda as pessoas se perguntam o que ele fez pra ela não querer mais ele? E o jeito que cada conversa é pisar em ovos: quando Cindy acha o cachorro morto e quando diz pra ele, ele imediatamente faz ela se sentir pior, quando ela conta sobre o ex e imediatamente ele começa a atacar e fazer ela sentir como se tivesse feito algo errado. Na conversa no motel, achei errado ela falar sobre o potencial dele, mas é engraçado que ela fala justamente o que vimos ele fazendo, sobre "distorcer tudo que ela fala", assim acabando com qualquer conversa e virando uma lição de moral para ela, e logo após a fala dele é distorcer o que ela acabou de falar se fazendo de vítima "então não quer mais me ouvir falar?"
Até mesmo a promoção do trabalho, o filme terminar sem ela contar pra ele (sendo que da a entender que sabe disso faz tempo) mostra que ele traz estresse pra ela, e não calmaria. Pq vc iria receber uma promoção e não querer contar pra quem te ama? Pq a pessoa provavelmente ia começar um drama e não iria ficar feliz por você.
Tudo isso é uma forma de toxicidade tão discreta, familiar e comum que passa despercebido. Mas consigo ver exatamente como a Cindy chegou onde chegou e é culpa dele. E acho que todos deviam refletir sobre.
E tudo isso não quer dizer que ele é um vilão, pois ele tem muitas partes boas e teve atitudes muito bonitas no filme, assim como ela teve atitudes ruins. Mas sem entender e refletir sobre essa toxicidade discreta, ela está fadada a sempre continuar.
Dean está livre?
Talvez. Mas não no sentido romântico da palavra.
Ele está desvinculado de uma relação que não conseguia mais sustentar.
Isso pode, eventualmente, transformar-se em liberdade.
Mas primeiro existe luto.
E o luto precisa acontecer.
Cindy está livre?
Também talvez. Ela conseguiu sair da relação.
Mas liberdade não é simplesmente: “Não estou mais casada.”
Liberdade é: “Consigo construir minha própria vida sem precisar destruir o outro para existir.”
E o filme termina antes de sabermos se Cindy conseguiu isso.
“Eu quero ser capaz de ficar sozinho, construir minha própria vida e escolhe não esta com alguém." Essa é mensagem do filme:
Dean precisa que Cindy fique para que a vida dele faça sentido.
Uma pessoa reconstruída pode dizer:
“Eu gostaria que você ficasse. Mas, se você escolher partir, minha vida continuará.”
Isso é liberdade de verdade.
E talvez exista uma conclusão ainda mais dura:
O casamento deles talvez pudesse ter sido salvo. (inicio)
Mas o casamento que existia no final provavelmente não.
Para continuar juntos, eles precisariam primeiro desmontar aquele casamento e construir outro.
E talvez essa seja a verdadeira pergunta que o filme deixa:
quando uma relação chega ao ponto de ruptura, devemos tentar salvar o relacionamento que existia — ou devemos perguntar se ainda existe matéria-prima para construir um relacionamento completamente diferente?
O diálogo que poderia ter mudado a história seria outro
Cindy:
“Eu não estou mais satisfeita com a vida que temos.”
Dean:
“O que exatamente está faltando?”
Cindy:
“Eu quero crescer profissionalmente. Quero admirar o homem ao meu lado.”
Dean:
“Você quer que eu cresça ou quer que eu me transforme em outra pessoa?”
Essa pergunta seria fundamental.
E então:
Cindy:
“Talvez eu esteja esperando de você algo que você não quer ser.”
Dean:
“E talvez eu esteja esperando que você continue sendo a mulher que era quando nos conhecemos.”
Aí finalmente começa uma conversa verdadeira.