Região Central do Cairo, 2009. Khalid, um cineasta de 35 anos está lutando para fazer um filme que capta a alma da sua cidade, enquanto enfrenta a perda em sua própria vida. Com a ajuda de seus amigos que enviam filmagens de suas vidas em Beirute, Bagdá e Berlim, ele encontra forças para atravessar as dificuldades e manter a beleza de viver "Nos Últimos Dias da Cidade".
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Jamais esquecerei daqueles manequins "censurados" nas vitrines
Filmaco sobre a primavera árabe e sobre cinema.
Esse filme me fascinou.
A primeira vez que vi foi por ocasião da 11ª Mostra Mundo Árabe de Cinema (SP, 2016). Eu saí decepcionado, o filme me pareceu um tanto maçante, um amigo que me acompanhou na sessão dormiu uma boa parte e se queixou da minha escolha rsrs. Eu não discordei. Contudo, me peguei pensando no filme com frequência desde que o vi. Vez por outra as imagens fortes (da cidade, da vida política, da vida pessoal de Khaled, de seu filme) vinham-me a mente em meio às reflexões que me suscitaram.
Pois bem, hoje (29 de dezembro de 2018), tive a possibilidade de topar com o filme enquanto zapeava na TV. Fiquei muito animado, apesar de um pouco triste por ter perdido o começo.
O que mais me fascinou no filme acho que pode ser traduzido por meio de uma imagem que li Chico Buarque utilizar para definir uma de suas músicas (Pelas Tabelas, de 1984): uma barafunda entre o público e o privado. A mãe internada, as memórias, a amada que se vai, os apartamentos, o documentário, os amigos... tudo é permeado pela onipresente agitação da cidade nos últimos dias de um Cairo dominado por uma ditadura de 30 anos. A narrativa é por vezes confusa e fugidia. As imagens são bastante impactantes. Saio dessa segunda experiência com a fascinação reforçada e com novo impulso nas reflexões.
Filme conferido na 11ª Mostra Mundo Árabe de Cinema (Centro Cultural São Paulo).
Pode-se dizer que a produção funcionaria melhor se fosse classificada mais como uma "experiência visual" do que como um drama social. A primeira metade da trama é difícil, aborrecida e arrastada. Várias pessoas saíram do cinema e tantos outros bocejaram. O diretor aprecia "filmar de longe" e por vezes dá a sensação de não querer agradar ninguém. Em contrapartida, a segunda metade do filme revela uma vivacidade e um ritmo que conduz o espectador para um outro lugar, gerando um novo efeito. A cidade passa a ser (nitidamente) uma personagem que provoca, entorpece e causa revolta a todos que acompanham o cotidiano de Khalid. O Cairo, em sua decadência e melancolia, nos é apresentado num tom pastel que lembra muito a fotografia de Kieslowski. Em vários momentos fiz esta associação. Ao final da experiência, eu estava emocionalmente mais ligado a tudo aquilo e colado na cadeira, um tanto seduzido e um tanto "pisoteado" pelo tom trágico daquelas vidas em declínio. Mas não se engane, o filme é para poucos.