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Karamakate, outrora um poderoso xamã da Amazônia, é o último sobrevivente de seu povo, e agora vive em isolamento voluntário nas profundezas da selva. Os anos de solidão absoluta o tornam vazio, privado de emoções e memórias. Sua vida sofre uma reviravolta quando chega ao seu esconderijo remoto Evan, um etnobotânico alemão em busca da Yakruna, uma poderosa planta capaz de ensinar a sonhar.
O xamã decide acompanhar o estrangeiro em sua busca, e juntos embarcam em uma viagem ao coração da selva, onde passado, presente e futuro se confundem, fazendo-o aos poucos recuperar suas memórias. Essas lembranças trazem uma dor profunda que não libertará Karamakate até que ele transmita o conhecimento ancestral que antes parecia destinado a perder-se para sempre.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Colômbia venceu um dos jogos da copa, e como combinado, peguei meu primeiro filme do país pra assistir, um dos mais populares por lá. Numa fotografia em preto e branco, o filme trás para as telas os relatos de Theodor Grunberg e Richard Schultes, durante suas expedições na Amazônia entre os anos 1903 e 1905. Temos a busca por uma planta com poder de cura, a religião sendo inserida na região - com destaque para o momento mais abominável do filme, envolvendo um padre e crianças indígenas -, temos também o isolamento de um personagem e um desfecho - a única parte em cores do filme - que faz lembrar de "2001, Uma Odisséia no Espaço".
*Dica: Aguirre, A Cólera dos Deuses (1972)
Normalmente, a selva, o deserto ou qualquer outro ambiente mais soberano da natureza são mostrados como hostis em tela. Há mil razões para isso, mas aqui em O abraço da serpente vejo que é diferente. A selva é realmente muito poderosa, claro, mas ela abraça seus habitantes e transeuntes. Quando passam em meio a ela de barco, a fotografia em preto e branco até nos faz confundir um pouco os personagens com o restante do ambiente. Nosso protagonista fala o tempo todo sobre como a selva deve ser respeitada e como o mundo em que vive deve ser mantido com equilíbrio.
Ao final, por outro lado, quando Karamakate chega à última flor que busca, a montanha é imponente, quase como um Olimpo. Ela também é árida, não há plantas nela, praticamente. Tudo ali se foi, a natureza não abraça ninguém, ela se distancia agora. Aconteceu o que Karamakate mais temia e tentou evitar: tudo o que ele sempre amou e venerou foi levado e transformado em morte.
O medo da morte está em tudo aqui. Os adultos encontram órfãos sendo violentamente catequizados em determinado momento. A história daqueles meninos já foi a deles: a exploração (aqui, da borracha) matou seus pais. Um deles teve que ser salvo (e praticamente escravizado) por um branco e o outro teve que se isolar para fugir de toda essa destruição. As crianças encontradas não tiveram tanta sorte assim, sendo punidos severamente quando fazem a mínima menção à sua vida e cultura anteriores.
Como Karamakate teria outra reação que não fosse destruir a Yakruna? Mesmo com uma relação minimamente amistosa entre ele e os brancos que encontra, há algum momento em que estes exploradores querem levar consigo a flor para fazer com ela uma arma - assim como fazem com tudo.
Há uma revolta do nosso protagonista, aliás, com os próprios indígenas, quando ele percebe que estão a banalizar um de seus principais tesouros. Mas que escolhas tinham aquelas pessoas? Todas elas seriam - e foram - massacradas, seja com armas ou com falsos messias.
Enfim, nada mais é possível ser dito. Nenhuma canção poderá ser ouvida.
Dia desses vi São Paulo Sociedade Anônima, que acho que, tal qual aqui, debate sobre a construção baseada em opressão, mas num ambiente totalmente distinto.
Poético, profundo e lindo.
O filme impressiona pela fotografia em preto e branco e pela atmosfera hipnótica, que reforça a distância entre o mundo indígena e o olhar ocidental. A narrativa é contemplativa e lenta, mas profundamente simbólica. O diretor Ciro Guerra constrói uma crítica poderosa ao colonialismo e à destruição cultural causada pela exploração europeia. Apesar do ritmo arrastado para alguns espectadores, é um filme visualmente marcante, espiritualmente denso e intelectualmente provocador. Karamatake é o cara!
- que personagem sensacional é o Karamakate, muito bem construído, conseguimos ver e entender muito bem seus anseios e suas angústias
- realizado com muito respeito e orgulho da cultura dos povos originários, que aqui é representada de uma forma linda e soberana
- o homem branco é a verdadeira desgraça do planeta, só destrói, escraviza e consome