O filme conta com algumas deficiências técnicas premeditadas, câmera tremida ou áudio abafado em algumas sequências e um roteiro nonchalant, mas tudo está visivelmente calculado pela proposta fílmica de não amarrar uma narrativa linear com tudo entregue ao espectador e apresentar um recorte plástico na fotografia que revela uma coerência interna bastante contundente, quanto a mostrar mais uma conjuntura labiríntica do castelo/sobrado herdado pela atriz do que uma relação definida com a vizinhança e a atualidade, o filme sendo mais um mosaico de anacronismos. Essa exploração espacial e misteriosa do sobrado/edifício/castelo é decididamente fragmentária, pois mostra escadas espiraladas, uma garagem, um terraço e uma sala de arquivos, cuja ambiência de cômodos está a ser decifrada como os fragmentos da narrativa, por nós e pelos adolescentes que perturbam Ana.
O filme basicamente se passa nestes 3 espaços: a ribalta, o castelo/sobrado/edifício de Ana e a piscina abandonada (com poucas situações na rua, geralmente hostis, dos cachorros e adolescentes).
É claramente um filme experimental, com mais sugestão de uma atmosfera sufocante e persecutória provocadas por situações acumuladas na trama, do que uma satisfação do enredo do porque que aqueles adolescentes vasculham a casa da atriz ou dos sujeitos que aparecem lá, aleatoriamente, como se o espaço fosse um Aparelho (esconderijo) de um guerrilheiro urbano contemporâneo. Dá para depreender, visivelmente, que a proposta dos diretores foi restaurar o clima de clandestinidade de fugitivos políticos e militantes que foram os pais de Ana para o contexto atual de Santa Tereza, com a violência dos policiais, com a vigilância constante das redes sociais, da intromissão lúdico-exploratória dos vizinhos adolescentes.
É como se fosse um Som ao Redor, com todos os fantasmas da classe média (até com a piscina abandonada), mas com as ideias de Lucia Murat sobre a ditadura militar. (Não é gratuito o fato de o filme anunciar nos créditos que seu período de feitura é 2013-2020, algo que remete a uma transposição do contexto autoritário do regime militar ao contexto de golpe e bolsonarismo atual).
Estava com uma grande expectativa com o filme, principalmente, por ser em preto e branco (uma produção brasileira filmada assim e tals é empolgante). Mas, foi um banho de água fria rs. Eu não conheço o trabalho dos diretores, apesar do Aurélio Aragão ser figura conhecida. E acho que é o primeiro longa que eu assisto com a direção tripla.
Para mim, nada se encaixou na história. Eu pensei que estava seguindo o rumo de memórias doloridas deixadas pelo violento golpe dos militares contra a nossa democracia, mas isso ficou muito vago depois com um personagem em que eu não sei estava vivo ou morto, o Raul.
A pseudo-família da protagonista deixa de existir do nada rs (filha e ex-marido). Os diretores afirmam que pensaram em uma personagem forte e que resiste, mas eu achei ela bem passiva aos acontecimentos naquele casarão. Como sua casa é invadida e você serve café para o cara? kkkk - surreal isso -. Eu vi uma mulher que aparentava estar com depressão e seus momentos de felicidade ocorriam dentro do palco (aulas de teatro), mesmo que por alguns instantes.
Não consegui entrelaçar a história dela, com a casa, e as crianças da rua. Foi um pouco frustrante a experiência com o filme.
Enquanto projeto, o filme parece incrível: amei a potência da sinopse e a dinâmica incestuosa das brincadeiras dos irmãos adolescentes. Entretanto, a protagonista (não a atriz, a personagem) é insuportável e a direção tripla desemboca num elitismo classista sobremaneira inconveniente. O ritmo do filme não é chato em si, mas o modo como as situações são dispostas incomodam pelo tom desenxabido. É uma produção de nicho, no pior sentido do termo: destina-se aos cultural e aquisitivamente privilegiados, e conscientes disso. Não o achei repugnante, mas senti-me excluído. Ficam algumas boas lembranças fantasmáticas... (WPC>)
O filme conta com algumas deficiências técnicas premeditadas, câmera tremida ou áudio abafado em algumas sequências e um roteiro nonchalant, mas tudo está visivelmente calculado pela proposta fílmica de não amarrar uma narrativa linear com tudo entregue ao espectador e apresentar um recorte plástico na fotografia que revela uma coerência interna bastante contundente, quanto a mostrar mais uma conjuntura labiríntica do castelo/sobrado herdado pela atriz do que uma relação definida com a vizinhança e a atualidade, o filme sendo mais um mosaico de anacronismos. Essa exploração espacial e misteriosa do sobrado/edifício/castelo é decididamente fragmentária, pois mostra escadas espiraladas, uma garagem, um terraço e uma sala de arquivos, cuja ambiência de cômodos está a ser decifrada como os fragmentos da narrativa, por nós e pelos adolescentes que perturbam Ana.
O filme basicamente se passa nestes 3 espaços: a ribalta, o castelo/sobrado/edifício de Ana e a piscina abandonada (com poucas situações na rua, geralmente hostis, dos cachorros e adolescentes).
É claramente um filme experimental, com mais sugestão de uma atmosfera sufocante e persecutória provocadas por situações acumuladas na trama, do que uma satisfação do enredo do porque que aqueles adolescentes vasculham a casa da atriz ou dos sujeitos que aparecem lá, aleatoriamente, como se o espaço fosse um Aparelho (esconderijo) de um guerrilheiro urbano contemporâneo. Dá para depreender, visivelmente, que a proposta dos diretores foi restaurar o clima de clandestinidade de fugitivos políticos e militantes que foram os pais de Ana para o contexto atual de Santa Tereza, com a violência dos policiais, com a vigilância constante das redes sociais, da intromissão lúdico-exploratória dos vizinhos adolescentes.
É como se fosse um Som ao Redor, com todos os fantasmas da classe média (até com a piscina abandonada), mas com as ideias de Lucia Murat sobre a ditadura militar. (Não é gratuito o fato de o filme anunciar nos créditos que seu período de feitura é 2013-2020, algo que remete a uma transposição do contexto autoritário do regime militar ao contexto de golpe e bolsonarismo atual).
tomar um suco de bergman e harmony korine com biscoito globo na frente do doi-codi
O que eu tirei desse foi ficar pensando o tempo todo que aquela atriz lembra muito a Mariana Lima.
Estava com uma grande expectativa com o filme, principalmente, por ser em preto e branco (uma produção brasileira filmada assim e tals é empolgante). Mas, foi um banho de água fria rs. Eu não conheço o trabalho dos diretores, apesar do Aurélio Aragão ser figura conhecida. E acho que é o primeiro longa que eu assisto com a direção tripla.
Para mim, nada se encaixou na história. Eu pensei que estava seguindo o rumo de memórias doloridas deixadas pelo violento golpe dos militares contra a nossa democracia, mas isso ficou muito vago depois com um personagem em que eu não sei estava vivo ou morto, o Raul.
A pseudo-família da protagonista deixa de existir do nada rs (filha e ex-marido). Os diretores afirmam que pensaram em uma personagem forte e que resiste, mas eu achei ela bem passiva aos acontecimentos naquele casarão. Como sua casa é invadida e você serve café para o cara? kkkk - surreal isso -. Eu vi uma mulher que aparentava estar com depressão e seus momentos de felicidade ocorriam dentro do palco (aulas de teatro), mesmo que por alguns instantes.
Não consegui entrelaçar a história dela, com a casa, e as crianças da rua.
Foi um pouco frustrante a experiência com o filme.
Enquanto projeto, o filme parece incrível: amei a potência da sinopse e a dinâmica incestuosa das brincadeiras dos irmãos adolescentes. Entretanto, a protagonista (não a atriz, a personagem) é insuportável e a direção tripla desemboca num elitismo classista sobremaneira inconveniente. O ritmo do filme não é chato em si, mas o modo como as situações são dispostas incomodam pelo tom desenxabido. É uma produção de nicho, no pior sentido do termo: destina-se aos cultural e aquisitivamente privilegiados, e conscientes disso. Não o achei repugnante, mas senti-me excluído. Ficam algumas boas lembranças fantasmáticas... (WPC>)