Compartilhe "O Inferno Branco do Piz Palü" com seus amigos:
Link copiado para a área de transferência!
Sinopse
Um homem escala uma gigantesca e tortuosa montanha, onde sua esposa se perdeu durante a lua-de-mel. Com a ajuda de um outro casal, eles irão procurá-la em meio ao mortificante inverno alemão.
Pela sinopse, imaginei que fosse desgostar, mas, pelo co-diretor famoso (e pela jovem protagonista), quis ver. De fato, achei o filme enfadonho e, mais que isso, fiquei surpreso ao saber que, na época de sua produção, esta temática era recorrente, sobretudo por causa do Arnold Fanck, obcecado por isto. Numa triste coincidência, assisti ao filme, por ocasião de uma discussão cineclubista, quando ocorria a comoção nacional, por uma situação semelhante (o abandono derivado de um acidente turístico - neste caso real e recente, na Indonésia). Minha mãe torceu bastante pelos personagens, e ficou triste por conta de algo que ocorreu no desfecho, em caráter sobrevivencial. Gosto muito da primeira meia-hora, e dos jogos de perspectiva típicos do diretor (o enquadramento das mãos que tapam o olhar da personagem, numa brincadeira de recém-casados, por exemplo), mas, quando ocorre a escalada, a trama fica refém de uma única situação, estendida ao extremo. A fotografia é linda, e há algo de progressivamente suspeitoso no modo como a mulher encara o experiente (e traumatizado) alpinista, mas o filme não funcionou tanto comigo, por conta de um rechaço pessoal ao enredo, talvez. Minha mãe adorou, estou à espera do debate, agora! (WPC>)
Um bom exemplar dos chamados filmes de Montanha, um subgênero muito em voga nos anos 20 e 30. Dirigido por Georg Wilhelm Pabst (do clássico "Caixa de Pandora") e Arnold Fanck, que colaboraria, assim como Leni Riefenstahl, para o futuro regime nazista. Ainda neste tópico, vale notar uma breve cena com o ator e diretor Kurt Geron. Judeu, teve sua participação removida pelo governo nazista em uma versão com som lançada em 1935. Um dos extras do DVD é justamente um trecho desta versão com som, e particularmente não gostei. A versão de '29, só com a trilha sonora fazendo por vezes a diegese da narrativa é bem mais interessante. Geron faria como último trabalho, numa tentativa de salvar sua vida, um filme publicitário chamado "Der Führer schenkt den Juden eine Stadt" ("O Führer oferece uma cidade aos judeus"), onde mascaram as situações destes, incluindo muitas crianças, numa falsa situação idílica de bem estar e lazer. Praticamente todos os participantes do filme morreram nas câmaras de gás após a conclusão desta obra de propaganda, incluindo o próprio diretor Geron, além do compositor checo Hans Krása. Voltando ao "Inferno Branco", há um outra curiosa participação: o ás da Primeira Guerra Mundial (o segundo maior em número de vitórias aéreas, atrás apenas de Manfred von Richthofen, o famoso "Barão Vermelho") e futuro general de Hitler na Segunda Grande Guerra, Ernst Udet. Este também teria um destino trágico, suicidando-em 1941, fato que na época fora abafado pelo regime. Mas antes disso Udet era apenas um "bon vivant", herói de guerra e artista de acrobacias aéreas. Sua participação neste filme, ainda que tenha uma função importante na trama, parece servir mais como veículo de promoção pessoal haja vista a exibição gratuita de acrobacias aéreas.
O que mais se destaca em "O Inferno Branco" é a cinematografia, que dá uma atmosfera etérea e sobrenatural aos cenários montanhosos. Em termos de roteiro, penso que se alonga demais no seu terço final, e a música, ainda que um dos principais elementos do filme, torna-se um tanto maçante. O filme conta com algumas cenas bem engenhosas, planos magníficos, além de belíssimos closes do rosto de Leni. A montanha aqui é praticamente uma personagem, uma entidade que decide o destino daqueles que se aventuram a abraçá-la. Alguns podem enxergar no quase inexorável gelo e no seu branco profundo uma alegoria para a pureza da raça, um dos pilares para a eugenia alemã na Segunda Guerra. Não compactuo dessa ideia, pois denota anacronismo dos sentimentos de superação e provação diante do que aparenta ser intransponível, presentes na época. De qualquer forma, o fato é que hoje a reverência às montanhas, trazendo à baila tanto a disciplina, precisão e coragem dos alpinistas, como no aspecto semiótico de grandeza, altivez e pureza ancestral desses monumentos naturais, transformou-se e um dos aspectos simbólicos do regime nazista, como defendido no famoso documentário "A Arquitetura da Destruição", de Peter Cohen. Segundo ele a paisagem montanhosa era o cenário preferido de Hitler. O Terceiro Reich deveria ser como uma montanha, "uber alles". Após "Inferno Branco" Leni atuaria ainda em outros filmes de montanha, entre eles a sua estreia como diretora em "A Luz Azul", que segundo dizem foi o que despertou o interesse de Hitler na artista (interesses, segundo outros, mais que apenas profissionais). Esteticamente muito bonito, "Inferno Branco" é realmente tão impregnado com a sombra do que viria a ser o terrível regime nazista que, não por acaso, foi usado como uma das muitas referências no filme "Inglorious Barterds", de Quentin Tarantino. É ele que está em cartaz quando o cinema de Shoshanna surge pela primeira vez. Depois, na famosa cena do bar, quando o personagem de Michael Fassbender é meio que inquirido de sua procedência, ele diz que vem das Montanhas de Piz Palü e que chegou a participar deste filme como um dos figurantes.
Pela sinopse, imaginei que fosse desgostar, mas, pelo co-diretor famoso (e pela jovem protagonista), quis ver. De fato, achei o filme enfadonho e, mais que isso, fiquei surpreso ao saber que, na época de sua produção, esta temática era recorrente, sobretudo por causa do Arnold Fanck, obcecado por isto. Numa triste coincidência, assisti ao filme, por ocasião de uma discussão cineclubista, quando ocorria a comoção nacional, por uma situação semelhante (o abandono derivado de um acidente turístico - neste caso real e recente, na Indonésia). Minha mãe torceu bastante pelos personagens, e ficou triste por conta de algo que ocorreu no desfecho, em caráter sobrevivencial. Gosto muito da primeira meia-hora, e dos jogos de perspectiva típicos do diretor (o enquadramento das mãos que tapam o olhar da personagem, numa brincadeira de recém-casados, por exemplo), mas, quando ocorre a escalada, a trama fica refém de uma única situação, estendida ao extremo. A fotografia é linda, e há algo de progressivamente suspeitoso no modo como a mulher encara o experiente (e traumatizado) alpinista, mas o filme não funcionou tanto comigo, por conta de um rechaço pessoal ao enredo, talvez. Minha mãe adorou, estou à espera do debate, agora! (WPC>)
Um bom exemplar dos chamados filmes de Montanha, um subgênero muito em voga nos anos 20 e 30. Dirigido por Georg Wilhelm Pabst (do clássico "Caixa de Pandora") e Arnold Fanck, que colaboraria, assim como Leni Riefenstahl, para o futuro regime nazista. Ainda neste tópico, vale notar uma breve cena com o ator e diretor Kurt Geron. Judeu, teve sua participação removida pelo governo nazista em uma versão com som lançada em 1935. Um dos extras do DVD é justamente um trecho desta versão com som, e particularmente não gostei. A versão de '29, só com a trilha sonora fazendo por vezes a diegese da narrativa é bem mais interessante. Geron faria como último trabalho, numa tentativa de salvar sua vida, um filme publicitário chamado "Der Führer schenkt den Juden eine Stadt" ("O Führer oferece uma cidade aos judeus"), onde mascaram as situações destes, incluindo muitas crianças, numa falsa situação idílica de bem estar e lazer. Praticamente todos os participantes do filme morreram nas câmaras de gás após a conclusão desta obra de propaganda, incluindo o próprio diretor Geron, além do compositor checo Hans Krása. Voltando ao "Inferno Branco", há um outra curiosa participação: o ás da Primeira Guerra Mundial (o segundo maior em número de vitórias aéreas, atrás apenas de Manfred von Richthofen, o famoso "Barão Vermelho") e futuro general de Hitler na Segunda Grande Guerra, Ernst Udet. Este também teria um destino trágico, suicidando-em 1941, fato que na época fora abafado pelo regime. Mas antes disso Udet era apenas um "bon vivant", herói de guerra e artista de acrobacias aéreas. Sua participação neste filme, ainda que tenha uma função importante na trama, parece servir mais como veículo de promoção pessoal haja vista a exibição gratuita de acrobacias aéreas.
O que mais se destaca em "O Inferno Branco" é a cinematografia, que dá uma atmosfera etérea e sobrenatural aos cenários montanhosos. Em termos de roteiro, penso que se alonga demais no seu terço final, e a música, ainda que um dos principais elementos do filme, torna-se um tanto maçante. O filme conta com algumas cenas bem engenhosas, planos magníficos, além de belíssimos closes do rosto de Leni. A montanha aqui é praticamente uma personagem, uma entidade que decide o destino daqueles que se aventuram a abraçá-la. Alguns podem enxergar no quase inexorável gelo e no seu branco profundo uma alegoria para a pureza da raça, um dos pilares para a eugenia alemã na Segunda Guerra. Não compactuo dessa ideia, pois denota anacronismo dos sentimentos de superação e provação diante do que aparenta ser intransponível, presentes na época. De qualquer forma, o fato é que hoje a reverência às montanhas, trazendo à baila tanto a disciplina, precisão e coragem dos alpinistas, como no aspecto semiótico de grandeza, altivez e pureza ancestral desses monumentos naturais, transformou-se e um dos aspectos simbólicos do regime nazista, como defendido no famoso documentário "A Arquitetura da Destruição", de Peter Cohen. Segundo ele a paisagem montanhosa era o cenário preferido de Hitler. O Terceiro Reich deveria ser como uma montanha, "uber alles". Após "Inferno Branco" Leni atuaria ainda em outros filmes de montanha, entre eles a sua estreia como diretora em "A Luz Azul", que segundo dizem foi o que despertou o interesse de Hitler na artista (interesses, segundo outros, mais que apenas profissionais). Esteticamente muito bonito, "Inferno Branco" é realmente tão impregnado com a sombra do que viria a ser o terrível regime nazista que, não por acaso, foi usado como uma das muitas referências no filme "Inglorious Barterds", de Quentin Tarantino. É ele que está em cartaz quando o cinema de Shoshanna surge pela primeira vez. Depois, na famosa cena do bar, quando o personagem de Michael Fassbender é meio que inquirido de sua procedência, ele diz que vem das Montanhas de Piz Palü e que chegou a participar deste filme como um dos figurantes.
Uma das películas mais lindas que eu já vi. Por mais que o negativo original esteja bem envelhecido.