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O que costumeiramente ouvimos falar do cinema de Antonioni? Incomunicabilidade? Sentido de não-pertencimento a um espaço? Tempos mortos? Aqueles que forem atrás de Lo sguardo di Michelangelo buscando o Antonioni que comunica a incomunicabilidade vão se frustrar. O tema do filme é o contato, a comunicação dentro da diferença absoluta de registro (de tempo e relação com a eternidade, de épocas distintas, etc.), enfim um encontro: dois Michelangelos, um cineasta, outro escultor-pintor. Um através do corpo, o outro através de sua criação. Um, envelhecido e fragilizado pelo tempo, e o outro restaurado, eternizado como momento de ouro de um determinado momento da civilização, patrimônio humano. Em torno desse confronto e do reconhecimento da enormidade dessa diferença se constrói esse pequeno filme de Michelangelo Antonioni, o último de sua carreira.
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Não conhecia este filme... Foi-me apresentado por uma migo, e deixou-me intrigado ao longo de toda a sessão... Estranhei a sonoridade distante, estranhei o diretor caminhando aos 92 anos de idade (ele não tinha sofrido um derrame), estranhei o tom deliciosamente contemplativo, material... E tudo isso era o cerne da magia do filme em si: soube depois que o caminhar do diretor-personagem fôra providenciado através de efeitos computacionais, e que a música, de fato, é ouvida à distância. Intrigado que fiquei, senti que o curta-metragem passou muito rápido, fascinando do primeiro ao último instante. Lindo demais: a magistral despedida de um dos maiores gênios cinematográficos de todos os tempos! (WPC>)
“A verdade é que duvido mesmo que se possa falar de literatura como duvido, com mais razões, que se possa falar de pintura ou que se possa falar de musica. É claro que se pode falar de tudo, como se fala dos sentimentos e emoções, seria absurdo pretender reduzir ao silêncio aqueles que escrevem, ou aqueles que leem, ou aqueles que sentem, ou aqueles que compõem musica ou que pintam ou que esculpem, como se a obra em si mesma já contivesse tudo quanto é possível dizer e que tudo o que vem depois não fosse mais do que interminável glosa. Não é isso. Acontece, no entanto, que por vezes experimento o desejo de limitar-me a uma muda contemplação diante de uma obra acabada, pela consciência que tenho de que, de certo modo, nos domínios da arte e da literatura estamos lidando com aquilo a que damos nome de inefável. E é o inefável precisamente por se-lo, é o que que não pode ser explicado ainda que tenha de se evitar a tentação de cair em ideia de caráter transcendente, onde tudo encontraria uma explicação precisamente no fato de não ter explicação nenhuma. (...)”
Saramago, conferência em Turim, 1998.