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Maria Clara mergulha no passado quase desconhecido de seu pai, Carlos Henrique Escobar. As descobertas e frustrações de acessar a memória de um homem e de um período da história brasileira cheio de lacunas. Ele, um intelectual preso e torturado durante a ditadura militar, não fala sobre isso desde aquele tempo.
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"Era uma mania que me vinha desde criança. Eu sempre me perguntava quanto ainda podia suportar. Era uma forma de resistir a situações intoleráveis e medi-las, como se, com isso, eu fosse me conhecendo e me avaliando mais. De quatro, nu, com um dos tímpanos estourados e os fios de choques no ânus, tiritando de frio e à espera de que o oficial responsável pela tortura chegasse, pois só ele poderia autorizar o começo da sessão. Assim, nessa situação, eu procurava me controlar e estar outra vez como quando criança, deixado no jardim congelado da minha casa sem entrar e me perguntando quanto eu ainda poderia suportar daquele frio. Mas isso ainda era o começo, a segunda ou terceira vez, e eu supunha que seria a última, porque não havia mais nada que eles pudessem saber de mim. Então qualquer coisa aconteceu, porque as torturas prosseguiam e o cristal em mim se partiu. Os equilíbrios me fugiram, o horror e a revolta se tornaram furor e desordem, eu tinha me descontrolado, eu já não era quem eu imaginava ser. Minha mãe me olhava com espanto e meu pai me colhia da terra e da relva gelada, mas já era tarde. Eu havia conseguido haver sobre mim mesmo uma espécie de assassinato. Tudo agora haveria de ter, ainda que em segredo, um gosto de salto mortal. Então os soldados do campo com seus longos casacos que me iam buscar pela manhã já não encontravam o homem, mas uma criança que brincava, e o chefe da equipe de tortura gostava de me exibir para os novos oficiais como um exemplo de confusão e de dor que eles haviam instaurado em mim. Era verdade e não era verdade. Não era verdade, porque esse desespero que eles supunham a uma desordem era antigo, ainda da primeira lembrança de mim mesmo nas proximidades de minha mãe. Mas era também verdade, pois até então, tal como todos os homens, eu tinha meus jogos e minhas contabilidades para não me distinguir demais de todos os outros, para me assimilar e me deixar repousar. Depois, com as agressões e o horror, com o tempo e com a barbárie, eu estava sempre beirando aquele sentimento de uma estranheza indecifrável, de uma mudança de natureza junto às carnes e aos panos de minha mãe ou entre os nazistas, com seus cânticos, com seus blindados e seus gritos de comando. Eu não precisava, tal como ainda hoje suspeito, fazer apenas os homens pensarem corretamente o marxismo. Eu posso fazer nele, no marxismo, inaugurar dentro dele algo como este salto mortal, porém sem jamais lhe ser infiel."
Carlos Henrique Escobar em "Matei minha mulher (a paixão do marxismo: Luís Althusser)"
Dolorido e genial.
Acho que a Maria Clara Escobar conseguiu, de alguma forma, demonstrar seu sentimento de angústia, ao mesmo tempo "recupera" o tempo do que poderia ter sido a vida com o pai. Belíssimo.
Interessante a batalha travada por pai e filha diante e fora das câmeras, sobre o real controle do documentário. Carlos Henrique, intelectual e militante, ao assumir sua persona diante das câmeras, fala de forma muito eloquente, se utilizando da filosofia para sair pela tangente em questões sobre a tortura, por exemplo.
Podemos fazer um link entre o debate entre Didi-Huberman e Claude Lanzmann sobre o irrepresentável no caso da Shoah, mas a tortura, e a dor, se alastram também para a historiografia acerca das ditaduras no Cone Sul.
Bastante filosófico