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"Quando o sentimento é doloroso e verdadeiro, a pessoa tenta esconder a lágrima. E o ator, principalmente o ator hoje, tenta mostrar a lágrima", diz Marília Pêra, antes de Lana Guelero entrar em cena para contar a história de Claudiléa Cerqueira de Lemos. O nervosismo e a contenção de Guelero, atriz profissional de teatro, nos levam a supor que a história lhe pertence. Já Claudiléa, ao surgir chorando copiosamente, parece encarnar uma das atrizes modernas criticadas no comentário.
Essa observação não busca contestar a afirmação de Marília Pêra, que dominava como poucos a construção de personagens, mas indicar que é justamente nessa tensão que reside a grandeza dos filmes de Eduardo Coutinho posteriores a "Cabra marcado para morrer". Neles, afirma-se a convicção de que, quando se trata do humano, nada está dado de antemão, não existem formas estáveis. Tudo é mais instável, mais ambíguo, mais aberto.
Um belo filme-ensaio!
"Todos sabem que o partido está bem organizado. O céu vai cair se Huey P. Newton não for solto. Não é preciso justificativa para isso. Afirmamos que Huey P. Newton é um prisioneiro de guerra e muitos dizem que não é verdade, que o partido está exagerando. Acho que está claro, muito claro, que os Estados Unidos declararam guerra aos negros. Declararam quando trouxeram o primeiro preto da África. Claro que não disseram com essas palavras e alguns esperam que digam: 'Declaramos guerra aos negros'. Os Estados Unidos, até hoje, não declararam guerra ao Vietnã, mas estão no Vietnã. Não declararam guerra à Coréia do Norte, mas combateram a Coréia do Norte. E não declararam guerra aos índios. Eles apenas os eliminaram. Devemos declarar nossa condição. Estamos em guerra. Estamos em defesa do nosso líder. Ele está preso, é um prisioneiro de guerra. Devemos libertá-lo de qualquer modo. Se não conseguirmos, devemos tomar represálias." (Stokely Carmichael, agosto de 1968)
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Tá bom meu querido, muito obrigado!
Olá meu querido... Vi que você deixou um link nos comentários do filme "Iremos a Beirute". Imaginei que poderia ser o link pra ver o filme, mas não tá ativo. Você saberia me dizer onde posso assistir esse filme?
Olá, João Pedro! Lembro de ter visto no youtube, mas acredito que retiraram o vídeo da plataforma.
Como lembra Agnès Varda na apresentação do curta "Saudações, cubanos!", "a ocasião é que faz o documentarista". Em grande medida, a força de "S21: A máquina de morte do Khmer Vermelho" deriva dessa oportunidade singular: a possibilidade de Rithy Panh colocar o pintor Vann Nath, um dos raros sobreviventes, frente a frente com carcereiros, torturadores, interrogadores, um médico e auxiliares do antigo centro de detenção de Phnom Penh, onde cerca de 17 mil pessoas foram torturadas e assassinadas.
Dessa experiência, filmada no próprio Tuol Sleng (S21), o cineasta extrai efeitos surpreendentes. De um lado, a ativação quase automática de uma memória corporal nos ex-torturadores, convocados a reencenar a rotina de então; de outro, as fissuras de um discurso que já não dispõe da moldura ideológica capaz de legitimar suas ações. Reduzir tudo à "banalidade do mal", entendida aqui como puro automatismo, empobrece o debate. O que esses agentes revelam, aos poucos e entre muitas evasivas, são motivações mais complexas e por vezes inesperadas: o apoio ao Partido, por exemplo, aparece associado à figura do príncipe Norodom Sihanouk, que havia conclamado os cambojanos a se unirem contra o governo do general Lon Nol e o imperialismo norte-americano. Há, sem dúvida, uma construção do inimigo interno, mas o documentário sugere que, para muitos daqueles agentes, as paixões mobilizadoras não eram propriamente revolucionárias, mas sim de ordem dinástica.
Essa cosmovisão, para além de uma ideologia coerente, emerge já no início do filme, quando um dos ex-torturadores aceita participar das filmagens e "dizer toda a verdade" para se livrar do mau karma. A essa lógica de purificação, Vann Nath contrapõe, ao final, uma resposta de natureza secular: "Estou tentando compreender o que se passou, para que tenha algum sentido (...). Nós nos reunimos, mas isso não significa que seja uma oportunidade para purificar-nos do mal".
Trata-se de um grande documentário, incontornável nas discussões sobre o genocídio cambojano, mas vale destacar que a condição de possibilidade desse registro testemunhal carrega violências simbólicas. Panh e Nath não mobilizam apenas a autoridade do testemunho, mas também o capital simbólico de uma elite letrada. No filme, há uma assimetria que excede o próprio dispositivo cinematográfico e qualquer juízo estritamente moral. Assinalá-la não implica qualquer vínculo de empatia com os ex-torturadores, mas buscar entender como os ciclos de violência se reproduzem em nossa sociedade. Afinal, o confronto não se dá com os dirigentes do Partido que ordenavam as torturas, mas sim com ex-guardas de origem rural, muitas vezes recrutados ainda muito jovens.
Como diria Caetano, "tudo é cheio de muita coisa"...