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"A Palestina histórica tem sido submetida a um colonialismo de assentamento há mais de um século, e sua descolonização está intimamente associada a outros termos evitados pelo discurso político hegemônico no Ocidente quando se fala de Israel e Palestina: libertação e reconciliação." (Ilan Pappé, "Brevíssima história do conflito Israel-Palestina", 2025).
"É por causa de pessoas como você que estamos ocupados", diz Omar a seu superior na Sociedade do Crescente Vermelho Palestino. Não sabemos se essa fala existiu de fato naquele dia, mas sua simples representação não deixa de ser sintomática. Em "No Other Land", o cineasta israelense Yuval Abraham ouve de um compatriota: "aqui está um judeu que está ajudando eles; você está no Facebook, você será reconhecido, as pessoas lhe farão uma visitinha". Nessas falas, constatamos a pertinência da análise de Pappé ao afirmar que a solução de dois Estados, principal conceito subjacente aos chamados "processos de paz", já não é mais praticável. Israel dificilmente permitirá a existência de um Estado que possa se converter em um vizinho hostil. Tampouco as marcas da violência colonial serão facilmente apagadas da memória palestina, como demonstrou a Segunda Intifada após os Acordos de Oslo. Como será possível um processo de descolonização e a formação de um único Estado democrático? Eis o grande desafio de nossa geração e, muito provavelmente, das próximas.
Há um famoso poema de Félix Grande que diz: "donde fuiste feliz alguna vez no debieras volver jamás". Após dissertar a respeito, aconselhando que toda história interrompida apenas sobrevive para vingar-se, morrer assassinando, o poeta consente que o próprio pensamento revela o desejo do regresso, que se dá quando a vida se converte em cicatriz.
Desde o momento em que o olhar de Joana (Carol Duarte) aparece em cena, fiquei completamente entregue a esse filme. Este olhar é especialmente direcionado à mãe, sua heroína da infância, agora presa a um projeto idealista, menos por aquilo que ele virá a ser e mais por aquilo que já é: uma busca, um sentido para seguir vivendo. O olhar melancólico de Joana me acertou muito, porque, nos últimos anos de sua vida, este foi o olhar que muitas vezes direcionei à minha mãe.
Lili e Malu, interpretadas magistralmente por Juliana Carneiro da Cunha e Yara de Novaes, fizeram-me pensar tantas vezes em minha avó, minhas tias e minha mãe, que seria até difícil falar a respeito sem tornar este comentário excessivamente pessoal. A doçura e a amargura de Lili, as violências que sofreu, o modo como as assimilou e sua incrível capacidade de reproduzi-las - "você não é bonita, minha filha (...), atriz que não é bonita não tem jeito" - têm muito de minha avó, assim como o carolismo e o (não tão) discreto racismo. O espírito sonhador, as projeções, o orgulho inquebrantável e a capacidade de se reinventar de Malu, admiráveis até se tornarem melancólicos, lembraram-me muito de minha mãe e minhas tias.
"Malu" insere-se na categoria de filmes da segunda geração. Um filme sobre memória, sobre os traumas pessoais e familiares provocados pela violência de Estado, um olhar sobre o passado e o presente do país a partir da história de vida de uma mulher, a mãe do diretor. No entanto, o foco nas três gerações de mulheres atravessadas pela violência patriarcal, bem como as diferentes respostas que elas (e suas gerações) puderam dar, faz com que esta produção se lance muito além do mero registro testemunhal, que, em muitos casos, acaba se tornando ensimesmado, reduzido a dramas familiares de uma família pequeno-burguesa. Sua força reside nesta incrível capacidade de nos capturar e nos fazer refletir (e sentir) nossas próprias vivências em diálogo com a História.
"Pra onde que a gente tá indo?"
Como diria a protagonista, saí completamente descaralhado desse filme. Lindo, lindo!
Últimos recados
Tá bom meu querido, muito obrigado!
Olá meu querido... Vi que você deixou um link nos comentários do filme "Iremos a Beirute". Imaginei que poderia ser o link pra ver o filme, mas não tá ativo. Você saberia me dizer onde posso assistir esse filme?
Olá, João Pedro! Lembro de ter visto no youtube, mas acredito que retiraram o vídeo da plataforma.
A relação entre Basel Adra e Yuval Abraham é um dos aspectos mais interessantes do filme, pois os diretores não optam por esconder ou amenizar as dificuldades presentes nessa aliança, atravessada o tempo todo pelas desigualdades impostas pelo regime de apartheid. Do ponto de vista de Basel, o filme é profundamente autobiográfico: desde muito pequeno, ele registra as demolições de casas, as expulsões e a violência cotidiana enfrentada pelas comunidades locais, a militância de seu pai, Nasser Adra, e as diversas vezes em que o viu sendo preso. Do ponto de vista de Yuval, e nisto não há qualquer julgamento, o filme é, em certa medida, uma extensão de seu trabalho como jornalista e militante.
"Sem chão" apresenta a situação de Masafer Yatta, região montanhosa ao sul da Cisjordânia, na província de Hebron. A primeira tentativa de expulsão dos palestinos desse conjunto de aldeias data da segunda metade dos anos 1960, no pós-Guerra dos Seis Dias, durante o curto governo do trabalhista Yigal Allon. O chamado "Plano Allon" tinha como intuito garantir a integridade do território judaico desde o deserto do Naqab até o Rio Jordão. O pai do cineasta Basel Adra pertence à segunda geração de palestinos que resistiram (e seguem resistindo) a essa limpeza étnica. Após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, colonos israelenses na região conseguiram expulsar milhares de palestinos de suas aldeias com a colaboração do exército israelense.