Dirigido por
Duração
Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram sua história de vida em um estúdio. 23 delas foram selecionadas, em junho de 2006, sendo filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano várias atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas por estas mulheres.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Há algo profundamente desconcertante em assistir um documentário que se recusa a dizer onde termina a realidade e começa a ficção. Eduardo Coutinho construiu, com essa obra, um dos experimentos mais radicais e ao mesmo tempo mais humanos do cinema brasileiro, e a sensação que fica depois dos créditos é de ter testemunhado algo que não sabemos bem como classificar, o que é exatamente o ponto.
A premissa é simples de explicar e complexa de digerir. Coutinho reuniu mulheres que contaram suas histórias de vida diante da câmera e, em seguida, convidou atrizes para interpretar esses mesmos relatos, muitas vezes lado a lado com as próprias mulheres reais. O espectador assiste às duas versões intercaladas, sem aviso claro de qual é qual em certos momentos, até que a fronteira entre depoimento e atuação se dissolve por completo. É um truque de estrutura, mas nunca parece um truque quando estamos dentro do filme.
O que impressiona não é apenas a ousadia formal, é a delicadeza com que Coutinho trata suas personagens reais. Não há sensacionalismo nas histórias de perda, abandono, violência doméstica ou sobrevivência que elas compartilham. A câmera escuta mais do que interroga, e essa escuta paciente é o que transforma um exercício conceitual em cinema emocionalmente verdadeiro. As atrizes, por sua vez, entregam performances que não competem com o material original, elas o honram, encontrando nuances que só reforçam o quanto a experiência humana resiste à imitação perfeita.
Um dos melhores filmes nacionais. Perfeito para quem quer ver a maestria de Eduardo Coutinho e aprender algumas de suas técnicas para documentários.
Fui surpreendido com um documentário de sensibilidade única. Todos os relatos são fascinantes, todas as histórias emocionam, chega uma hora que nem importa mais se é ficção ou realidade, tudo é muito orgânico, mostrando que a vida imita a arte e vice-versa.
Incrível ver mulheres desconhecidas com atrizes renomadas, aliás que falta a Marília Pêra faz.
"Quando o sentimento é doloroso e verdadeiro, a pessoa tenta esconder a lágrima. E o ator, principalmente o ator hoje, tenta mostrar a lágrima", diz Marília Pêra, antes de Lana Guelero entrar em cena para contar a história de Claudiléa Cerqueira de Lemos. O nervosismo e a contenção de Guelero, atriz profissional de teatro, nos levam a supor que a história lhe pertence. Já Claudiléa, ao surgir chorando copiosamente, parece encarnar uma dessas atrizes criticadas no comentário.
Essa observação não busca contestar a afirmação de Marília Pêra, que dominava como poucos a construção de personagens, mas indicar que é justamente nessa tensão que reside a grandeza dos filmes de Eduardo Coutinho pós-"Cabra marcado para morrer". Neles, afirma-se a convicção de que, em matéria de ser humano, nada está dado de antemão, não existem formas estáveis. Tudo é mais imprevisível, mais ambíguo, mais aberto.
Um belo filme-ensaio!
Que baita filme!!