Malu, uma atriz desempregada de 50 anos que vive das lembranças de seu passado glorioso, divide uma casa decadente em uma favela do Rio de Janeiro com sua mãe conservadora, ao mesmo tempo em que lida com um relacionamento conturbado com sua própria filha.
A complexa relação de laços familiares entre indivíduos igualmente complexos entregue em atuações brutalmente reais.
Sou entusiasta e admiradora do audiovisual brasileiro, já tinha ouvido falar muito bem desse filme, e finalmente decidi vê-lo. Minha opinião fala bem mais sobre mim, que sobre ele, não consegui passar dos 40 min. Não sou conservadora de forma alguma, mas achei a Malu insuportável.
Um filme que vale ser conferido mais pelas boas atuações do elenco do que pela história em si. Os personagens são um tanto caricatos e provocam pouca empatia. Até os conflitos parecem exagerados e pouco naturais. Pela cotação alta eu esperava bem mais.
Há um famoso poema de Félix Grande que diz: "donde fuiste feliz alguna vez no debieras volver jamás". Após dissertar a respeito, aconselhando que toda história interrompida apenas sobrevive para vingar-se, morrer assassinando, o poeta consente que o próprio pensamento revela o desejo do regresso, que se dá quando a vida se converte em cicatriz.
Desde o momento em que o olhar de Joana (Carol Duarte) aparece em cena, fiquei completamente entregue a esse filme. Este olhar é especialmente direcionado à mãe, sua heroína da infância, agora presa a um projeto idealista, menos por aquilo que ele virá a ser e mais por aquilo que já é: uma busca, um sentido para seguir vivendo. O olhar melancólico de Joana me acertou muito, porque, nos últimos anos de sua vida, este foi o olhar que muitas vezes direcionei à minha mãe.
Lili e Malu, interpretadas magistralmente por Juliana Carneiro da Cunha e Yara de Novaes, fizeram-me pensar tantas vezes em minha avó, minhas tias e minha mãe, que seria até difícil falar a respeito sem tornar este comentário excessivamente pessoal. A doçura e a amargura de Lili, as violências que sofreu, o modo como as assimilou e sua incrível capacidade de reproduzi-las - "você não é bonita, minha filha (...), atriz que não é bonita não tem jeito" - têm muito de minha avó, assim como o carolismo e o (não tão) discreto racismo. O espírito sonhador, as projeções, o orgulho inquebrantável e a capacidade de se reinventar de Malu, admiráveis até se tornarem melancólicos, lembraram-me muito de minha mãe e minhas tias.
"Malu" insere-se na categoria de filmes da segunda geração. Um filme sobre memória, sobre os traumas pessoais e familiares provocados pela violência de Estado, um olhar sobre o passado e o presente do país a partir da história de vida de uma mulher, a mãe do diretor. No entanto, o foco nas três gerações de mulheres atravessadas pela violência patriarcal, bem como as diferentes respostas que elas (e suas gerações) puderam dar, faz com que esta produção se lance muito além do mero registro testemunhal, que, em muitos casos, acaba se tornando ensimesmado, reduzido a dramas familiares de uma família pequeno-burguesa. Sua força reside nesta incrível capacidade de nos capturar e nos fazer refletir (e sentir) nossas próprias vivências em diálogo com a História.
"Pra onde que a gente tá indo?"
Como diria a protagonista, saí completamente descaralhado desse filme. Lindo, lindo!
Drama familiar sobre conflito de gerações com três atrizes em estado de graça. Uma grande aula de atuação e estudo de personagem.