Documentário que narra a semana que precedeu o segundo turno das eleições de 2018, fazendo um pequeno paralelo com relacionamentos. Será apresentado na 43ª Mostra de Cinema de São Paulo
Outubro nasceu de um desejo, repentino, de Maria Ribeiro em retratar, como num diário, os sete dias que antecederam a eleição de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil. Em certo momento desse documentário esquisito, Maria Ribeiro diz (narrando, mesmo) que durante um dia daquela semana, teve que ir pro Rio, e então aquele dia que estamos vendo sendo retratado por uma fala de Mano Brown num comício de Fernando Haddad não é o dia correto - é uma cena filmada dias depois, já em novembro. A sinceridade da autora com o público, representada por essa passagem, é uma das grandes características de Outubro. Sabendo-se imperfeito, o filme lembra a plateia por diversas vezes que aquilo nasceu como uma ideia meio maluca, foi se desenvolvendo como uma farsa (a intenção inicial era a de fazer uma ficção; não deu certo) e terminou sendo um produto documental meio inacabado sobre aqueles dias. Que sabe o quão históricos foram aqueles dias. Maria guia, Loiro filma, e os dois percorrem São Paulo e a semana em questão como dois forasteiros em busca de entender como nós, como sociedade, chegamos naquele ponto. As entrevistas são todas muito bem escolhidas, de Marcelo Rubens Paiva a Xico Sá, às vezes muito bem humorados, cada um acrescenta um ponto novo que nos leva a refletir de uma maneira diferente, ainda que todos sejam membros do mesmo grupo: artistas, ou celebridades, de esquerda.
A propósito, em certos momentos, ele grita o que nem disfarça ser: filme de esquerdista feito para a esquerda ver. Mas não há problema nenhum nisso, o cinema não precisa ser imparcial, deixemos isso para o jornalismo. Já em outros momentos, apresenta uma sensibilidade ímpar, principalmente no que ele escolhe filmar, como quando uma faxineira passa casualmente, no meio de uma entrevista, ou quando observa uma mulher que grita aos quatro cantos no meio da rua para que as pessoas mudem o voto antes que seja tarde demais, ou ainda em sua belíssima cena final, inacreditavelmente improvisada, segundo a narração, carregada de muito simbolismo diante de tudo o que o país vivia. Eu gosto como Maria Ribeiro assume que o filme que fez é apenas um experimento, que nem ela sabe se vai dar certo, mas que queria fazer mesmo assim. E eu acho que deu. Vivemos em um tempo em que períodos históricos pesados podem ter registros falhos como esse, e só deus sabe como eu gostaria de ver esse tipo de registro em momentos que já se passaram (alguns em que eu nem estava por aqui ainda). Quanto mais pessoas fizerem cinema sobre processos, políticos ou não, em seus respectivos países, melhor. Esse aqui vai ficar pra história, pra quando alguém quiser ver como estava o clima na última semana de outubro de 2018, poder ter onde encontrar.
Brilhante atuação de Maria nesse doc , um sentimento real carregado das eleições de 2018.
Outubro nasceu de um desejo, repentino, de Maria Ribeiro em retratar, como num diário, os sete dias que antecederam a eleição de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil. Em certo momento desse documentário esquisito, Maria Ribeiro diz (narrando, mesmo) que durante um dia daquela semana, teve que ir pro Rio, e então aquele dia que estamos vendo sendo retratado por uma fala de Mano Brown num comício de Fernando Haddad não é o dia correto - é uma cena filmada dias depois, já em novembro. A sinceridade da autora com o público, representada por essa passagem, é uma das grandes características de Outubro. Sabendo-se imperfeito, o filme lembra a plateia por diversas vezes que aquilo nasceu como uma ideia meio maluca, foi se desenvolvendo como uma farsa (a intenção inicial era a de fazer uma ficção; não deu certo) e terminou sendo um produto documental meio inacabado sobre aqueles dias. Que sabe o quão históricos foram aqueles dias. Maria guia, Loiro filma, e os dois percorrem São Paulo e a semana em questão como dois forasteiros em busca de entender como nós, como sociedade, chegamos naquele ponto. As entrevistas são todas muito bem escolhidas, de Marcelo Rubens Paiva a Xico Sá, às vezes muito bem humorados, cada um acrescenta um ponto novo que nos leva a refletir de uma maneira diferente, ainda que todos sejam membros do mesmo grupo: artistas, ou celebridades, de esquerda.
A propósito, em certos momentos, ele grita o que nem disfarça ser: filme de esquerdista feito para a esquerda ver. Mas não há problema nenhum nisso, o cinema não precisa ser imparcial, deixemos isso para o jornalismo. Já em outros momentos, apresenta uma sensibilidade ímpar, principalmente no que ele escolhe filmar, como quando uma faxineira passa casualmente, no meio de uma entrevista, ou quando observa uma mulher que grita aos quatro cantos no meio da rua para que as pessoas mudem o voto antes que seja tarde demais, ou ainda em sua belíssima cena final, inacreditavelmente improvisada, segundo a narração, carregada de muito simbolismo diante de tudo o que o país vivia. Eu gosto como Maria Ribeiro assume que o filme que fez é apenas um experimento, que nem ela sabe se vai dar certo, mas que queria fazer mesmo assim. E eu acho que deu. Vivemos em um tempo em que períodos históricos pesados podem ter registros falhos como esse, e só deus sabe como eu gostaria de ver esse tipo de registro em momentos que já se passaram (alguns em que eu nem estava por aqui ainda). Quanto mais pessoas fizerem cinema sobre processos, políticos ou não, em seus respectivos países, melhor. Esse aqui vai ficar pra história, pra quando alguém quiser ver como estava o clima na última semana de outubro de 2018, poder ter onde encontrar.