O riacho Pajeú, em Fortaleza, vítima do processo de urbanização da cidade, corre silencioso debaixo dos arranha-céus. Para a professora Maristela (interpretada por Fatima Muniz), recém-chegada na cidade, a invisibilidade do riacho toca o íntimo do seu ser: transformado em monstro ultra-poluído, ele lhe aparece em sonho com ares de filme de terror. A tentativa de contornar o esquecimento (seu e da cidade) torna-se, então, o esforço em recuperar os fragmentos dessa história, em criar memórias coletivamente. Sob um regime ficcional perfurado pelo encontro com espaços reais e ilustres desconhecidos, o filme refaz o curso do rio de modo a restaurar os pedaços de sua gente.
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
eu gostei do assunto mas o estilo do filme não me pegou muito.... achei as atuações meio ble mas foi bom conhecer esse filme
- gostei bastante dessa mistura de gêneros, da parte dramática a uma espécie de terror psicológico, chegando ao documentário que é o ponto alto do filme
- uma busca interessante e importantíssima, que constata uma triste verdade, esquecimento da nossa história
- realmente fica um vazio ao perceber que o rio que foi fundamental para o surgimento da cidade de fortaleza está se esvaindo aos poucos e nem a memória sobre ele está sendo preservada
- o diretor poderia ter feito apenas um documentário sobre isso, mas trás uma obra cheia de experimentações, com bonitas cenas de interpretações dramáticas e de canto
- e trás uma discussão inquietante, tanto na parte de ficção dramática quanto nas entrevistas reais, o monstro da deslembrança
Tenho uma relação muito pessoal com este filme, de fascínio absoluto. Na curadoria de um cineclube para o qual fui convidado, o selecionei para debate, e fiquei bastante emocionado ao vê-lo exibido para dezenas de espectadores, que, em minha projeção desejosa, comparariam o que estava sendo mostrado e discutido com questões locais, visto que há diversas similaridades (nem sempre felizes) entre o desenvolvimento urbano de Fortaleza e o de Aracaju. Sou apaixonado pela entrega actancial de Fátima Muniz e amo as transformações de pujança emocional que ocorrem durante as cenas de karaokê. Os depoimentos de caráter ostensivamente documental surgem como se fossem alívios à angústia inerte da protagonista, que busca algo porque percebe que falta algo em si mesma. Amo a direção de som, a trilha musical de Vítor Colares, a montagem com colaboração do Guto Parente, a fotografia assertivo, os figurinos impressionantes da criatura na água, tudo! Sou fã, minha relação com esta obra é de pura devoção, identificação, crença nas melhorias advindas da conscientização via encontro. Ponto alto do dito "novíssimo cinema brasileiro", em minha opinião. E foi um prazer (e uma surpresa) ter conhecido o diretor em Tiradentes, deveras simpático. Ansioso para ver CENTRO ILUSÃO, desde já! (WPC>)
Sentado e bêbado à mesa do bar!
Esse filme, assim como outros de terror brasileiro (embora Pajeú esteja classificado aqui 'apenas' como drama) é o motivo de eu ficar fugindo de filmes produzidos aqui na nossa terra: não, não por que não goste, justamente o que ocorre é o contrário.
Mas é forte demais. Pq quando vc assiste algum filme do gênero, mas que é da gringa, vc fica numa distância segura. Não é o que ocorre aqui, pois as águas do riacho te levam pra dentro do esgoto... inclusive pra dentro do seu próprio gosto.
Assistir Pajeú foi uma mistura de raiva, dor, angústia, tristeza, melancolia, medo, dúvida e incerteza. Foi tocar também no meio maior medo: medo de esquecer e medo de ser esquecido.
A imagem da criatura surgindo das águas é de, salve-me o trocadilho, uma profundidade inabalável.
E, mais uma vez, eu fico fadado a repetir a máxima bergmaniana de Persona: "Seu esconderijo não é à prova d'água. A vida entra em tudo."
O diálogo mais pungente, pra mim:
- E, Serginho... tu tem algum medo de desaparecer?
- O trecho de mangue?
- Você.
- Eu desaparecer ou o mangue?
- Você.
- Eu desaparecer? Se eu tenho medo? Eu não acredito que a gente desapareça, mas desaparecer... eu não ser mais visto, ou morrer, essa coisa?
- De você ser esquecido.
- Eu acredito que todos nós seremos esquecidos, cedo ou tarde. Mas não, não tenho esse medo não. Tenho medo de que desapareça o poço da draga.
Ainda poderia falar sobre a onipresença da água, a relação disso com a temática LGBTQUIA+ de fundo, os marginalizados e ainda o papel da música eletrônica, que não apenas oscila entre a linguagem verbal e não verbal, mas como também faz a linguagem humana, quando verbaliza, ecoar até colar nas pedras, até retornar às pedras...
Mas esse filme dói tanto que não me atrevo a ir mais longe...
Assistido em 29 de Dezembro de 2023.