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Data de lançamento
10 Nov. 1990Duração
Se você nem imagina porque Norman Bates tornou-se um perigoso assassino, prepare-se para o pior: Psicose 4 mostra a terrível infância de Norman. Atormentado pelo comportamento violento e esquizofrênico de sua mãe, o garoto acaba cometendo o pior de todos os crimes: o matricídio. Começa então um pesadelo que ele carregará por toda a vida. De volta ao presente, Norman, já adulto, planeja outro assassinato e mostra porque cada novo filme da série Psicose consegue ser mais macabro, sangrento e assustador. No papel de Norma Bates, a mãe, Olivia Hussey surpreende como uma figura soturna e doente. Capaz de fazer surgir o mais demoníaco de todos os matadores: seu próprio filho.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Produzido para a TV, “Psicose IV: O começo” funciona tanto como uma prequela (filme que conta a origem de um personagem) quanto uma continuação (já que se passa no tempo presente, em que Norman, velho e cansado, relembra sua juventude). Personagem icônico do cinema de horror, Norman Bates, agora idoso e sob tratamento psiquiátrico, participa de um programa de rádio para falar sobre sua criação. Durante uma longa conversa ao vivo com uma apresentadora, ele relembra a infância e a juventude, marcadas pela relação abusiva com a mãe, Norma, uma mulher neurótica e repressora, o que moldaria sua mente perturbada. O longa alterna entre o presente e flashbacks, revelando como Norman se tornou o assassino que conhecemos, trazendo uma narrativa mais íntima, sobre trauma e manipulação. Subestimado na época do lançado e sem o impacto cinematográfico dos dois primeiros filmes, “Psicose IV: O começo” é relevante por aprofundar a origem psicológica de Norman (algo que seria destrinchado depois na ótima série de cinco temporadas “Bates Motel”, com Vera Farmiga e Freddie Highmore). O telefilme se destaca por oferecer uma perspectiva mais trágica do protagonista, transformando-o em vítima de circunstâncias familiares - apesar de a produção televisiva limitar a grandiosidade estética, o longa é valorizado pelos fãs como uma peça-chave para compreender o que está por trás de Norman Bates.
Perkins já estava doente, aparecendo pouco no filme (ele faleceria dois anos depois, em decorrência de uma pneumonia provocada pela Aids), dando espaço para o bom Henry Thomas como o jovem Norman (ator mirim de “E.T. – O extraterrestre”). O diretor Mick Garris já era experiente no mundo do terror, realizador de making of de cultuadas fitas do gênero dos anos 80, como de “Grito de horror” e “Videodrome”, passando por episódios da série “Histórias maravilhosas” (1985-1987) e do filme “Criaturas 2” (1988). Depois de fazer “Psicose IV”, dirigiu obras de Stephen King para o audiovisual, como o filme “Sonâmbulos” (1992) e as minisséries “A dança da morte” (1994) e “O iluminado” (1997). O roteirista do original “Psicose”, Joseph Stefano, voltou aqui para escrever essa adaptação, procurando garantir traços fieis da história e do personagem – e seria ele a refazer o roteiro para o remake de 1998, de Gus Van Sant, aquele filme que ainda divide a opinião da crítica e do público (para mim, penoso e sofrível). Conta com participação de duas atrizes muito boas, CCH Pounder, de “Bagdad Café” (1987), como a apresentadora de rádio que entrevista Norman, e Olivia Hussey, falecida há um ano, como Norma Bates – Olivia eternizou Julieta de Shakespeare na versão de “Romeu e Julieta” (1968), de Franco Zeffirelli. PS: Nos anos 90 o filme saiu em VHS pela CIC com outro subtítulo, “Psicose IV: A revelação”. Agora pode ser visto em boa resolução em Bluray, na caixa “Coleção Psicose”, da Versátil Home Video, que contém dois discos, reunindo “Psicose 2”, “Psicose III” e o remake de Gus Van Sant - no box, mais de quatro horas de extras, cards colecionáveis e um livreto de 44 páginas. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema-naweb blogspotcom
Eu curti!
bom
18.04.2000
O filme que conclui a saga Psicose também é um dos filmes mais tristes que eu já vi na vida.
Por vários fatores, seja por demonstrar um pouco da insanidade do mundo em que vivemos e das pessoas a nossa volta, seja por trazer um Anthony Perkins já alquebrado pela doença, sendo que tombaria vítima da AIDS dois anos depois do lançamento, com apenas 60 anos de idade.
E este foi sem dúvida O papel de sua carreira. Não apenas por tê-lo encarnado quatro vezes, mas porque o papel diz tanto sobre ele, numa identificação pouquíssimas vezes vista na história do cinema, que em um dado momento ele sequer está atuando mais. Está fazendo uma experiência de catarse, usando o personagem como mero porta-voz de suas próprias neuroses e frustrações internas.
Perkins perdeu o pai cedo, teve seriíssimos problemas de relacionamento com a mãe e teve que passar a vida brigando com e escondendo sua sexualidade. O próprio Norman Bates. Condenado desde cedo a ser sempre um frustrado, por uma mãe que escondia seus verdadeiros instintos por trás de um pretenso puritanismo que ela mal compreendia.
É exatamente o momento que Norman entende o que a mãe realmente é que faz com que ela morra para ele. Ele prefere tê-la na memória como a imagem de perfeição que ela mal conseguia fingir que tinha. Então, num processo digno de ser esmiuçado por Freud, o garoto internaliza em si uma imagem da mãe que ele sabia que era falsa, mas que ao mesmo tempo protegia a memória dela e aliviava a consciência do seu crime. Como se ele a tivesse matado para protegê-la da corrupção do mundo, que ela só fingia que combatia.
É claro que Perkins não matou sua mãe, mas as analogias são tantas que até merecem um estudo a parte. A questão da sexualidade, que a mãe queria castrar no filho, se reflete no pseudo moralismo de Hollywood, que queria porque queria seus astros e estrelas encaixados num padrão de comportamento que nenhum deles respeitava longe das telas. Tipo, por que mesmo seria "chocante" um ator bonito ser assumidamente homossexual na Hollywood de 1960, se por trás das câmeras as pessoas tinham que fazer de tudo e mais um pouco para se inserirem naquele mundo? Porque Hollywood, como a mãe de Bates, era hipócrita, hipócrita a ponto de se contradizer na mínima oportunidade.
Assim como Bates, Perkins foi "marcado" para ter um fim trágico. Sua criação e o mundo em que viveu só poderiam levá-lo a ser um poço de complexos. Quanto mais moralista o ambiente em que um homem cresça, mais ele tende a desenvolver tendências psicóticas, pois o moralismo reprime tendências completamente naturais a um tal ponto que o sujeito vira uma fonte de tensão, que pode explodir, ou se extravasar, a qualquer momento, e das formas mais absurdas e repugnantes. O pseudo moralismo é a fonte de todas as neuroses.
Porque ele te obriga a sempre fingir ser o que não é, a se conter e ser castrado emocionalmente, quando todas as tuas emoções são perfeitamente normais, desde que, claro, não interfiram no bem estar alheio.
Concluindo de forma decente a história iniciada trinta anos antes na obra-prima de Alfred Hitchcock, Psicose 4 põe um fim na história de Norman Bates partindo do princípio de tudo. As questões sem resposta deixadas desde o primeiro longa são finalmente respondidas. Finalmente conhecemos a cara e as motivações da mãe mais infame do cinema. Não é um encontro salutar. Alguns gostariam que o mistério permanecesse. Eu não. Não acredito em acaso. TUDO está relacionado e TUDO tem uma causa. Com certeza o terror se beneficia do mistério, é essencial para uma boa atmosfera. Mas cedo ou tarde, nos perguntaremos: "Por que diabos esse sujeito está fazendo isso?" A não ser que seja uma entidade sobrenatural (que não existem), seu comportamento tem que ter alguma explicação.
Embora o filme esteja longe de ser perfeito, dou nota cinco como homenagem a Anthony Perkins e também a um dos grandes personagens da história do cinema, cuja história se concluiu aqui.