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Data de lançamento
25 Jan. 2015Duração
A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir a São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.
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Adorei esse filme. Ficou anos parado na minha lista. Me fez refletir sobre como as pessoas são condicionadas a pensar que o patrão está sendo “bondoso” e “fazendo um favor” ao funcionário quando o patrão só permite que ele receba o mínimo. E principalmente nesse momento atual do Brasil em que muitos trabalhadores são contra o fim da escala 6x1 por achar que será ruim para a empresa do patrão, colocando essa preocupação em primeiro lugar, ao invés de enxergar que ele próprio é merecedor de mais por seu esforço e dedicação.
Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert e lançado em 2015, é um filme brasileiro que conta a história de Val, uma empregada doméstica pernambucana que se muda para São Paulo para trabalhar na casa de uma família de classe média alta. Ela deixa sua filha, Jéssica, em Pernambuco e passa anos cuidando de Fabinho, filho dos seus patrões. Anos depois, Jéssica vai para São Paulo para prestar vestibular e passa a morar temporariamente com a mãe na casa onde ela trabalha. A partir da chegada da garota, várias situações que antes pareciam normais começam a ser questionadas.
O que mais me chamou atenção no filme foi justamente a maneira como ele mostra situações que, à primeira vista, parecem pequenas, mas carregam um significado muito maior. A piscina, o quarto, a comida, o sorvete, os lugares onde cada personagem pode ou não pode ficar dentro da casa: tudo isso acaba mostrando a diferença entre as classes sociais.
Na minha opinião, o filme é muito bom justamente porque consegue fazer o espectador perceber uma realidade que existe na sociedade brasileira. Ele não precisa ficar explicando o tempo todo que existe desigualdade. Muitas vezes, basta mostrar uma situação cotidiana para entendermos o problema.
Um dos pontos mais importantes do filme aparece na relação entre Val e seus patrões. Bárbara, a patroa, diz que Val é “praticamente da família”. Essa frase parece carinhosa, mas ganha outro significado quando observamos o tratamento que Val recebe. Ela é próxima da família, conhece a rotina de todos e ajudou a criar Fabinho, mas ainda existe uma fronteira muito clara entre ela e os patrões. Uma crítica sobre o filme também destaca justamente essa contradição entre a ideia de Val ser “da família” e os limites que continuam sendo impostos a ela.
Essa é uma das frases que mais representa o filme para mim. Ser “praticamente da família” não significa realmente ter os mesmos direitos ou ocupar o mesmo espaço. Val pode cuidar da casa, preparar as refeições, cuidar do filho dos patrões e estar presente nos momentos importantes, mas existem lugares que ela não deveria ocupar e regras que precisa obedecer.
Isso fica ainda mais evidente quando Jéssica chega. Diferentemente da mãe, ela não cresceu dentro daquela lógica e não aceita naturalmente todas aquelas regras. Ela questiona por que não pode fazer determinadas coisas e começa a ocupar espaços que, segundo a tradição daquela casa, não pertenciam a ela.
Uma das falas mais fortes acontece justamente quando Val tenta fazer Jéssica entender que ela não deveria se comportar daquela maneira. Val diz que a filha se acha superior, e Jéssica responde:
“Eu não me acho melhor não. Só não me acho pior.”
Para mim, essa é a frase mais importante do filme. Ela resume a transformação de Jéssica e também representa uma questão muito maior: querer ser tratada com igualdade não significa querer ser superior a alguém.
Jéssica não está dizendo que merece mais do que os patrões. Ela está dizendo que merece o mesmo respeito. A frase mostra que o maior conflito não é simplesmente entre ricos e pobres, mas entre pessoas que aprenderam a aceitar determinados lugares sociais e uma nova geração que começa a questionar esses lugares.
O próprio título, Que Horas Ela Volta?, possui um significado muito importante. A pergunta está relacionada à ausência da mãe de Fabinho, mas também pode ser entendida de uma maneira mais profunda quando pensamos na própria Val. Quando Val vai voltar para a vida da filha? Quando ela vai deixar de cuidar da família dos outros para cuidar da própria vida?
Isso torna a relação entre Val e Jéssica ainda mais interessante. O filme não apresenta apenas um conflito social, mas também um conflito familiar. Val ama a filha, mas sua escolha de trabalhar longe dela teve consequências. Ela conseguiu proporcionar oportunidades para Jéssica, mas perdeu momentos importantes da infância da menina.
Por isso, acredito que o filme não apresenta personagens simplesmente como “bons” ou “maus”. Val, por exemplo, também reproduz algumas das regras que aprendeu durante os anos trabalhando naquela casa. Ela se acostumou tanto com aquela posição que chega a acreditar que determinados espaços realmente não são para ela ou para a filha.
Jéssica, por outro lado, representa uma mudança. Ela questiona aquilo que sua mãe aprendeu a aceitar. E é justamente por isso que sua presença incomoda tanto os outros personagens: ela faz perguntas que ninguém naquela casa estava acostumado a responder.
Uma das coisas que considero mais interessantes em Que Horas Ela Volta? é que a desigualdade aparece em coisas extremamente simples. Não é necessário mostrar grandes acontecimentos para perceber a diferença social. A forma como as pessoas comem, onde dormem, quem pode entrar na piscina, quem serve e quem é servido, quem pode sentar em determinado lugar e até quem recebe determinados tipos de atenção são utilizados pelo filme para mostrar essa separação. Críticos também destacaram essa construção por meio dos pequenos gestos e comportamentos dentro da casa.
26/05/2026
Como filho de uma mulher que trabalhou um bom tempo como empregada doméstica, me senti muito incomodado vendo esse filme, pois imaginei que minha mãe pode ter passado pelas situações que a Val passou durante o filme. Também como filho de empregada, achei a Jéssica muito desaforada e folgada, mas aí entra um ponto interessante: talvez, eu pense como a Val.
Eu jamais faria um terço do que a Jéssica fez, mas logo, senti simpatia pela Val.
É um filme que me deixou pensativo.
Que angústia esse filme. Me vi ali de muitas maneiras, já que também sou filha de empregada doméstica.