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Data de lançamento
4 Dez. 2023Duração
Gena, uma artista de uma pequena cidade da Rússia, veste trajes de outro mundo e protesta nas ruas de Moscou. Ela encena performances radicais em público, o que se torna uma nova forma de arte e ativismo e coloca sua vida em perigo.
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“Queendom”, dirigido por Agniia Galdanova, não é apenas um documentário sobre uma jovem artista queer em um dos ambientes mais hostis do mundo para pessoas LGBTQIA+. É uma obra que pulsa com a energia de alguém que transforma a opressão em performance, o medo em força e a rejeição em arte. Com uma narrativa que mescla o íntimo e o político, o filme nos apresenta Jenna Marvin, uma artista cuja existência já é, por si só, um ato revolucionário.
A força de “Queendom” está em como ele transforma a luta de Jenna em algo visceralmente visual. A câmera, manejada com delicadeza e precisão por Galdanova e pelo diretor de fotografia Ruslan Fedotov, captura cada detalhe das criações de Jenna – as camadas de maquiagem, os materiais improvisados e os trajes que oscilam entre o surreal e o provocativo. Cada close nos olhos de Jenna, cada textura de seus figurinos, serve não só para deslumbrar, mas para lembrar que sua arte é também um escudo contra a hostilidade que enfrenta diariamente.
A estrutura do documentário é ao mesmo tempo fluida e focada, equilibrando momentos de performance cuidadosamente elaborados com cenas cruas da vida de Jenna. Quando ela caminha pelas ruas de Moscou em trajes que desafiam normas e provocam olhares curiosos ou furiosos, sentimos o peso de sua coragem. Mas é nos momentos de silêncio, como suas interações com os avós em Magadan, que o filme revela uma vulnerabilidade ainda mais comovente. Essa dualidade – de força pública e fragilidade privada – é o que torna Jenna tão fascinante, tanto como artista quanto como personagem central.
As performances criadas para o documentário são de tirar o fôlego. Jenna não apenas representa sua realidade: ela a reimagina de formas que provocam reflexão e emoção. Em uma das cenas mais impactantes, vemos Jenna emergindo de um casulo de plástico transparente, sufocando simbolicamente enquanto luta para se libertar – um grito visual contra as camadas de repressão que a cercam. Esses momentos não são apenas artísticos: são declarações de resistência, capturando o espírito de alguém que se recusa a ser apagada.
Embora o filme celebre a criatividade de Jenna, ele também nos lembra constantemente do perigo que ela enfrenta. Seja em Moscou, onde seu trabalho provoca olhares de reprovação e a ameaça constante da polícia, ou em Magadan, uma cidade desolada marcada por sua história como gulag soviético, a presença de Jenna nunca está completamente segura. Essa tensão permeia cada cena, transformando até os momentos mais pacíficos em um lembrete do quão precária é sua existência em um país que criminaliza quem ela é.
No entanto, “Queendom” nunca recai no melodrama ou no desespero. Há uma vitalidade na forma como Galdanova conta a história de Jenna, uma celebração de sua resiliência e uma admiração pela maneira como ela enfrenta as adversidades. Mesmo quando o documentário aborda temas difíceis, como a homofobia sistêmica ou as dinâmicas familiares complicadas, ele o faz com uma sensibilidade que permite que as nuances da experiência de Jenna brilhem.
O relacionamento com seus avós é particularmente tocante. É um retrato honesto do amor e do conflito que surgem quando valores tradicionais colidem com a necessidade de liberdade pessoal. Os avós de Jenna a amam, mas não conseguem entender por que ela escolhe um caminho tão perigoso. E Jenna, por sua vez, os ama profundamente, mas não pode renunciar àquilo que a define. Esse embate é retratado com tanta honestidade que se torna impossível não se emocionar.
“Queendom” é, acima de tudo, um testemunho da coragem de criar, de existir e de desafiar as normas em um ambiente que tenta suprimir tudo o que é diferente. É um filme que nos lembra do poder transformador da arte e da força que existe em simplesmente ser quem você é, mesmo quando o mundo inteiro parece conspirar contra isso. Galdanova entrega um documentário que não só informa, mas também inspira, convidando o público a refletir sobre os limites da resistência e o que significa lutar por liberdade em todas as suas formas.
Nossa, que forte. Nascer LGBT e artista, em um dos piores países do mundo, tem de ter muita força. A opressão parental amorosa é um incomodo absurdo. Me deixa bem mal.