Em 1982 a cineasta vietnaminta (radicada nos Estados Unidos) Trinh T. Minh-ha lançou seu filme Reassemblage, onde refletiu sobre a dificuldade em se construir discursos objetivos sobre manifestações culturais.
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"What we can expect from ethnology?"
Conheci Trinh T. Min-ha a partir do livro "Documentário: ética, estética e formas de representação" do Marcius Freire, mas minha primeira experiência com o cinema etnológico de Min-ha foi com "A Quarta Dimensão", que é uma boa porta de entrada para sua filmografia. Reassemblage por mais que se trate de um média-metragem, ser controverso e renegado por muitos seguidores da interessante obra de Min-ha, é o que discursamente apresenta as ideias da diretora, sua ética fílmica, sua filosofia documentária. Para quem quer entender do zero qual é a pira de Trinh T. Min-ha, é incontornável esse documentário sobre o Senegal.
O problema é que se por um lado o discurso é até subversivo e anticonvencional ao então cinema etnológico de Jean Rouchs e Robert Flahertys da vida, na prática, o discurso não é posto em tela. O que levou muitos a apontar Reassemblage como uma contradição gritante. Uma pena, mas lembremos que este foi o quarto filme dessa ousada cineasta, após três curtas na faixa de 10 a 15 minutos, e a partir dessas experiências seu cinema foi se moldando, tanto pela estética (este aqui ainda um pouco tacanho mas também fugindo do convencional) quanto pela ética.
Algumas horas passaram-se desde a sessão, e eu continuo extremamente perturbado frente a tudo o que este filme traz à tona: mais que reflexivo, ele é incisivo e mui questionador. As perguntas que a diretora faz a si mesma (e para nós, e acerca do filme, através do filme, etc.) são implacáveis, no sentido de que constata as más intenções neo-coloniais de muito etnólogos. A montagem é magnificamente assimétrica, tanto imagética quanto sonoramente: há retornos, repetições, cortes abruptos e mistério, muito mistério. Minha mãe estava ao meu lado, e perguntava o tempo inteiro ("por que esses bichos estão mortos? O que elas estão debulhando? Quem são estas pessoas?")... Eis a intenção atingida em pleno auge, pela realizadora: perguntar-se, perguntar-nos, perguntar... Um filme constituído da e pela necessidade da crise, mui pioneiro em seus feminismo radical e demarcado pelas características do 'accented cinema'. Incomodei-me bastante durante a sessão. Tanto que temi que sequer teria coragem de escrever algo sobre este filme, com receio de ser "cancelado" (em dado momento, até pensei: "deve ser um porre ser amigo pessoal desta diretora!"), mas constatei - à medida que a genialidade da proposta fílmica foi sedimentando-se - que é exatamente isso que o filme inocula: a dúvida, o incômodo, a urgência inaceitadora... "Demorou menos de dois mil anos para que acreditássemos que somos subdesenvolvidos". De fato. Voltarei a esta obra feroz mais e mais vezes! (WPC>)
i do not wish to speak about / only to speak nearby
Esse filme me dá a impressão de um salto no vazio: diante da impossibilidade de um lugar propício para "falar sobre" sem subjugação, existe um lugar para "falar ao lado" do outro sem, por sua vez, devorá-lo pelas bordas? O nó ainda está lá: a ilusão do estar consciente da inundante onipresença da linguagem nos faz pensar que agora podemos entrar na dimensão do fazer sem mutilações – a fácil audácia de dizer: eu.
Trinh Minh-ha, com toda a brincadeira seríssima que, por meio da montagem tencionando não ser coesivo-coercitiva, faz com que percamos as expectativas em relação a um filme etnográfico, me botou pra pensar sobre essa falsa iluminação – o fogo, a luz, um tema-matéria do filme, junto ao tempo, que no caso está todo recortado –, sobre esses artifícios do desilusionante.
https://www.youtube.com/watch?v=Cc5G2-rTKis