Anna é uma mulher solitária que vive com seu cachorro Manu. Quando seu bicho de estimação morre repentinamente, Anna o enterra no quintal de uma família que vive próximo a sua casa. No entanto, diferente de Manu, a família feliz não precisa de seu afeto e amor.
Ainda que um primeiro ato inteiramente delicioso e emocionante de se acompanhar, September parece construir seu estudo de personagem do lado avesso. Penny Panayotopoulou tem em mãos uma protagonista interessante, além de uma atriz extremamente expressiva, mas a forma como sua construção se desvenda após o ~choque de realidade~, quando seu cachorro morre, e ela se vê sozinha, é praticamente impossível sentir alguma empatia com sua dor, quando a mesma se torna incompreensivelmente obsessiva por uma típica família suburbana, que a acolhe involuntariamente em seu momento de luto.
Em September, acompanhamos a história de uma solitária mulher que tem como única companhia seu cachorro. Na faixa dos trinta anos, sua vida permanece no eixo casa-trabalho, com seu fiel escudeiro sempre presente. Com a inesperada morte do cão (aos 20 minutos de filme, não é spoiler), ela fica sem rumo e encontra nos vizinhos um modelo de vida a ser seguido. Ou roubado.
O cinema tem inúmeros exemplos de personagens obcecados pela vida dos outros. É notável, porém, que a diretora grega Penny Panayotopoulou não tenha optado pelo caminho mais fácil do thiller psicológico e tenha feito em September uma bela reflexão da solidão na cidade grande.
Ana, lindamente interpretada por Kora Karvouni, demonstra uma total falta de convívio social. No restaurante onde trabalha, ela prefere almoçar sozinha para poder observar seu carro pela janela (ela deixa seu cachorro esperando dentro do veículo durante o expediente). O cão, naturalmente mais sociável, acaba conquistando o casal de filhos do vizinho de Ana, que reclama com: “Fazendo amizades, seu traidor?”.
O filme cresce com a aparição cada vez mais constante dos vizinhos. Ana tenta afugentar sua dor e solidão se enfiando no ambiente familiar invejado por ela. Essa família de margarina tem tudo: uma bela casa, um belo carro, lindos filhos e uma vida invejável.
Porém, a diretora sabe mostrar que a solidão pode estar presente mesmo rodeado de pessoas. Talvez seja por isso que a vizinha, Sophia, compadeça da dor da perda de Ana e acabe permitindo que ela se torne cada vez mais parte de sua própria família. Mesmo o marido sendo contra e ela percebendo que as reais intenções de Ana são apenas artimanhas para combater a solidão. Sophia tem uma vida perfeita, mas é complacente com a solidão de Ana por ver nela um reflexo de sua própria alma. Essa dualidade (de ser solitária com uma família perfeita) transforma Sophia na personagem mais complexa do filme. E toda sua essência foi transmitida com primor pela atriz Maria Skoula.
A direção e a fotografia auxiliam a transmitir a agonia da solidão. Ana sempre parece pequena na tela grande. Porém, existe uma cena logo após o aniversário de Ana em que ela aparece como uma gigante dentro do próprio apartamento minúsculo, o que aumenta ainda mais a opressão sentida pela personagem. O filme não é construído a base de diálogos, tendo nas emoções sua forma de conduzir.
Porém, muitas vezes essas emoções (assim como a Ana) são tímidas, imprimindo um ritmo lento acima do necessário para contar a história, chegando a ser repetitivo e cansativo em alguns momentos. O final é bobo e previsível, mas segue a linha lógica de fazer um retrato da realidade.