No final do século 19, a condessa Prizorovu é atormentada por picantes sonhos nos quais se vê transportada à Rússia pós-soviética. Ácida reflexão de Shakhnazarov sobre o rumo tomado pela restauração capitalista.
Compreendo a crítica que os realizadores constroem ao retratar a situação política e as dificuldades de viver na Rússia pós-queda da União Soviética. O filme apresenta um cenário de pobreza e escassez de oportunidades, em que a maioria da população, principalmente as mulheres, acabam perdendo a própria dignidade e sendo obrigadas a vender o próprio corpo para sobreviver, a ponto dessa realidade ser vista com normalidade.
Mas, não consigo deixar de enxergar o filme como uma desculpa para exibir a beleza da protagonista, sobretudo suas pernas. Também me incomodou a forma como a personagem parece existir apenas como uma boneca bonita e com a cabeça oca, sem profundidade ou qualquer traço de personalidade que a torne realmente interessante.
Fita russa notória no país na década de 90, esta comédia dramática densa é assinada pelo diretor, roteirista e produtor russo Karen Shakhnazarov, que completou 67 anos no último dia 08. Na semana do aniversário do cineasta vou comentar sobre alguns de seus principais filmes disponíveis em DVD no Brasil, e um deles é “Sonhos” (1993) – falei recentemente de outros dois dele, “Noite de inverno em Gagra” (1985) e “Anna Karenina: A história de Vronsky” (2017). “Sonhos” é mais uma reflexão de Shakhnazarov sobre o desmembramento da URSS, ocorrido em 1991; o filme foi gravado dois anos depois da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, composta por 15 países e que existiu por 70 anos, focando a dificuldade do povo russo quanto à restauração do modelo político-econômico do capitalismo. Por meio do humor discreto, um drama de época e devaneios da protagonista, a condessa, quando está dormindo, a obra carrega uma forte crítica social. Quando foi feito, em 1993, o país era governado por Boris Yeltsin, o primeiro presidente pós-colapso da URSS, que ficou no cargo até 1999. A população enfrentava grave crise social, passava fome diante de uma inflação absurda que chegava a 2000%, e isto aparece na história de “Sonhos” - para se ter uma ideia, o marido da personagem principal faz qualquer coisa para ganhar dinheiro, como vender fotos nuas da mulher e forçá-la a se prostituir para que membros do FMI liberem créditos para melhorar a crise no governo! Este é um filme político, crítico e muito bem escrito, a quatro mãos, pelos parceiros de velha data Karen Shakhnazarov e Aleksandr Borodyanskiy (juntos fizeram o roteiro de “Cidade zero”, “Assassinato do tzar”, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, “A filha americana”, “Tigre branco”, dentre outros). No elenco um dos maiores atores russos, Oleg Basilashvili, de “Maratona de outono” (1980) e “Cidade zero” (1988), que compõe uma figura contraditória, dificilmente de ser esquecida. Disponível em DVD pela CPC-Umes na série “Cinema Soviético”, que vem lançando desde 2015 filmes cult do cinema de lá. Está numa cópia belíssima que vale cada minuto, restaurada pela Mosfilm. POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema na Web
Compreendo a crítica que os realizadores constroem ao retratar a situação política e as dificuldades de viver na Rússia pós-queda da União Soviética. O filme apresenta um cenário de pobreza e escassez de oportunidades, em que a maioria da população, principalmente as mulheres, acabam perdendo a própria dignidade e sendo obrigadas a vender o próprio corpo para sobreviver, a ponto dessa realidade ser vista com normalidade.
Mas, não consigo deixar de enxergar o filme como uma desculpa para exibir a beleza da protagonista, sobretudo suas pernas. Também me incomodou a forma como a personagem parece existir apenas como uma boneca bonita e com a cabeça oca, sem profundidade ou qualquer traço de personalidade que a torne realmente interessante.
Assistido em 24/05/2026.
Fita russa notória no país na década de 90, esta comédia dramática densa é assinada pelo diretor, roteirista e produtor russo Karen Shakhnazarov, que completou 67 anos no último dia 08. Na semana do aniversário do cineasta vou comentar sobre alguns de seus principais filmes disponíveis em DVD no Brasil, e um deles é “Sonhos” (1993) – falei recentemente de outros dois dele, “Noite de inverno em Gagra” (1985) e “Anna Karenina: A história de Vronsky” (2017).
“Sonhos” é mais uma reflexão de Shakhnazarov sobre o desmembramento da URSS, ocorrido em 1991; o filme foi gravado dois anos depois da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, composta por 15 países e que existiu por 70 anos, focando a dificuldade do povo russo quanto à restauração do modelo político-econômico do capitalismo. Por meio do humor discreto, um drama de época e devaneios da protagonista, a condessa, quando está dormindo, a obra carrega uma forte crítica social. Quando foi feito, em 1993, o país era governado por Boris Yeltsin, o primeiro presidente pós-colapso da URSS, que ficou no cargo até 1999. A população enfrentava grave crise social, passava fome diante de uma inflação absurda que chegava a 2000%, e isto aparece na história de “Sonhos” - para se ter uma ideia, o marido da personagem principal faz qualquer coisa para ganhar dinheiro, como vender fotos nuas da mulher e forçá-la a se prostituir para que membros do FMI liberem créditos para melhorar a crise no governo!
Este é um filme político, crítico e muito bem escrito, a quatro mãos, pelos parceiros de velha data Karen Shakhnazarov e Aleksandr Borodyanskiy (juntos fizeram o roteiro de “Cidade zero”, “Assassinato do tzar”, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, “A filha americana”, “Tigre branco”, dentre outros).
No elenco um dos maiores atores russos, Oleg Basilashvili, de “Maratona de outono” (1980) e “Cidade zero” (1988), que compõe uma figura contraditória, dificilmente de ser esquecida.
Disponível em DVD pela CPC-Umes na série “Cinema Soviético”, que vem lançando desde 2015 filmes cult do cinema de lá. Está numa cópia belíssima que vale cada minuto, restaurada pela Mosfilm.
POR FELIPE BRIDA - Blog Cinema na Web