''Fique com o troco'' é o pior tipo de diálogo que você pode ter em uma história que busca ser realista e o final corrobora essa quebra de verossimilhança. A impressão que dá é que esse diretor tem uma limitação clara, ele quer falar sobre a situação dos trabalhadores, mas ele bate sempre num muro e não sai disso.
Um dia como uma odisseia. O entregador que passa despercebido enquanto tenta sobreviver àquele universo babilônico. A missão do imigrante nos EUA é sempre banal e determinadora, e Nova York se transforma numa cadeia enclausurante limitada a uma cozinha apertada e condomínios decadentes. É lindo como o Sean Baker e a Tsou Shih-Ching dominam o artificio documental para... aproximar. Puro talento.
Decidi ver (e rever) os filmes do Sean Baker em ordem cronológica antes de assistir Anora, começando por Take Out, co-dirigido por Shih-Ching Tsou, com quem ele frequentemente trabalha. E o que imediatamente chama a atenção é que o Baker está há mais de 20 anos consistentemente fazendo filmes humanistas sobre pessoas marginalizadas, sem cair na tendência horrorosa do cinismo vazio do cinema americano pós-11 de Setembro, nem na asquerosa romantização da pobreza ainda é queridinha de certas premiações.
Sem se apressar, Baker gradualmente constrói o mundo de um grupo de trabalhadores imigrantes ilegais num pequeno restaurante chinês em Nova York. Entre os espaços vazios do cotidiano imemorável, aos poucos vislumbramos seus sonhos e dores, e suas relações com seus pares e com o mundo estrangeiro que os envolta. E como em Tangerine e Projeto Flórida, a tensão da narrativa é menos fruto de uma sucessão de acontecimentos significativos, quanto justamente das situações mundanas e monótonas que se tornam sufocantes pelo contexto de vida daqueles personagens, sobretudo o contexto imediato do protagonista, num estilo quase documental pela completa casualidade das interações e aparente banalidade das cenas.
Para quem não conhece o diretor, talvez Projeto Flórida ainda seja uma introdução mais empolgante, mas para mim não há dúvidas de que Take Out é um filme essencial da sua filmografia. Não só ele se sustenta muito bem sozinho, como não deixa a desejar em termos de maturidade quando comparado aos seus trabalhos posteriores. E isso impressiona não apenas por ter sido apenas seu 2º longa e feito mais de 10 anos antes do Baker começar a furar a bolha do cinema independente com Tangerine, mas porque é um filme que só conseguiu um lançamento comercial 4 anos depois de ser exibidos em festivais na época. Em 2025, é redundante dizer que Baker cumpriu com o potencial que desde cedo prenunciava.
''Fique com o troco'' é o pior tipo de diálogo que você pode ter em uma história que busca ser realista e o final corrobora essa quebra de verossimilhança. A impressão que dá é que esse diretor tem uma limitação clara, ele quer falar sobre a situação dos trabalhadores, mas ele bate sempre num muro e não sai disso.
Um dia como uma odisseia. O entregador que passa despercebido enquanto tenta sobreviver àquele universo babilônico. A missão do imigrante nos EUA é sempre banal e determinadora, e Nova York se transforma numa cadeia enclausurante limitada a uma cozinha apertada e condomínios decadentes. É lindo como o Sean Baker e a Tsou Shih-Ching dominam o artificio documental para... aproximar. Puro talento.
às vezes a vida é uma grande merda, principalmente se vc é um imigrante pobre racializado vivendo o neoliberalismo nos Estados Unidos
Decidi ver (e rever) os filmes do Sean Baker em ordem cronológica antes de assistir Anora, começando por Take Out, co-dirigido por Shih-Ching Tsou, com quem ele frequentemente trabalha. E o que imediatamente chama a atenção é que o Baker está há mais de 20 anos consistentemente fazendo filmes humanistas sobre pessoas marginalizadas, sem cair na tendência horrorosa do cinismo vazio do cinema americano pós-11 de Setembro, nem na asquerosa romantização da pobreza ainda é queridinha de certas premiações.
Sem se apressar, Baker gradualmente constrói o mundo de um grupo de trabalhadores imigrantes ilegais num pequeno restaurante chinês em Nova York. Entre os espaços vazios do cotidiano imemorável, aos poucos vislumbramos seus sonhos e dores, e suas relações com seus pares e com o mundo estrangeiro que os envolta. E como em Tangerine e Projeto Flórida, a tensão da narrativa é menos fruto de uma sucessão de acontecimentos significativos, quanto justamente das situações mundanas e monótonas que se tornam sufocantes pelo contexto de vida daqueles personagens, sobretudo o contexto imediato do protagonista, num estilo quase documental pela completa casualidade das interações e aparente banalidade das cenas.
Para quem não conhece o diretor, talvez Projeto Flórida ainda seja uma introdução mais empolgante, mas para mim não há dúvidas de que Take Out é um filme essencial da sua filmografia. Não só ele se sustenta muito bem sozinho, como não deixa a desejar em termos de maturidade quando comparado aos seus trabalhos posteriores. E isso impressiona não apenas por ter sido apenas seu 2º longa e feito mais de 10 anos antes do Baker começar a furar a bolha do cinema independente com Tangerine, mas porque é um filme que só conseguiu um lançamento comercial 4 anos depois de ser exibidos em festivais na época. Em 2025, é redundante dizer que Baker cumpriu com o potencial que desde cedo prenunciava.
"Thank you very much." :D