The_Count

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Últimas opiniões enviadas

The_Count
6 dias atrás

Um achado obscuro da filmografia de Tod Browning, com um trabalho de restauração e trilha sonora fantásticos pela Criterion. Nem esperava tanto e me encantei. Primeiro me interessei ao ver o poster da restauração, e a curiosidade aumentou ao ver quem era o diretor, por já gostar de 3 outros dos seus filmes. Apesar disso, não esperava mais que um passatempo rápido, muito menos ser cativado como fui, por não parecer ser um filme lembrado quando se fala do seu realizador. Começa com uma trama típica de charlatanismo, com um núcleo de figuras marginais típico da filmografia do Browning, e aos poucos se transforma noutra coisa, num equilíbrio em muito permitido pelo carisma da personagem principal. Se está no mesmo nível que seus trabalhos mais conhecidos? Diria que é subjetivo, mas sinceramente pouco importa. É uma pequena preciosidade do cinema mudo e que sorte ainda estar disponível, especialmente na qualidade em que se encontra.

The_Count
1 semana atrás

Um bom filme, mas é impossível não enxergar com decepção as omissões do texto do Nelson Rodrigues e a tentativa de imitar — quase como paródia, pela monotonia — o estilo existencialista inconfundível do cinema europeu da época. Isso, sozinho, não seria exclusividade do filme, nem demérito por si só, já que o estilo foi muito influente e não só no Brasil. Ocorre que o que se perde não é só o perfil tipicamente carioca da peça, mas também a riqueza dramatúrgica da condução narrativa e das palavras do seu autor.
Há mudanças que se pode questionar se não foram limitações moralistas e políticas impostas ao cinema nacional do período, como ter suavizado a brutalidade policial, ou certamente as alterações severas na última cena; mas há outras, como a nova trama do repórter, que ficam completamente perdidas e subtraem muito do tempo que poderia ter sido dedicado às relações de Arandir com cada membro da família, e que nem por isso é uma adição que dialoga muito bem com os temas da obra.
É uma adaptação curiosa, até pensando na proximidade ao ano de lançamento da peça, e que tem seus méritos particulares — a inspiração expressionista, ainda que novamente indicativa da busca pela sensibilidade europeia, estabelece bem o estado de paranoia e vigilância social —, mas que carece do calor carioca e que nunca chega aos pés do filme de Bruno Barreto e do roteiro de Doc Comparato, para não dizer do texto original de Rodrigues.

The_Count
½
5 meses atrás

Talvez por já conhecer o contexto da produção, os limites impostos pela censura, a limitação do tempo de duração e talvez até mesmo os anos desde que li o livro, foi muito fácil ser conquistado pela narrativa dessa versão. Ainda foi estranho perder algumas das camadas temáticas do livro, pra não dizer metade da história, mas é uma adaptação inesperadamente habilidosa.

A única coisa que realmente me desagradou, em alguns momentos, foi a altura e tom da trilha sonora, aquela orquestra floreada, típica e já esperada dos melodramas da época, mas que aqui às vezes é excessiva e abafa até o uivado dos ventos, ironicamente. Logo numa das cenas iniciais e mais famosas, em que o fantasma da Cathy chama por Heathcliff, quase não dá para escutá-la por causa da trilha, e até o suspense daquele momento é atrapalhado pelo barulho. Também o monólogo mais memorável de toda obra perde um pouco da força e aquele tom confessional que tem no livro por causa da insistência dos violinos. Felizmente, à medida que a história progride, o filme vai ficando mais silencioso, e nesse espaço para respirar, também fica mais intenso e claustrofóbico.

Os atores são todos excelentes, mas é a Merle Oberon quem mais envolve pela naturalidade com que interpreta as muitas contradições da Cathy. O Heathcliff do Laurence Olivier também é ótimo, mas tem a desvantagem das limitações severas ao nível da crueldade e brutalidade que foi permitida ao personagem na Hollywood do Código Hays. Um outro destaque é uma personagem que teve seu destino original bastante alterado, justamente pela parte da obra que não foi adaptada, e que ganha um novo papel muito interessante no contexto dessa adaptação, incorporando a corrupção que o Heathcliff provoca naqueles em sua volta — assim como um dia foi provocada nele —, preservando uma conexão narrativa com o romance da Emily Brontë que algumas adaptações posteriores falhariam ou até se omitiriam de incorporar.

É dentro dessas e outras limitações que fica muito mais fácil de entender como essa versão, se não criou a crença popular de que Wuthering Heights é uma história de amor, pelo menos disseminou ela, porque além de ser uma adaptação competente, é um ótimo filme.

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