The_Count

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Últimas opiniões enviadas

The_Count
½
1 semana atrás

Talvez por já conhecer o contexto da produção, os limites impostos pela censura, a limitação do tempo de duração e talvez até mesmo os anos desde que li o livro, foi muito fácil ser conquistado pela narrativa dessa versão. Ainda foi estranho perder algumas das camadas temáticas do livro, pra não dizer metade da história, mas é uma adaptação inesperadamente habilidosa.

A única coisa que realmente me desagradou, em alguns momentos, foi a altura e tom da trilha sonora, aquela orquestra floreada, típica e já esperada dos melodramas da época, mas que aqui às vezes é excessiva e abafa até o uivado dos ventos, ironicamente. Logo numa das cenas iniciais e mais famosas, em que o fantasma da Cathy chama por Heathcliff, quase não dá para escutá-la por causa da trilha, e até o suspense daquele momento é atrapalhado pelo barulho. Também o monólogo mais memorável de toda obra perde um pouco da força e aquele tom confessional que tem no livro por causa da insistência dos violinos. Felizmente, à medida que a história progride, o filme vai ficando mais silencioso, e nesse espaço para respirar, também fica mais intenso e claustrofóbico.

Os atores são todos excelentes, mas é a Merle Oberon quem mais envolve pela naturalidade com que interpreta as muitas contradições da Cathy. O Heathcliff do Laurence Olivier também é ótimo, mas tem a desvantagem das limitações severas ao nível da crueldade e brutalidade que foi permitida ao personagem na Hollywood do Código Hays. Um outro destaque é uma personagem que teve seu destino original bastante alterado, justamente pela parte da obra que não foi adaptada, e que ganha um novo papel muito interessante no contexto dessa adaptação, incorporando a corrupção que o Heathcliff provoca naqueles em sua volta — assim como um dia foi provocada nele —, preservando uma conexão narrativa com o romance da Emily Brontë que algumas adaptações posteriores falhariam ou até se omitiriam de incorporar.

É dentro dessas e outras limitações que fica muito mais fácil de entender como essa versão, se não criou a crença popular de que Wuthering Heights é uma história de amor, pelo menos disseminou ela, porque além de ser uma adaptação competente, é um ótimo filme.

The_Count
7 meses atrás

É engraçado como o Eggers conta que sua primeira experiência com o filme do Murnau foi com uma VHS de baixa qualidade, sem qualquer som, e que ele, ainda criança, foi mesmo assim completamente hipnotizado por aquelas imagens. Engraçado, porque após anos dizendo isso, prestando reverência ao filme, anunciando a vontade de fazer sua própria versão, o que ele realiza aqui é o completo oposto da experiência que o marcou tanto.

O Nosferatu de 2024 possui diálogos enfadonhos, excessivos e exaustivamente expositivos, parecendo ansiosos para anular qualquer ambiguidade e mistério na história. A narrativa não se decide entre centrar a personagem da Ellen ou reproduzir a sequência de acontecimentos do filme de 1922, resultando numa estrutura que é pequena e superficial num nível temático, muitas vezes referenciando temas e símbolos da obra de Murnau sem intenção de desenvolvê-los ou ressignificá-los, mas também apressada, apesar das mais de 2 horas de duração, e igualmente morosa — também, mas não só pela longa duração. A trilha sonora é incessante, mas esquecível, repetitiva e apenas reafirma sonoramente a rigidez e mesmice na construção das cenas. Por fim, a beleza inegável do design de produção não basta diante de composições emocionalmente insípidas e planos mais preocupados com precisão técnica do que em evocar algo além do que (infelizmente) já é (frequentemente) verbalizado. Em Nosferatu, a famosa obsessão do diretor por fidelidade histórica na identidade visual dos seus filmes finalmente se reduz a um fetiche vazio e conservador, uma prisão autoimposta na qual ele não parece conseguir pensar o cinema para além dos elementos físicos em tela.

Eu não esperava, nem queria que o Nosferatu do Eggers fosse uma reprodução fiel da obra-prima do Murnau. Seria até contraditório esperar isso, já que o próprio filme de 1922 inova e revoluciona sua base, o livro de Bram Stoker, e assim também o fez Werner Herzog, em 1979. Eggers acerta ao não tentar reproduzir acriticamente a mesma história, mas ainda assim permanece incapaz de se desprender o suficiente de Murnau para sair da sua sombra, nem parece compreender o que torna sua obra tão grandiosa. O filme me frustrou de várias outras formas, e é especialmente difícil resistir à tentação de escrever sobre a terrível caracterização do Orlok, mas paro por aqui.

The_Count
1 ano atrás

Dos 4 filmes lançados até então, The Dream Master deveria ser o mais fraco da franquia, pois possui vários dos problemas das sequências anteriores e em maior intensidade. Entre eles, além da contradição de regras preestabelecidas, a estrutura do roteiro passa a tratar as cenas de morte como eventos mais episódicos, mais isolados do todo do filme e, assim, com menor repercussão para as outras personagens. É como se elas ocorressem apenas por causa do gênero da obra e não por uma progressão orgânica da trama, o que prejudica a tensão e o senso de urgência da narrativa. Esse é um destino comum a franquias de terror slasher, que logo se tornam meras compilações de assassinatos banais, sem foco na construção da história, coerência com filmes anteriores ou evolução da premissa básica. "4" não chega a tanto, mas sinaliza a decadência.

Apesar disso, entre intensas cafonices oitentistas, personagens unidimensionais, um estilo obviamente influenciado pelos videoclipes da MTV, e a narrativa inconsistente e pouco marcante, O Mestre dos Sonhos é improvavelmente interessante. O onirismo aqui representado é diferente dos filmes anteriores, onde as ações dentro dos sonhos, embora livres de muitas das regras da realidade, ainda seguem uma ordem cronológica para não desorientar muito o espectador. "4" se arrisca com rupturas e loopings temporais e mistura os devaneios da protagonistas com os pesadelos propriamente ditos, buscando confundir sonho e realidade num nível até então inédito nesses filmes. Não é nada muito extremo, nem tão ambicioso quanto as ideias que o Wes Craven tinha para o 4º filme (rejeitadas pelos produtores), mas é uma evolução natural da mecânica da série e muito bem vinda. E embora Alice, a nova protagonista, não seja a mais memorável dos 4 filmes, sua história é coerente com temas explorados desde o primeiro, e que portanto são parte tão essencial da franquia quanto o próprio Freddy Krueger: o fatalismo da juventude, a relação de amor e ódio com figuras de autoridade e o confronto da personagem com seu subconsciente reprimido.

Talvez mais que tudo isso, algo que afetou profundamente minha experiência foi perceber alguns paralelos entre esse filme e Twin Peaks, o que me permitiu apreciar seu tom mais caricato. A aparência e caracterização da Kristen Parker lembram Laura Palmer; o tom extremamente novelesco da narrativa, mais que intencional, é autoconsciente (a novela Dinasty é até citada por uma personagem); e há pequenas cenas e detalhes de design produção que parecem ter sido incorporados na série do Lynch, como a fita caseira mostrando Kristen/Laura num raro momento de descontração. Mesmo o primeiro filme, parando para pensar, tem suas similaridades, mas a maioria se deve aos arquétipos das personagens das duas obras e temas comuns a ambas, enquanto aqui, me surpreendeu perceber até mesmo essas similaridades visuais. Não me impressionaria descobrir que o Lynch, Frost ou outros responsáveis por Twin Peaks fossem grandes fã da franquia.

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