Data de lançamento
12 Jan. 2020Duração
A investigação de um assassinato de um garoto de 11 anos leva um policial desgastado e um investigador pouco ortodoxo a questionar tudo que acreditam quando percebem que forças sobrenaturais podem estar envolvidas no caso.
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Eu vejo The Outsider menos como uma história sobre “descobrir quem é o monstro” e mais como uma reflexão sobre o que acontece quando precisamos dar um rosto ao mal. A série trabalha o tempo inteiro com essa dificuldade, existem marcas, imagens, testemunhos, comportamentos e evidências concretas, mas nada parece suficiente para encerrar completamente o sentido daquilo que está acontecendo. Holly é interessante justamente porque não abandona os fatos quando considera o inexplicável. Ela amplia a investigação. Ela consegue observar o concreto e, ao mesmo tempo, admitir que talvez exista algo que ainda não compreendemos. Isso me fez pensar na ideia das “mil faces”, uma pessoa pode ter muitas expressões, estados e possibilidades, e nenhuma delas necessariamente esgota quem ela é. O problema começa quando transformamos uma face em identidade definitiva, ele é o monstro, ele é perigoso, ele é isso. A partir daí, a "marca" (que na serie parece fungo na pele) deixa de servir para investigação e passa a funcionar como sentença. Por isso a marca de Caim me parece tão interessante. Em Gênesis, Caim recebe um sinal depois de matar Abel, mas a marca não é uma autorização para que os outros o matem. Pelo contrário, ela funciona como uma proteção contra a vingança. Isso cria uma distinção muito forte entre reconhecer o mal praticado por alguém e transformar esse reconhecimento em licença para reproduzir a violência. E então aparece Lameque, que leva a lógica da vingança para a multiplicação, se Caim é vingado sete vezes, Lameque será vingado setenta e sete. É como se a violência desenvolvesse sua própria matemática, uma violência produz outra, que exige outra, e assim sucessivamente, como um contágio. Talvez seja por isso que "não sete, mas setenta vezes sete " possa ser entendida como uma inversão dessa matemática. Em vez de multiplicar a vingança, multiplicar a possibilidade de interrompê-la. The Outsider me fez pensar justamente nesse ponto, a violência pode continuar existindo mesmo depois que o indivíduo que a iniciou desaparece. Isso me lembrou de uma cena de uma outra série de animação que assisti recentemente, em que um assassino é morto, mas sua cabeça entra em contato com a terra, cria raízes e depois reaparece como uma árvore. A sátira é justamente que a sociedade começa a olhar para aquela nova forma e enxergar beleza, força, charme, identidade, quase esquecendo aquilo que havia sido produzido anteriormente violentamente. Achei essa imagem muito poderosa porque a morte do "criminoso, assassino"não significa necessariamente a morte da lógica que ele colocou em circulação pois a violência pode virar narrativa, a narrativa pode virar espetáculo, o espetáculo pode virar fascinação, fascinação pode virar folclore e o folclore pode manter alguma coisa viva (El Cuco). Isso também me faz pensar na relação contemporânea com o mal. Não precisamos necessariamente acreditar em "Satanás" ou em demônios (como o Satanic Panic dos anos 90) para continuar fascinados pelo mal. Podemos condená-lo moralmente e, ao mesmo tempo, consumi-lo como entretenimento, personagem, documentário, mistério, estética ou espetáculo. Não significa que toda curiosidade seja aprovação. A questão é outra, o que acontece quando a atenção que deveria compreender também começa a nutrir aquilo que observa? Sobre analogias com terra, árvores, fungos, a ruptura não precisa determinar o fruto. Mas precisamos olhar para a raiz. E é difícil. Talvez essa seja, para mim, uma das perguntas mais interessantes que ficam de The Outsider, quando combatemos aquilo que consideramos monstruoso, estamos apenas destruindo uma pessoa ou estamos realmente interrompendo as condições que permitem que aquela violência continue circulando? Porque é possível desaparecer com o monstro e continuar alimentando a sua raiz. E talvez seja justamente aí que a série deixa de ser apenas uma história sobrenatural e passa a falar sobre nós, sobre a facilidade com que procuramos um rosto para o mal, sobre o perigo de reduzir alguém a esse rosto e sobre a dificuldade muito maior de interromper a violência sem reproduzi-la.
A construção narrativa da trama é bem lenta, diga-se de passagem (e talvez esse seja o motivo para algumas pessoas não gostarem tanto). Logo no início nós temos uma ideia do que aconteceu/quem é o vilão, e isso é uma característica interessante da série. A medida que vamos conhecendo os mistérios e as explicações, nos apegamos ao que está acontecendo e é impossível não ficar vidrado. Arrisco dizer que Holly é uma das melhores personagens já criadas para a tv. Vale a pena.
A série, apesar de ser bastante arrastada em vários momentos, conseguiu me manter presa à história. A atmosfera sombria, o mistério e a constante sensação de que há algo errado fazem com que seja difícil simplesmente abandonar a série, mesmo quando o ritmo começa a pesar.
O problema, para mim, aparece principalmente do meio para o final. A história começa a se alongar demais e passa a sensação de que não está realmente saindo do lugar. Alguns acontecimentos parecem servir mais para prolongar o mistério do que para fazer a trama avançar, o que acaba tornando a série um pouco cansativa.
E, depois de toda essa construção, achei o final decepcionante.
A aparição do El Cuco não teve o impacto que eu esperava, e a maneira como tudo foi encerrado me deixou com a sensação de que a série poderia ter entregado muito mais. Depois de tantos episódios criando expectativa e construindo o mistério, esperava uma conclusão mais satisfatória.
muito boa, mas bem arrastada, confesso.
até que começa bem mais depois enrola demais. Muito para 10 episódios