Últimas opiniões enviadas
Me pareceu que a pergunta central do filme não é o que Lucy vai decidir. É: quem é o protagonista?Lucy não tem estatuto ontológico próprio. Suas inconsistências, a profissão que muda, memórias que alteram, autores que cita, não são falhas narrativas. São sintomas de que ela é uma construção do desejo de Jake, alguém que o exceda intelectualmente e ainda assim o escolha. A "compreensão absoluta" entre eles é fusão, e mesmo nesse limite, construção de intimidade possível. E a pergunta dele "em que você está pensando?" nos momentos de silêncio, não é curiosidade. É verificação "ela ainda está aqui, ainda sou compreendido?" O zelador é o núcleo do filme. Não é personagem paralelo, é Jake em sua forma mais abjeta. O homem cujo olhar já nasce suspeito, dessexualizado por decreto social, invisível por utilidade. O porão, a máquina de lavar, o macacão, uma imagística de trabalho sujo que ninguém quer ver. Jake nunca elaborou essa figura, fugiu dela, um medo de "tornar-se". E construiu ao redor dessa fuga uma casca cada vez mais sofisticada, as referências, a sensibilidade, a inteligência. Brilhante por fora, congelado por dentro. O congelamento organiza tudo. Os elementos me fizeram lembrar de Titanic, que aqui aparece como inversão, lá o sacrifício produz futuro. Em Jake, não há sacrifício nem futuro, há destino que ele não consegue recusar. Outro semblante é com o filme "O Iluminado" os dois filmes usam a casa como inconsciente externalizado e o isolamento na neve como condição para que o horror interno tome forma. Jack Torrance e Jake compartilham a mesma estrutura, o homem que se percebe "Isolado" (Zelador, no caso desse personagem é deslocado dele mesmo, figura externa para lutar) e não encontra saída. A diferença é que em Kubrick o self congelado irrompe em violência, "aqui está o Johnny". Em Kaufman ele nunca irrompe. Jake congela de vez, e ainda esse horror silencioso, sem machado e sem sangue. O carro soterrado de neve nos créditos sela isso. O "veículo" da viagem está imóvel. Ele não voltou à infância para elaborá-la. Simplesmente nunca saiu. A cena final é uma fantasia de reparação que não repara nada. Lucy na plateia aplaudindo, alocada na função que Jake sempre quis para ela. As meninas da sorveteria aplaudindo, não há elaboração da humilhação, há reversão, como uma vingança narcísica embrulhada em emoção. A mãe dele divide o palco esperando numa varanda, o núcleo mais arcaico, a cumplicidade que o filme sela sem nomear. O título permanece verdadeiro depois da cena final porque o que ele queria que acabasse não acabou, foi apenas encenado como se tivesse.
"Acabar com tudo" não é pulsão de morte. É o desejo de que aquele loop tenha uma pontuação. O que não foi simbolizado não para, repete. Jake quer que o tempo suspenso no porão, na varanda, na sorveteria, possa ser datado como passado. Para que haja um depois. Kaufman mostra que a psique pode produzir narrativas de resolução convincentes, inclusive para si mesma, que têm a forma de fechamento sem a substância. Lucy querer ir embora desde o início é isso, ela é a parte que sabe que o fechamento não virá de dentro daquele circuito passado. Kaufman não ridiculariza Jake. Trata-o com uma ternura quase cruel, porque o que ele carrega é reconhecível. Todos têm um ponto onde o tempo psíquico parou, "congelou"e a vida continuou sem avisar. O filme parece dizer "isso é patético, tudo é ridículo e também é trágico e também é você". Amei essa história.
Em O Exorcista, o verdadeiro terror não está no demônio em si, mas na experiência de conteúdos psíquicos que não conseguem ser nomeados, organizados e compartilhados dentro de um campo de sentido como se o terror fosse o choque de temporalidades psíquicas. Quando isso falha, o sofrimento deixa de ser vivido como algo próprio e passa a ser sentido como uma invasão, algo estranho que ocupa o lugar do eu. Nomear o "demônio" (o sofrimento) não elimina a dor, mas dá forma a ela, permitindo que seja atravessada, sem isso, ela permanece difusa, caótica, e pode levar a atuações ou sintomas como tentativas de dar destino ao que não encontra expressão. Nesse cenário, o terror se intensifica porque diferentes estados internos coexistem sem uma linguagem comum que os articule: Regan MacNeil encarna o excesso sem representação (a adolescência), Padre Damien Karras vive o luto e a culpa, e Chris MacNeil sustenta uma posição de sobrecarga e impotência. Sem mediação psíquica suficiente, esses estados não se integram , eles colidem. E há ainda um elemento decisivo que é o risco de quem cuida ser capturado por aquilo que afeta o outro. A cena em que Karras é provocado pelo "demônio " fazendo um ataque direcionado ao ponto mais vulnerável dele é onde quebra a neutralidade dele, ele deixa de estar na posição de quem contém e começa a ser puxado para dentro daquele estado mórbido. mostra que o sofrimento alheio pode atravessar, tocar pontos não elaborados e dissolver fronteiras internas, fazendo com que o cuidador entre no mesmo circuito que tenta conter. No fundo, o filme sugere que, quando não há recursos internos e linguagem suficientes para dar forma à experiência de sofrimento, o que é humano pode ser vivido como algo estranho, como uma "possessão " e até quem tenta ajudar precisa sustentar uma posição muito delicada para não ser engolido por isso. Vamos ver como será o novo!
O Morro dos Ventos Uivantes parece frequentemente receber má recepção contemporânea, e acho que isso é mais sobre nós (educação 🤷♀️) do que sobre a obra. Parece que esse desconforto com os personagens Heathcliff, com a Cathy também, não é com a ficção em si, é com o reconhecimento da dificuldade em certos contextos de que essas obras não sejam metabolizadas como um registro simbólico mas como "influência" para comportamentos perigosos, ou que o conteúdo mobilize de algum modo. Atualmente parece que existe o temor de que a ficção agrave patologias, incite comportamentos nocivos, então "censura" essas obras, prefere negar. Enfim, nessa versão, a personagem Nelly aparece lendo em quase todas as cenas, detalhe que condensa sua função inteira. Ela é o único personagem que exerce a função de "metabolização" numa narrativa dominada por falha de simbolização, ela recebe o impacto das cenas mais violentas, processa, contém, sem ser destruída. É o aparelho psíquico da história. E há algo tragicamente preciso nisso, ela vê, nomeia, metaboliza, e não é ouvida. Exatamente o que acontece com quem exerce essa função em sistemas familiares saturados. Heathcliff, em contraste, não lê, não narra, não elabora, ele repete. A Nelly lendo ao fundo enquanto ele irrompe é quase uma imagem do que separa os dois registros. Talvez, esses romances antigos contenham mais do que já foi conhecido.