Se em Mogli o tigre era vilão, aqui ele é lenda — e, como toda boa lenda, sobrevive mais pela aura que pela ação. The Tiger (2015) é um épico de inverno que tenta ser fábula, tragédia e filme de caça ao mesmo tempo — e acaba escorregando em sua própria neve. O filme ambiciona rugir, mas passa boa parte do tempo miando em lamento melancólico. Com um protagonista que sofre mais que pele de animal em feira colonial, The Tiger confunde dor com densidade e transforma o que poderia ser uma jornada feroz em um desfile de mágoas e má pontaria emocional.
O caçador de almas perdidas atende pelo nome de Man-duk (vivido por Choi Min-sik, o inesquecível de Oldboy), um homem quebrado pelo luto, pela ocupação japonesa e por um passado que envolve filhotes órfãos e um disparo fatal em sua própria esposa — detalhe que o filme guarda como se fosse revelação, mas que pesa no tom desde o primeiro minuto. Anos após pendurar o rifle, Man-duk vive com o filho adolescente, preso numa relação de tapas e tropeços, típica do humor coreano resmungão que tenta aliviar o drama, mas aqui só estica a duração. O garoto quer provar seu valor, conquistar uma moça e ganhar a vida como caçador — ironicamente, seguindo o mesmo rastro do pai que o queria longe desse caminho. Como se Freud tivesse caído num conto folclórico com cheiro de pólvora.
No centro da trama — ou melhor, pairando acima dela como uma força mítica — está o veloz tigre de um olho só, o “rei da montanha”. Ele não só desafia a física como desafia os humanos: é ágil, inteligente e, em certos momentos, quase carrega mais humanidade que os próprios personagens. É uma criatura com trauma, memória e até senso de justiça: matou quem devia, poupou quem quis e até entregou corpos como um carteiro do destino. A mitologia criada em torno dele é um dos pontos altos do filme, com o CGI elegante desenhando verdadeiros balés sangrentos em meio à floresta nevada. Pena que toda essa potência simbólica fica a serviço de uma história que parece mais interessada em remexer as feridas do caçador do que em nos fazer temer ou admirar o tigre.
A melancolia aqui não é um detalhe — é o DNA do filme. E isso não seria problema se a trama soubesse transmutá-la em tensão. Mas The Tiger prefere afundar no ressentimento do protagonista com o filho, no trauma não tratado, na ausência que tudo consome. Não há realmente uma estratégia engenhosa, uma armadilha épica, uma perseguição que nos deixe à beira da cadeira. Tudo é conduzido com um ar de fado: o que está destinado, será. E o que poderia ser um duelo entre homem e fera vira quase um abraço entre dois traumas ambulantes. O tigre perdeu a mãe e seus filhotes, o homem perdeu a esposa — e o espectador perdeu duas horas de adrenalina que jamais chegaram.
No fim das contas, The Tiger tenta ser muitas coisas: alegoria, fábula, drama histórico, conto de vingança, metáfora de resistência. Mas seu maior pecado talvez seja esquecer que um bom filme de caçada precisa de mais do que feridas abertas — precisa de tensão, de plano, de caça. Aqui, o caçador chora, o tigre filosofa e nós esperamos, em vão, por aquele momento em que o filme deixaria de andar em círculos no matagal e saltaria sobre nós. Não acontece. Porque, por mais que ele ruja, o que ecoa em The Tiger é o silêncio da oportunidade desperdiçada.
Não gosto de caçada. Porém o tigre de certo modo deu uma resposta a altura para os caçadores e soldados, etc. Não é fácil ser tigre e nem caçador. Confira *__*
Se em Mogli o tigre era vilão, aqui ele é lenda — e, como toda boa lenda, sobrevive mais pela aura que pela ação. The Tiger (2015) é um épico de inverno que tenta ser fábula, tragédia e filme de caça ao mesmo tempo — e acaba escorregando em sua própria neve. O filme ambiciona rugir, mas passa boa parte do tempo miando em lamento melancólico. Com um protagonista que sofre mais que pele de animal em feira colonial, The Tiger confunde dor com densidade e transforma o que poderia ser uma jornada feroz em um desfile de mágoas e má pontaria emocional.
O caçador de almas perdidas atende pelo nome de Man-duk (vivido por Choi Min-sik, o inesquecível de Oldboy), um homem quebrado pelo luto, pela ocupação japonesa e por um passado que envolve filhotes órfãos e um disparo fatal em sua própria esposa — detalhe que o filme guarda como se fosse revelação, mas que pesa no tom desde o primeiro minuto. Anos após pendurar o rifle, Man-duk vive com o filho adolescente, preso numa relação de tapas e tropeços, típica do humor coreano resmungão que tenta aliviar o drama, mas aqui só estica a duração. O garoto quer provar seu valor, conquistar uma moça e ganhar a vida como caçador — ironicamente, seguindo o mesmo rastro do pai que o queria longe desse caminho. Como se Freud tivesse caído num conto folclórico com cheiro de pólvora.
No centro da trama — ou melhor, pairando acima dela como uma força mítica — está o veloz tigre de um olho só, o “rei da montanha”. Ele não só desafia a física como desafia os humanos: é ágil, inteligente e, em certos momentos, quase carrega mais humanidade que os próprios personagens. É uma criatura com trauma, memória e até senso de justiça: matou quem devia, poupou quem quis e até entregou corpos como um carteiro do destino. A mitologia criada em torno dele é um dos pontos altos do filme, com o CGI elegante desenhando verdadeiros balés sangrentos em meio à floresta nevada. Pena que toda essa potência simbólica fica a serviço de uma história que parece mais interessada em remexer as feridas do caçador do que em nos fazer temer ou admirar o tigre.
A melancolia aqui não é um detalhe — é o DNA do filme. E isso não seria problema se a trama soubesse transmutá-la em tensão. Mas The Tiger prefere afundar no ressentimento do protagonista com o filho, no trauma não tratado, na ausência que tudo consome. Não há realmente uma estratégia engenhosa, uma armadilha épica, uma perseguição que nos deixe à beira da cadeira. Tudo é conduzido com um ar de fado: o que está destinado, será. E o que poderia ser um duelo entre homem e fera vira quase um abraço entre dois traumas ambulantes. O tigre perdeu a mãe e seus filhotes, o homem perdeu a esposa — e o espectador perdeu duas horas de adrenalina que jamais chegaram.
No fim das contas, The Tiger tenta ser muitas coisas: alegoria, fábula, drama histórico, conto de vingança, metáfora de resistência. Mas seu maior pecado talvez seja esquecer que um bom filme de caçada precisa de mais do que feridas abertas — precisa de tensão, de plano, de caça. Aqui, o caçador chora, o tigre filosofa e nós esperamos, em vão, por aquele momento em que o filme deixaria de andar em círculos no matagal e saltaria sobre nós. Não acontece. Porque, por mais que ele ruja, o que ecoa em The Tiger é o silêncio da oportunidade desperdiçada.
Que filme sensacional, isso é tudo que a Disney queria fazer mas não consegue.
Não gosto de caçada.
Porém o tigre de certo modo deu uma resposta a altura para os caçadores e soldados, etc.
Não é fácil ser tigre e nem caçador.
Confira *__*
De partir o coração :'(
Mas o filme é muito lindo!
Choi Min Sik, genial como sempre. Agora esse CGI do tigre, meu Deus do céu!!!!
Que filme lindo....