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Data de lançamento
15 Maio 2014Duração
Julho de 2012, em uma pequena cidade no norte de Mali, controlada por extremistas religiosos. Uma família tem sua rotina alterada quando um pescador mata uma de suas vacas. Ao tirar satisfação sobre o ocorrido, Kidane acaba matando o tal pescador. Tal situação o coloca no alvo da facção religiosa, já que cometera um crime imperdoável.
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Marília Mendonça: Sentimento Louco
Timbuktu mostra que, mesmo que haja alguns extremistas dentro do islamismo, eles estão longe de serem a grande maioria da população islâmica. Demostra como há sofrimentos e muitas discordâncias e muita resistência às imposições arbitrárias dos extremistas/jihadistas. Além disso, denuncia o perigo e desespero de se viver sob leis religiosas - e sob o fundamentalismo religioso. A louca é a única pessoa do filme que tem liberdade. Reserva Imovision. Em 28.07.22.
Amostras de como o extremismo religioso combinado a ignorância pode destruir uma sociedade. Gostei bastante.
Um olhar cruel sobre a condição humana.
Aprende-se muito sobre a diversidade étnica e cultural, sobre os conflitos regionais, sociais, políticos e religiosos do mundo a partir do cinema. E o cinema contemporâneo tem sido uma arma muito eficiente para desconstruir diferentes clichês a respeito dos mais variados povos, especialmente quando se tratam de povos cujo imaginário só é mobilizado por meio de guerras ou conflitos de diferentes tipos. Ter acesso a uma subjetividade mais ampla e complexa é uma das formas mais intensas de se interessar de maneira autêntica pelas gentes e pelo mundo e bons filmes são capazes de retratar essa diversidade de forma muito comovente.
Timbuktu (Abderrahmane Sissako, 2014) é um filme que se passa no Mali, na África Ocidental. No enredo, a cidade de Timbuktu é invadida por extremistas do Estado Islâmico e a população passa a sofrer perseguições e ameaças da milícia armada que ocupa a cidade, sendo forçada a adotar costumes que pouco têm a ver com os hábitos anteriormente vivenciados na comunidade. Apenas pela força bruta os terroristas conseguem o que quer, mas mesmo sob o domínio das armas há imensa resistência de uma população que já conta com poucos recursos à disposição para dotar de sentido a própria vida.
Numa cena de plena beleza poética, meninos da comunidade, proibidos de jogar futebol, utilizam a criatividade para alimentar uma partida com uma bola que existe apenas na imaginação deles. Quando a milícia aparece, eles fingem que estão fazendo exercícios. Há limites para dobrar a natureza humana, que resiste mesmo sob o implacável domínio da violência.
Nesse sentido, Timbuktu apresenta uma comunidade que nada tem a ver com cenas televisivas de pessoas enfurecidas erguendo e balançando armas jurando vingança em nome de uma figura religiosa. São apaixonadas por futebol, por música (outra cena belíssima está ligada à música) e por uma vida melhor materialmente. Uma das coisas mais marcantes e expressivas desse filme são os rostos das pessoas, rostos que não mentem, que expressam muita dor, certa resignação e uma permanente contenção de suas vidas, suprimindo sua humanidade mais profunda. O rosto denuncia.
O último filme sobre o qual escrevi, apesar de passar na Hungria, poderia se passar em qualquer lugar do mundo ocidental, pois seu tema está bem ancorado nessa região do mundo. O fanatismo religioso e os conflitos derivados dele é um tema que ocupa parte importante da cinematografia contemporânea de partes da África e da Ásia, a exemplo de filmes como Papicha (2019), a Pedra de Paciência (2014) e E Agora, Aonde Vamos? (2011). Há uma coisa em comum nesses filmes: a resistência é sobretudo de gênero, emana das mulheres. Apesar de tudo, há esperança e ela é feminina.
O mais interessante do filme é sua análise do islamismo a partir de vários pontos de vista.
Ao contrário do que é feito pelo cinema hollywoodiano, que retrata todos os muçulmanos como fundamentalistas religiosos ou terroristas (como em Sniper Americano, por exemplo), Timbuktu mostra que, mesmo que haja alguns extremistas dentro do islamismo, eles estão longe de serem a grande maioria da população islâmica. Afinal, estamos falando de uma religião que tem mais de 1,5 bilhão de fieis no mundo todo, dentre árabes, persas e outros grupos étnicos.
O filme mostra a violência do grupo extremista que tenta controlar a cidade do Mali, mas também mostra que há muitas discordâncias e muita resistência às imposições arbitrárias dos extremistas/jihadistas. Há aquele que prega o amor e a tolerância; o que questiona as razões para as novas leis, cobrando que haja motivos plausíveis para sua aplicação; e há as mulheres que não querem se submeter às novas regras e tem um entendimento menos radical da religião islâmica, como a mãe que não aceita dar a sua filha a um dos líderes jihadistas. Além disso, o filme também mostra a hipocrisia desses grupos que querem buscar uma experiência mais conservadora da religião, mas, por ser uma concepção idealizada e irreal da religião, nem eles conseguem cumprir suas próprias regras. O personagem do Abel Jafri é um que fuma às escondidas, mesmo que isso seja proibido entre eles.
Acredito que o filme realmente ajuda a entender o medo e o desespero de viver sob um controle que não admite a contradição e se guia pelas leis de uma única religião (inclusive dá para relacionarmos com o Brasil atual, onde vivemos às sombras de regras arbitrárias dos grupos neopentecostais bolsonaristas), mas também mostra para nós, habitantes de um país com uma tradição cristã ocidental, que há possibilidades diversas de entendimento e vivência do islamismo. Na minha visão, é um filme que, sobretudo, permite que sejamos pessoas menos intolerantes com o diferente.