Billy Wilder foi co-argumentista deste filme distribuído apenas quatro meses antes da chegada dos nazistas ao poder. Protagonizado por três dos maiores astros do cinema alemão do período, Lilian Harvey e Willy Fritsch, especialistas em comédias e filmes musicais. "Ein blonder Traum" conta-nos a história de dois homens, Willy I e Willy II, que se interessam pela mesma mulher, sobre um fundo que mistura a frivolidade e a angústia quanto ao dinheiro.
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Comédia estrelada pela deslumbrante e frágil Lilian Harvey, maior estrela alemã da UFA nos anos 30, e pela dupla Willy Fritsch e Willi Forst, atores de sucesso em sua época. A maior curiosidade fica por conta do roteiro, co-escrito por Billy Wilder antes de migrar para Hollywood. Não só isso, como o filme trata exatamente dessa relação entre uma artista alemã (Jou Jou, interpretada por Harvey) e o sonho de se tornar uma estrela de cinema nos E.U.A. Seu projeto nunca vai para frente, mas ela acaba sendo acolhida, para não dizer assediada, por dois limpadores de janelas (Willy I e Willy II) que vivem a disputá-la.
O roteiro de Walter Reisch e Billy Wilder brinca o tempo todo com a ideia de perseguição de sonhos e realização da felicidade em meio a uma realidade de penúria e falta de oportunidades, algo que a população alemã da época vivia realmente. Ein blonder Traum, apesar de curto para os padrões de longa (90 e poucos minutos), parece se alongar demais. Ainda assim foi um sucesso. Os números musicais são típicos do cinema alemão da época, nada de muito elaborado ou imaginativo. A sequência mais inspirada é uma representação do sonho de Jou Jou nos E.U.A., que reafirma o tom tragicômico do filme.
O final visto aos olhos de hoje é estranho, para dizer o mínimo:
Jou Jou abdica de seu sonho profissional em favor de um amor romântico incerto, enquanto um dos Willis, o mal caráter, toma o lugar dela. Ideologicamente parece ser um discurso contra a dispersão dos cidadãos de uma Alemanha em trabalho de reestruturação econômica, o que infelizmente levaria os nazistas ao poder, tendo como fundação básica a "Wehrwirtschaft" (economia de defesa). Ou seja, produção de armamentos para utilização na conquista de novos territórios. O final do filme também já contém um fio de pensamento que se tornaria basilar da idealização da mulher na Alemanha nazista: ser uma mulher fiel, voltada ao afazeres domésticos, e que se abstém de sonhos profissionais para atender a um homem que trabalharia para ela e a família. Esse mesmo tipo de conclusão é presente em outro filme da Lily, Frau am Steuer (Mulher ao Volante, 1939). Aqui já durante o regime nazista. Esse ideal da mulher do lar seria revisto quando a guerra demandou o trabalho feminino para abastecer a indústria bélica.
Numa outra curiosidade que dialoga com o filme, Harvey ainda faria alguns filmes em Hollywood antes da Segunda Guerra eclodir, mas sem obter sucesso comercial. Voltou para a Alemanha, onde acabou por criar desavença com Goebbels e o regime nazista (uma cena de Bastardos Inglórias do Tarantino brinca com isso). Ajudou perseguidos pelo regime nazista a fugir do país, sendo que ela mesma acabou por fazer o mesmo em 1939, primeiro para França, onde fez dois filmes, depois para os E.U.A., mas sem dar continuidade a carreira de atriz de cinema. A indústria de cinema a esqueceu, e ela, por sua vez, resignou-se a um estado de ex-estrela de cinema.