De mulher pra mulher: Huesera Huesera é um filme de terror de maternidade (mas não só), onde o maior vilão é a sociedade e sua estrutura opressora. Com o plano de fundo da lenda da Huesera, somos apresentados a nossa protagonista, que se esforça para corresponder ao que se espera de uma mulher na casa dos seus 30 anos, um marido e pelo menos um filho. Segundo a lenda, Huesera é uma mulher de aspecto animal que reúne ossos de animais mortos para criar um novo ser. Após reunir ossos o suficiente, por meio de cânticos ela dá vida a criatura, que sai pelo deserto e ao ser tocada pela luz da lua vira uma mulher que guia as pessoas perdidas de volta a seus caminhos. E o que vemos neste longa é uma mulher perdida. Valéria está casada com seu marido e eles estão tentando ter filhos. Sabemos disso, devido ao sexo mecânico e protocolar que a direção do filme nos mostra. Aos poucos entramos cada vez mais na vida do casal e entendemos que todos esperam que eles tenham um filho e que, talvez, seja só por isso que eles continuam tentando. A cada novo detalhe da trama vamos entendendo que Valéria não desejava e ainda não deseja ser mãe. E é a partir do momento que eles conseguem engravidar que a entidade de Huesera começa a perseguir nossa protagonista. Paralelo a perseguição da protagonista pela entidade, temos a perseguição da sociedade. Valéria é obrigada a largar seu trabalho que, mais do que um emprego, era algo que a satisfazia e a permitia criar o que ela quisesse, diferente do que seu corpo estava fazendo naquele momento. Em dado momento o médico e o marido da protagonista discutem na sua frente a necessidade de ela tomar anti-depressivos, mas ela não tem voz na escolha. Após ela engravidar, todos à sua volta, mas em especial seu marido e sua sogra, deixam de tratá-la como um indivíduo complexo e com subjetividades e passam a tratá-la apenas como um órgão capaz de gerar vida. A direção é eficiente em nos mostrar desde o começo, com a cena da grande estátua de uma santa, como a cultura cristã é opressora e ameaçadora. E mais, como ela se tornou parte do senso comum e o simples fato de questionarmos isso já nos faz parecer deslocados do padrão. Durante todo o longa, vamos acompanhando as opressões diárias que nossa protagonista sofre, tanto no texto do filme diretamente, quanto na composição das imagens que colocam nossa protagonista sempre presa ou acuada por grandes estruturas. A entidade do filme é aparentemente humana, mas se move de forma animalesca e tem partes de seu corpo quebradas, que é como se sente a personagem principal. Os sons da criatura, principalmente os estalos, remetem aos ossos da bacia de Valéria, que estão se expandindo devido a gravidez. Como em um bom filme de terror, temos aqui diversas camadas diferentes. Uma entidade aterrorizante baseada em uma lenda do norte do México, somada a direção extremamente competente e feminina, o que nessa história faz total diferença, nos mostrando o terror corporal que é gerar um outro ser dentro de você, e temos a sociedade e sua forma de opressão quase invisível, mas maior do que a santa que vemos no começo do filme.
Em O Homem de Palha, de 1973, somos apresentados a um homem padrão da Inglaterra daquela época, um país oficialmente cristão. Acompanhamos o sargento Howie que vai até uma ilha isolada na Escócia investigar o desaparecimento de uma jovem. Seguimos, desde o início da exibição, o sargento da polícia chegando à ilha e vamos descobrindo junto a ele como funciona aquele ecossistema. Essa escolha de nos colocar junto ao investigador, nos faz sentir, assim como ele, a estranheza daquela cultura. A cada passo naquela sociedade vamos imergindo em suas crenças e duas coisas vão ficando cada vez mais claras; a primeira, a diferença de crenças e de compreensão de mundo daquele povo em relação ao nosso protagonista cristão; em segundo, a total falta de apoio daquela sociedade que, por vezes, parece até estar se divertindo ao enganar o sargento. As escolhas estéticas do filme, para retratar aquela sociedade ficcional, são um deleite a parte e influenciaram e influenciam o cinema até hoje, principalmente quando falamos do sub gênero do terror do qual esse filme faz parte, o Folk Horror. A cena onde aparecem as máscaras de animais, possui uma coreografia que ao mesmo tempo que forma uma linda composição visual, é aterrorizante. O filme é muito competente na forma com a qual nos apresenta a investigação do protagonista sobre o desaparecimento da jovem. Estamos sempre na mesma página do sargento. E uma cena, para exemplificar, vemos que falta um quadro na parede e isso nos desperta a desconfiança de que aquelas pessoas estão mentindo. Logo em seguida nosso protagonista verbaliza exatamente isso, o que nos faz se sentir parte da investigação. Mas o mais cativante do filme é como ele confronta as duas visões de mundo que nos são apresentadas. Hora pelo preconceito e até destempero com o qual o protagonista lida com crenças diferentes da sua, hora pela condescendência com a qual os moradores da ilha tratam o investigador, quase como se ele fosse uma criança que se mantém fiel às suas crenças apenas por ainda não ter amadurecido e conhecido o mundo tal qual ele realmente é. As canções folclóricas criadas para o filme, além de parecerem músicas antigas reais, nos contam mais, de forma lúdica e até infantil, sobre a formação daquela sociedade. Inclusive, as crianças estão imersas e têm papel importante na continuidade, tanto da trama quanto daquela cultura. Esta obra prima do terror, além de sua incalculável influência para o cinema como um todo, devido principalmente a sua estética original, também nos apresenta uma forte crítica ao cristianismo enquanto estrutura. Isso porque durante todo o filme vemos um homem que se recusa a legitimar qualquer crença que seja diferente da sua, chegando ao ponto de destruir uma lápide que seguia as crenças dos locais e colocar uma cruz em seu lugar. Qualquer similaridade com a forma como os cristãos atuais são preconceituosos, narcisistas e desrespeitosos com tudo que se difere de suas crenças pessoais, não é coincidência.
Relaxa, senão não encaixa. Vamos falar sobre Tetris. O filme de 2023 se passa durante a guerra fria, mas poderia muito bem ter sido produzido naquela época. O conflito do filme é um homem indo atrás do “sonho americano”, enquanto seu antagonista é a burocracia estatal sangue-suga do governo socialista da União Soviética. Claro que isso é um resumo a grosso modo, já que o filme também tem outras facetas, tais como usar pixel arte em alguns momentos, para nos remeter a nostalgia dos jogos antigos de video game, ou mostrar com uma aura quase santa o primeiro GameBoy, da Nintendo, ou até mesmo nos lembrar que o homem virtuoso deve deixar sua mulher e suas filhas de lado para ir atrás do sucesso na carreira. A direção nos entrega um filme ágil e por vezes engraçado. Fórmula já conhecida de outros filmes bem sucedidos que nos vendem a ideia de empreendedorismo, sendo o primeiro que nos vem à mente: A Rede Social. Porém, se no filme ganhador do Oscar o protagonista, Mark Zuckerberg, é retratado com tons de cinza, aqui só existem virtudes no homem que vai atrás de sua ambição empreendedora. O maniqueísmo do filme fica claro quando o personagem principal chega à União Soviética para negociar os direitos do Tetris para a Nintendo. As locações escolhidas são todas feitas digitalmente. Isso porque, seria impossível achar um lugar real que fosse tão cinza, quadrado e sem vida. A arquitetura existente proveniente de experiências socialistas jamais dariam conta da representação esperada pelos produtores do filme. E por falar nos produtores, voltaremos a um deles em específico mais a frente. Apesar de o protagonista, nascido nos EUA e que vive no japão, estar sempre prestes a perder tudo se seu novo empreendimento não der certo, é só quando chegamos a União Soviética que o diretor nos mostra na tela pessoas passando fome. E é óbvio que isso não é despropositado. A direção é competente em criar urgência e dar um bom ritmo para um filme que, no fim das contas, é só sobre assinar contratos. Mas para isso o diretor escolheu mostrar os funcionários públicos que desbarataram um caso de roubo de propriedade intelectual e corrupção, como personagens do Scooby Doo que correm de uma lado para o outro e entram e saem das portas de um corredor metafísico. E seu sucesso não vem do intrincado esquema de negociação e sim da ajuda vinda do personagem principal, o salvador. Em uma sequência do filme o protagonista vira para o criador do Tetris e diz: se você criou o jogo e os lucros ficam todos para a empresa (que naquele contexto é uma estatal), isso é roubo!, no que o criador do jogo responde: não, é comunismo. Qualquer pessoa que já trabalhou em uma empresa sob o capitalismo sabe que no seu contrato está escrito que toda propriedade intelectual criada dentro da empresa é de propriedade da empresa, e não do empregado. Se você acha que esse filme é uma inofensiva peça de entretenimento baseado na história, saiba que um dos produtores do filme é o bilionário Len Blavatnik, uma das 50 pessoas mais ricas do mundo, segundo a Forbes, que nos últimos anos vem usando sua fortuna para disseminar sua ideologia por meio de culturas de massas. Ele é dono da Warner Music e produtor de diversos filmes de Hollywood, além de ter feito generosas doações para eleição do político, empresário e investigado pela justiça Donald Trump. Não podemos ser ingênuos de achar que um dos homens mais ricos do mundo faz isso sem interesse, até porque, ninguém ganha mais com a manutenção do sistema atual, do que quem está mais no topo. E é por isso que para mim Tetris é como um sonho de valsa. A cobertura de chocolate é a nostalgia, a camada fininha e quebradiça de biscoito é o drama histórico e a maior parte, o seu recheio, é propaganda ideológica.
Bebeu água? Tá com sede? Olha olha olha olha o estado liberal, estado liberal… No início de Sede Assassina somos apresentados a uma cidade ameaçadora e de cabeça pra baixo e as coisas parecem se acertar após sermos jogados em diversas cenas de assassinato, quando em meio ao sons de fogos de artifício do reveillon, mais um atirador em massa ataca nos EUA. A direção é muito competente ao nos colocar nas cenas dos crimes criando um clima tenso logo no início do filme. O ritmo ágil da narrativa não deixa a sensação de urgência cessar até o filme chegar em seu terço final. A investigação é dinâmica e a caçada de um indivíduo perigoso nos é mostrada como se realmente cada minuto contasse. O roteiro desenvolve muito bem os personagens e cada diálogo, ou silêncio, contribui para que tenhamos mais informações sobre cada um deles. A construção da investigação também é muito rica e o filme escolhe tomar um rumo mais realista, onde o foco é nas dificuldades de uma investigação real, como procurar pistas no lixo ou ter que despender tanto ou mais energia com política e a mídia, do que com a própria investigação policial. Sede Assassina se difere bastante dos demais filmes de suspense estadunidenses, principalmente por sua temática que critica duramente a cultura dos EUA. O cineasta argentino, que também assina o roteiro, além de criticar o modelo de vida americano, tido nos filmes em geral como o padrão global a ser alcançado, também traz como tema principal o estrago coletivo que a cultura armamentista liberal causa na formação da sociedade norte-americana, incluindo em seu texto o impacto disso na formação das crianças. A personagem principal, mais uma vítima adoecida pelo sistema, talvez seja o ponto mais baixo do filme. Apesar de sua construção ser muito eficaz, sem cair na exploração sensacionalista de seu sofrimento, sua jornada estereotípica de “a escolhida” difere do tom mais realista que o filme aborda no geral, e parece estar ali para tornar o filme mais tradicional e, consequentemente, mais palatável ao público do país onde foi produzido, os EUA. Em seu fechamento, o filme nos mostra que apesar de uma batalha ter sido vencida, o sistema que alimenta a guerra continua o mesmo, quando a protagonista cruza a cidade cercada por marcas de luxo até chegar ao prédio do FBI. Se nos filmes de suspense dos anos 90 e 2000, o inimigo era um serial killer, hoje ele é um assassino em massa. E esse dois fenômenos sociais são quase que exclusivamente vistos nos EUA. E o que o filme propõe é que a causa disso é a mesma cultura que nos vendem o tempo inteiro como modelo. Nesse já clássico suspense de 2023, do mesmo diretor de Relatos Selvagens, temos um filme com uma busca por um assassino, como em Seven, com a relação de mentor e aprendiz como Clarice e Hannibal em O Silêncio dos Inocentes, mas o verdadeiro inimigo é o estado liberal burguês dos EUA.
Fechou com chave de ouro. Já tava ficando chato, mas esse filme fechou bem a série. E quando digo fechou, quero dizer fechou, exatamente fechou. O final é foda. Aconselho correm pro cinema e curtirem a experiência 3D, ela muda completamente a experiência. Bom filme!
Não desejo nem ao meu pior inimigo. Nem que ele mate cruelmente todos meus familiares. Tá, aí é exagero. Mas somente neste caso, se não, não assistam de forma alguma.
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Huesera
3.0 70 Assista AgoraDe mulher pra mulher: Huesera
Huesera é um filme de terror de maternidade (mas não só), onde o maior vilão é a sociedade e sua estrutura opressora. Com o plano de fundo da lenda da Huesera, somos apresentados a nossa protagonista, que se esforça para corresponder ao que se espera de uma mulher na casa dos seus 30 anos, um marido e pelo menos um filho.
Segundo a lenda, Huesera é uma mulher de aspecto animal que reúne ossos de animais mortos para criar um novo ser. Após reunir ossos o suficiente, por meio de cânticos ela dá vida a criatura, que sai pelo deserto e ao ser tocada pela luz da lua vira uma mulher que guia as pessoas perdidas de volta a seus caminhos. E o que vemos neste longa é uma mulher perdida.
Valéria está casada com seu marido e eles estão tentando ter filhos. Sabemos disso, devido ao sexo mecânico e protocolar que a direção do filme nos mostra. Aos poucos entramos cada vez mais na vida do casal e entendemos que todos esperam que eles tenham um filho e que, talvez, seja só por isso que eles continuam tentando. A cada novo detalhe da trama vamos entendendo que Valéria não desejava e ainda não deseja ser mãe. E é a partir do momento que eles conseguem engravidar que a entidade de Huesera começa a perseguir nossa protagonista.
Paralelo a perseguição da protagonista pela entidade, temos a perseguição da sociedade. Valéria é obrigada a largar seu trabalho que, mais do que um emprego, era algo que a satisfazia e a permitia criar o que ela quisesse, diferente do que seu corpo estava fazendo naquele momento. Em dado momento o médico e o marido da protagonista discutem na sua frente a necessidade de ela tomar anti-depressivos, mas ela não tem voz na escolha. Após ela engravidar, todos à sua volta, mas em especial seu marido e sua sogra, deixam de tratá-la como um indivíduo complexo e com subjetividades e passam a tratá-la apenas como um órgão capaz de gerar vida.
A direção é eficiente em nos mostrar desde o começo, com a cena da grande estátua de uma santa, como a cultura cristã é opressora e ameaçadora. E mais, como ela se tornou parte do senso comum e o simples fato de questionarmos isso já nos faz parecer deslocados do padrão.
Durante todo o longa, vamos acompanhando as opressões diárias que nossa protagonista sofre, tanto no texto do filme diretamente, quanto na composição das imagens que colocam nossa protagonista sempre presa ou acuada por grandes estruturas.
A entidade do filme é aparentemente humana, mas se move de forma animalesca e tem partes de seu corpo quebradas, que é como se sente a personagem principal. Os sons da criatura, principalmente os estalos, remetem aos ossos da bacia de Valéria, que estão se expandindo devido a gravidez.
Como em um bom filme de terror, temos aqui diversas camadas diferentes. Uma entidade aterrorizante baseada em uma lenda do norte do México, somada a direção extremamente competente e feminina, o que nessa história faz total diferença, nos mostrando o terror corporal que é gerar um outro ser dentro de você, e temos a sociedade e sua forma de opressão quase invisível, mas maior do que a santa que vemos no começo do filme.
O Homem de Palha
4.0 536 Assista AgoraO Homem de Palha não é um sacrifício.
Em O Homem de Palha, de 1973, somos apresentados a um homem padrão da Inglaterra daquela época, um país oficialmente cristão. Acompanhamos o sargento Howie que vai até uma ilha isolada na Escócia investigar o desaparecimento de uma jovem.
Seguimos, desde o início da exibição, o sargento da polícia chegando à ilha e vamos descobrindo junto a ele como funciona aquele ecossistema. Essa escolha de nos colocar junto ao investigador, nos faz sentir, assim como ele, a estranheza daquela cultura.
A cada passo naquela sociedade vamos imergindo em suas crenças e duas coisas vão ficando cada vez mais claras; a primeira, a diferença de crenças e de compreensão de mundo daquele povo em relação ao nosso protagonista cristão; em segundo, a total falta de apoio daquela sociedade que, por vezes, parece até estar se divertindo ao enganar o sargento.
As escolhas estéticas do filme, para retratar aquela sociedade ficcional, são um deleite a parte e influenciaram e influenciam o cinema até hoje, principalmente quando falamos do sub gênero do terror do qual esse filme faz parte, o Folk Horror. A cena onde aparecem as máscaras de animais, possui uma coreografia que ao mesmo tempo que forma uma linda composição visual, é aterrorizante.
O filme é muito competente na forma com a qual nos apresenta a investigação do protagonista sobre o desaparecimento da jovem. Estamos sempre na mesma página do sargento. E uma cena, para exemplificar, vemos que falta um quadro na parede e isso nos desperta a desconfiança de que aquelas pessoas estão mentindo. Logo em seguida nosso protagonista verbaliza exatamente isso, o que nos faz se sentir parte da investigação.
Mas o mais cativante do filme é como ele confronta as duas visões de mundo que nos são apresentadas. Hora pelo preconceito e até destempero com o qual o protagonista lida com crenças diferentes da sua, hora pela condescendência com a qual os moradores da ilha tratam o investigador, quase como se ele fosse uma criança que se mantém fiel às suas crenças apenas por ainda não ter amadurecido e conhecido o mundo tal qual ele realmente é.
As canções folclóricas criadas para o filme, além de parecerem músicas antigas reais, nos contam mais, de forma lúdica e até infantil, sobre a formação daquela sociedade. Inclusive, as crianças estão imersas e têm papel importante na continuidade, tanto da trama quanto daquela cultura.
Esta obra prima do terror, além de sua incalculável influência para o cinema como um todo, devido principalmente a sua estética original, também nos apresenta uma forte crítica ao cristianismo enquanto estrutura. Isso porque durante todo o filme vemos um homem que se recusa a legitimar qualquer crença que seja diferente da sua, chegando ao ponto de destruir uma lápide que seguia as crenças dos locais e colocar uma cruz em seu lugar.
Qualquer similaridade com a forma como os cristãos atuais são preconceituosos, narcisistas e desrespeitosos com tudo que se difere de suas crenças pessoais, não é coincidência.
Tetris
3.8 204 Assista AgoraRelaxa, senão não encaixa. Vamos falar sobre Tetris.
O filme de 2023 se passa durante a guerra fria, mas poderia muito bem ter sido produzido naquela época.
O conflito do filme é um homem indo atrás do “sonho americano”, enquanto seu antagonista é a burocracia estatal sangue-suga do governo socialista da União Soviética.
Claro que isso é um resumo a grosso modo, já que o filme também tem outras facetas, tais como usar pixel arte em alguns momentos, para nos remeter a nostalgia dos jogos antigos de video game, ou mostrar com uma aura quase santa o primeiro GameBoy, da Nintendo, ou até mesmo nos lembrar que o homem virtuoso deve deixar sua mulher e suas filhas de lado para ir atrás do sucesso na carreira.
A direção nos entrega um filme ágil e por vezes engraçado. Fórmula já conhecida de outros filmes bem sucedidos que nos vendem a ideia de empreendedorismo, sendo o primeiro que nos vem à mente: A Rede Social. Porém, se no filme ganhador do Oscar o protagonista, Mark Zuckerberg, é retratado com tons de cinza, aqui só existem virtudes no homem que vai atrás de sua ambição empreendedora.
O maniqueísmo do filme fica claro quando o personagem principal chega à União Soviética para negociar os direitos do Tetris para a Nintendo. As locações escolhidas são todas feitas digitalmente. Isso porque, seria impossível achar um lugar real que fosse tão cinza, quadrado e sem vida. A arquitetura existente proveniente de experiências socialistas jamais dariam conta da representação esperada pelos produtores do filme. E por falar nos produtores, voltaremos a um deles em específico mais a frente.
Apesar de o protagonista, nascido nos EUA e que vive no japão, estar sempre prestes a perder tudo se seu novo empreendimento não der certo, é só quando chegamos a União Soviética que o diretor nos mostra na tela pessoas passando fome. E é óbvio que isso não é despropositado.
A direção é competente em criar urgência e dar um bom ritmo para um filme que, no fim das contas, é só sobre assinar contratos. Mas para isso o diretor escolheu mostrar os funcionários públicos que desbarataram um caso de roubo de propriedade intelectual e corrupção, como personagens do Scooby Doo que correm de uma lado para o outro e entram e saem das portas de um corredor metafísico. E seu sucesso não vem do intrincado esquema de negociação e sim da ajuda vinda do personagem principal, o salvador.
Em uma sequência do filme o protagonista vira para o criador do Tetris e diz: se você criou o jogo e os lucros ficam todos para a empresa (que naquele contexto é uma estatal), isso é roubo!, no que o criador do jogo responde: não, é comunismo.
Qualquer pessoa que já trabalhou em uma empresa sob o capitalismo sabe que no seu contrato está escrito que toda propriedade intelectual criada dentro da empresa é de propriedade da empresa, e não do empregado.
Se você acha que esse filme é uma inofensiva peça de entretenimento baseado na história, saiba que um dos produtores do filme é o bilionário Len Blavatnik, uma das 50 pessoas mais ricas do mundo, segundo a Forbes, que nos últimos anos vem usando sua fortuna para disseminar sua ideologia por meio de culturas de massas. Ele é dono da Warner Music e produtor de diversos filmes de Hollywood, além de ter feito generosas doações para eleição do político, empresário e investigado pela justiça Donald Trump.
Não podemos ser ingênuos de achar que um dos homens mais ricos do mundo faz isso sem interesse, até porque, ninguém ganha mais com a manutenção do sistema atual, do que quem está mais no topo.
E é por isso que para mim Tetris é como um sonho de valsa.
A cobertura de chocolate é a nostalgia, a camada fininha e quebradiça de biscoito é o drama histórico e a maior parte, o seu recheio, é propaganda ideológica.
Sede Assassina
3.3 193 Assista AgoraBebeu água? Tá com sede? Olha olha olha olha o estado liberal, estado liberal…
No início de Sede Assassina somos apresentados a uma cidade ameaçadora e de cabeça pra baixo e as coisas parecem se acertar após sermos jogados em diversas cenas de assassinato, quando em meio ao sons de fogos de artifício do reveillon, mais um atirador em massa ataca nos EUA.
A direção é muito competente ao nos colocar nas cenas dos crimes criando um clima tenso logo no início do filme. O ritmo ágil da narrativa não deixa a sensação de urgência cessar até o filme chegar em seu terço final. A investigação é dinâmica e a caçada de um indivíduo perigoso nos é mostrada como se realmente cada minuto contasse.
O roteiro desenvolve muito bem os personagens e cada diálogo, ou silêncio, contribui para que tenhamos mais informações sobre cada um deles. A construção da investigação também é muito rica e o filme escolhe tomar um rumo mais realista, onde o foco é nas dificuldades de uma investigação real, como procurar pistas no lixo ou ter que despender tanto ou mais energia com política e a mídia, do que com a própria investigação policial.
Sede Assassina se difere bastante dos demais filmes de suspense estadunidenses, principalmente por sua temática que critica duramente a cultura dos EUA. O cineasta argentino, que também assina o roteiro, além de criticar o modelo de vida americano, tido nos filmes em geral como o padrão global a ser alcançado, também traz como tema principal o estrago coletivo que a cultura armamentista liberal causa na formação da sociedade norte-americana, incluindo em seu texto o impacto disso na formação das crianças.
A personagem principal, mais uma vítima adoecida pelo sistema, talvez seja o ponto mais baixo do filme. Apesar de sua construção ser muito eficaz, sem cair na exploração sensacionalista de seu sofrimento, sua jornada estereotípica de “a escolhida” difere do tom mais realista que o filme aborda no geral, e parece estar ali para tornar o filme mais tradicional e, consequentemente, mais palatável ao público do país onde foi produzido, os EUA.
Em seu fechamento, o filme nos mostra que apesar de uma batalha ter sido vencida, o sistema que alimenta a guerra continua o mesmo, quando a protagonista cruza a cidade cercada por marcas de luxo até chegar ao prédio do FBI.
Se nos filmes de suspense dos anos 90 e 2000, o inimigo era um serial killer, hoje ele é um assassino em massa. E esse dois fenômenos sociais são quase que exclusivamente vistos nos EUA. E o que o filme propõe é que a causa disso é a mesma cultura que nos vendem o tempo inteiro como modelo.
Nesse já clássico suspense de 2023, do mesmo diretor de Relatos Selvagens, temos um filme com uma busca por um assassino, como em Seven, com a relação de mentor e aprendiz como Clarice e Hannibal em O Silêncio dos Inocentes, mas o verdadeiro inimigo é o estado liberal burguês dos EUA.
Precisamos Falar Sobre o Kevin
4.1 4,3K Assista AgoraO livro é tão bom que não quero ver o filme.
Premonição 5
2.9 2,2K Assista AgoraFechou com chave de ouro. Já tava ficando chato, mas esse filme fechou bem a série. E quando digo fechou, quero dizer fechou, exatamente fechou. O final é foda. Aconselho correm pro cinema e curtirem a experiência 3D, ela muda completamente a experiência. Bom filme!
Advogado do Diabo
4.0 1,5K Assista AgoraMenos é mais. Faltou isso pra ser um filme perfeito. Pra que aquela transformação do reporter p/ Devil ??? Desnecessário.
Mistério da Rua 7
2.0 964Não desejo nem ao meu pior inimigo. Nem que ele mate cruelmente todos meus familiares. Tá, aí é exagero. Mas somente neste caso, se não, não assistam de forma alguma.