Dragon Ball Daima foi um presente de despedida que Akira Toriyama deixou para seus fãs. E apesar de ter trabalhado em todo o conceito, história, designs, infelizmente faleceu antes de sua estreia, então Daima, quando lançou, tornou-se também uma homenagem póstuma ao seu criador, honrando seu legado. Está aqui toda a essência de Dragon Ball, especialmente daquele comecinho antes da fase Z.
O gimmick de transformar os personagens adultos em crianças acaba funcionando muito por mimetizar o estilo e o espírito dos primórdios da franquia. E a aventura toda explorando o mundo dos demônios é uma clássica aventura de RPG ou, melhor ainda, um J-RPG nos moldes de Dragon Quest, outro filhote de Toriyama.
Acaba que o desenvolvimento se apressa demais a partir de certo ponto e adoraria que a gente pudesse ter curtido com mais calma esse passeio por um mundinho tão divertido e interessante. Mas amo a simplicidade, a pureza, o humor, a inocência, os personagens e inimigos que são sempre um pouco bobos demais, mas não no mal sentido, pois a vibe está de acordo.
Daima, o rei demônio, Majin-Doo e Manjin-Kuu nunca foram pra se levar a sério de verdade. Daima é como comer doce em talheres de plástico meio arredondados e sem corte, conceitualmente pensado assim. Não há o gravitas da fase Z porque não era pra ter mesmo. Fiquei com um sorriso no rosto durante todos os episódios. Valeu, Toriyama. Descanse em paz.
O preço, talvez alto demais, para se curtir o ótimo plot, com uma rica construção de mundo, flashbacks fantásticos, inúmeros momentos super divertidos, cenas memoráveis de vários personagens e a entrega de um dos melhores vilões de todo o anime, é o ritmo completamente podre que Dressrosa possui em sua versão animada. A crítica mais geral que fazem a One Piece como um todo, nem sempre de maneira justa, aqui meio que se confirma, porque cerca de 100 episódios para os já exagerados 100 capítulos do mangá ficou realmente uma coisa sofrível em termos de compasso da progressão da história, que parece não andar, o que se agrava e muito com o uso exagerado de recapitulações mais para o final. Sem falar no reset que o arco sofre quando já parecia a ponto de se encerrar a partir da contagem regressiva da gaiola de cordas, mas isso já vem do mangá. Ainda assim, o saldo do espectador paciente/obcecado termina positivo pelos motivos que eu disse, pela genialidade do Oda, apesar de seu “problema” de não saber quando parar e apesar da Toei.
One Piece no pós-timeskip se torna uma série muito mais articulada e amarrada, mais linear até certo ponto, apesar do espaço que é dado para o aleatório, imprevisível, aventuresco. Esse espaço existe, os desvios de rota que vão aparecer principalmente dentro de cada arco e ali em Whole Cake, mas os objetivos são mais claros do que eram no início da jornada dos chapéus de palha, quando a tripulação ainda estava se formando, até Thriller Bark pelo menos, antes da arquitetura épica de Oda vir à tona, sair das sombras dos entre-arcos e foreshadows, e culminar na Guerra dos Melhores. Após a Guerra e ultrapassada a fronteira da Ilha dos Homem-Peixe, a partir da entrada no Novo Mundo e da formação da aliança pirata entre Luffy e Law em Punk Hazard para desmantelar o império de Kaidou, uma ilha puxa a outra e um inimigo leva ao outro muito naturalmente, até Wano. Dentro dessa estrutura narrativa, Dressrosa e a derrocada de Doflamingo e da família Donquixote, somadas à formação da Grande Frota dos Chapéus de Palha, representam tanta, mas tanta coisa, que não tinha mesmo como ser feita sem essa pompa e circunstância, lentidão, grandiosidade exaustiva. O leitor do mangá e mais ainda o espectador do anime sente pra cacete a duração do arco, mas é, repito, o preço a se pagar pelas catarses criadas pelo mestre Oda.
Precisamos das lutas intermináveis no Coliseu para nos afeiçoarmos aos personagens dos gladiadores, em especial à Rebeca (ótima personagem com um péssimo figurino), termos a reintrodução de Sabo, a troca dos Lucys e a continuidade do legado da Mera Mera no mi da forma mais digna possível. A partir da fragmentação dos mugiwaras e da fragmentação narrativa extrema que fazem as um zilhão de coisas acontecendo simultaneamente em um único dia parecerem durar uma vida inteira, uma eternidade, geramos GOD USOPP entre os Tontattas, a hilariante troca entre os machos Franky e Senor Pink (outro personagem de aspecto ridículo que tem um momento inacreditável de fazer chorar), Zoro vs Pika (cuja piada com a voz tem um punch muito MUITO bom), Luffy e Law contra Doffy. Aliás, Law passa tanto tempo amarrado com kairouseki e sendo carregado pra lá e pra cá que o uso de suas habilidades no final é surpreendente e acachapante, assim como a revelação de seu passado e a ressignificação do Coração símbolo do bando desse supernova descolado. E que personagem incrível é o Donquixote “Corazon” Rosinante e que puta vilão desprezível é seu irmão Demônio-Celestial, “Joker”, mestre das marionetes, Mingo, Doffy, Donquixote Doflamingo. Os flashbacks do arco entregam tudo e mais um pouco na construção de Law, dos irmãos Donquixote, além da tragédia de Kyrus, Scarlet, Riku, Rebecca e da população de Dressrosa.
E esses são apenas alguns momentos elencados de tantos outros de um arco que tem muito valor em suas entregas grandiosas, mas que possui também detalhes menores super interessantes, coloridos, divertidos, saborosos. O cenário é muito inspirado: meio flamenco, mas com um coliseu romano ali no meio, misturado com um pouco de conto de fadas pelos brinquedos e pelos Tontattas (com um twist super sombrio). Aí a geografia da ilha e do país vira de cabeça pra baixo a partir da segunda metade com a gaiola e os ataques de Pika. Passeando pra cima e pra baixo nessa topografia flutuante, o elenco de coadjuvantes exclusivos do arco é realmente carismático, único e com gags e individualidades e dinâmicas muito legais. Bartolomeu e Cavendish. Don Jin Jao, Sai e Baby Five. A família Donquixote é muito eficaz em ser um puta pé no saco, uns nojentos asquerosos às vezes divertidos. E não podemos esquecer do segundo melhor Almirante da Marinha que é apresentado aqui. Fujitora, desde ser cego, um tio do jogo do bicho e com convicções fortes, até o seu poder apelão pra cacete é ele todo muito, muito massa.
Então, com tanta coisa positiva assim, nem a Toei e um passo de tartaruga conseguem estragar o arco. Ele tem uma carinha cansada de um anime preso numa lógica de produção de massa, que se beneficiaria muito de um formato diferente mais enxuto e bem acabado (e o remake vem aí!), mas colore os desenhos do manga, dá voz aos personagens, usa bem sua trilha-sonora e replica a emoção e a diversão das páginas na tela. Abusa de recapitulações e reaproveitamento de cenas? Sim, mas paciência. Acho melhor termos uma adaptação imperfeita que ajuda a propagar a palavra de Oda e ainda ganharmos de brinde umas musiquinhas de abertura legais e algumas cenas bem dirigidas (final de Wano e Egghead tão logo aí!) do que nada.
Hunter x hunter é e sempre foi uma obra sobre jogos, sistemas fechados de regras aos quais os personagens/jogadores precisam se submeter para progredir em seus arcos. Seja no exame hunter, na torre Celestial, no leilão de YorkShin ou aqui na ilha da Cobiça, o estágio mais avançado nessa sequência de cenários, o mais sofisticado e complexo até então, a jornada de Gon e Kilua se define pela leitura que eles vão refinando sobre os jogos, com as suas possibilidades de brechas, apostas, blefes. O autor não se trai nessa lógica de construção de mundo e a cada arco testa a própria criatividade com a sua capacidade de inventar, torcer e esmiuçar seus sistemas. Se não fosse tão bom mangaká, Togashi com certeza seria um excelente game designer.
Mas ainda bem que ele faz o que faz porque, além da narrativa se adequar ao formato shonen jump (Gon sendo o Goku da vez para propagar sua inocência e a mensagem do poder da amizade, lindamente desenvolvida sobretudo através da relação dele com Kilua), os bonecos são genuinamente muito legais, extrapolam a função de meros avatares do espectador nesses jogos sem fim. Então acaba que Hunter x hunter, apesar de ser sobre jogos e do tesão do Togashi estar nesse aspecto da coisa, também se destaca muito pelos personagens que possui e que cativam mesmo quem por ventura se perca nas explicações sobre o Nen, as cartas, o que é real ou virtual nessa ilha afinal de contas, ou nas reviravoltas das estratégias aplicadas e contra atacadas. A pureza de Gon e a amizade entre Gon e Kilua vendem ou compensam (a depender do ponto de vista) absolutamente qualquer complicação desnecessária ou explicação obsessiva de por menores de tal ou qual conceito. Eu acho um charme essa brincadeira toda.
Já a produção dessa segunda adaptação animada do mangá, feita pela Madhouse, exibe qualidades técnicas, sua música sendo especialmente boa, mas carece de uma identidade visual mais forte. Os designs de personagens e cenários entregam uma fidelidade aos traços originais com uma colorização digital limpa. A direção é segura e coloca em movimento esses desenhos com fluidez, ritmo na ação e no humor, aquela pontinha de tensão e suspense nos momentos decisivos e nos cliffhangers. O narrador de Hunter x hunter é uma decisão de adaptação interessante que o dota de personalidade. Porém não há nada de muito marcante para além disso. O texto de Togashi ganhou uma puta trilha sonora e os personagens estão muitíssimo bem dublados também, mas aí eu não sei dizer o que não poderia ser feito para essas provas de aptidão, torneios de lutas, disputas de super poderes, leilões, carteados dinâmicos em rpgs que acontecem na vida real, se realizassem de uma forma mais plena e vibrante.
Gosto bem do take que Robert Kirkman dá para os super-heróis em Invencível. Se existe algo de paródico e autoconsciente na série, isso é posto de maneira menos esdrúxula e cínica do que em The Boys, Kick-Ass e outras propostas similares. Há um coração heroico sincero em Mark. Há também um grau alto de entrega ao fantástico e à especulação científica. E, se os personagens tomam muitos banhos de sangue, eles sofrem muito mais com dores e cicatrizes emocionais do que com fraturas expostas físicas.
O núcleo familiar principal de Invencível é potente desde o estabelecimento do conflito com Omni-Man no comecinho da série. Quando toda a verdade sobre esse pai e modelo de heroísmo vem à tona, Mark e Debbie precisam se reinventar, reiniciar suas jornadas, refundar sua família, redescobrir seus propósitos. Os relacionamentos de Mark e Amber, Mark e Eve, Debbie e Paul e, principalmente, de Mark e Debbie com Oliver surgem e amadurecem a partir dos vazios deixados por Nolan. O espectador se sente intimo desses personagens e é absurdo como conseguimos empatizar tanto com os dilemas do próprio Nolan/Omni-Man, mesmo ele sendo literalmente o causador de todos os problemas e um projeto mal-sucedido de Hitler galáctico.
Em paralelo aos dramas pessoais, temos as tramas aventurescas da série, que vão se entrecruzando enquanto brincam com convenções desse tipo de história. Tudo o que já esteve em algum outro gibi reaparece aqui para Mark enfrentar: de ditadores cósmicos eugenistas a versões malvadas de si mesmo, manipulação governamental e rachas internos de superequipes, bandidos comuns com superpoderes, viajantes do tempo, pessoas corrompidas pelo sentimento de vingança.
Esta temporada em particular passeia por ameaças diversas, trabalha alguns vilões recorrentes, enquanto segue preparando o terreno para a invasão Viltrumita e o retorno de Nolan e desenvolve através da ação seus dramas e temas. A batalha vertiginosa contra Conquista no episódio 8 encerra espetacularmente a temporada e evolui Eve-Mark-Oliver, o triangulo dramático fundamental neste ponto da história.
O sacrifício de Eve por Mark consolida o amor entre os dois e quando ela ressurge mais poderosa esse relacionamento também está como se revestido por sua luz-sólida cor de rosa. É bonito de se ver, era a liga que faltava no namoro dele com Amber. Por outro lado, Oliver e seu instinto de apelo à violência extremada, até a morte se for o caso, sem muitos freios morais, representa o legado viltrumita de Mark, e vira o jogo a seu favor versus a ética super-heróica idealista do “não matar”. Após o final da temporada, frente ao que existe de mais inescrupuloso, para proteger sua família de sangue, meio-sangue (e pele roxa) ou escolhida (e luz rosa), o protagonista sente que não pode mais se dar ao luxo de não sujar as suas mãos com o vermelho que for, mesmo que isso aproxime demais e perigosamente Invencível de Omni-Man.
Luffy e os chapéus de palha atravessaram o East Blue e meia Grand Line, repleta de aventuras, para chegar até aqui, o vale mais profundo, que parece não ter fim, de suas derrotas mais devastadoras, incontornáveis e transformadoras, no grande arco do resgate de Ace que tem suas prévias em Sabaody e desembocam na Guerra dos Melhores em Marineford. No desenho geral da saga, é a culminação de muita coisa, o clímax e o absoluto low point dos protagonistas em seus arcos dramáticos e emocionais. É do fundo do poço que surge a necessidade de aprendizado e treinamento para os mugiwaras e seu ressurgimento glorioso a partir de onde eles tinham parado, no pós-timeskip.
Antes da desgraceira toda começar de vez, a chegada no Arquipélago das bolhas de sabão é delicioso e riquíssimo em construção de mundo, não só do microcosmo desse mini-sub-arco em específico, mas também no escopo geral das coisas. A mecânica da tecnologia das bolhas e como toda a ilha funciona através dela é muito legal, lembrando o pedaço de worldbuilding de Skypiea. A geografia e o ecossistema dos mangues são a atualização das ilhas do céu no mar branco de nuvens. É um momento que eu acho particularmente bonito e bem animado no anime também, as cores suaves nesses tons de verde e azul complementam bem os traços do Oda, que está com o seu estilo já muito bem definido nesta década de prática e familiaridade com os personagens.
Além disso, somos apresentados aos outros piratas da “Pior Geração” e a várias figurinhas que serão importantíssimas no elenco recorrente de One Piece daqui em diante. Os designs de personagem seguem criativos até dizer chega e não tem nenhum dos Supernovas que não seja super icônico no visual, que serão desenvolvidos no Novo Mundo com diferentes níveis de satisfação. Os filhos-da-puta mór, os grandes usufruídores do sistema de desigualdades imperante no mundo de One Piece, a elite da elite que vive no topo da Red Line e os mandantes do Governo Mundial aparecem finalmente e escancaram qual que vai ser a batalha final pela Liberdade de Luffy e aliados. Arlong, Crocodile, Enel, Lucci, Spandam e Moria eram peixes pequenos e reproduziam um sistema de raízes bem mais profundas e antigas, subordinados diretos ou não à vontade dos Dragões Celestiais.
É um outro grau de violência e degradação humana que vemos nos leilões de pessoas das diferentes raças e espécies que acontecem em Sabaody, e um tipo que toca muito de perto em cicatrizes da nossa realidade social. É sombria e bizarra pra caralho a imagem dos “Santos” em seus trajes de astronauta e jeito arrogante e infantilizado arrastando pessoas escravizadas por correntes e os tratando como animais de carga, não dividindo nem o mesmo ar que o povo “inferior” respira. E, porra, que soco bem dado o de Luffy na fuça de Charlos! A animação dessa cena é dos momentos perfeitos de adaptação em que o anime brilha.
Então, uma coisa leva a outra e rapidamente as ações e reações escalam até chegarem em Borselino Kizaru, o segundo dos três almirante da Marinha que os heróis encaram. O Macaco Amarelo e a sua “Justiça Preguiçosa” e impiedosa mais Sentomaru e seus Pacificadores estão tão infinitamente acima do nível de poder de tudo o que tínhamos visto antes que a intervenção de Rayleigh e da patinha-patinha no mi de Kuma são o que salvam Luffy e companhia da aniquilação completa e permanente. Mas eles são derrotados, massacrados, e separados.
Sem ter a menor ideia do que aconteceu com seus nakamas, o menino-borracha chora em desamparo e é um puta momento de cortar o coração. Neste ponto da história o espectador está tão perdido quanto e o clima de tensão e o sentimento de “agora fodeu” é muito real. As cenas de transição que o anime coloca das bolhas subindo e enchendo até estourar são a tradução desse sentimento. O checkpoint em Amazon Lily que vem em seguida vai ser não só narrativamente inteligente para levar o protagonista aonde ele precisa chegar como necessário para recuperarmos o fôlego uma última vez rumo aos infernos de Impel Down, da Guerra e do luto.
Serão muitos e muitos episódios correspondentes a muitos e muitos capítulos do mangá até o grupinho estar junto de novo e, se o ritmo não é dos melhores e parece que uma vida inteira se passa para a jornada coletiva pela realização dos sonhos, pelo desvelamento dos segredos da História e dos mistérios do mundo e pelo One Piece continuar, a recompensa emocional é gigantesca quando chega. A gente precisava sentir a saudade junto com Luffy para valorizar aquele grupo imperfeito de amigos que tem uma dinâmica tão divertida. Se não fosse pela bandeira hasteada da caveira com o chapéu de palha, aquelas águas de dramas e tragédias (e flashbacks tristes), com um revestimento de bobices, palhaçadas, loucuras, lutinhas e fantasias, seriam muito mais difíceis de navegar.
Seu amigão da vizinhança: Homem-Aranha reapresenta o herói da Marvel pela zilionésima vez e a série, em sua primeira temporada (2024), acerta justamente quando não repete só por repetir as convenções estabelecidas pelas décadas do personagem nos cinemas, gibis e outras séries animadas. É no mínimo curioso ver o elenco de apoio do personagem não ser o mesmo de sempre num universo que é paralelo quase colado ao MCU, mas que não fica preso a ele.
Os recursos infinitos vindos da Oscorp substituem o apadrinhamento de Stark nos filmes com Tom Holland e a figura paterna da vez é o próprio Norman, em uma versão instigante, sedutora, não puramente malévola. A mudança étnica é irrelevante, mas eu gosto dos designs de Norman e Harry. Eles são pretos e ricos e por sua riqueza conseguem jogar bem o jogo social. Norman usa o poder para conquistar/comprar respeito, conforme a "lição" que deixa para Peter, numa versão distorcida da famosa frase do tio Ben. No caso de Harry, sua fama em mídias sociais não significa amizades reais, que ele só vai começar a desenvolver com Peter e Niko ao longo da temporada.
O arco de Lonnie mostra como a discriminação e a marginalização tem a ver com questões de raça mas, sobretudo, com questões de grana, de geografia, de falta de acesso a espaços e a necessidade de ocupação de outros espaços que serão limitadores e definidores de seu futuro. Em oposição às oportunidades que caem nas mãos de Peter, de ser um herói "escolhido" pelo destino (na forma de um portal interdimensional/temporal) à escola de elite e ao estágio nos laboratórios Oscorp, Lonnie tinha todo o potencial do mundo mas é tragado pelas urgências da sobrevivência ao submundo das gangues, onde acabará ganhando seus poderes, mas quase como uma maldição. O conflito do final da temporada não ser entre os dois é levemente decepcionante pela não entrega do que a construção dava a entender que era o objetivo final.
No lugar disso recebemos um plano escalafobético que emburrece e diminui o personagem de Norman para amarrar a origem do herói com um loop temporal. Além disso, as versões de Octopus e Escorpião são legais e bem amarradas com os núcleos principais da série, enquanto as pontas do Doutor Estranho, do Demolidor e do Homem de Ferro são gratuitas, servem somente para aumentar o escopo desse MCU 2. E ficam sementes plantadas para as temporadas seguintes com os por enquanto subdesenvolvidos Nico Minoru, Dra. Conners, Amadeus Cho, as identidades civis de conhecidos heróis e vilões.
Estilisticamente eu gosto dos traços utilizados e da ideia de se tentar uma dinâmica/edição que remete aos quadrinhos com as capas na abertura, os quadros divididos, as viradas de página, as splash pages. Porém, se os designs são bons, os desenhos em movimento não agradam tanto, falta fluidez, é chapado, é estranho. É compreensivel que esta animação não seja bela e refinada como os longas para cinema do Aranha-verso da Sony, mas dá para ver que eles miraram em algo parecido, entre aquilo e a estética de quadrinhos dos anos 60 e a contemporânea do MCU, só que faltou orçamento, tempo ou criatividade para fazer mais com menos. Assim, a ação ação mesmo, o quebra-pau, o Aranha balançando na teia, não é de todo ruim, o 3D se justifica nessa coisa de parecer uma câmera se mexendo filmando coisas se mexendo. Só que em termos de ação, aí sim podemos dizer que já vimos coisas muito melhores e mais inventivas com o personagem.
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Dragon Ball Daima
3.6 44 Assista AgoraDragon Ball Daima foi um presente de despedida que Akira Toriyama deixou para seus fãs. E apesar de ter trabalhado em todo o conceito, história, designs, infelizmente faleceu antes de sua estreia, então Daima, quando lançou, tornou-se também uma homenagem póstuma ao seu criador, honrando seu legado. Está aqui toda a essência de Dragon Ball, especialmente daquele comecinho antes da fase Z.
O gimmick de transformar os personagens adultos em crianças acaba funcionando muito por mimetizar o estilo e o espírito dos primórdios da franquia. E a aventura toda explorando o mundo dos demônios é uma clássica aventura de RPG ou, melhor ainda, um J-RPG nos moldes de Dragon Quest, outro filhote de Toriyama.
Acaba que o desenvolvimento se apressa demais a partir de certo ponto e adoraria que a gente pudesse ter curtido com mais calma esse passeio por um mundinho tão divertido e interessante. Mas amo a simplicidade, a pureza, o humor, a inocência, os personagens e inimigos que são sempre um pouco bobos demais, mas não no mal sentido, pois a vibe está de acordo.
Daima, o rei demônio, Majin-Doo e Manjin-Kuu nunca foram pra se levar a sério de verdade. Daima é como comer doce em talheres de plástico meio arredondados e sem corte, conceitualmente pensado assim. Não há o gravitas da fase Z porque não era pra ter mesmo. Fiquei com um sorriso no rosto durante todos os episódios. Valeu, Toriyama. Descanse em paz.
One Piece (Saga 9: Dressrosa)
4.1 47O preço, talvez alto demais, para se curtir o ótimo plot, com uma rica construção de mundo, flashbacks fantásticos, inúmeros momentos super divertidos, cenas memoráveis de vários personagens e a entrega de um dos melhores vilões de todo o anime, é o ritmo completamente podre que Dressrosa possui em sua versão animada. A crítica mais geral que fazem a One Piece como um todo, nem sempre de maneira justa, aqui meio que se confirma, porque cerca de 100 episódios para os já exagerados 100 capítulos do mangá ficou realmente uma coisa sofrível em termos de compasso da progressão da história, que parece não andar, o que se agrava e muito com o uso exagerado de recapitulações mais para o final. Sem falar no reset que o arco sofre quando já parecia a ponto de se encerrar a partir da contagem regressiva da gaiola de cordas, mas isso já vem do mangá. Ainda assim, o saldo do espectador paciente/obcecado termina positivo pelos motivos que eu disse, pela genialidade do Oda, apesar de seu “problema” de não saber quando parar e apesar da Toei.
One Piece no pós-timeskip se torna uma série muito mais articulada e amarrada, mais linear até certo ponto, apesar do espaço que é dado para o aleatório, imprevisível, aventuresco. Esse espaço existe, os desvios de rota que vão aparecer principalmente dentro de cada arco e ali em Whole Cake, mas os objetivos são mais claros do que eram no início da jornada dos chapéus de palha, quando a tripulação ainda estava se formando, até Thriller Bark pelo menos, antes da arquitetura épica de Oda vir à tona, sair das sombras dos entre-arcos e foreshadows, e culminar na Guerra dos Melhores. Após a Guerra e ultrapassada a fronteira da Ilha dos Homem-Peixe, a partir da entrada no Novo Mundo e da formação da aliança pirata entre Luffy e Law em Punk Hazard para desmantelar o império de Kaidou, uma ilha puxa a outra e um inimigo leva ao outro muito naturalmente, até Wano. Dentro dessa estrutura narrativa, Dressrosa e a derrocada de Doflamingo e da família Donquixote, somadas à formação da Grande Frota dos Chapéus de Palha, representam tanta, mas tanta coisa, que não tinha mesmo como ser feita sem essa pompa e circunstância, lentidão, grandiosidade exaustiva. O leitor do mangá e mais ainda o espectador do anime sente pra cacete a duração do arco, mas é, repito, o preço a se pagar pelas catarses criadas pelo mestre Oda.
Precisamos das lutas intermináveis no Coliseu para nos afeiçoarmos aos personagens dos gladiadores, em especial à Rebeca (ótima personagem com um péssimo figurino), termos a reintrodução de Sabo, a troca dos Lucys e a continuidade do legado da Mera Mera no mi da forma mais digna possível. A partir da fragmentação dos mugiwaras e da fragmentação narrativa extrema que fazem as um zilhão de coisas acontecendo simultaneamente em um único dia parecerem durar uma vida inteira, uma eternidade, geramos GOD USOPP entre os Tontattas, a hilariante troca entre os machos Franky e Senor Pink (outro personagem de aspecto ridículo que tem um momento inacreditável de fazer chorar), Zoro vs Pika (cuja piada com a voz tem um punch muito MUITO bom), Luffy e Law contra Doffy. Aliás, Law passa tanto tempo amarrado com kairouseki e sendo carregado pra lá e pra cá que o uso de suas habilidades no final é surpreendente e acachapante, assim como a revelação de seu passado e a ressignificação do Coração símbolo do bando desse supernova descolado. E que personagem incrível é o Donquixote “Corazon” Rosinante e que puta vilão desprezível é seu irmão Demônio-Celestial, “Joker”, mestre das marionetes, Mingo, Doffy, Donquixote Doflamingo. Os flashbacks do arco entregam tudo e mais um pouco na construção de Law, dos irmãos Donquixote, além da tragédia de Kyrus, Scarlet, Riku, Rebecca e da população de Dressrosa.
E esses são apenas alguns momentos elencados de tantos outros de um arco que tem muito valor em suas entregas grandiosas, mas que possui também detalhes menores super interessantes, coloridos, divertidos, saborosos. O cenário é muito inspirado: meio flamenco, mas com um coliseu romano ali no meio, misturado com um pouco de conto de fadas pelos brinquedos e pelos Tontattas (com um twist super sombrio). Aí a geografia da ilha e do país vira de cabeça pra baixo a partir da segunda metade com a gaiola e os ataques de Pika. Passeando pra cima e pra baixo nessa topografia flutuante, o elenco de coadjuvantes exclusivos do arco é realmente carismático, único e com gags e individualidades e dinâmicas muito legais. Bartolomeu e Cavendish. Don Jin Jao, Sai e Baby Five. A família Donquixote é muito eficaz em ser um puta pé no saco, uns nojentos asquerosos às vezes divertidos. E não podemos esquecer do segundo melhor Almirante da Marinha que é apresentado aqui. Fujitora, desde ser cego, um tio do jogo do bicho e com convicções fortes, até o seu poder apelão pra cacete é ele todo muito, muito massa.
Então, com tanta coisa positiva assim, nem a Toei e um passo de tartaruga conseguem estragar o arco. Ele tem uma carinha cansada de um anime preso numa lógica de produção de massa, que se beneficiaria muito de um formato diferente mais enxuto e bem acabado (e o remake vem aí!), mas colore os desenhos do manga, dá voz aos personagens, usa bem sua trilha-sonora e replica a emoção e a diversão das páginas na tela. Abusa de recapitulações e reaproveitamento de cenas? Sim, mas paciência. Acho melhor termos uma adaptação imperfeita que ajuda a propagar a palavra de Oda e ainda ganharmos de brinde umas musiquinhas de abertura legais e algumas cenas bem dirigidas (final de Wano e Egghead tão logo aí!) do que nada.
Hunter x Hunter II (Arco 5: Greed Island)
4.3 35Hunter x hunter é e sempre foi uma obra sobre jogos, sistemas fechados de regras aos quais os personagens/jogadores precisam se submeter para progredir em seus arcos. Seja no exame hunter, na torre Celestial, no leilão de YorkShin ou aqui na ilha da Cobiça, o estágio mais avançado nessa sequência de cenários, o mais sofisticado e complexo até então, a jornada de Gon e Kilua se define pela leitura que eles vão refinando sobre os jogos, com as suas possibilidades de brechas, apostas, blefes. O autor não se trai nessa lógica de construção de mundo e a cada arco testa a própria criatividade com a sua capacidade de inventar, torcer e esmiuçar seus sistemas. Se não fosse tão bom mangaká, Togashi com certeza seria um excelente game designer.
Mas ainda bem que ele faz o que faz porque, além da narrativa se adequar ao formato shonen jump (Gon sendo o Goku da vez para propagar sua inocência e a mensagem do poder da amizade, lindamente desenvolvida sobretudo através da relação dele com Kilua), os bonecos são genuinamente muito legais, extrapolam a função de meros avatares do espectador nesses jogos sem fim. Então acaba que Hunter x hunter, apesar de ser sobre jogos e do tesão do Togashi estar nesse aspecto da coisa, também se destaca muito pelos personagens que possui e que cativam mesmo quem por ventura se perca nas explicações sobre o Nen, as cartas, o que é real ou virtual nessa ilha afinal de contas, ou nas reviravoltas das estratégias aplicadas e contra atacadas. A pureza de Gon e a amizade entre Gon e Kilua vendem ou compensam (a depender do ponto de vista) absolutamente qualquer complicação desnecessária ou explicação obsessiva de por menores de tal ou qual conceito. Eu acho um charme essa brincadeira toda.
Já a produção dessa segunda adaptação animada do mangá, feita pela Madhouse, exibe qualidades técnicas, sua música sendo especialmente boa, mas carece de uma identidade visual mais forte. Os designs de personagens e cenários entregam uma fidelidade aos traços originais com uma colorização digital limpa. A direção é segura e coloca em movimento esses desenhos com fluidez, ritmo na ação e no humor, aquela pontinha de tensão e suspense nos momentos decisivos e nos cliffhangers. O narrador de Hunter x hunter é uma decisão de adaptação interessante que o dota de personalidade. Porém não há nada de muito marcante para além disso. O texto de Togashi ganhou uma puta trilha sonora e os personagens estão muitíssimo bem dublados também, mas aí eu não sei dizer o que não poderia ser feito para essas provas de aptidão, torneios de lutas, disputas de super poderes, leilões, carteados dinâmicos em rpgs que acontecem na vida real, se realizassem de uma forma mais plena e vibrante.
Invencível (3ª Temporada)
4.1 123Gosto bem do take que Robert Kirkman dá para os super-heróis em Invencível. Se existe algo de paródico e autoconsciente na série, isso é posto de maneira menos esdrúxula e cínica do que em The Boys, Kick-Ass e outras propostas similares. Há um coração heroico sincero em Mark. Há também um grau alto de entrega ao fantástico e à especulação científica. E, se os personagens tomam muitos banhos de sangue, eles sofrem muito mais com dores e cicatrizes emocionais do que com fraturas expostas físicas.
O núcleo familiar principal de Invencível é potente desde o estabelecimento do conflito com Omni-Man no comecinho da série. Quando toda a verdade sobre esse pai e modelo de heroísmo vem à tona, Mark e Debbie precisam se reinventar, reiniciar suas jornadas, refundar sua família, redescobrir seus propósitos. Os relacionamentos de Mark e Amber, Mark e Eve, Debbie e Paul e, principalmente, de Mark e Debbie com Oliver surgem e amadurecem a partir dos vazios deixados por Nolan. O espectador se sente intimo desses personagens e é absurdo como conseguimos empatizar tanto com os dilemas do próprio Nolan/Omni-Man, mesmo ele sendo literalmente o causador de todos os problemas e um projeto mal-sucedido de Hitler galáctico.
Em paralelo aos dramas pessoais, temos as tramas aventurescas da série, que vão se entrecruzando enquanto brincam com convenções desse tipo de história. Tudo o que já esteve em algum outro gibi reaparece aqui para Mark enfrentar: de ditadores cósmicos eugenistas a versões malvadas de si mesmo, manipulação governamental e rachas internos de superequipes, bandidos comuns com superpoderes, viajantes do tempo, pessoas corrompidas pelo sentimento de vingança.
Esta temporada em particular passeia por ameaças diversas, trabalha alguns vilões recorrentes, enquanto segue preparando o terreno para a invasão Viltrumita e o retorno de Nolan e desenvolve através da ação seus dramas e temas. A batalha vertiginosa contra Conquista no episódio 8 encerra espetacularmente a temporada e evolui Eve-Mark-Oliver, o triangulo dramático fundamental neste ponto da história.
O sacrifício de Eve por Mark consolida o amor entre os dois e quando ela ressurge mais poderosa esse relacionamento também está como se revestido por sua luz-sólida cor de rosa. É bonito de se ver, era a liga que faltava no namoro dele com Amber. Por outro lado, Oliver e seu instinto de apelo à violência extremada, até a morte se for o caso, sem muitos freios morais, representa o legado viltrumita de Mark, e vira o jogo a seu favor versus a ética super-heróica idealista do “não matar”. Após o final da temporada, frente ao que existe de mais inescrupuloso, para proteger sua família de sangue, meio-sangue (e pele roxa) ou escolhida (e luz rosa), o protagonista sente que não pode mais se dar ao luxo de não sujar as suas mãos com o vermelho que for, mesmo que isso aproxime demais e perigosamente Invencível de Omni-Man.
One Piece (Saga 6: Guerra dos Melhores)
4.5 28Luffy e os chapéus de palha atravessaram o East Blue e meia Grand Line, repleta de aventuras, para chegar até aqui, o vale mais profundo, que parece não ter fim, de suas derrotas mais devastadoras, incontornáveis e transformadoras, no grande arco do resgate de Ace que tem suas prévias em Sabaody e desembocam na Guerra dos Melhores em Marineford. No desenho geral da saga, é a culminação de muita coisa, o clímax e o absoluto low point dos protagonistas em seus arcos dramáticos e emocionais. É do fundo do poço que surge a necessidade de aprendizado e treinamento para os mugiwaras e seu ressurgimento glorioso a partir de onde eles tinham parado, no pós-timeskip.
Antes da desgraceira toda começar de vez, a chegada no Arquipélago das bolhas de sabão é delicioso e riquíssimo em construção de mundo, não só do microcosmo desse mini-sub-arco em específico, mas também no escopo geral das coisas. A mecânica da tecnologia das bolhas e como toda a ilha funciona através dela é muito legal, lembrando o pedaço de worldbuilding de Skypiea. A geografia e o ecossistema dos mangues são a atualização das ilhas do céu no mar branco de nuvens. É um momento que eu acho particularmente bonito e bem animado no anime também, as cores suaves nesses tons de verde e azul complementam bem os traços do Oda, que está com o seu estilo já muito bem definido nesta década de prática e familiaridade com os personagens.
Além disso, somos apresentados aos outros piratas da “Pior Geração” e a várias figurinhas que serão importantíssimas no elenco recorrente de One Piece daqui em diante. Os designs de personagem seguem criativos até dizer chega e não tem nenhum dos Supernovas que não seja super icônico no visual, que serão desenvolvidos no Novo Mundo com diferentes níveis de satisfação. Os filhos-da-puta mór, os grandes usufruídores do sistema de desigualdades imperante no mundo de One Piece, a elite da elite que vive no topo da Red Line e os mandantes do Governo Mundial aparecem finalmente e escancaram qual que vai ser a batalha final pela Liberdade de Luffy e aliados. Arlong, Crocodile, Enel, Lucci, Spandam e Moria eram peixes pequenos e reproduziam um sistema de raízes bem mais profundas e antigas, subordinados diretos ou não à vontade dos Dragões Celestiais.
É um outro grau de violência e degradação humana que vemos nos leilões de pessoas das diferentes raças e espécies que acontecem em Sabaody, e um tipo que toca muito de perto em cicatrizes da nossa realidade social. É sombria e bizarra pra caralho a imagem dos “Santos” em seus trajes de astronauta e jeito arrogante e infantilizado arrastando pessoas escravizadas por correntes e os tratando como animais de carga, não dividindo nem o mesmo ar que o povo “inferior” respira. E, porra, que soco bem dado o de Luffy na fuça de Charlos! A animação dessa cena é dos momentos perfeitos de adaptação em que o anime brilha.
Então, uma coisa leva a outra e rapidamente as ações e reações escalam até chegarem em Borselino Kizaru, o segundo dos três almirante da Marinha que os heróis encaram. O Macaco Amarelo e a sua “Justiça Preguiçosa” e impiedosa mais Sentomaru e seus Pacificadores estão tão infinitamente acima do nível de poder de tudo o que tínhamos visto antes que a intervenção de Rayleigh e da patinha-patinha no mi de Kuma são o que salvam Luffy e companhia da aniquilação completa e permanente. Mas eles são derrotados, massacrados, e separados.
Sem ter a menor ideia do que aconteceu com seus nakamas, o menino-borracha chora em desamparo e é um puta momento de cortar o coração. Neste ponto da história o espectador está tão perdido quanto e o clima de tensão e o sentimento de “agora fodeu” é muito real. As cenas de transição que o anime coloca das bolhas subindo e enchendo até estourar são a tradução desse sentimento. O checkpoint em Amazon Lily que vem em seguida vai ser não só narrativamente inteligente para levar o protagonista aonde ele precisa chegar como necessário para recuperarmos o fôlego uma última vez rumo aos infernos de Impel Down, da Guerra e do luto.
Serão muitos e muitos episódios correspondentes a muitos e muitos capítulos do mangá até o grupinho estar junto de novo e, se o ritmo não é dos melhores e parece que uma vida inteira se passa para a jornada coletiva pela realização dos sonhos, pelo desvelamento dos segredos da História e dos mistérios do mundo e pelo One Piece continuar, a recompensa emocional é gigantesca quando chega. A gente precisava sentir a saudade junto com Luffy para valorizar aquele grupo imperfeito de amigos que tem uma dinâmica tão divertida. Se não fosse pela bandeira hasteada da caveira com o chapéu de palha, aquelas águas de dramas e tragédias (e flashbacks tristes), com um revestimento de bobices, palhaçadas, loucuras, lutinhas e fantasias, seriam muito mais difíceis de navegar.
Seu Amigão da Vizinhança: Homem-Aranha (1ª Temporada)
3.6 48Seu amigão da vizinhança: Homem-Aranha reapresenta o herói da Marvel pela zilionésima vez e a série, em sua primeira temporada (2024), acerta justamente quando não repete só por repetir as convenções estabelecidas pelas décadas do personagem nos cinemas, gibis e outras séries animadas. É no mínimo curioso ver o elenco de apoio do personagem não ser o mesmo de sempre num universo que é paralelo quase colado ao MCU, mas que não fica preso a ele.
Os recursos infinitos vindos da Oscorp substituem o apadrinhamento de Stark nos filmes com Tom Holland e a figura paterna da vez é o próprio Norman, em uma versão instigante, sedutora, não puramente malévola. A mudança étnica é irrelevante, mas eu gosto dos designs de Norman e Harry. Eles são pretos e ricos e por sua riqueza conseguem jogar bem o jogo social. Norman usa o poder para conquistar/comprar respeito, conforme a "lição" que deixa para Peter, numa versão distorcida da famosa frase do tio Ben. No caso de Harry, sua fama em mídias sociais não significa amizades reais, que ele só vai começar a desenvolver com Peter e Niko ao longo da temporada.
O arco de Lonnie mostra como a discriminação e a marginalização tem a ver com questões de raça mas, sobretudo, com questões de grana, de geografia, de falta de acesso a espaços e a necessidade de ocupação de outros espaços que serão limitadores e definidores de seu futuro. Em oposição às oportunidades que caem nas mãos de Peter, de ser um herói "escolhido" pelo destino (na forma de um portal interdimensional/temporal) à escola de elite e ao estágio nos laboratórios Oscorp, Lonnie tinha todo o potencial do mundo mas é tragado pelas urgências da sobrevivência ao submundo das gangues, onde acabará ganhando seus poderes, mas quase como uma maldição. O conflito do final da temporada não ser entre os dois é levemente decepcionante pela não entrega do que a construção dava a entender que era o objetivo final.
No lugar disso recebemos um plano escalafobético que emburrece e diminui o personagem de Norman para amarrar a origem do herói com um loop temporal. Além disso, as versões de Octopus e Escorpião são legais e bem amarradas com os núcleos principais da série, enquanto as pontas do Doutor Estranho, do Demolidor e do Homem de Ferro são gratuitas, servem somente para aumentar o escopo desse MCU 2. E ficam sementes plantadas para as temporadas seguintes com os por enquanto subdesenvolvidos Nico Minoru, Dra. Conners, Amadeus Cho, as identidades civis de conhecidos heróis e vilões.
Estilisticamente eu gosto dos traços utilizados e da ideia de se tentar uma dinâmica/edição que remete aos quadrinhos com as capas na abertura, os quadros divididos, as viradas de página, as splash pages. Porém, se os designs são bons, os desenhos em movimento não agradam tanto, falta fluidez, é chapado, é estranho. É compreensivel que esta animação não seja bela e refinada como os longas para cinema do Aranha-verso da Sony, mas dá para ver que eles miraram em algo parecido, entre aquilo e a estética de quadrinhos dos anos 60 e a contemporânea do MCU, só que faltou orçamento, tempo ou criatividade para fazer mais com menos. Assim, a ação ação mesmo, o quebra-pau, o Aranha balançando na teia, não é de todo ruim, o 3D se justifica nessa coisa de parecer uma câmera se mexendo filmando coisas se mexendo. Só que em termos de ação, aí sim podemos dizer que já vimos coisas muito melhores e mais inventivas com o personagem.