O apelo de um jogo como Minecraft está no seu elemento “sandbox”, em ser um espaço aberto repleto de ferramentas para os jogadores se sentirem um pouco exploradores e um pouco co-criadores dessa terra quadrada e fantástica. Os fragmentos narrativos oferecidos aqui e ali montam um quebra cabeças que se completa com o protagonismo e a imaginação do jogador. A aventura deixa de fazer sentido se você para de engajar e exercer esse papel ativo nela. Um filme de Minecraft, portanto, nunca foi uma ideia muito boa pra início de conversa. Mas, até aí, um filme de Lego parecia fazer tanto ou menos sentido quanto e acabou se justificando e sendo sensacional.
O que tinha em Uma aventura Lego e falta em Um filme Minecraft é criatividade. Muito ironicamente, pois este é não só o elemento central da identidade da marca como o assunto explícito do filme, seu mais forte tema, se conseguimos encontrar algum. O “arco” de Henry gira em torno de ele ser tipo um gênio, super inventivo, apesar de o máximo que ele constrói nesse mundo ilimitado ser uma torre sem graça e uma arma de atirar batatas. Parece até piada, enquanto as piadas propriamente ditas do texto não fazem rir.
Extremamente sem graça também é a trama aqui, a própria definição de “qualquer coisa”. Talvez se escolhessem um único foco narrativo e protagonista funcionasse melhor. Ou as aventuras do explorador Steve, ou a volta por cima do Lixeiro, ou a superação dos traumas e o amadurecimento de Nat e Henry. O tom geral de leveza e comédia do filme se sustenta sobre o carisma de seus atores e suas personas que se confundem com as dos personagens, especialmente Jack Black e Jason Momoa. Até porque não há muita substância em qualquer deles, então o que sobra é o carisma natural mesmo.
Fora isso, os efeitos visuais são competentes, o cenário 100% fabricado do “mundo superior”, os bloquinhos, vivos ou decorativos, se materializam e interagem bem nas cenas. Nada muito impressionante ou inspirado, mas o digital sobre a tela verde funciona. A esquete de Jennifer Coolidge e seu namoro com um dos aldeões (NPCs genéricos) que escapa do jogo para o “mundo real” é algo totalmente deslocado e bizarro que pelo menos isolado também funciona como comédia do absurdo. Mas são raros até esses momentos absurdistas mais escrachados. Difícil de defender.
Este é um filme de Páscoa raiz, hardcore, católico/crente “na veia”. O episódio da paixão de Cristo nesta retratação visceral de Mel Gibson faz suas escolhas de modo a torturar o espectador junto ao Deus vivo e filho de Deus dos cristãos e nem falo isso no mal sentido. O martírio, a via crucis, o sacrifício expiatório pelos pecados do mundo se potencializa nesta lente que se aproxima das feridas em carne viva, parece sádica, mas nunca deixa de prestar reverência à figura de seu protagonista trágico. Afinal, trata-se literalmente da maior tragédia que já existiu, seu arquétipo e realização supremos na História.
Anunciado por profetas desde o Antigo Testamento, Sua vida, Seu evangelho e Sua morte transformam e dão sentido à própria Criação. A traição de Judas, a humilhação que Ele é obrigado a passar, injustamente cuspido, escorraçado, espancado, açoitado, e por fim, pregado, crucificado, perfurado e morto, tudo isso em razão da iniquidade e crueldade do povo (e o filme bem mostra a relativa indiferença dos governantes enquanto o próprio povo e em especial seus religiosos o condenam), levam à Salvação desse mesmo povo, em ato de puro Amor. Ao mesmo tempo a Tragédia das tragédias, uma luta inescapável frente ao Destino, o Cristo Ressuscitado oferece o final feliz inexistente na época dos gregos e seus deuses mesquinhos, presos a um pós-vida imutável e sombrio. Quando volta da mansão dos mortos, Cristo abre as portas para todos os heróis e santos do passado e do futuro poderem passar. Todas as tragédias viram (divina) comédia. Mas não deixa de sofrer, se lamentar, pedir por misericórdia, porque Deus se fez Homem de carne e ossos, suor e sangue.
A partir dessas ponderações ou qualquer reflexão filosófico-narrativa-poética-teológica inspirada pelo filme, pode-se observar que, neste caso, a arte e o seu sentido religioso se misturam muito profundamente, sendo impossível uma análise desassociada, pois se perderia toda a essência e o valor daquilo ignorando a questão da Fé dos seus realizadores, demonstrada na forma que o filme assume. Apenas uma pessoa, senão católica, muito influenciada pela visão católica do mundo e por sua leitura específica da Paixão, condensaria toda a vida de Cristo em suas últimas 12 horas para buscar nelas todo tipo de simbolismo e associação com suas experiências pregressas. Dentro dessa cosmovisão era a decisão óbvia, porque está tudo ali.
Maria, Madalena e os apóstolos participam desse momento decisivo, epicentro narrativo e da História civilizacional, do Getsêmani (escuro, de atmosfera densa), ao Calvário (árido, brutal), como as testemunhas que foram e também funcionam na estrutura do filme como esses ganchos para pontuar passagens específicas do Evangelho em meio a toda a dor excruciante, jamais diluída. Muito pelo contrário, a câmera se demora e cria cenas fortes, difíceis de ver, do martírio. O Cristo de Caviezel carrega dor, muita dor, e bondade piedosa no olhar, mesmo quando quase não conseguimos mais ver um dos seus olhos pelos ferimentos e pelo sangue. Aliás, a físicalidade na atuação do ator impressiona pois precisa ser forte e frágil ao mesmo tempo, sofrida e resiliente. Não diria que é simples representar a Carne e o Sangue, sagrados na liturgia católica, o Pão e o Vinho eucarísticos, mas conseguiram de alguma maneira.
Não compreendo totalmente o preciosismo de Gibson em querer usar os antigos aramaico e latim como as línguas faladas no filme, mas aplaudo a coragem de levar a cabo essa ideia. Acaba ajudando na contextualização e imersão. Mesmo que seja dramatizado do mesmo jeito, não é documento histórico, Jesus não falando inglês moderno mas uma língua que soa estranha e antiga aos nossos ouvidos me parece mais correto, menos incômodo. Essa preocupação aparece também na reconstrução da época, apesar de um ar de teatralidade e de nunca entendermos totalmente a geografia dos lugares. Não nos perdemos na mise-en-scene, mas o que quero dizer é que existe qualquer coisa de genérica nessa Jerusalém do filme, não diria que como uma novela bíblica da Record, pois é bem melhor realizada do que isso, porém é essa mesma ideia de oriente que orienta a encenação. A base pode até ser histórica, mas falta mais especificidades. A cidade não é personagem.
Por outro lado, Pilatos (Hristo Shopov) ganha uma dimensão interessante justamente nesses detalhes de caracterização, nessas especifidades, que lhe dão um caráter mais austero e sóbrio, contrastante com a vilania de um Caifás (Mattia Sbraglia), a fanfarronice de um Herodes (Luca de Dominicis), a bizarrice de um Barrabás (Pietro Sarubbi). E, dentro desse lado antagonista, há ainda uma curiosa representação do próprio Antagonista, andrógeno, assustador e sempre à espreita, carregando cobras e bebês demoníacos, a figura simbólica por trás do Mal, dos atos de selvageria do povo, da traição, tormento e suicidio de Judas (Luca Lionello). A vitória sobre a Morte de Cristo faz esse Inimigo (meio figurativo, apesar de real) gritar e a Terra tremer. Quase dois mil anos depois e ainda lembramos e revivemos o episódio, seja nas missas católicas, outras cerimônias cristãs, em palcos do Brasil, em filmes de Hollywood. E pra achar isso bonito nem precisa ser religioso. Para quem é de fé, feliz Páscoa!
Dragon Ball Daima foi um presente de despedida que Akira Toriyama deixou para seus fãs. E apesar de ter trabalhado em todo o conceito, história, designs, infelizmente faleceu antes de sua estreia, então Daima, quando lançou, tornou-se também uma homenagem póstuma ao seu criador, honrando seu legado. Está aqui toda a essência de Dragon Ball, especialmente daquele comecinho antes da fase Z.
O gimmick de transformar os personagens adultos em crianças acaba funcionando muito por mimetizar o estilo e o espírito dos primórdios da franquia. E a aventura toda explorando o mundo dos demônios é uma clássica aventura de RPG ou, melhor ainda, um J-RPG nos moldes de Dragon Quest, outro filhote de Toriyama.
Acaba que o desenvolvimento se apressa demais a partir de certo ponto e adoraria que a gente pudesse ter curtido com mais calma esse passeio por um mundinho tão divertido e interessante. Mas amo a simplicidade, a pureza, o humor, a inocência, os personagens e inimigos que são sempre um pouco bobos demais, mas não no mal sentido, pois a vibe está de acordo.
Daima, o rei demônio, Majin-Doo e Manjin-Kuu nunca foram pra se levar a sério de verdade. Daima é como comer doce em talheres de plástico meio arredondados e sem corte, conceitualmente pensado assim. Não há o gravitas da fase Z porque não era pra ter mesmo. Fiquei com um sorriso no rosto durante todos os episódios. Valeu, Toriyama. Descanse em paz.
Existem pelo menos três coisas a serem exaltadas nesta terceira instância dessa série de “filmes de ação geriátricos” protagonizada por Denzel. A primeira delas é o próprio ator, que é dono de um carisma inegável e de uma presença de cena fortíssima. Em segundo lugar, a mão sempre segura de Fuqua na direção da ação, desta vez bastante sanguinolenta, e do suspense que a antecede. E, por último, eu ainda destacaria os belíssimos cenários italianos que ambientam a trama, super valorizados pela cinematografia.
Essa Itália com cidades costeiras esculpidas em pedra, moradores pacatos cuidando de seus pequenos comércios e ofícios, máfias familiares, símbolos da sacralidade católica, conta por si só uma história rica e intrigante. A chegada de “Roberto” como esse vigilante obscuro, anjo vingador, super simpático e super brutal, vem para desbaratar a intriga que liga esses criminosos locais com tráfico internacional, terrorismo, extorsões e roubos cibernéticos transcontinentais de aposentarias de velhinhos americanos. E se há uma preocupação evidente de justificar o sangue derramado por Robert Mccall e a interferência americana em terras estrangeiras, o filme funciona mais na simplicidade de mostrar gente ruim se fodendo do que quando ensaia qualquer tipo de discussão moral e não sai do raso ou tenta fazer a gente junto da personagem de Dakota Fanning conectar os pontos nessa investigação que parece um pouco fácil e um pouco óbvia demais.
Antes do filme mostrar realmente a que veio, a cena inicial da chacina no casarão choca pelo nível da violência, estabelece um mistério e sugere uma dubiedade moral, uma complexidade, principalmente pela presença da criança sobrevivente que acaba por acertar o tiro no vigilante. São promessas que não se cumprem. A parte da violência continua, mas vai deixando de chocar tanto, o mistério era melhor somente como mistério do que quando solucionado e, apesar de literalmente se perguntar e ser perguntado se é um homem bom mais de uma vez, Robert tem sempre todas as desculpas e pseudo explicações para o porquê de ser tão violento. Ele tá dando o troco, devolvendo na mesma moeda, fazendo justiça com as próprias mãos porque a segurança pública é corrupta, incompetente ou está de mãos atadas e ele tem a coragem e o sangue frio para fazer o que faz. Tá beleza, só não é tão complexo assim, e Enzo quase que o perdoa e absolve instantaneamente, assim como o filme parece querer fazer.
A montagem paralela no final entre a procissão e o justiçamento através do morticínio dos bandidos cria contraste mas parece sinalizar também algum tipo de identidade, como se as respostas às orações do povo, que já demonstrou estar do lado do vigilante, fosse a “purificação” que ele está fazendo naquelas ruas. Depois, os fogos de artifício e as comemorações coloridas não são mas é como se fossem a premiação de Robert por ter resolvido a situação por ali, ajudado a inteligência americana, devolvido os exatos trezentos e sessenta e tantos mil dólares da aposentaria do senhor. Nosso protagonista foi aceito pela comunidade, abraçado por ela. É um querido, nosso vigilante favorito, mais do que bom, um ótimo cara! Tá perdoadíssimo, somos católicos, afinal.
Eu estava pronto para um filme medíocre e qual não foi a minha surpresa ao ver em Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) uma entrada verdadeiramente interessante e autêntica na franquia criada por John Krasinski? Quem diria que dá para fazer uma prequel ou filme derivado que não seja focado em responder brechas de seu original ou então em repetir a fórmula de sucesso, mas sim em construir sua própria ideia a partir do mesmo conceito? Porque este filme é isso e ele escolhe fazer dos já conhecidos monstros ultrassensíveis ao som veículo para discutir questões relativas à mortalidade, à fragilidade da vida e das superestruturas da civilização, através de um drama bem mínimo de sobrevivência, concentrado em dois personagens humanos e um gato e de um estilo muito cuidadoso, entre o escopo grandioso da destruição apocalíptica e a ênfase humana nos detalhes.
A execução técnica do filme para a sua elaboração estilística, aliás, acho bastante impecável. A fotografia contrasta luz e sombra muito bem tanto nos modernos prédios de vidro quanto nas antigas catedrais da cidade e cria uma Nova Iorque suspensa em poeira e silêncio. Essa poeira branca se destaca na pele negra de Lupita Nyong'o, que é um show de performance no drama e na ação. As lentes se fecham muito em planos que sabem valorizar os olhos expressivos da atriz ou então olham para o chão e o andar dos personagens que precisa ser ágil e suave. A edição alterna esses planos fechados com aqueles que mostram mais do espaço ao redor, o caos urbano que vai virando esse lugar silencioso, meio assustador mas às vezes também estranhamente pacifico.
Esse sentimento de paz e algo reconfortante está associado ao silêncio forçado, aos elementos da natureza (a chuva, o trovão, a água corrente) que trazem proteção, à empatia humana advinda da situação de necessidade, presente na ajuda mútua entre a protagonista e seu stalker amigável Erik (Joseph Quinn, que está super bem também). Também tem a ver com essa jornada de volta ao Harlem da infância da protagonista, pelas conversas, por sua poesia, pela lembrança de seu pai, pela pizza, por Nina Simone e pelo literal retorno. A invasão em si é um negócio terrível, indesejável, tenso, mas foi um meio para a libertação, de certo modo, dessa personagem que vivia de contar os dias para a morte na sua internação para tratar a sua doença. Se ela sentia que já vivia numa prorrogação de seu tempo na Terra, os alienígenas apenas deram a sentença final, contudo oportunizaram antes disso ela vivenciar esse seu fechamento, através da arte, do rememorar, de uma última conexão e do deixar ir de seus apegos terrenos (o gato, a blusa).
Por fim, enquanto assistia, não consegui não pensar na pandemia de COVID-19, uma situação quase apocalíptica que todos vivemos e foi igualmente uma pisada forte no freio da “marcha do progresso” e um mute nas ruídos e cacofonias de um mundo barulhento demais. Mesmo que depois a maioria tenha se esquecido disso, no contexto pandêmico e de isolamento precisamos pensar e repensar muito sobre o fim, sobre o luto, sobre estilos de vida mais equilibrados com a natureza e como precisaríamos não voltar à antiga normalidade que produziu o vírus e implodiu ao ter que parar, mas sim reinventar a noção do que é normal para um futuro sustentável. Nada é à toa e os letreiros iniciais do filme dizem sobre os decibéis altíssimos dos sons da cidade de Nova Iorque e aposto que na situação fatídica aludida esses decibéis também deram uma boa abaixada, tanto quanto na ficção. Imaginar esses cenários, afinal, “serve” para isso, trazer reflexão e mudança sem matar milhões nem matar ninguém e até antecipar e prevenir essas mortes. Vamos assistir uma apresentação de um teatro de marionetes para lembrar que se enchemos nosso balão podemos voar, porém esse balão tá sujeito a explodir e fazer barulho. Ou vice-versa: barulho demais e muito alto pode explodir o balão. Então, antes que o balão exploda, lembremos de saborear uma boa pizza. Sem esquecer de alimentar o gato.
O preço, talvez alto demais, para se curtir o ótimo plot, com uma rica construção de mundo, flashbacks fantásticos, inúmeros momentos super divertidos, cenas memoráveis de vários personagens e a entrega de um dos melhores vilões de todo o anime, é o ritmo completamente podre que Dressrosa possui em sua versão animada. A crítica mais geral que fazem a One Piece como um todo, nem sempre de maneira justa, aqui meio que se confirma, porque cerca de 100 episódios para os já exagerados 100 capítulos do mangá ficou realmente uma coisa sofrível em termos de compasso da progressão da história, que parece não andar, o que se agrava e muito com o uso exagerado de recapitulações mais para o final. Sem falar no reset que o arco sofre quando já parecia a ponto de se encerrar a partir da contagem regressiva da gaiola de cordas, mas isso já vem do mangá. Ainda assim, o saldo do espectador paciente/obcecado termina positivo pelos motivos que eu disse, pela genialidade do Oda, apesar de seu “problema” de não saber quando parar e apesar da Toei.
One Piece no pós-timeskip se torna uma série muito mais articulada e amarrada, mais linear até certo ponto, apesar do espaço que é dado para o aleatório, imprevisível, aventuresco. Esse espaço existe, os desvios de rota que vão aparecer principalmente dentro de cada arco e ali em Whole Cake, mas os objetivos são mais claros do que eram no início da jornada dos chapéus de palha, quando a tripulação ainda estava se formando, até Thriller Bark pelo menos, antes da arquitetura épica de Oda vir à tona, sair das sombras dos entre-arcos e foreshadows, e culminar na Guerra dos Melhores. Após a Guerra e ultrapassada a fronteira da Ilha dos Homem-Peixe, a partir da entrada no Novo Mundo e da formação da aliança pirata entre Luffy e Law em Punk Hazard para desmantelar o império de Kaidou, uma ilha puxa a outra e um inimigo leva ao outro muito naturalmente, até Wano. Dentro dessa estrutura narrativa, Dressrosa e a derrocada de Doflamingo e da família Donquixote, somadas à formação da Grande Frota dos Chapéus de Palha, representam tanta, mas tanta coisa, que não tinha mesmo como ser feita sem essa pompa e circunstância, lentidão, grandiosidade exaustiva. O leitor do mangá e mais ainda o espectador do anime sente pra cacete a duração do arco, mas é, repito, o preço a se pagar pelas catarses criadas pelo mestre Oda.
Precisamos das lutas intermináveis no Coliseu para nos afeiçoarmos aos personagens dos gladiadores, em especial à Rebeca (ótima personagem com um péssimo figurino), termos a reintrodução de Sabo, a troca dos Lucys e a continuidade do legado da Mera Mera no mi da forma mais digna possível. A partir da fragmentação dos mugiwaras e da fragmentação narrativa extrema que fazem as um zilhão de coisas acontecendo simultaneamente em um único dia parecerem durar uma vida inteira, uma eternidade, geramos GOD USOPP entre os Tontattas, a hilariante troca entre os machos Franky e Senor Pink (outro personagem de aspecto ridículo que tem um momento inacreditável de fazer chorar), Zoro vs Pika (cuja piada com a voz tem um punch muito MUITO bom), Luffy e Law contra Doffy. Aliás, Law passa tanto tempo amarrado com kairouseki e sendo carregado pra lá e pra cá que o uso de suas habilidades no final é surpreendente e acachapante, assim como a revelação de seu passado e a ressignificação do Coração símbolo do bando desse supernova descolado. E que personagem incrível é o Donquixote “Corazon” Rosinante e que puta vilão desprezível é seu irmão Demônio-Celestial, “Joker”, mestre das marionetes, Mingo, Doffy, Donquixote Doflamingo. Os flashbacks do arco entregam tudo e mais um pouco na construção de Law, dos irmãos Donquixote, além da tragédia de Kyrus, Scarlet, Riku, Rebecca e da população de Dressrosa.
E esses são apenas alguns momentos elencados de tantos outros de um arco que tem muito valor em suas entregas grandiosas, mas que possui também detalhes menores super interessantes, coloridos, divertidos, saborosos. O cenário é muito inspirado: meio flamenco, mas com um coliseu romano ali no meio, misturado com um pouco de conto de fadas pelos brinquedos e pelos Tontattas (com um twist super sombrio). Aí a geografia da ilha e do país vira de cabeça pra baixo a partir da segunda metade com a gaiola e os ataques de Pika. Passeando pra cima e pra baixo nessa topografia flutuante, o elenco de coadjuvantes exclusivos do arco é realmente carismático, único e com gags e individualidades e dinâmicas muito legais. Bartolomeu e Cavendish. Don Jin Jao, Sai e Baby Five. A família Donquixote é muito eficaz em ser um puta pé no saco, uns nojentos asquerosos às vezes divertidos. E não podemos esquecer do segundo melhor Almirante da Marinha que é apresentado aqui. Fujitora, desde ser cego, um tio do jogo do bicho e com convicções fortes, até o seu poder apelão pra cacete é ele todo muito, muito massa.
Então, com tanta coisa positiva assim, nem a Toei e um passo de tartaruga conseguem estragar o arco. Ele tem uma carinha cansada de um anime preso numa lógica de produção de massa, que se beneficiaria muito de um formato diferente mais enxuto e bem acabado (e o remake vem aí!), mas colore os desenhos do manga, dá voz aos personagens, usa bem sua trilha-sonora e replica a emoção e a diversão das páginas na tela. Abusa de recapitulações e reaproveitamento de cenas? Sim, mas paciência. Acho melhor termos uma adaptação imperfeita que ajuda a propagar a palavra de Oda e ainda ganharmos de brinde umas musiquinhas de abertura legais e algumas cenas bem dirigidas (final de Wano e Egghead tão logo aí!) do que nada.
Hunter x hunter é e sempre foi uma obra sobre jogos, sistemas fechados de regras aos quais os personagens/jogadores precisam se submeter para progredir em seus arcos. Seja no exame hunter, na torre Celestial, no leilão de YorkShin ou aqui na ilha da Cobiça, o estágio mais avançado nessa sequência de cenários, o mais sofisticado e complexo até então, a jornada de Gon e Kilua se define pela leitura que eles vão refinando sobre os jogos, com as suas possibilidades de brechas, apostas, blefes. O autor não se trai nessa lógica de construção de mundo e a cada arco testa a própria criatividade com a sua capacidade de inventar, torcer e esmiuçar seus sistemas. Se não fosse tão bom mangaká, Togashi com certeza seria um excelente game designer.
Mas ainda bem que ele faz o que faz porque, além da narrativa se adequar ao formato shonen jump (Gon sendo o Goku da vez para propagar sua inocência e a mensagem do poder da amizade, lindamente desenvolvida sobretudo através da relação dele com Kilua), os bonecos são genuinamente muito legais, extrapolam a função de meros avatares do espectador nesses jogos sem fim. Então acaba que Hunter x hunter, apesar de ser sobre jogos e do tesão do Togashi estar nesse aspecto da coisa, também se destaca muito pelos personagens que possui e que cativam mesmo quem por ventura se perca nas explicações sobre o Nen, as cartas, o que é real ou virtual nessa ilha afinal de contas, ou nas reviravoltas das estratégias aplicadas e contra atacadas. A pureza de Gon e a amizade entre Gon e Kilua vendem ou compensam (a depender do ponto de vista) absolutamente qualquer complicação desnecessária ou explicação obsessiva de por menores de tal ou qual conceito. Eu acho um charme essa brincadeira toda.
Já a produção dessa segunda adaptação animada do mangá, feita pela Madhouse, exibe qualidades técnicas, sua música sendo especialmente boa, mas carece de uma identidade visual mais forte. Os designs de personagens e cenários entregam uma fidelidade aos traços originais com uma colorização digital limpa. A direção é segura e coloca em movimento esses desenhos com fluidez, ritmo na ação e no humor, aquela pontinha de tensão e suspense nos momentos decisivos e nos cliffhangers. O narrador de Hunter x hunter é uma decisão de adaptação interessante que o dota de personalidade. Porém não há nada de muito marcante para além disso. O texto de Togashi ganhou uma puta trilha sonora e os personagens estão muitíssimo bem dublados também, mas aí eu não sei dizer o que não poderia ser feito para essas provas de aptidão, torneios de lutas, disputas de super poderes, leilões, carteados dinâmicos em rpgs que acontecem na vida real, se realizassem de uma forma mais plena e vibrante.
Meu malvado favorito 4 (2024), o último capítulo de uma franquia que já tinha muito pouco a oferecer, talvez seja um dos mais fortes sinais de esgotamento criativo do cinema de entretenimento infantil estadunidense. É um filme que não diz absolutamente nada sobre nada e é nada mais nada menos do que um monte de gags emendadas. Algumas dessas gags são semi divertidas, mas a maioria, principalmente as inúmeras e intermináveis envolvendo os minions e agora os super minions, caem muito mais no lugar do irritante. Irritante tipo insuportável mesmo.
Sério, para cada cena de interação familiar fofa mostrando a paternidade desengonçada de Gru com as suas meninas ou o seu mini-eu rabugentinho ou então com a sua nova vizinha/pupila endiabrada, existem dez cenas das criaturinhas amarelas destruindo tudo ao seu redor. Apesar de eu entender a facilidade desse humor besta, facilidade de fazer, facilidade de com ele tirar risadas de crianças muito novinhas ou gente com um senso de humor mais simples, isso desvaloriza e esvazia tanto a experiência. É subestimar e rebaixar o seu público num nível igual ao chamá-lo de idiota enquanto enriquece às suas custas.
Super penso que o humor besta e inconsequente tem o seu espaço, por exemplo, numa dinâmica familiar ou de descompressão, mas dá pra ter isso e algo a mais. Pensando no contexto de assistir algum filminho em família mesmo, escolher um Meu Malvado Favorito (1,2,3 ou 4) faz total sentido, vai tirar pelo menos umas risadas de pelo menos alguns filhos/irmãos/pais/tios/primos sem ofender muito a ninguém, mas pô, até nesse contexto, o outro lado negligenciado e esvaziado da série traria tanto mais identificação e sentido. Já pensou se os personagens tivessem algum arco narrativo que os progredisse de verdade enquanto indivíduos e dentro da estrutura familiar? Puta merda, não é pedir muito e vocês mesmos da Ilummination já conseguiram fazer isso muito, mas muito melhor.
A hq super autoral Aqui de Richard McGuire, publicada em 2014 e que foi a base deste filme-experiência de Robert Zemecks, exerce um fascínio sobre mim desde que pude folheá-la na primeira (de inúmeras vezes) na livraria. A ideia em si é muito boa, pô! Um cômodo de uma casa através dos milênios, séculos e gerações. Um cantinho de não sei quantos metros quadrados se deslocando no tempo em recortes simultâneos, trocados a cada virada de página. Uma multitude de histórias, quadros de vidas e da Vida, sem sair do lugar.
E a proposta, que se encaixa perfeitamente na mídia gráfica, surge como um desafio imenso no audiovisual, na linguagem cinematográfica, cuja gramática se constrói sobre o cinético. Cinema é movimento, assim como qualquer narrativa, mas muito especialmente, porque impor a câmera estática significa engessar todo o trabalho da direção. Só que mais ou menos, pois a limitação de algum recurso força o uso criativo dos recursos restantes, e existe no Cinema a tal da magia da edição, alguns diriam que seu elemento mais definidor.
Cinema é movimento, mas se constrói a ilusão de movimento com a montagem, juntando um pedaço de quadro estático seguido do outro, com implicações no sentido total resultante, a ideia a ser comunicada pelos criadores-autores, esses grandes fatiadores da realidade para a construção de seus mosaicos de ação. Aí que tá, dá para fazer ação e criar sentido a partir da sobreposição de imagens estáticas, inclusive sem uma relação tão direta de causa e consequência entre elas. Isso é cinema, edição é cinema. Na verdade, Here (2024) é cinema, desde os quadrinhos que o originaram.
A gente (o ser-humano) se comunica assim, a partir da definição de um frame mental para o norteamento de todas as nossas inflexões de pensamento em algum sentido, que toma formas expressivo-verbais alguma coisa coerentes. Se a gente vai falar nesses 100 minutos de duração do filme sobre este lugar Aqui, então vamos lá e fazemos todo um reconhecimento algo caótico do que estaria contido dentro deste espaço que é físico e conceitual ao mesmo tempo. Tempo dos dinossauros, antes disso, transformações geológicas, moradores nativos, colonização inglesa, alguns núcleos familiares representativos de uma certa ideia sobre os Estados Unidos da América. Afinal, estamos falando sobre os EUA. Aqui é Aqui, não Lá. O Aqui do americano-médio-indígena-colonizador-matador-de-indígena-veterano-de guerra-cheio-das-ideias-patenteáveis-sonhador-pragmático-piloto-artista-assalariado-dona-de-casa-secretária-advogada-pai-mãe-filho-filha-neta-racista-preto-imigrante-que-morre-de-gripe-que-morre-de-Covid-que-esquece-e-lembra-e-trepa-e-vive-e-beija-a-flor.
Numa outra camada desse quebra-cabeça cósmico 5d está o som e o som através das tecnologias. Do rádio à TV aos celulares, músicas e programas geracionais vão dando pistas junto aos figurinos e às decorações e à paisagem na janela de onde estamos no tempo, sempre Aqui, enquanto nos habituamos aos personagens para além das esquetes cômico-dramáticas hermeticamente funcionais enquanto cenas isoladas. Mais ou menos, mas em geral sim. O frame mental fixo orientador dos nossos pensamentos por essa geografia metafisica de sons é a trilha sonora emotiva de Alan Silvestri, que nos lembra que estamos Aqui, num cinema de técnica e experimentação, porém melodramático e genuíno, do mesmo Zemecks tanto de Expresso Polar (2004) quanto de Forrest Gump (1994).
E o DeLorean viajante no tempo de Zemecks faz esse tipo de experiência cinética temporal, estudo multigeracional, investigação experimentadora e brincante de uma certa ideia de América, desde a trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990). Então, sobretudo, Aqui poderia muito bem ser uma síntese e a coroação da carreira do diretor. Curiosíssimo que o personagem do Tom Hanks, semi auto-biográfico em relação ao autor Richard McGuire, acabe protagonizando também o filme mais representativo da carreira do diretor que fez a sua própria carreira, e que um filme adaptado possa ser tão autoral para o diretor-realizador-adaptador quanto a obra original era para o seu autor original. Os pouquíssimos e brilhantes movimentos de câmera na cena final, usando zoom-in nos rostos envelhecidos de Tom Hanks e Robin Wright, o travelling rotativo mostrando a casa de um outro ângulo e o zoom-out para fora da janela e em direção ao Lá, são verdadeiros toques de um mestre que entende do que faz e da preciosidade dos recursos que tem em mãos, quando os tem em mãos.
O comeback do Stalone nesse personagem antes da subfranquia Creed trazê-lo de volta como coach do filho de Apolo acho menos boa, apesar de ser uma reflexão sobre a velhice interessante. Algo polêmica, mas interessante. O ditado “dias de luta e dias de glória” não se aplica ao pugilista pois sua glória está indissociavelmente ligada à sua luta e o seu tempo de repouso, aposentaria, colheita dos louros é insatisfatório para ele próprio, personagem Rocky, ator-roteirista-diretor Stalone.
O azul melancólico que recobre as ruas da Filadélfia reflete uma angústia que chega a ser pessimista e sádica para alguém que sofre com o luto pela esposa e o afastamento do filho, mas que teria motivos para se ver feliz, bem-sucedido em seus negócios com o restaurante, uma pessoa boa sempre disposta a ajudar. O desafio que lhe é lançado, provocado pelo novo campeão peso pesado e a mídia atrás de espetáculo, faz sarna para o homem coçar, e através do treino pesado e das porradas tomadas e deferidas no ringue, ele se ergue como que em protesto contra o passar do tempo que o atropela nada gentilmente.
A luta é mais simbólica e geracional do que um match concreto valendo um título e um cinturão. O testamento que ele quer deixar para o filho é um legado de superação dos próprios limites e um exemplo vivo de que é possível permanecer de pé frente às intempéries da vida. Ele verbaliza sua lição de vida e visão de mundo para o filho, mas a sua fibra moral tem que ser curtida na porrada, sendo ele um conservador e alguém que se sente validado e respeitado quando está sangrando, perto demais do nocaute.
Não é sobre envelhecer dignamente, mas sobre não aceitar o envelhecimento, como um lutador. Por isso prefiro a aposentadoria de fato que vem com Creed, e a paternidade mais madura que Rocky oferece a Adônis, sendo seu mentor e conselheiro em vez do idoso que se recusa a se enxergar no reflexo do espelho, porque envaidecido e enfurecido por diferenças geracionais e uma melancolia que o acompanha.
Os filmes do Hellboy do Del Toro são excelentes filmes de fantasia, caprichadissimos esteticamente, em maquiagem, efeitos práticos e digitais, design de produção e tudo o que tem a ver com essa construção imagética da fantasia. Guilermo é esse cara apaixonado por suas criaturas num nível fundamental que está sempre recriando seus filmes de monstro como um Dr. Frankenstein moderno, porém que se identifica muito mais com as criaturas do que com o cientista criador, apesar de ser sim um grande esteticista, um grande criador.
Já as ambições do Hellboy de 2019 tem mais a ver com o pulp, a fantasia mais barata e violenta, pouquíssimo sofisticada estética ou narrativamente, mas que, à sua maneira, embarca na coisa do trash e do fantástico. Eu acho legais as referencias de mitos arturianos, da bruxaria demoniaca estereotipica, dos trolls ingleses devoradores de carne humana. Existe a beleza feia do vulgar até na maquiagem mais tosca do Hellboy de David Harbour, que novamente luta contra sua sina de demônio apocalíptico.
Parece um pouco um clipe de Metal quando cria suas cenas que sao clipes musicais recheados com gore, há um prazer ali. Porém, quanto mais se aproxima do que Del Toro já tinha feito no filme de 2004 e em O Exército Selvagem (2008) ele se sai pior em comparação, por ser infinitamente mais pobre, deselegante e muito menos criativo. O flashback da origem do protagonista é um repeteco tão safado da cena dos nazistas com o místico Rasputin invocando o macaquinho infernal que chega a dar pena.
Ainda assim, essa mitologia fabulada e desenhada por Mignola nos quadrinhos é interessante o bastante para valer refilmagens, releituras, desse adendo curioso, meio filho bastardo, desse universo de super heróis, com uma vibe um pouco diferente, menos americanizada e fascista e mais autêntica, que dá pano pra manga para, quem sabe, outros realizadores mais talentosos seguirem os passos fortes de Del Toro ou irem para uma outra direção totalmente diversa. Tem um potencial interessante naquele outro filme que saiu mais recentemente do Homem Torto (2024) também protagonizado pelo Garotão do Inferno por ir aparentemente por um outro caminho, menos épico, mais lenda urbana, terror barato, que deve ficar menos refém da repetição daquilo que Del Toro já fez com mestria. Ansioso para conferir.
Delicinha de filme! Eu já estava simpático à ideia, ao Isaac Amendoim, a tudo o que tinha visto de material promocional de Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa, mas, putz, a obra é muito melhor e mais inventiva do que acredito que qualquer um poderia esperar.
Nos bastidores, dentre outros nomes, temos direção e roteiro da galera da TV QUASE e realmente inspiração é o que não falta para a comédia que eles fazem. E é comédia mas com uma sensibilidade muito grande e uma profunda compreensão sobre a vida no interior e o universo infantil.
Há algo em comum, aliás, entre esse interior campesino, da roça, retratado no filme com cores de nostalgia, e a infância de todos nós, representada como um teatro nos devaneios de Chico: a inocência. Os adultos da Vila Abobrinha são um pouco como crianças pois personagens nesse causo de Chico mas também porque são a resistência frente ao ""progresso"" do (agro)negócio, das estradas de asfalto triplicadas dos cowboys que falam inglês, da "cultura" e da "sapiência" mais avançadas.
Aí ou essas pessoas, crianças e adultos, param para se escutar e se unir para defender a sua goiabeira maraviosa e as suas terras encantadas, ou a árvore vai cair e, com ela, o encanto/ingenuidade/infância do mundo. Pra mim é perfeita a sequência em que a árvore fala, mesmo brega e didática, porque é o momento máximo de encantamento, fantasia, por mais que o filme todo esteja repleto de pequenos encantos e seja ele inteiro um olhar cheio de poesia para a vida.
É como se o filme fosse um menino de chapéu de palha e camisa amarela entregando uma goiaba grande, vistosa e saborosa para nós, na perspectiva da câmera e de Rosinha, como um gesto de amor. Ou uma pirralhada fantasiada de criaturas folclóricas passando seu recado sério de um jeito fofo e desastrado.
E por isso esse filme é tão bom, porque consegue ser específico e universal, o que é a própria definição de clássico. As aventuras na roça de um bando de pequenos caipiras ultrapassam barreiras geográficas, etárias e do sotaque com "r" retroflexo para atingir o simbólico, através do sonho e da brincadeira, e o emocional, pelo riso sem malícia.
Esses thrillers de um só ambiente com uma tensão construída em cima de uma ação que acontece extra cena, quando bem feitos, são experiências interessantíssimas de se ter. Eu curto muito e curti em O culpado (2021) a entrega de alma de Gyllenhaal nas câmeras super fechadas no rosto dele que o filme tenso de Fuqua com roteiro dramático de Nic Pizzolato pedia.
A combinação do diretor de filmes de ação, famoso por sua parceria com Denzel Washington, junto do roteirista de True Detective acertou na forma de dramatizar essa história, fechando não só as escolhas de enquadramento, mas o ponto de vista narrativo, numa perspectiva limitada e fragmentada que vai montando uma imagem em nossa cabeça do que está se passando do outro lado da linha telefônica. Uma imagem mutante e pouco confiável. E esse é o grande lance do filme, trazer reviravoltas e revelações através de novos dados que vão mostrando o quanto o raciocínio dedutivo de um policial pode se provar falho, porque os indícios e sugestões ficam nublados em meio ao caos de uma LA em chamas, um milhão de ocorrências ao mesmo tempo e um psicológico abalado.
A tal culpa a que o título do filme se refere é a do policial que erra na tentativa de cumprir com seu dever e não acho que seja passar pano para o assassino fardado explorar esse sentimento que ele tem, que se converte num arrependimento sincero, uma compensação cármica e a confissão. A moral, bastante cristã-católica, se integra no senso estético-narrativo da obra, que acaba sendo bastante satisfatória.
Moana 2 não convence como uma sequência que precisava acontecer, apesar de se esforçarem minimamente quanto à continuidade temática sobre o mundo ser mais do que só uma ilha, a questão da expansão marítima da tribo e a reconexão com o passado ancestral de desbravadores e com outros povos. Mas o conflito interno da protagonista simplesmente não existe porque já havíamos entendido que a sua natureza é a de ir ao encontro do desconhecido, explorar, aventurar-se. Não tem uma justificativa para repetir o drama do “devo ficar ou devo ir?”.
É óbvio que o chamado da aventura é muito mais forte do que a âncora familiar para o tipo de personagem que Moana é e o que representa. Subversão seria o contrário acontecer. Mas não acontece. Aliás, muito pouco de subversivo ou sequer surpreendente acontece aqui.
Água e cabelo belissimamente animados não são mais o suficiente para deixar o espectador de queixo caído. Tampouco números musicais divertidos, animais sidekicks e um time de coadjuvantes carismáticos e cenas de ação genéricas conseguem prender a atenção de quem já tá vacinado em relação ao jeito Disney de narrar. Pelo menos aqui e ali eles oferecem lampejos de criatividade, mas não é o caso e não tem sido o caso já há uns anos para a empresa (e nem falo só do estúdio de animação principal da casa).
Eu sou muito vendido para filmes de sci-fi e não precisa de muito para eu ficar envolvido em qualquer que seja o cenário de ficção especulativa proposto. Mickey 17 tem clonagem, upload de consciência, colonização espacial, animais alienígenas iguais aos Ohmus de Nausicaa do Vale do vento, tudo isso num tom de paródia de humor sombrio com “crítica social foda” tipo Black Mirror. E se nada é exatamente brilhante ou inovador, a abordagem de Bong Joon-ho possui a sua autenticidade.
O diretor-roteirista tem uma ideia clara do que quer fazer e não arreda o pé de seus compromissos, não tem receio em parecer bobo na comédia, simplório nas caricaturas, estranho na oscilação entre o quase infantil (protagonista ingênuo, vilão mais mau que o pica-pau, pastelão, bichinhos fofinhos) e o adulto (distopia crítica ao capitalismo tardio, reflexões existenciais, gore, sexo). Dou valor a um projeto que consegue se manter autêntico assim mesmo custando milhões de dólares, graças ao prestígio alcançado pelo ganhador do Oscar.
Então, a partir dessa definição autoral, os elementos do filme vão se moldando e encaixando, às vezes melhor, às vezes não tão bem. A atuação de Pattinson, por exemplo, é perfeitamente adequada, ele captou certinho a aura de seus dois personagens, a ingenuidade de Mickey 17 e a persona bad-boy de Mickey 18. Só falta a ele mais tempo para construir o que seriam o Mickey Barnes original e suas 16 vidas anteriores. Pois, mesmo que o descartável recupere as suas memórias a cada nova impressão, tem alguma essência que se perde e outra que se ganha no processo, como gêmeos univitelinos que partem de um mesmo lugar, mas não se confundem. Acaba faltando exploração e aprofundamento nesse conceito que é a base do filme.
No lugar de uma discussão um pouco mais profunda sobre a gênese e o fim da consciência e a construção da personalidade, a trama dá espaço à sátira política e à mensagem ecológica, nas formas dos personagens de Ruffalo e Collette e dos rastejadores. Os dois atores, assim como Pattinson, sacaram bem a proposta da direção e se deliciam com as caricaturas expansivas e patéticas do empresário que acaba funcionando como autoridade política dentro do seu feudo de exploração e colonização além de líder de seita religiosa (negócios, política e religião imbrincados como nunca, como na vida real) e da esposa com uns neurônios a mais do que o marido, meio socialite, obcecada por molhos, sempre em busca de ingredientes exóticos para temperar a sua comida (enquanto as refeições dos trabalhadores são calorias contadas e sem sabor). Os rastejadores são a representação do ecossistema nativo de Niflheim, ameaçado pelos invasores humanos, supersimpáticos, apesar do design chupinhado do estúdio Ghibli e de eles serem a única presença viva num cenário alienígena fora isso absolutamente inóspito, gélido e frustrante.
Pode até ser intencional o tipo planetário escolhido não ser uma Pandora de Avatar, riquíssima em fauna e flora, detalhada em sua complexidade, exuberante em sua beleza, pois com certeza há algo de simbólico e verdadeiro, no sentido de que não adianta nos esforçarmos em empreendimentos megalomaníacos e insistirmos na lógica expansionista. Evoluímos adaptados a um ecossistema especifico e insubstituível e nunca haverá um lugar como a nossa maltratada casa cósmica, a Terra. Mas não deixa de ser frustrante porque pobre, porque feio, porque pouco. Nesse sentido acabamos nos portando como a socialite fechada em uma redoma com design interior arrojado, saboreando molhos de criaturas inocentes, ouvindo orações e hinos de hipocrisia, mais incomodados com o tapete estragado do que com o descartável agonizando sob nossos pés.
Ainda na toada de comentar superficialidades estéticas, os espaços internos da nave-base onde se passa a maior parte do filme oferecem uma lógica operacional muito precisa. Entendemos e nos situamos muito bem nesses espaços da forma como são filmados por Joon-ho, o quarto de Mickey, o laboratório com a impressora de corpos, as fornalhas que são o local de descarte/extermínio, as próprias já mencionadas luxuosas acomodações dos chefes. Quando nos flashbacks da Terra, as vielas escuras e apertadas percorridas por Mickey e Berto enquanto fogem de seu agiota contrastam com o aeroporto espacial desnorteante, luminoso, mais futurista e alienígena na sua retratação sob lentes que distorcem e planos de baixo do que a nave ou Nilfheim.
Aí no final do filme o gosto que fica na boca é estranho, porque não dá para dizer que o diretor não entregou um trabalho eficiente, consistente com a sua obra, sua estética e suas preocupações humanistas (pelo menos desde 2013, com Expresso do Amanhã, seguido por Okja e por Parasita, faz total sentido essa trilha que o diretor percorreu para nos trazer até Mickey 17) e que sustenta as suas escolhas sem muita vergonha ou pedir muitas desculpas. Mas, eu pelo menos, não me senti plenamente satisfeito, apesar de nutrido pelas ideias e interessado pelas esquisitices. É como se eu tivesse comido um bloquinho de caloria daqueles temperado com um molho estranho que dá sabor, mas não é comida “de verdade”. No meio da aridez de uma Hollywood em crise de criatividade e inspiração, é quase pecado não louvar algo como Mickey 17 sendo feito e lançado. Talvez seja um sinal dos tempos, mas pelo menos saí do cinema empolgado para ver uns episódios de Doctor Who.
Gosto bem do take que Robert Kirkman dá para os super-heróis em Invencível. Se existe algo de paródico e autoconsciente na série, isso é posto de maneira menos esdrúxula e cínica do que em The Boys, Kick-Ass e outras propostas similares. Há um coração heroico sincero em Mark. Há também um grau alto de entrega ao fantástico e à especulação científica. E, se os personagens tomam muitos banhos de sangue, eles sofrem muito mais com dores e cicatrizes emocionais do que com fraturas expostas físicas.
O núcleo familiar principal de Invencível é potente desde o estabelecimento do conflito com Omni-Man no comecinho da série. Quando toda a verdade sobre esse pai e modelo de heroísmo vem à tona, Mark e Debbie precisam se reinventar, reiniciar suas jornadas, refundar sua família, redescobrir seus propósitos. Os relacionamentos de Mark e Amber, Mark e Eve, Debbie e Paul e, principalmente, de Mark e Debbie com Oliver surgem e amadurecem a partir dos vazios deixados por Nolan. O espectador se sente intimo desses personagens e é absurdo como conseguimos empatizar tanto com os dilemas do próprio Nolan/Omni-Man, mesmo ele sendo literalmente o causador de todos os problemas e um projeto mal-sucedido de Hitler galáctico.
Em paralelo aos dramas pessoais, temos as tramas aventurescas da série, que vão se entrecruzando enquanto brincam com convenções desse tipo de história. Tudo o que já esteve em algum outro gibi reaparece aqui para Mark enfrentar: de ditadores cósmicos eugenistas a versões malvadas de si mesmo, manipulação governamental e rachas internos de superequipes, bandidos comuns com superpoderes, viajantes do tempo, pessoas corrompidas pelo sentimento de vingança.
Esta temporada em particular passeia por ameaças diversas, trabalha alguns vilões recorrentes, enquanto segue preparando o terreno para a invasão Viltrumita e o retorno de Nolan e desenvolve através da ação seus dramas e temas. A batalha vertiginosa contra Conquista no episódio 8 encerra espetacularmente a temporada e evolui Eve-Mark-Oliver, o triangulo dramático fundamental neste ponto da história.
O sacrifício de Eve por Mark consolida o amor entre os dois e quando ela ressurge mais poderosa esse relacionamento também está como se revestido por sua luz-sólida cor de rosa. É bonito de se ver, era a liga que faltava no namoro dele com Amber. Por outro lado, Oliver e seu instinto de apelo à violência extremada, até a morte se for o caso, sem muitos freios morais, representa o legado viltrumita de Mark, e vira o jogo a seu favor versus a ética super-heróica idealista do “não matar”. Após o final da temporada, frente ao que existe de mais inescrupuloso, para proteger sua família de sangue, meio-sangue (e pele roxa) ou escolhida (e luz rosa), o protagonista sente que não pode mais se dar ao luxo de não sujar as suas mãos com o vermelho que for, mesmo que isso aproxime demais e perigosamente Invencível de Omni-Man.
Adaptar/dramatizar a vida real, transformando pessoas que existem/existiram em personagens, não é uma tarefa fácil, pois se há interesse e comoção em torno dessas figuras, normalmente se faz isso com muitos dedos, resultando em obras burocráticas, as tais biografias chapa-branca. Então, a primeira coisa que se deve fazer para evitar o insosso e algo do tipo “leitura da wikipédia” é esquecer a ideia da imparcialidade, saber o que se quer dizer e escolher bem o seu recorte. Definir tema, estilo, concatenar as ações e ideias. Tratar a sua narrativa inspirada por fatos como uma ficção qualquer. Esquecer a noção de que seria possível mostrar a totalidade da pessoa e toda uma vida em duas horas de filme. O que o bom artista faz com um material deste tipo é refletir faces da pessoa sob um prisma específico.
Em The Apprentice (2024), o diretor Ali Abbasi e o roteirista Gabriel Sherman escolhem contar a sua versão da história da ascensão financeira e queda moral de Donald Trump (Sebastian Stan) através de seu relacionamento com o advogado e mentor político-ideológico Roy Cohn (Jeremy Strong) nas décadas de 1970 e 1980. Se desde o início não havia muito escrúpulo no Donald herdeiro, proprietário de imóveis, cobrador de aluguéis, racista e sonegador, após o convívio com o controverso e contraditório Roy e a absorção das suas “três regras da pessoa matadora”, Trump se torna no fim um monstro, por fora e por dentro. Laranja, de couro cabeludo encurtado e outras cirurgias estéticas úteis apenas para amaciar o ego da besta. Empresário manipulador que constrói seus projetos faraônicos, nababescos, à custa do povo, enquanto afirma, por acreditar veementemente nisso, que Nova York deve dar graças a Deus por ter a Trump Tower no lugar de mais políticas públicas.
Outra face sombria de Trump aparece nos seus relacionamentos familiares: o desprezo pelo irmão, a falta de consideração pelo pai (a fonte de seu “capital inicial” afinal de contas, que é tratado apenas como isso, quando não como um estorvo cuja opinião pouco importa e que fez uns negócios muito mais feios e inferiores aos seus). Aí temos Ivana (Maria Bakalova), que revela a misoginia grotesca por trás do romântico idealista lerdo, meio stalker, e com cara de bobo. Com todas as liberdades artísticas e licenças poéticas que o filme toma, não é “fake news” o histórico do presidente americano de violência contra mulheres e acusações de estupro. As cenas de sexo do filme, aliás, são muito boas nas interpretações e na forma como elas acontecem: Ivana cobrindo o rosto de Trump enquanto ele faz caretas de prazer é hilário; depois, na cena da agressão, ela é súbita na escalada de selvageria e absolutamente repulsiva, a câmera no chão quase nos agride junto à vítima.
Tecnicamente, o filme utiliza várias granulações da imagem e remonta a época muito bem; às vezes parece que estamos assistindo uma gravação em alguma câmera de telejornais mais antigos, curiosamente sem jamais parecer um telefilme ou obra barata ou mal-acabada. E em especial a dupla de atuações principais carrega o filme. Stan imita os trejeitos de Trump, essa caricatura humana, tão certinho que você quer realmente dar uns tabefes nele. O biquinho, o olhar, a obsessão pelo cabelo, a espontaneidade ensaiada da entrega das falas, a dicção característica. Mais para o início existe alguma coisa quase doce que o ator consegue colocar nas caras de bobo e postura insegura que ele faz. No final, só restou a monstruosidade e a arrogância. No sentido contrário, O Cohn de Strong vai se fragilizando com o passar do filme, ele se complexifica um bocado, com as questões pessoais relativas à sua homossexualidade e a uma vida mais liberal (nos costumes), diretamente opostas ao seu discurso reacionário e persona pública e profissional desprezíveis. Não só literalmente, o aprendiz enterra o mentor.
O diretor Jaume Collet-Serra opera com excelência a técnica do cinema para fazer seus filmes de gênero simples e eficientes, a maioria deles assumidos como meros dispositivos para a ação acontecer, com uma dramatização funcional, sem uma vírgula a mais ou a menos. Parece que não, mas manter a bola girando no campo ou, no caso de Carry-on (2024), a mala perigosa sendo arrastada pra cima e pra baixo pelo aeroporto sem a tensão baixar exige muita habilidade na condução narrativa, por mais qualquer nota que seja a trama e por mais clichês que sejam os personagens e seus dramas.
O básico da história do filme se resume a um segurança de aeroporto (Taron Egerton) tentando se provar mais do que um acomodado e dono de uma competência suficiente para assumir como policial, depois de seu fracasso em teste de admissão. Daí cai para ele a responsabilidade de fiscalizar as bagagens que passam pelas esteiras no raio-X, justamente no dia em que um grupo de criminosos tenta colocar em prática um ato que coloca em risco a vida de uma congressista que vai embarcar num avião, e por extensão as vidas de todos na aeronave e em todo o aeroporto. Alguma questão política difusa motiva os vilões, mas como já falei, tudo no filme se justifica pela ação, pela adrenalina correndo na veia, pela respiração suspensa nos pulmões.
A esposa estar grávida e também ser funcionária do aeroporto implica em aumentar o risco e quanto maior o risco, maior a tensão. O protagonista está agindo, sendo coagido e fazendo malabares para proteger os seus mas também indivíduos anônimos e outras vitimas de coação, todo um coletivo e inclusive o espírito de Natal. Aí a montagem é virtuosa nesse vai e vem entre o protagonista, o bandido observador/atirador, a investigação da polícia, os portadores da mala. Até tudo se resolver, alguns cadáveres tendo ficado pelo caminho. O desenlace da trama é o desenlace da bomba e o alívio da tensão. Sem essa tensão sobra pouco no filme, antes ou depois, além ou mais fundo. Funciona.
Um Sean Baker menos político, o filme existe mais pelo prazer estético e sensual da imagem e pela tragicomédia de sua protagonista do que por qualquer tipo de mensagem imediata. Apesar disso, o filme carrega significado na exposição da superficialidade e fragilidade de uma espécie de sonho americano e do arquétipo da Cinderela, que vira às avessas.
No inicio, a câmera glamouriza, fetichiza, e nem tinha como não fazer isso sem descaracterizar a propria natureza do trabalho sexual ou o sobrecarregar de moralismos e julgamentos, mas existe um carinho por Ani. Amo sempre que as cenas naturalizam o corpo e focam no rosto dela. Os próprios créditos de abertura mostram o espaço do QG das meninas dançando, fazendo seus números de strip, sedução e carícias para centralizar por fim nas expressões da protagonista.
Reconhece-se o trabalho sexual como um trabalho qualquer, uma prestação de serviço, cujo gozo do trabalhador, por mais que por ventura exista e por mais que seja aquilo que se vende, é absolutamente secundário, para não dizer terciário, muito abaixo da satisfação dos clientes e da produção da dita mais valia na roda massacrante das engrenagens do sistema. Ani tem a jornada dela, o preço dela, busca se valorizar nesse mercado do prazer, as colegas amigas e as rivais, os momentos de descontração fora do job. Ivan vira seu cliente super vip e ela tira proveito disso na medida do que pode até que a ilusão embaça o seu senso de autopreservação e da própria realidade.
O primeiro ato frenético em cores, sons e sexo, curtição adoidada entrecortada por banalidades de uma vida sem grandes propósitos ou consequências, dará lugar ao inusitado e bizarro com o núcleo dos bichos papões meio assustadores meio palhaços do leste europeu que vem assombrar Ivan e retirar sua falsa independência. Las Vegas é o ápice daquele primeiro momento de deslumbramento, excessos, embriaguez eufórica. Após o casamento, tudo cai mais fácil do que um castelo de cartas. Ani tenta se apegar a uma vã esperança na ideia de hombridade e maturidade, ou pelo menos um minimo de amor e parceria, do marido, que estaria escondida por trás dos divertimentos bobos, gozadas rápidas, video-games e consumos de drogas em lojas de doces. Mas quando chega a hora de provar seu valor, ele pica a mula.
Ani aguenta o tranco firme, reage, se vira como sempre se virou. Ela é uma mulher prática e amoral que cai no conto de fadas mais infantil, comum e inverossímil: “casaram e viveram felizes para sempre”. Mas não é tapada, é complexa. Apaixonante na interpretação de Madison. Quem escolhe subestimá-la e tratá-la como descartável são justamente os antagonistas da história, não os atrapalhados pau-mandados, socialmente num lugar muito parecido com o de Anora e no fundo até simpáticos a ela, mas os ricos mimados que se acham donos da porra toda, Ivan e seus pais.
O ponto de vista do filme é mais próximo ao de Yuri (de simpatia, até respeito, tesão que dá vazão a cenas e piadas desconfortáveis, surpresa pela valentia e uso desproporcional de violência) e é justamente perto dele que Anora termina. A cena final é interessantíssima, poderosa, porque traz ela retribuindo a gentileza dele da única forma que ela se acostumou a fazer e tem um misto ambíguo de sentimentos que fica ambíguo também para a gente, ela quase convulsiona, debatendo-se e batendo nele, chorando, entre a frustração e a raiva por tudo que passou, uma entrega mais sincera ao prazer, o ódio pelo seu retorno ao antigo status quo.
Luffy e os chapéus de palha atravessaram o East Blue e meia Grand Line, repleta de aventuras, para chegar até aqui, o vale mais profundo, que parece não ter fim, de suas derrotas mais devastadoras, incontornáveis e transformadoras, no grande arco do resgate de Ace que tem suas prévias em Sabaody e desembocam na Guerra dos Melhores em Marineford. No desenho geral da saga, é a culminação de muita coisa, o clímax e o absoluto low point dos protagonistas em seus arcos dramáticos e emocionais. É do fundo do poço que surge a necessidade de aprendizado e treinamento para os mugiwaras e seu ressurgimento glorioso a partir de onde eles tinham parado, no pós-timeskip.
Antes da desgraceira toda começar de vez, a chegada no Arquipélago das bolhas de sabão é delicioso e riquíssimo em construção de mundo, não só do microcosmo desse mini-sub-arco em específico, mas também no escopo geral das coisas. A mecânica da tecnologia das bolhas e como toda a ilha funciona através dela é muito legal, lembrando o pedaço de worldbuilding de Skypiea. A geografia e o ecossistema dos mangues são a atualização das ilhas do céu no mar branco de nuvens. É um momento que eu acho particularmente bonito e bem animado no anime também, as cores suaves nesses tons de verde e azul complementam bem os traços do Oda, que está com o seu estilo já muito bem definido nesta década de prática e familiaridade com os personagens.
Além disso, somos apresentados aos outros piratas da “Pior Geração” e a várias figurinhas que serão importantíssimas no elenco recorrente de One Piece daqui em diante. Os designs de personagem seguem criativos até dizer chega e não tem nenhum dos Supernovas que não seja super icônico no visual, que serão desenvolvidos no Novo Mundo com diferentes níveis de satisfação. Os filhos-da-puta mór, os grandes usufruídores do sistema de desigualdades imperante no mundo de One Piece, a elite da elite que vive no topo da Red Line e os mandantes do Governo Mundial aparecem finalmente e escancaram qual que vai ser a batalha final pela Liberdade de Luffy e aliados. Arlong, Crocodile, Enel, Lucci, Spandam e Moria eram peixes pequenos e reproduziam um sistema de raízes bem mais profundas e antigas, subordinados diretos ou não à vontade dos Dragões Celestiais.
É um outro grau de violência e degradação humana que vemos nos leilões de pessoas das diferentes raças e espécies que acontecem em Sabaody, e um tipo que toca muito de perto em cicatrizes da nossa realidade social. É sombria e bizarra pra caralho a imagem dos “Santos” em seus trajes de astronauta e jeito arrogante e infantilizado arrastando pessoas escravizadas por correntes e os tratando como animais de carga, não dividindo nem o mesmo ar que o povo “inferior” respira. E, porra, que soco bem dado o de Luffy na fuça de Charlos! A animação dessa cena é dos momentos perfeitos de adaptação em que o anime brilha.
Então, uma coisa leva a outra e rapidamente as ações e reações escalam até chegarem em Borselino Kizaru, o segundo dos três almirante da Marinha que os heróis encaram. O Macaco Amarelo e a sua “Justiça Preguiçosa” e impiedosa mais Sentomaru e seus Pacificadores estão tão infinitamente acima do nível de poder de tudo o que tínhamos visto antes que a intervenção de Rayleigh e da patinha-patinha no mi de Kuma são o que salvam Luffy e companhia da aniquilação completa e permanente. Mas eles são derrotados, massacrados, e separados.
Sem ter a menor ideia do que aconteceu com seus nakamas, o menino-borracha chora em desamparo e é um puta momento de cortar o coração. Neste ponto da história o espectador está tão perdido quanto e o clima de tensão e o sentimento de “agora fodeu” é muito real. As cenas de transição que o anime coloca das bolhas subindo e enchendo até estourar são a tradução desse sentimento. O checkpoint em Amazon Lily que vem em seguida vai ser não só narrativamente inteligente para levar o protagonista aonde ele precisa chegar como necessário para recuperarmos o fôlego uma última vez rumo aos infernos de Impel Down, da Guerra e do luto.
Serão muitos e muitos episódios correspondentes a muitos e muitos capítulos do mangá até o grupinho estar junto de novo e, se o ritmo não é dos melhores e parece que uma vida inteira se passa para a jornada coletiva pela realização dos sonhos, pelo desvelamento dos segredos da História e dos mistérios do mundo e pelo One Piece continuar, a recompensa emocional é gigantesca quando chega. A gente precisava sentir a saudade junto com Luffy para valorizar aquele grupo imperfeito de amigos que tem uma dinâmica tão divertida. Se não fosse pela bandeira hasteada da caveira com o chapéu de palha, aquelas águas de dramas e tragédias (e flashbacks tristes), com um revestimento de bobices, palhaçadas, loucuras, lutinhas e fantasias, seriam muito mais difíceis de navegar.
Não sei qual é a pira de Hollywood com botar bonecos CG vindos de cartoons e/ou mundos de faz-de-conta com lógicas próprias e cheios de potencial para interagir com pessoas de carne e osso em nossa realidade ordinária (invariavelmente o norte-americano médio em algum recôndito ou metrópole famosa dos EUA). Na maior parte das vezes faria tão mais sentido só (re)criar a fantasia original em um novo estilo para novos tempos ou outra mídia, mas insistem em fazer esse “isekai” reverso, sei lá o porquê. Absolutamente ninguém está interessado no policial da cidadezinha de Green Valley (James Marsden), que quer (ou não) se mudar para a grande São Francisco, quando o nome do filme é Sonic: O filme (2020) e o personagem título é um ouriço azul super-maneiro e super-rápido. Mas aparentemente a tendência é essa, então que ela seja um bom parque de diversões temático!
Nesta versão, Sonic é uma criança solitária e hiperativa, órfão, refugiado, alvo de mais de um grupo interessado em seus poderes e potencial energético. Mas nada disso gera muito drama, porque o filme é leve e de ação. Apesar de ser fraco nessa ação, pouco inventivo nas cenas de correria em altíssima velocidade, e de ter pintado o Dr. Robotinik (Jim Carrey) com cores mais sombrias do que eu tava esperando. É o Jim Carrey com todas as suas caras e bocas, mas a sua caracterização é a de um tecnonazi de roupas pretas, bigode de fuhrer e corte militar, tudo estranhamente familiar, mais ainda em 2025 do que na data de lançamento. Achei interessante isso e o viés mais crítico aos milicos estadunidenses. Já que as forças armadas deles têm que estar lá representadas de alguma forma e o protagonista já é o “good cop” para fazer a média corporativa, que seja assim.
O design de Sonic é fofo, não tenta ser realista demais (ainda bem!) e a interação dele com os cenários e os atores “live-action” convence. James Marsden é bom em entrar nesse lugar mental da criança interior e reagir a um personagem que não tá ali de verdade, tipo um amigo imaginário. Porém é muito pobre existir somente esse único alienígena caricatural, uns anéis que criam portais e os drones do vilão como atrações nesse carrossel de aventuras. Porque tá muito mais pra carrossel ou roda gigante do que carrinho bate-bate, montanha-russa ou trem-fantasma esse brinquedo. Temos correria, muitas piadas e montagens espertinhas com velocidade, e até perseguições de carro no filme, mas a frequência é baixíssima e não existe uma proposta visual que seja interessante e diferente de tantas outras que já vimos quando estamos lidando com corredores e super poderes.
Faltou no filme a característica talvez mais distinta desse mascote dos videogames que é ser, além de rápido, legal pra caramba, maneiro, radical, descolado, etc. Era o apelo do personagem se comparado a italianos baixinhos, bigodudos e de chapéu vermelho de outros jogos. O Sonic aqui do filme é carismático, um cadinho irritante e com um arco dramático de aceitação e de ser adotado pela família do policial bom moço e pela comunidade de Green Hill, mas ele não é massa, da hora, eletrizante. Faltou tempero e faltou contraste com outros bonecos de outras cores e temperamentos para ele brilhar mais forte e mostrar mais da sua personalidade moleca. Aí quando aparece na cena final o Tails chegando para dar o ar de sua graça na continuação já fico mais animado, afinal sempre fui da turma que preferiu jogar com o segundo personagem, aquele com um conjunto alternativo de habilidades e características para desbloquear um outro estilo de jogo. Tomara que as sequências tenham mesmo mais estilo.
Seu amigão da vizinhança: Homem-Aranha reapresenta o herói da Marvel pela zilionésima vez e a série, em sua primeira temporada (2024), acerta justamente quando não repete só por repetir as convenções estabelecidas pelas décadas do personagem nos cinemas, gibis e outras séries animadas. É no mínimo curioso ver o elenco de apoio do personagem não ser o mesmo de sempre num universo que é paralelo quase colado ao MCU, mas que não fica preso a ele.
Os recursos infinitos vindos da Oscorp substituem o apadrinhamento de Stark nos filmes com Tom Holland e a figura paterna da vez é o próprio Norman, em uma versão instigante, sedutora, não puramente malévola. A mudança étnica é irrelevante, mas eu gosto dos designs de Norman e Harry. Eles são pretos e ricos e por sua riqueza conseguem jogar bem o jogo social. Norman usa o poder para conquistar/comprar respeito, conforme a "lição" que deixa para Peter, numa versão distorcida da famosa frase do tio Ben. No caso de Harry, sua fama em mídias sociais não significa amizades reais, que ele só vai começar a desenvolver com Peter e Niko ao longo da temporada.
O arco de Lonnie mostra como a discriminação e a marginalização tem a ver com questões de raça mas, sobretudo, com questões de grana, de geografia, de falta de acesso a espaços e a necessidade de ocupação de outros espaços que serão limitadores e definidores de seu futuro. Em oposição às oportunidades que caem nas mãos de Peter, de ser um herói "escolhido" pelo destino (na forma de um portal interdimensional/temporal) à escola de elite e ao estágio nos laboratórios Oscorp, Lonnie tinha todo o potencial do mundo mas é tragado pelas urgências da sobrevivência ao submundo das gangues, onde acabará ganhando seus poderes, mas quase como uma maldição. O conflito do final da temporada não ser entre os dois é levemente decepcionante pela não entrega do que a construção dava a entender que era o objetivo final.
No lugar disso recebemos um plano escalafobético que emburrece e diminui o personagem de Norman para amarrar a origem do herói com um loop temporal. Além disso, as versões de Octopus e Escorpião são legais e bem amarradas com os núcleos principais da série, enquanto as pontas do Doutor Estranho, do Demolidor e do Homem de Ferro são gratuitas, servem somente para aumentar o escopo desse MCU 2. E ficam sementes plantadas para as temporadas seguintes com os por enquanto subdesenvolvidos Nico Minoru, Dra. Conners, Amadeus Cho, as identidades civis de conhecidos heróis e vilões.
Estilisticamente eu gosto dos traços utilizados e da ideia de se tentar uma dinâmica/edição que remete aos quadrinhos com as capas na abertura, os quadros divididos, as viradas de página, as splash pages. Porém, se os designs são bons, os desenhos em movimento não agradam tanto, falta fluidez, é chapado, é estranho. É compreensivel que esta animação não seja bela e refinada como os longas para cinema do Aranha-verso da Sony, mas dá para ver que eles miraram em algo parecido, entre aquilo e a estética de quadrinhos dos anos 60 e a contemporânea do MCU, só que faltou orçamento, tempo ou criatividade para fazer mais com menos. Assim, a ação ação mesmo, o quebra-pau, o Aranha balançando na teia, não é de todo ruim, o 3D se justifica nessa coisa de parecer uma câmera se mexendo filmando coisas se mexendo. Só que em termos de ação, aí sim podemos dizer que já vimos coisas muito melhores e mais inventivas com o personagem.
A música folk, os movimentos pelos direitos civis e a contracultura dos Estados Unidos dos anos 1960, a personalidade ao mesmo tempo magnética e evasiva da pessoa Bob Dylan, seu egoísmo no modo de lidar com seus relacionamentos, são elementos que informam sobre quem é o artista sem nunca revelar o segredo de sua arte ou a sua alma em profundidade e verdade, em Um completo desconhecido (2024). A caracterização de Timothée Chalamet para Dylan é contida e charmosa; da postura à voz, o ator claramente estudou muito para o papel e o tomou para si. Se atuar tem altas doses de fingimento para a criação de uma verdade (e toda arte é isso), a verdade de Robert Allen Zimmerman se esconde nas letras e performances de Dylan, aqui reinterpretadas por Chalamet.
James Mangold, o diretor e roteirista do filme, opta por não quebrar com a mística do músico, ao evitar didatismo e respostas fáceis para seu estilo ou comportamento. Ele é um puta compositor e um admirador dos artistas folks tradicionais e um poeta/cronista popular e um iconoclasta e um experimentador e um babaca. E um mistério. Uma coisa não anula nem justifica a outra. Quando o jovem Dylan chega em Nova York ele já está semi pronto e sua origem não é mais do que especulação no filme. Aí ele vai surpreendendo, para o bem e para o mal, nas relações que cria com seus padrinhos na arte Pete Seeger (Edward Norton) e Woody Guthrie (Scoot McNairy), a ativista e namorada Sylvie Russo (Elle Fanning), a cantora e amante Joan Baez (Monica Barbaro).
Como qualquer idealização sobre qualquer um ou qualquer coisa, a realidade é um balde de água fria. E não é diferente com quem apostava suas fichas em Dylan como o salvador do folk ou o homem de sua vida. Seu empresário (Dan Fogler) apostou na figura com todo o seu talento e as suas contradições e nisso ele acerta. Porque sabemos pelos letreiros finais e pelos spoilers da vida real que sua ousadia deu lucro. E atestamos a qualidade de sua arte quando a ouvimos nos vários trechos musicados do filme. É claro que seria Dylan o primeiro compositor a ganhar um Nobel de Literatura. E isso não exime sua pessoa de seus erros. Nem encontramos a fonte mágica de sua inspiração nesses erros ou mesmo nos acertos de sua biografia. Não há condenação nem julgamento. A inspiração aparece para o cara quando está escrevendo de madrugada no apartamento da amante ou quando acha curioso o som de um apito que compra de um vendedor ambulante na rua. Genialidade não se explica, mas se mostra. E os coadjuvantes do filme junto da câmera de Mangold são testemunhas dessa genialidade.
A forma fílmica parece básica e tradicional, mas carrega as suas sutilezas que contribuem para a aura de mistério do protagonista. Os olhares dizem muito. Quando está no palco com Joan, ele concentra o olhar nela mais do que em qualquer um em qualquer outro momento. As lentes focam nas emoções estampadas nos rostos dos atores, mas Dylan é difícil de decifrar. Exceto quando está com Joan. Ele parece mostrar vulnerabilidade na cena em que se despede de Sylvie, até que ele acende o cigarro. Parece pose, parece fuga, mas ele divide o cigarro com ela. Através das grades. Ele é filmado bastante de costas e contra a luz ao longo do filme e parece, mais para o final, não se importar e dar de costas para a tradição; porém, depois de quebrar tudo em Newport, "trair" Seeger e ser saudado pelo rockstar Johnny Cash (Boyd Holbrook), ele faz questão de visitar Guthrie uma última vez, antes de pegar a estrada em sua moto rumo ao desconhecido. São cenas em sequência muito bem escolhidas que criam no conjunto um senso de completude lacunar. As elipses e as faltas comunicam tanto quanto as letras das músicas, a escolha dos instrumentos musicais e os sons super bem captados de voz, gaita, violão ou guitarra elétrica. Comunicam mais do que as aparências, do que o "parecer ser" tanta coisa.
O auto da compadecida 2 (2024) é um filme que é pouco pelo tamanho do que representa o legado da peça original e de Ariano Suassuna. Ele se entende como uma farsa nesse trabalho ingrato que é dar sequência a uma obra tão querida e autenticamente nossa, brasileira, regional. Porém, mesmo se entendendo assim e dando vazão a um estilo propositadamente artificial e a comentários metalinguísticos sobre as suas repetições, o resultado não é tão saboroso.
Poderia ser uma repetição, um pastiche, do primeiro, mas com aquele gostinho que saciaria o nosso desejo de “mais do mesmo” de um prato muito muito bom que só é desfrutado muito raramente hoje em dia e nos recorda de nossa infância. Com o gosto do Nordeste encantado, teatral, exagerado, medieval, folclórico e carnavalesco dos cordéis, do teatro popular, da arte armorial. Com gosto de carne seca com macaxeira, cuscuz com leite, tapioca com manteiga de garrafa. No lugar disso, tivemos uma cópia do primeiro com versões menos autênticas das tramas, personagens, cenários, temas. Comemos o menu de uma rede de restaurantes de tema nordestino, sem a mão certa no preparo dos pratos populares que foram apropriados, processados e pasteurizados.
A trama é uma colcha de retalhos com a forma narrativa da contação desses causos vividos por João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) mais de duas decadas depois de quando os tinhamos deixado em Taperoá. Passarinhos de computação gráfica e ônibus de turistas chegam na cidade do sertão um pouco transformada, maquiada digitalmente, mas com os velhos problemas da seca, da desigualdade, da má política. A ressurreição milagrosa de João Grilo o alça a herói, santo e cabo eleitoral tanto do Coronel Ernani (Humberto Martins) quanto do radialista e vendedor Arlindo (Eduardo Sterblitch). Enquanto isso, Chicó se envolve com a filha do Coronel Clarabela (Fabiula Nascimento) e tenta reaver Rosinha (Virgínia Cavendish), seu grande amor.
Os personagens continuam carismáticos e as situações vividas por eles são até que divertidas porém empalidecem perto do original. O que só piora quando o clímax no tribunal do Além é tão “copia e cola” do que já foi feito antes, com um twist que o deixa mais psicológico e menos místico e mais sem graça. As muitas caras de Nachtergaele e a Compadecida de Taís Araújo são a versão expresso do café coado de Fernanda Montenegro, Maurício Gonçalves e Luís Melo.
Afinal, não haveria problema, até pela natureza teatral de sua origem, se fizessem uma mera reencenação/reinterpretação da peça original, desde que a direção e a estética fossem inspiradas o suficiente para justificar uma nova versão filmada. Mas é o mesmo Guel Arraes de antes que dirige aqui em parceria com Flávia Lacerda e eles não oferecem nenhuma ideia nova que valha a pena. O elenco também é majoritariamente o mesmo. Então, entre a versão original e a continuação que é homenagem e quase refilmagem porém com gosto de reciclagem ou cópia não tão boa, prefiro reassistir o original.
Um Filme Minecraft
2.6 197 Assista AgoraO apelo de um jogo como Minecraft está no seu elemento “sandbox”, em ser um espaço aberto repleto de ferramentas para os jogadores se sentirem um pouco exploradores e um pouco co-criadores dessa terra quadrada e fantástica. Os fragmentos narrativos oferecidos aqui e ali montam um quebra cabeças que se completa com o protagonismo e a imaginação do jogador. A aventura deixa de fazer sentido se você para de engajar e exercer esse papel ativo nela. Um filme de Minecraft, portanto, nunca foi uma ideia muito boa pra início de conversa. Mas, até aí, um filme de Lego parecia fazer tanto ou menos sentido quanto e acabou se justificando e sendo sensacional.
O que tinha em Uma aventura Lego e falta em Um filme Minecraft é criatividade. Muito ironicamente, pois este é não só o elemento central da identidade da marca como o assunto explícito do filme, seu mais forte tema, se conseguimos encontrar algum. O “arco” de Henry gira em torno de ele ser tipo um gênio, super inventivo, apesar de o máximo que ele constrói nesse mundo ilimitado ser uma torre sem graça e uma arma de atirar batatas. Parece até piada, enquanto as piadas propriamente ditas do texto não fazem rir.
Extremamente sem graça também é a trama aqui, a própria definição de “qualquer coisa”. Talvez se escolhessem um único foco narrativo e protagonista funcionasse melhor. Ou as aventuras do explorador Steve, ou a volta por cima do Lixeiro, ou a superação dos traumas e o amadurecimento de Nat e Henry. O tom geral de leveza e comédia do filme se sustenta sobre o carisma de seus atores e suas personas que se confundem com as dos personagens, especialmente Jack Black e Jason Momoa. Até porque não há muita substância em qualquer deles, então o que sobra é o carisma natural mesmo.
Fora isso, os efeitos visuais são competentes, o cenário 100% fabricado do “mundo superior”, os bloquinhos, vivos ou decorativos, se materializam e interagem bem nas cenas. Nada muito impressionante ou inspirado, mas o digital sobre a tela verde funciona. A esquete de Jennifer Coolidge e seu namoro com um dos aldeões (NPCs genéricos) que escapa do jogo para o “mundo real” é algo totalmente deslocado e bizarro que pelo menos isolado também funciona como comédia do absurdo. Mas são raros até esses momentos absurdistas mais escrachados. Difícil de defender.
A Paixão de Cristo
3.7 1,2K Assista AgoraEste é um filme de Páscoa raiz, hardcore, católico/crente “na veia”. O episódio da paixão de Cristo nesta retratação visceral de Mel Gibson faz suas escolhas de modo a torturar o espectador junto ao Deus vivo e filho de Deus dos cristãos e nem falo isso no mal sentido. O martírio, a via crucis, o sacrifício expiatório pelos pecados do mundo se potencializa nesta lente que se aproxima das feridas em carne viva, parece sádica, mas nunca deixa de prestar reverência à figura de seu protagonista trágico. Afinal, trata-se literalmente da maior tragédia que já existiu, seu arquétipo e realização supremos na História.
Anunciado por profetas desde o Antigo Testamento, Sua vida, Seu evangelho e Sua morte transformam e dão sentido à própria Criação. A traição de Judas, a humilhação que Ele é obrigado a passar, injustamente cuspido, escorraçado, espancado, açoitado, e por fim, pregado, crucificado, perfurado e morto, tudo isso em razão da iniquidade e crueldade do povo (e o filme bem mostra a relativa indiferença dos governantes enquanto o próprio povo e em especial seus religiosos o condenam), levam à Salvação desse mesmo povo, em ato de puro Amor. Ao mesmo tempo a Tragédia das tragédias, uma luta inescapável frente ao Destino, o Cristo Ressuscitado oferece o final feliz inexistente na época dos gregos e seus deuses mesquinhos, presos a um pós-vida imutável e sombrio. Quando volta da mansão dos mortos, Cristo abre as portas para todos os heróis e santos do passado e do futuro poderem passar. Todas as tragédias viram (divina) comédia. Mas não deixa de sofrer, se lamentar, pedir por misericórdia, porque Deus se fez Homem de carne e ossos, suor e sangue.
A partir dessas ponderações ou qualquer reflexão filosófico-narrativa-poética-teológica inspirada pelo filme, pode-se observar que, neste caso, a arte e o seu sentido religioso se misturam muito profundamente, sendo impossível uma análise desassociada, pois se perderia toda a essência e o valor daquilo ignorando a questão da Fé dos seus realizadores, demonstrada na forma que o filme assume. Apenas uma pessoa, senão católica, muito influenciada pela visão católica do mundo e por sua leitura específica da Paixão, condensaria toda a vida de Cristo em suas últimas 12 horas para buscar nelas todo tipo de simbolismo e associação com suas experiências pregressas. Dentro dessa cosmovisão era a decisão óbvia, porque está tudo ali.
Maria, Madalena e os apóstolos participam desse momento decisivo, epicentro narrativo e da História civilizacional, do Getsêmani (escuro, de atmosfera densa), ao Calvário (árido, brutal), como as testemunhas que foram e também funcionam na estrutura do filme como esses ganchos para pontuar passagens específicas do Evangelho em meio a toda a dor excruciante, jamais diluída. Muito pelo contrário, a câmera se demora e cria cenas fortes, difíceis de ver, do martírio. O Cristo de Caviezel carrega dor, muita dor, e bondade piedosa no olhar, mesmo quando quase não conseguimos mais ver um dos seus olhos pelos ferimentos e pelo sangue. Aliás, a físicalidade na atuação do ator impressiona pois precisa ser forte e frágil ao mesmo tempo, sofrida e resiliente. Não diria que é simples representar a Carne e o Sangue, sagrados na liturgia católica, o Pão e o Vinho eucarísticos, mas conseguiram de alguma maneira.
Não compreendo totalmente o preciosismo de Gibson em querer usar os antigos aramaico e latim como as línguas faladas no filme, mas aplaudo a coragem de levar a cabo essa ideia. Acaba ajudando na contextualização e imersão. Mesmo que seja dramatizado do mesmo jeito, não é documento histórico, Jesus não falando inglês moderno mas uma língua que soa estranha e antiga aos nossos ouvidos me parece mais correto, menos incômodo. Essa preocupação aparece também na reconstrução da época, apesar de um ar de teatralidade e de nunca entendermos totalmente a geografia dos lugares. Não nos perdemos na mise-en-scene, mas o que quero dizer é que existe qualquer coisa de genérica nessa Jerusalém do filme, não diria que como uma novela bíblica da Record, pois é bem melhor realizada do que isso, porém é essa mesma ideia de oriente que orienta a encenação. A base pode até ser histórica, mas falta mais especificidades. A cidade não é personagem.
Por outro lado, Pilatos (Hristo Shopov) ganha uma dimensão interessante justamente nesses detalhes de caracterização, nessas especifidades, que lhe dão um caráter mais austero e sóbrio, contrastante com a vilania de um Caifás (Mattia Sbraglia), a fanfarronice de um Herodes (Luca de Dominicis), a bizarrice de um Barrabás (Pietro Sarubbi). E, dentro desse lado antagonista, há ainda uma curiosa representação do próprio Antagonista, andrógeno, assustador e sempre à espreita, carregando cobras e bebês demoníacos, a figura simbólica por trás do Mal, dos atos de selvageria do povo, da traição, tormento e suicidio de Judas (Luca Lionello). A vitória sobre a Morte de Cristo faz esse Inimigo (meio figurativo, apesar de real) gritar e a Terra tremer. Quase dois mil anos depois e ainda lembramos e revivemos o episódio, seja nas missas católicas, outras cerimônias cristãs, em palcos do Brasil, em filmes de Hollywood. E pra achar isso bonito nem precisa ser religioso. Para quem é de fé, feliz Páscoa!
Dragon Ball Daima
3.6 44 Assista AgoraDragon Ball Daima foi um presente de despedida que Akira Toriyama deixou para seus fãs. E apesar de ter trabalhado em todo o conceito, história, designs, infelizmente faleceu antes de sua estreia, então Daima, quando lançou, tornou-se também uma homenagem póstuma ao seu criador, honrando seu legado. Está aqui toda a essência de Dragon Ball, especialmente daquele comecinho antes da fase Z.
O gimmick de transformar os personagens adultos em crianças acaba funcionando muito por mimetizar o estilo e o espírito dos primórdios da franquia. E a aventura toda explorando o mundo dos demônios é uma clássica aventura de RPG ou, melhor ainda, um J-RPG nos moldes de Dragon Quest, outro filhote de Toriyama.
Acaba que o desenvolvimento se apressa demais a partir de certo ponto e adoraria que a gente pudesse ter curtido com mais calma esse passeio por um mundinho tão divertido e interessante. Mas amo a simplicidade, a pureza, o humor, a inocência, os personagens e inimigos que são sempre um pouco bobos demais, mas não no mal sentido, pois a vibe está de acordo.
Daima, o rei demônio, Majin-Doo e Manjin-Kuu nunca foram pra se levar a sério de verdade. Daima é como comer doce em talheres de plástico meio arredondados e sem corte, conceitualmente pensado assim. Não há o gravitas da fase Z porque não era pra ter mesmo. Fiquei com um sorriso no rosto durante todos os episódios. Valeu, Toriyama. Descanse em paz.
O Protetor: Capítulo Final
3.5 265Existem pelo menos três coisas a serem exaltadas nesta terceira instância dessa série de “filmes de ação geriátricos” protagonizada por Denzel. A primeira delas é o próprio ator, que é dono de um carisma inegável e de uma presença de cena fortíssima. Em segundo lugar, a mão sempre segura de Fuqua na direção da ação, desta vez bastante sanguinolenta, e do suspense que a antecede. E, por último, eu ainda destacaria os belíssimos cenários italianos que ambientam a trama, super valorizados pela cinematografia.
Essa Itália com cidades costeiras esculpidas em pedra, moradores pacatos cuidando de seus pequenos comércios e ofícios, máfias familiares, símbolos da sacralidade católica, conta por si só uma história rica e intrigante. A chegada de “Roberto” como esse vigilante obscuro, anjo vingador, super simpático e super brutal, vem para desbaratar a intriga que liga esses criminosos locais com tráfico internacional, terrorismo, extorsões e roubos cibernéticos transcontinentais de aposentarias de velhinhos americanos. E se há uma preocupação evidente de justificar o sangue derramado por Robert Mccall e a interferência americana em terras estrangeiras, o filme funciona mais na simplicidade de mostrar gente ruim se fodendo do que quando ensaia qualquer tipo de discussão moral e não sai do raso ou tenta fazer a gente junto da personagem de Dakota Fanning conectar os pontos nessa investigação que parece um pouco fácil e um pouco óbvia demais.
Antes do filme mostrar realmente a que veio, a cena inicial da chacina no casarão choca pelo nível da violência, estabelece um mistério e sugere uma dubiedade moral, uma complexidade, principalmente pela presença da criança sobrevivente que acaba por acertar o tiro no vigilante. São promessas que não se cumprem. A parte da violência continua, mas vai deixando de chocar tanto, o mistério era melhor somente como mistério do que quando solucionado e, apesar de literalmente se perguntar e ser perguntado se é um homem bom mais de uma vez, Robert tem sempre todas as desculpas e pseudo explicações para o porquê de ser tão violento. Ele tá dando o troco, devolvendo na mesma moeda, fazendo justiça com as próprias mãos porque a segurança pública é corrupta, incompetente ou está de mãos atadas e ele tem a coragem e o sangue frio para fazer o que faz. Tá beleza, só não é tão complexo assim, e Enzo quase que o perdoa e absolve instantaneamente, assim como o filme parece querer fazer.
A montagem paralela no final entre a procissão e o justiçamento através do morticínio dos bandidos cria contraste mas parece sinalizar também algum tipo de identidade, como se as respostas às orações do povo, que já demonstrou estar do lado do vigilante, fosse a “purificação” que ele está fazendo naquelas ruas. Depois, os fogos de artifício e as comemorações coloridas não são mas é como se fossem a premiação de Robert por ter resolvido a situação por ali, ajudado a inteligência americana, devolvido os exatos trezentos e sessenta e tantos mil dólares da aposentaria do senhor. Nosso protagonista foi aceito pela comunidade, abraçado por ela. É um querido, nosso vigilante favorito, mais do que bom, um ótimo cara! Tá perdoadíssimo, somos católicos, afinal.
Um Lugar Silencioso: Dia Um
3.3 803Eu estava pronto para um filme medíocre e qual não foi a minha surpresa ao ver em Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) uma entrada verdadeiramente interessante e autêntica na franquia criada por John Krasinski? Quem diria que dá para fazer uma prequel ou filme derivado que não seja focado em responder brechas de seu original ou então em repetir a fórmula de sucesso, mas sim em construir sua própria ideia a partir do mesmo conceito? Porque este filme é isso e ele escolhe fazer dos já conhecidos monstros ultrassensíveis ao som veículo para discutir questões relativas à mortalidade, à fragilidade da vida e das superestruturas da civilização, através de um drama bem mínimo de sobrevivência, concentrado em dois personagens humanos e um gato e de um estilo muito cuidadoso, entre o escopo grandioso da destruição apocalíptica e a ênfase humana nos detalhes.
A execução técnica do filme para a sua elaboração estilística, aliás, acho bastante impecável. A fotografia contrasta luz e sombra muito bem tanto nos modernos prédios de vidro quanto nas antigas catedrais da cidade e cria uma Nova Iorque suspensa em poeira e silêncio. Essa poeira branca se destaca na pele negra de Lupita Nyong'o, que é um show de performance no drama e na ação. As lentes se fecham muito em planos que sabem valorizar os olhos expressivos da atriz ou então olham para o chão e o andar dos personagens que precisa ser ágil e suave. A edição alterna esses planos fechados com aqueles que mostram mais do espaço ao redor, o caos urbano que vai virando esse lugar silencioso, meio assustador mas às vezes também estranhamente pacifico.
Esse sentimento de paz e algo reconfortante está associado ao silêncio forçado, aos elementos da natureza (a chuva, o trovão, a água corrente) que trazem proteção, à empatia humana advinda da situação de necessidade, presente na ajuda mútua entre a protagonista e seu stalker amigável Erik (Joseph Quinn, que está super bem também). Também tem a ver com essa jornada de volta ao Harlem da infância da protagonista, pelas conversas, por sua poesia, pela lembrança de seu pai, pela pizza, por Nina Simone e pelo literal retorno. A invasão em si é um negócio terrível, indesejável, tenso, mas foi um meio para a libertação, de certo modo, dessa personagem que vivia de contar os dias para a morte na sua internação para tratar a sua doença. Se ela sentia que já vivia numa prorrogação de seu tempo na Terra, os alienígenas apenas deram a sentença final, contudo oportunizaram antes disso ela vivenciar esse seu fechamento, através da arte, do rememorar, de uma última conexão e do deixar ir de seus apegos terrenos (o gato, a blusa).
Por fim, enquanto assistia, não consegui não pensar na pandemia de COVID-19, uma situação quase apocalíptica que todos vivemos e foi igualmente uma pisada forte no freio da “marcha do progresso” e um mute nas ruídos e cacofonias de um mundo barulhento demais. Mesmo que depois a maioria tenha se esquecido disso, no contexto pandêmico e de isolamento precisamos pensar e repensar muito sobre o fim, sobre o luto, sobre estilos de vida mais equilibrados com a natureza e como precisaríamos não voltar à antiga normalidade que produziu o vírus e implodiu ao ter que parar, mas sim reinventar a noção do que é normal para um futuro sustentável. Nada é à toa e os letreiros iniciais do filme dizem sobre os decibéis altíssimos dos sons da cidade de Nova Iorque e aposto que na situação fatídica aludida esses decibéis também deram uma boa abaixada, tanto quanto na ficção. Imaginar esses cenários, afinal, “serve” para isso, trazer reflexão e mudança sem matar milhões nem matar ninguém e até antecipar e prevenir essas mortes. Vamos assistir uma apresentação de um teatro de marionetes para lembrar que se enchemos nosso balão podemos voar, porém esse balão tá sujeito a explodir e fazer barulho. Ou vice-versa: barulho demais e muito alto pode explodir o balão. Então, antes que o balão exploda, lembremos de saborear uma boa pizza. Sem esquecer de alimentar o gato.
One Piece (Saga 9: Dressrosa)
4.1 47O preço, talvez alto demais, para se curtir o ótimo plot, com uma rica construção de mundo, flashbacks fantásticos, inúmeros momentos super divertidos, cenas memoráveis de vários personagens e a entrega de um dos melhores vilões de todo o anime, é o ritmo completamente podre que Dressrosa possui em sua versão animada. A crítica mais geral que fazem a One Piece como um todo, nem sempre de maneira justa, aqui meio que se confirma, porque cerca de 100 episódios para os já exagerados 100 capítulos do mangá ficou realmente uma coisa sofrível em termos de compasso da progressão da história, que parece não andar, o que se agrava e muito com o uso exagerado de recapitulações mais para o final. Sem falar no reset que o arco sofre quando já parecia a ponto de se encerrar a partir da contagem regressiva da gaiola de cordas, mas isso já vem do mangá. Ainda assim, o saldo do espectador paciente/obcecado termina positivo pelos motivos que eu disse, pela genialidade do Oda, apesar de seu “problema” de não saber quando parar e apesar da Toei.
One Piece no pós-timeskip se torna uma série muito mais articulada e amarrada, mais linear até certo ponto, apesar do espaço que é dado para o aleatório, imprevisível, aventuresco. Esse espaço existe, os desvios de rota que vão aparecer principalmente dentro de cada arco e ali em Whole Cake, mas os objetivos são mais claros do que eram no início da jornada dos chapéus de palha, quando a tripulação ainda estava se formando, até Thriller Bark pelo menos, antes da arquitetura épica de Oda vir à tona, sair das sombras dos entre-arcos e foreshadows, e culminar na Guerra dos Melhores. Após a Guerra e ultrapassada a fronteira da Ilha dos Homem-Peixe, a partir da entrada no Novo Mundo e da formação da aliança pirata entre Luffy e Law em Punk Hazard para desmantelar o império de Kaidou, uma ilha puxa a outra e um inimigo leva ao outro muito naturalmente, até Wano. Dentro dessa estrutura narrativa, Dressrosa e a derrocada de Doflamingo e da família Donquixote, somadas à formação da Grande Frota dos Chapéus de Palha, representam tanta, mas tanta coisa, que não tinha mesmo como ser feita sem essa pompa e circunstância, lentidão, grandiosidade exaustiva. O leitor do mangá e mais ainda o espectador do anime sente pra cacete a duração do arco, mas é, repito, o preço a se pagar pelas catarses criadas pelo mestre Oda.
Precisamos das lutas intermináveis no Coliseu para nos afeiçoarmos aos personagens dos gladiadores, em especial à Rebeca (ótima personagem com um péssimo figurino), termos a reintrodução de Sabo, a troca dos Lucys e a continuidade do legado da Mera Mera no mi da forma mais digna possível. A partir da fragmentação dos mugiwaras e da fragmentação narrativa extrema que fazem as um zilhão de coisas acontecendo simultaneamente em um único dia parecerem durar uma vida inteira, uma eternidade, geramos GOD USOPP entre os Tontattas, a hilariante troca entre os machos Franky e Senor Pink (outro personagem de aspecto ridículo que tem um momento inacreditável de fazer chorar), Zoro vs Pika (cuja piada com a voz tem um punch muito MUITO bom), Luffy e Law contra Doffy. Aliás, Law passa tanto tempo amarrado com kairouseki e sendo carregado pra lá e pra cá que o uso de suas habilidades no final é surpreendente e acachapante, assim como a revelação de seu passado e a ressignificação do Coração símbolo do bando desse supernova descolado. E que personagem incrível é o Donquixote “Corazon” Rosinante e que puta vilão desprezível é seu irmão Demônio-Celestial, “Joker”, mestre das marionetes, Mingo, Doffy, Donquixote Doflamingo. Os flashbacks do arco entregam tudo e mais um pouco na construção de Law, dos irmãos Donquixote, além da tragédia de Kyrus, Scarlet, Riku, Rebecca e da população de Dressrosa.
E esses são apenas alguns momentos elencados de tantos outros de um arco que tem muito valor em suas entregas grandiosas, mas que possui também detalhes menores super interessantes, coloridos, divertidos, saborosos. O cenário é muito inspirado: meio flamenco, mas com um coliseu romano ali no meio, misturado com um pouco de conto de fadas pelos brinquedos e pelos Tontattas (com um twist super sombrio). Aí a geografia da ilha e do país vira de cabeça pra baixo a partir da segunda metade com a gaiola e os ataques de Pika. Passeando pra cima e pra baixo nessa topografia flutuante, o elenco de coadjuvantes exclusivos do arco é realmente carismático, único e com gags e individualidades e dinâmicas muito legais. Bartolomeu e Cavendish. Don Jin Jao, Sai e Baby Five. A família Donquixote é muito eficaz em ser um puta pé no saco, uns nojentos asquerosos às vezes divertidos. E não podemos esquecer do segundo melhor Almirante da Marinha que é apresentado aqui. Fujitora, desde ser cego, um tio do jogo do bicho e com convicções fortes, até o seu poder apelão pra cacete é ele todo muito, muito massa.
Então, com tanta coisa positiva assim, nem a Toei e um passo de tartaruga conseguem estragar o arco. Ele tem uma carinha cansada de um anime preso numa lógica de produção de massa, que se beneficiaria muito de um formato diferente mais enxuto e bem acabado (e o remake vem aí!), mas colore os desenhos do manga, dá voz aos personagens, usa bem sua trilha-sonora e replica a emoção e a diversão das páginas na tela. Abusa de recapitulações e reaproveitamento de cenas? Sim, mas paciência. Acho melhor termos uma adaptação imperfeita que ajuda a propagar a palavra de Oda e ainda ganharmos de brinde umas musiquinhas de abertura legais e algumas cenas bem dirigidas (final de Wano e Egghead tão logo aí!) do que nada.
Hunter x Hunter II (Arco 5: Greed Island)
4.3 35Hunter x hunter é e sempre foi uma obra sobre jogos, sistemas fechados de regras aos quais os personagens/jogadores precisam se submeter para progredir em seus arcos. Seja no exame hunter, na torre Celestial, no leilão de YorkShin ou aqui na ilha da Cobiça, o estágio mais avançado nessa sequência de cenários, o mais sofisticado e complexo até então, a jornada de Gon e Kilua se define pela leitura que eles vão refinando sobre os jogos, com as suas possibilidades de brechas, apostas, blefes. O autor não se trai nessa lógica de construção de mundo e a cada arco testa a própria criatividade com a sua capacidade de inventar, torcer e esmiuçar seus sistemas. Se não fosse tão bom mangaká, Togashi com certeza seria um excelente game designer.
Mas ainda bem que ele faz o que faz porque, além da narrativa se adequar ao formato shonen jump (Gon sendo o Goku da vez para propagar sua inocência e a mensagem do poder da amizade, lindamente desenvolvida sobretudo através da relação dele com Kilua), os bonecos são genuinamente muito legais, extrapolam a função de meros avatares do espectador nesses jogos sem fim. Então acaba que Hunter x hunter, apesar de ser sobre jogos e do tesão do Togashi estar nesse aspecto da coisa, também se destaca muito pelos personagens que possui e que cativam mesmo quem por ventura se perca nas explicações sobre o Nen, as cartas, o que é real ou virtual nessa ilha afinal de contas, ou nas reviravoltas das estratégias aplicadas e contra atacadas. A pureza de Gon e a amizade entre Gon e Kilua vendem ou compensam (a depender do ponto de vista) absolutamente qualquer complicação desnecessária ou explicação obsessiva de por menores de tal ou qual conceito. Eu acho um charme essa brincadeira toda.
Já a produção dessa segunda adaptação animada do mangá, feita pela Madhouse, exibe qualidades técnicas, sua música sendo especialmente boa, mas carece de uma identidade visual mais forte. Os designs de personagens e cenários entregam uma fidelidade aos traços originais com uma colorização digital limpa. A direção é segura e coloca em movimento esses desenhos com fluidez, ritmo na ação e no humor, aquela pontinha de tensão e suspense nos momentos decisivos e nos cliffhangers. O narrador de Hunter x hunter é uma decisão de adaptação interessante que o dota de personalidade. Porém não há nada de muito marcante para além disso. O texto de Togashi ganhou uma puta trilha sonora e os personagens estão muitíssimo bem dublados também, mas aí eu não sei dizer o que não poderia ser feito para essas provas de aptidão, torneios de lutas, disputas de super poderes, leilões, carteados dinâmicos em rpgs que acontecem na vida real, se realizassem de uma forma mais plena e vibrante.
Meu Malvado Favorito 4
3.2 131 Assista AgoraMeu malvado favorito 4 (2024), o último capítulo de uma franquia que já tinha muito pouco a oferecer, talvez seja um dos mais fortes sinais de esgotamento criativo do cinema de entretenimento infantil estadunidense. É um filme que não diz absolutamente nada sobre nada e é nada mais nada menos do que um monte de gags emendadas. Algumas dessas gags são semi divertidas, mas a maioria, principalmente as inúmeras e intermináveis envolvendo os minions e agora os super minions, caem muito mais no lugar do irritante. Irritante tipo insuportável mesmo.
Sério, para cada cena de interação familiar fofa mostrando a paternidade desengonçada de Gru com as suas meninas ou o seu mini-eu rabugentinho ou então com a sua nova vizinha/pupila endiabrada, existem dez cenas das criaturinhas amarelas destruindo tudo ao seu redor.
Apesar de eu entender a facilidade desse humor besta, facilidade de fazer, facilidade de com ele tirar risadas de crianças muito novinhas ou gente com um senso de humor mais simples, isso desvaloriza e esvazia tanto a experiência. É subestimar e rebaixar o seu público num nível igual ao chamá-lo de idiota enquanto enriquece às suas custas.
Super penso que o humor besta e inconsequente tem o seu espaço, por exemplo, numa dinâmica familiar ou de descompressão, mas dá pra ter isso e algo a mais. Pensando no contexto de assistir algum filminho em família mesmo, escolher um Meu Malvado Favorito (1,2,3 ou 4) faz total sentido, vai tirar pelo menos umas risadas de pelo menos alguns filhos/irmãos/pais/tios/primos sem ofender muito a ninguém, mas pô, até nesse contexto, o outro lado negligenciado e esvaziado da série traria tanto mais identificação e sentido. Já pensou se os personagens tivessem algum arco narrativo que os progredisse de verdade enquanto indivíduos e dentro da estrutura familiar? Puta merda, não é pedir muito e vocês mesmos da Ilummination já conseguiram fazer isso muito, mas muito melhor.
Aqui
3.3 135 Assista AgoraA hq super autoral Aqui de Richard McGuire, publicada em 2014 e que foi a base deste filme-experiência de Robert Zemecks, exerce um fascínio sobre mim desde que pude folheá-la na primeira (de inúmeras vezes) na livraria. A ideia em si é muito boa, pô! Um cômodo de uma casa através dos milênios, séculos e gerações. Um cantinho de não sei quantos metros quadrados se deslocando no tempo em recortes simultâneos, trocados a cada virada de página. Uma multitude de histórias, quadros de vidas e da Vida, sem sair do lugar.
E a proposta, que se encaixa perfeitamente na mídia gráfica, surge como um desafio imenso no audiovisual, na linguagem cinematográfica, cuja gramática se constrói sobre o cinético. Cinema é movimento, assim como qualquer narrativa, mas muito especialmente, porque impor a câmera estática significa engessar todo o trabalho da direção. Só que mais ou menos, pois a limitação de algum recurso força o uso criativo dos recursos restantes, e existe no Cinema a tal da magia da edição, alguns diriam que seu elemento mais definidor.
Cinema é movimento, mas se constrói a ilusão de movimento com a montagem, juntando um pedaço de quadro estático seguido do outro, com implicações no sentido total resultante, a ideia a ser comunicada pelos criadores-autores, esses grandes fatiadores da realidade para a construção de seus mosaicos de ação. Aí que tá, dá para fazer ação e criar sentido a partir da sobreposição de imagens estáticas, inclusive sem uma relação tão direta de causa e consequência entre elas. Isso é cinema, edição é cinema. Na verdade, Here (2024) é cinema, desde os quadrinhos que o originaram.
A gente (o ser-humano) se comunica assim, a partir da definição de um frame mental para o norteamento de todas as nossas inflexões de pensamento em algum sentido, que toma formas expressivo-verbais alguma coisa coerentes. Se a gente vai falar nesses 100 minutos de duração do filme sobre este lugar Aqui, então vamos lá e fazemos todo um reconhecimento algo caótico do que estaria contido dentro deste espaço que é físico e conceitual ao mesmo tempo. Tempo dos dinossauros, antes disso, transformações geológicas, moradores nativos, colonização inglesa, alguns núcleos familiares representativos de uma certa ideia sobre os Estados Unidos da América. Afinal, estamos falando sobre os EUA. Aqui é Aqui, não Lá. O Aqui do americano-médio-indígena-colonizador-matador-de-indígena-veterano-de guerra-cheio-das-ideias-patenteáveis-sonhador-pragmático-piloto-artista-assalariado-dona-de-casa-secretária-advogada-pai-mãe-filho-filha-neta-racista-preto-imigrante-que-morre-de-gripe-que-morre-de-Covid-que-esquece-e-lembra-e-trepa-e-vive-e-beija-a-flor.
Numa outra camada desse quebra-cabeça cósmico 5d está o som e o som através das tecnologias. Do rádio à TV aos celulares, músicas e programas geracionais vão dando pistas junto aos figurinos e às decorações e à paisagem na janela de onde estamos no tempo, sempre Aqui, enquanto nos habituamos aos personagens para além das esquetes cômico-dramáticas hermeticamente funcionais enquanto cenas isoladas. Mais ou menos, mas em geral sim. O frame mental fixo orientador dos nossos pensamentos por essa geografia metafisica de sons é a trilha sonora emotiva de Alan Silvestri, que nos lembra que estamos Aqui, num cinema de técnica e experimentação, porém melodramático e genuíno, do mesmo Zemecks tanto de Expresso Polar (2004) quanto de Forrest Gump (1994).
E o DeLorean viajante no tempo de Zemecks faz esse tipo de experiência cinética temporal, estudo multigeracional, investigação experimentadora e brincante de uma certa ideia de América, desde a trilogia De Volta para o Futuro (1985, 1989 e 1990). Então, sobretudo, Aqui poderia muito bem ser uma síntese e a coroação da carreira do diretor. Curiosíssimo que o personagem do Tom Hanks, semi auto-biográfico em relação ao autor Richard McGuire, acabe protagonizando também o filme mais representativo da carreira do diretor que fez a sua própria carreira, e que um filme adaptado possa ser tão autoral para o diretor-realizador-adaptador quanto a obra original era para o seu autor original. Os pouquíssimos e brilhantes movimentos de câmera na cena final, usando zoom-in nos rostos envelhecidos de Tom Hanks e Robin Wright, o travelling rotativo mostrando a casa de um outro ângulo e o zoom-out para fora da janela e em direção ao Lá, são verdadeiros toques de um mestre que entende do que faz e da preciosidade dos recursos que tem em mãos, quando os tem em mãos.
Rocky Balboa
3.8 582 Assista AgoraO comeback do Stalone nesse personagem antes da subfranquia Creed trazê-lo de volta como coach do filho de Apolo acho menos boa, apesar de ser uma reflexão sobre a velhice interessante. Algo polêmica, mas interessante. O ditado “dias de luta e dias de glória” não se aplica ao pugilista pois sua glória está indissociavelmente ligada à sua luta e o seu tempo de repouso, aposentaria, colheita dos louros é insatisfatório para ele próprio, personagem Rocky, ator-roteirista-diretor Stalone.
O azul melancólico que recobre as ruas da Filadélfia reflete uma angústia que chega a ser pessimista e sádica para alguém que sofre com o luto pela esposa e o afastamento do filho, mas que teria motivos para se ver feliz, bem-sucedido em seus negócios com o restaurante, uma pessoa boa sempre disposta a ajudar. O desafio que lhe é lançado, provocado pelo novo campeão peso pesado e a mídia atrás de espetáculo, faz sarna para o homem coçar, e através do treino pesado e das porradas tomadas e deferidas no ringue, ele se ergue como que em protesto contra o passar do tempo que o atropela nada gentilmente.
A luta é mais simbólica e geracional do que um match concreto valendo um título e um cinturão. O testamento que ele quer deixar para o filho é um legado de superação dos próprios limites e um exemplo vivo de que é possível permanecer de pé frente às intempéries da vida. Ele verbaliza sua lição de vida e visão de mundo para o filho, mas a sua fibra moral tem que ser curtida na porrada, sendo ele um conservador e alguém que se sente validado e respeitado quando está sangrando, perto demais do nocaute.
Não é sobre envelhecer dignamente, mas sobre não aceitar o envelhecimento, como um lutador. Por isso prefiro a aposentadoria de fato que vem com Creed, e a paternidade mais madura que Rocky oferece a Adônis, sendo seu mentor e conselheiro em vez do idoso que se recusa a se enxergar no reflexo do espelho, porque envaidecido e enfurecido por diferenças geracionais e uma melancolia que o acompanha.
Hellboy
2.6 425 Assista AgoraOs filmes do Hellboy do Del Toro são excelentes filmes de fantasia, caprichadissimos esteticamente, em maquiagem, efeitos práticos e digitais, design de produção e tudo o que tem a ver com essa construção imagética da fantasia. Guilermo é esse cara apaixonado por suas criaturas num nível fundamental que está sempre recriando seus filmes de monstro como um Dr. Frankenstein moderno, porém que se identifica muito mais com as criaturas do que com o cientista criador, apesar de ser sim um grande esteticista, um grande criador.
Já as ambições do Hellboy de 2019 tem mais a ver com o pulp, a fantasia mais barata e violenta, pouquíssimo sofisticada estética ou narrativamente, mas que, à sua maneira, embarca na coisa do trash e do fantástico. Eu acho legais as referencias de mitos arturianos, da bruxaria demoniaca estereotipica, dos trolls ingleses devoradores de carne humana. Existe a beleza feia do vulgar até na maquiagem mais tosca do Hellboy de David Harbour, que novamente luta contra sua sina de demônio apocalíptico.
Parece um pouco um clipe de Metal quando cria suas cenas que sao clipes musicais recheados com gore, há um prazer ali. Porém, quanto mais se aproxima do que Del Toro já tinha feito no filme de 2004 e em O Exército Selvagem (2008) ele se sai pior em comparação, por ser infinitamente mais pobre, deselegante e muito menos criativo. O flashback da origem do protagonista é um repeteco tão safado da cena dos nazistas com o místico Rasputin invocando o macaquinho infernal que chega a dar pena.
Ainda assim, essa mitologia fabulada e desenhada por Mignola nos quadrinhos é interessante o bastante para valer refilmagens, releituras, desse adendo curioso, meio filho bastardo, desse universo de super heróis, com uma vibe um pouco diferente, menos americanizada e fascista e mais autêntica, que dá pano pra manga para, quem sabe, outros realizadores mais talentosos seguirem os passos fortes de Del Toro ou irem para uma outra direção totalmente diversa. Tem um potencial interessante naquele outro filme que saiu mais recentemente do Homem Torto (2024) também protagonizado pelo Garotão do Inferno por ir aparentemente por um outro caminho, menos épico, mais lenda urbana, terror barato, que deve ficar menos refém da repetição daquilo que Del Toro já fez com mestria. Ansioso para conferir.
Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa
3.8 219 Assista AgoraDelicinha de filme! Eu já estava simpático à ideia, ao Isaac Amendoim, a tudo o que tinha visto de material promocional de Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa, mas, putz, a obra é muito melhor e mais inventiva do que acredito que qualquer um poderia esperar.
Nos bastidores, dentre outros nomes, temos direção e roteiro da galera da TV QUASE e realmente inspiração é o que não falta para a comédia que eles fazem. E é comédia mas com uma sensibilidade muito grande e uma profunda compreensão sobre a vida no interior e o universo infantil.
Há algo em comum, aliás, entre esse interior campesino, da roça, retratado no filme com cores de nostalgia, e a infância de todos nós, representada como um teatro nos devaneios de Chico: a inocência. Os adultos da Vila Abobrinha são um pouco como crianças pois personagens nesse causo de Chico mas também porque são a resistência frente ao ""progresso"" do (agro)negócio, das estradas de asfalto triplicadas dos cowboys que falam inglês, da "cultura" e da "sapiência" mais avançadas.
Aí ou essas pessoas, crianças e adultos, param para se escutar e se unir para defender a sua goiabeira maraviosa e as suas terras encantadas, ou a árvore vai cair e, com ela, o encanto/ingenuidade/infância do mundo. Pra mim é perfeita a sequência em que a árvore fala, mesmo brega e didática, porque é o momento máximo de encantamento, fantasia, por mais que o filme todo esteja repleto de pequenos encantos e seja ele inteiro um olhar cheio de poesia para a vida.
É como se o filme fosse um menino de chapéu de palha e camisa amarela entregando uma goiaba grande, vistosa e saborosa para nós, na perspectiva da câmera e de Rosinha, como um gesto de amor. Ou uma pirralhada fantasiada de criaturas folclóricas passando seu recado sério de um jeito fofo e desastrado.
E por isso esse filme é tão bom, porque consegue ser específico e universal, o que é a própria definição de clássico. As aventuras na roça de um bando de pequenos caipiras ultrapassam barreiras geográficas, etárias e do sotaque com "r" retroflexo para atingir o simbólico, através do sonho e da brincadeira, e o emocional, pelo riso sem malícia.
O Culpado
3.0 471 Assista AgoraEsses thrillers de um só ambiente com uma tensão construída em cima de uma ação que acontece extra cena, quando bem feitos, são experiências interessantíssimas de se ter. Eu curto muito e curti em O culpado (2021) a entrega de alma de Gyllenhaal nas câmeras super fechadas no rosto dele que o filme tenso de Fuqua com roteiro dramático de Nic Pizzolato pedia.
A combinação do diretor de filmes de ação, famoso por sua parceria com Denzel Washington, junto do roteirista de True Detective acertou na forma de dramatizar essa história, fechando não só as escolhas de enquadramento, mas o ponto de vista narrativo, numa perspectiva limitada e fragmentada que vai montando uma imagem em nossa cabeça do que está se passando do outro lado da linha telefônica. Uma imagem mutante e pouco confiável. E esse é o grande lance do filme, trazer reviravoltas e revelações através de novos dados que vão mostrando o quanto o raciocínio dedutivo de um policial pode se provar falho, porque os indícios e sugestões ficam nublados em meio ao caos de uma LA em chamas, um milhão de ocorrências ao mesmo tempo e um psicológico abalado.
A tal culpa a que o título do filme se refere é a do policial que erra na tentativa de cumprir com seu dever e não acho que seja passar pano para o assassino fardado explorar esse sentimento que ele tem, que se converte num arrependimento sincero, uma compensação cármica e a confissão. A moral, bastante cristã-católica, se integra no senso estético-narrativo da obra, que acaba sendo bastante satisfatória.
Moana 2
3.2 183 Assista AgoraMoana 2 não convence como uma sequência que precisava acontecer, apesar de se esforçarem minimamente quanto à continuidade temática sobre o mundo ser mais do que só uma ilha, a questão da expansão marítima da tribo e a reconexão com o passado ancestral de desbravadores e com outros povos. Mas o conflito interno da protagonista simplesmente não existe porque já havíamos entendido que a sua natureza é a de ir ao encontro do desconhecido, explorar, aventurar-se. Não tem uma justificativa para repetir o drama do “devo ficar ou devo ir?”.
É óbvio que o chamado da aventura é muito mais forte do que a âncora familiar para o tipo de personagem que Moana é e o que representa. Subversão seria o contrário acontecer. Mas não acontece. Aliás, muito pouco de subversivo ou sequer surpreendente acontece aqui.
Água e cabelo belissimamente animados não são mais o suficiente para deixar o espectador de queixo caído. Tampouco números musicais divertidos, animais sidekicks e um time de coadjuvantes carismáticos e cenas de ação genéricas conseguem prender a atenção de quem já tá vacinado em relação ao jeito Disney de narrar. Pelo menos aqui e ali eles oferecem lampejos de criatividade, mas não é o caso e não tem sido o caso já há uns anos para a empresa (e nem falo só do estúdio de animação principal da casa).
Mickey 17
3.4 525 Assista AgoraEu sou muito vendido para filmes de sci-fi e não precisa de muito para eu ficar envolvido em qualquer que seja o cenário de ficção especulativa proposto. Mickey 17 tem clonagem, upload de consciência, colonização espacial, animais alienígenas iguais aos Ohmus de Nausicaa do Vale do vento, tudo isso num tom de paródia de humor sombrio com “crítica social foda” tipo Black Mirror. E se nada é exatamente brilhante ou inovador, a abordagem de Bong Joon-ho possui a sua autenticidade.
O diretor-roteirista tem uma ideia clara do que quer fazer e não arreda o pé de seus compromissos, não tem receio em parecer bobo na comédia, simplório nas caricaturas, estranho na oscilação entre o quase infantil (protagonista ingênuo, vilão mais mau que o pica-pau, pastelão, bichinhos fofinhos) e o adulto (distopia crítica ao capitalismo tardio, reflexões existenciais, gore, sexo). Dou valor a um projeto que consegue se manter autêntico assim mesmo custando milhões de dólares, graças ao prestígio alcançado pelo ganhador do Oscar.
Então, a partir dessa definição autoral, os elementos do filme vão se moldando e encaixando, às vezes melhor, às vezes não tão bem. A atuação de Pattinson, por exemplo, é perfeitamente adequada, ele captou certinho a aura de seus dois personagens, a ingenuidade de Mickey 17 e a persona bad-boy de Mickey 18. Só falta a ele mais tempo para construir o que seriam o Mickey Barnes original e suas 16 vidas anteriores. Pois, mesmo que o descartável recupere as suas memórias a cada nova impressão, tem alguma essência que se perde e outra que se ganha no processo, como gêmeos univitelinos que partem de um mesmo lugar, mas não se confundem. Acaba faltando exploração e aprofundamento nesse conceito que é a base do filme.
No lugar de uma discussão um pouco mais profunda sobre a gênese e o fim da consciência e a construção da personalidade, a trama dá espaço à sátira política e à mensagem ecológica, nas formas dos personagens de Ruffalo e Collette e dos rastejadores. Os dois atores, assim como Pattinson, sacaram bem a proposta da direção e se deliciam com as caricaturas expansivas e patéticas do empresário que acaba funcionando como autoridade política dentro do seu feudo de exploração e colonização além de líder de seita religiosa (negócios, política e religião imbrincados como nunca, como na vida real) e da esposa com uns neurônios a mais do que o marido, meio socialite, obcecada por molhos, sempre em busca de ingredientes exóticos para temperar a sua comida (enquanto as refeições dos trabalhadores são calorias contadas e sem sabor). Os rastejadores são a representação do ecossistema nativo de Niflheim, ameaçado pelos invasores humanos, supersimpáticos, apesar do design chupinhado do estúdio Ghibli e de eles serem a única presença viva num cenário alienígena fora isso absolutamente inóspito, gélido e frustrante.
Pode até ser intencional o tipo planetário escolhido não ser uma Pandora de Avatar, riquíssima em fauna e flora, detalhada em sua complexidade, exuberante em sua beleza, pois com certeza há algo de simbólico e verdadeiro, no sentido de que não adianta nos esforçarmos em empreendimentos megalomaníacos e insistirmos na lógica expansionista. Evoluímos adaptados a um ecossistema especifico e insubstituível e nunca haverá um lugar como a nossa maltratada casa cósmica, a Terra. Mas não deixa de ser frustrante porque pobre, porque feio, porque pouco. Nesse sentido acabamos nos portando como a socialite fechada em uma redoma com design interior arrojado, saboreando molhos de criaturas inocentes, ouvindo orações e hinos de hipocrisia, mais incomodados com o tapete estragado do que com o descartável agonizando sob nossos pés.
Ainda na toada de comentar superficialidades estéticas, os espaços internos da nave-base onde se passa a maior parte do filme oferecem uma lógica operacional muito precisa. Entendemos e nos situamos muito bem nesses espaços da forma como são filmados por Joon-ho, o quarto de Mickey, o laboratório com a impressora de corpos, as fornalhas que são o local de descarte/extermínio, as próprias já mencionadas luxuosas acomodações dos chefes. Quando nos flashbacks da Terra, as vielas escuras e apertadas percorridas por Mickey e Berto enquanto fogem de seu agiota contrastam com o aeroporto espacial desnorteante, luminoso, mais futurista e alienígena na sua retratação sob lentes que distorcem e planos de baixo do que a nave ou Nilfheim.
Aí no final do filme o gosto que fica na boca é estranho, porque não dá para dizer que o diretor não entregou um trabalho eficiente, consistente com a sua obra, sua estética e suas preocupações humanistas (pelo menos desde 2013, com Expresso do Amanhã, seguido por Okja e por Parasita, faz total sentido essa trilha que o diretor percorreu para nos trazer até Mickey 17) e que sustenta as suas escolhas sem muita vergonha ou pedir muitas desculpas. Mas, eu pelo menos, não me senti plenamente satisfeito, apesar de nutrido pelas ideias e interessado pelas esquisitices. É como se eu tivesse comido um bloquinho de caloria daqueles temperado com um molho estranho que dá sabor, mas não é comida “de verdade”. No meio da aridez de uma Hollywood em crise de criatividade e inspiração, é quase pecado não louvar algo como Mickey 17 sendo feito e lançado. Talvez seja um sinal dos tempos, mas pelo menos saí do cinema empolgado para ver uns episódios de Doctor Who.
Invencível (3ª Temporada)
4.1 123 Assista AgoraGosto bem do take que Robert Kirkman dá para os super-heróis em Invencível. Se existe algo de paródico e autoconsciente na série, isso é posto de maneira menos esdrúxula e cínica do que em The Boys, Kick-Ass e outras propostas similares. Há um coração heroico sincero em Mark. Há também um grau alto de entrega ao fantástico e à especulação científica. E, se os personagens tomam muitos banhos de sangue, eles sofrem muito mais com dores e cicatrizes emocionais do que com fraturas expostas físicas.
O núcleo familiar principal de Invencível é potente desde o estabelecimento do conflito com Omni-Man no comecinho da série. Quando toda a verdade sobre esse pai e modelo de heroísmo vem à tona, Mark e Debbie precisam se reinventar, reiniciar suas jornadas, refundar sua família, redescobrir seus propósitos. Os relacionamentos de Mark e Amber, Mark e Eve, Debbie e Paul e, principalmente, de Mark e Debbie com Oliver surgem e amadurecem a partir dos vazios deixados por Nolan. O espectador se sente intimo desses personagens e é absurdo como conseguimos empatizar tanto com os dilemas do próprio Nolan/Omni-Man, mesmo ele sendo literalmente o causador de todos os problemas e um projeto mal-sucedido de Hitler galáctico.
Em paralelo aos dramas pessoais, temos as tramas aventurescas da série, que vão se entrecruzando enquanto brincam com convenções desse tipo de história. Tudo o que já esteve em algum outro gibi reaparece aqui para Mark enfrentar: de ditadores cósmicos eugenistas a versões malvadas de si mesmo, manipulação governamental e rachas internos de superequipes, bandidos comuns com superpoderes, viajantes do tempo, pessoas corrompidas pelo sentimento de vingança.
Esta temporada em particular passeia por ameaças diversas, trabalha alguns vilões recorrentes, enquanto segue preparando o terreno para a invasão Viltrumita e o retorno de Nolan e desenvolve através da ação seus dramas e temas. A batalha vertiginosa contra Conquista no episódio 8 encerra espetacularmente a temporada e evolui Eve-Mark-Oliver, o triangulo dramático fundamental neste ponto da história.
O sacrifício de Eve por Mark consolida o amor entre os dois e quando ela ressurge mais poderosa esse relacionamento também está como se revestido por sua luz-sólida cor de rosa. É bonito de se ver, era a liga que faltava no namoro dele com Amber. Por outro lado, Oliver e seu instinto de apelo à violência extremada, até a morte se for o caso, sem muitos freios morais, representa o legado viltrumita de Mark, e vira o jogo a seu favor versus a ética super-heróica idealista do “não matar”. Após o final da temporada, frente ao que existe de mais inescrupuloso, para proteger sua família de sangue, meio-sangue (e pele roxa) ou escolhida (e luz rosa), o protagonista sente que não pode mais se dar ao luxo de não sujar as suas mãos com o vermelho que for, mesmo que isso aproxime demais e perigosamente Invencível de Omni-Man.
O Aprendiz
3.5 202 Assista AgoraAdaptar/dramatizar a vida real, transformando pessoas que existem/existiram em personagens, não é uma tarefa fácil, pois se há interesse e comoção em torno dessas figuras, normalmente se faz isso com muitos dedos, resultando em obras burocráticas, as tais biografias chapa-branca. Então, a primeira coisa que se deve fazer para evitar o insosso e algo do tipo “leitura da wikipédia” é esquecer a ideia da imparcialidade, saber o que se quer dizer e escolher bem o seu recorte. Definir tema, estilo, concatenar as ações e ideias. Tratar a sua narrativa inspirada por fatos como uma ficção qualquer. Esquecer a noção de que seria possível mostrar a totalidade da pessoa e toda uma vida em duas horas de filme. O que o bom artista faz com um material deste tipo é refletir faces da pessoa sob um prisma específico.
Em The Apprentice (2024), o diretor Ali Abbasi e o roteirista Gabriel Sherman escolhem contar a sua versão da história da ascensão financeira e queda moral de Donald Trump (Sebastian Stan) através de seu relacionamento com o advogado e mentor político-ideológico Roy Cohn (Jeremy Strong) nas décadas de 1970 e 1980. Se desde o início não havia muito escrúpulo no Donald herdeiro, proprietário de imóveis, cobrador de aluguéis, racista e sonegador, após o convívio com o controverso e contraditório Roy e a absorção das suas “três regras da pessoa matadora”, Trump se torna no fim um monstro, por fora e por dentro. Laranja, de couro cabeludo encurtado e outras cirurgias estéticas úteis apenas para amaciar o ego da besta. Empresário manipulador que constrói seus projetos faraônicos, nababescos, à custa do povo, enquanto afirma, por acreditar veementemente nisso, que Nova York deve dar graças a Deus por ter a Trump Tower no lugar de mais políticas públicas.
Outra face sombria de Trump aparece nos seus relacionamentos familiares: o desprezo pelo irmão, a falta de consideração pelo pai (a fonte de seu “capital inicial” afinal de contas, que é tratado apenas como isso, quando não como um estorvo cuja opinião pouco importa e que fez uns negócios muito mais feios e inferiores aos seus). Aí temos Ivana (Maria Bakalova), que revela a misoginia grotesca por trás do romântico idealista lerdo, meio stalker, e com cara de bobo. Com todas as liberdades artísticas e licenças poéticas que o filme toma, não é “fake news” o histórico do presidente americano de violência contra mulheres e acusações de estupro. As cenas de sexo do filme, aliás, são muito boas nas interpretações e na forma como elas acontecem: Ivana cobrindo o rosto de Trump enquanto ele faz caretas de prazer é hilário; depois, na cena da agressão, ela é súbita na escalada de selvageria e absolutamente repulsiva, a câmera no chão quase nos agride junto à vítima.
Tecnicamente, o filme utiliza várias granulações da imagem e remonta a época muito bem; às vezes parece que estamos assistindo uma gravação em alguma câmera de telejornais mais antigos, curiosamente sem jamais parecer um telefilme ou obra barata ou mal-acabada. E em especial a dupla de atuações principais carrega o filme. Stan imita os trejeitos de Trump, essa caricatura humana, tão certinho que você quer realmente dar uns tabefes nele. O biquinho, o olhar, a obsessão pelo cabelo, a espontaneidade ensaiada da entrega das falas, a dicção característica. Mais para o início existe alguma coisa quase doce que o ator consegue colocar nas caras de bobo e postura insegura que ele faz. No final, só restou a monstruosidade e a arrogância. No sentido contrário, O Cohn de Strong vai se fragilizando com o passar do filme, ele se complexifica um bocado, com as questões pessoais relativas à sua homossexualidade e a uma vida mais liberal (nos costumes), diretamente opostas ao seu discurso reacionário e persona pública e profissional desprezíveis. Não só literalmente, o aprendiz enterra o mentor.
Bagagem de Risco
3.2 290 Assista AgoraO diretor Jaume Collet-Serra opera com excelência a técnica do cinema para fazer seus filmes de gênero simples e eficientes, a maioria deles assumidos como meros dispositivos para a ação acontecer, com uma dramatização funcional, sem uma vírgula a mais ou a menos. Parece que não, mas manter a bola girando no campo ou, no caso de Carry-on (2024), a mala perigosa sendo arrastada pra cima e pra baixo pelo aeroporto sem a tensão baixar exige muita habilidade na condução narrativa, por mais qualquer nota que seja a trama e por mais clichês que sejam os personagens e seus dramas.
O básico da história do filme se resume a um segurança de aeroporto (Taron Egerton) tentando se provar mais do que um acomodado e dono de uma competência suficiente para assumir como policial, depois de seu fracasso em teste de admissão. Daí cai para ele a responsabilidade de fiscalizar as bagagens que passam pelas esteiras no raio-X, justamente no dia em que um grupo de criminosos tenta colocar em prática um ato que coloca em risco a vida de uma congressista que vai embarcar num avião, e por extensão as vidas de todos na aeronave e em todo o aeroporto. Alguma questão política difusa motiva os vilões, mas como já falei, tudo no filme se justifica pela ação, pela adrenalina correndo na veia, pela respiração suspensa nos pulmões.
A esposa estar grávida e também ser funcionária do aeroporto implica em aumentar o risco e quanto maior o risco, maior a tensão. O protagonista está agindo, sendo coagido e fazendo malabares para proteger os seus mas também indivíduos anônimos e outras vitimas de coação, todo um coletivo e inclusive o espírito de Natal. Aí a montagem é virtuosa nesse vai e vem entre o protagonista, o bandido observador/atirador, a investigação da polícia, os portadores da mala. Até tudo se resolver, alguns cadáveres tendo ficado pelo caminho. O desenlace da trama é o desenlace da bomba e o alívio da tensão. Sem essa tensão sobra pouco no filme, antes ou depois, além ou mais fundo. Funciona.
Anora
3.4 1,1KUm Sean Baker menos político, o filme existe mais pelo prazer estético e sensual da imagem e pela tragicomédia de sua protagonista do que por qualquer tipo de mensagem imediata. Apesar disso, o filme carrega significado na exposição da superficialidade e fragilidade de uma espécie de sonho americano e do arquétipo da Cinderela, que vira às avessas.
No inicio, a câmera glamouriza, fetichiza, e nem tinha como não fazer isso sem descaracterizar a propria natureza do trabalho sexual ou o sobrecarregar de moralismos e julgamentos, mas existe um carinho por Ani. Amo sempre que as cenas naturalizam o corpo e focam no rosto dela. Os próprios créditos de abertura mostram o espaço do QG das meninas dançando, fazendo seus números de strip, sedução e carícias para centralizar por fim nas expressões da protagonista.
Reconhece-se o trabalho sexual como um trabalho qualquer, uma prestação de serviço, cujo gozo do trabalhador, por mais que por ventura exista e por mais que seja aquilo que se vende, é absolutamente secundário, para não dizer terciário, muito abaixo da satisfação dos clientes e da produção da dita mais valia na roda massacrante das engrenagens do sistema. Ani tem a jornada dela, o preço dela, busca se valorizar nesse mercado do prazer, as colegas amigas e as rivais, os momentos de descontração fora do job. Ivan vira seu cliente super vip e ela tira proveito disso na medida do que pode até que a ilusão embaça o seu senso de autopreservação e da própria realidade.
O primeiro ato frenético em cores, sons e sexo, curtição adoidada entrecortada por banalidades de uma vida sem grandes propósitos ou consequências, dará lugar ao inusitado e bizarro com o núcleo dos bichos papões meio assustadores meio palhaços do leste europeu que vem assombrar Ivan e retirar sua falsa independência. Las Vegas é o ápice daquele primeiro momento de deslumbramento, excessos, embriaguez eufórica. Após o casamento, tudo cai mais fácil do que um castelo de cartas. Ani tenta se apegar a uma vã esperança na ideia de hombridade e maturidade, ou pelo menos um minimo de amor e parceria, do marido, que estaria escondida por trás dos divertimentos bobos, gozadas rápidas, video-games e consumos de drogas em lojas de doces. Mas quando chega a hora de provar seu valor, ele pica a mula.
Ani aguenta o tranco firme, reage, se vira como sempre se virou. Ela é uma mulher prática e amoral que cai no conto de fadas mais infantil, comum e inverossímil: “casaram e viveram felizes para sempre”. Mas não é tapada, é complexa. Apaixonante na interpretação de Madison. Quem escolhe subestimá-la e tratá-la como descartável são justamente os antagonistas da história, não os atrapalhados pau-mandados, socialmente num lugar muito parecido com o de Anora e no fundo até simpáticos a ela, mas os ricos mimados que se acham donos da porra toda, Ivan e seus pais.
O ponto de vista do filme é mais próximo ao de Yuri (de simpatia, até respeito, tesão que dá vazão a cenas e piadas desconfortáveis, surpresa pela valentia e uso desproporcional de violência) e é justamente perto dele que Anora termina. A cena final é interessantíssima, poderosa, porque traz ela retribuindo a gentileza dele da única forma que ela se acostumou a fazer e tem um misto ambíguo de sentimentos que fica ambíguo também para a gente, ela quase convulsiona, debatendo-se e batendo nele, chorando, entre a frustração e a raiva por tudo que passou, uma entrega mais sincera ao prazer, o ódio pelo seu retorno ao antigo status quo.
One Piece (Saga 6: Guerra dos Melhores)
4.5 28Luffy e os chapéus de palha atravessaram o East Blue e meia Grand Line, repleta de aventuras, para chegar até aqui, o vale mais profundo, que parece não ter fim, de suas derrotas mais devastadoras, incontornáveis e transformadoras, no grande arco do resgate de Ace que tem suas prévias em Sabaody e desembocam na Guerra dos Melhores em Marineford. No desenho geral da saga, é a culminação de muita coisa, o clímax e o absoluto low point dos protagonistas em seus arcos dramáticos e emocionais. É do fundo do poço que surge a necessidade de aprendizado e treinamento para os mugiwaras e seu ressurgimento glorioso a partir de onde eles tinham parado, no pós-timeskip.
Antes da desgraceira toda começar de vez, a chegada no Arquipélago das bolhas de sabão é delicioso e riquíssimo em construção de mundo, não só do microcosmo desse mini-sub-arco em específico, mas também no escopo geral das coisas. A mecânica da tecnologia das bolhas e como toda a ilha funciona através dela é muito legal, lembrando o pedaço de worldbuilding de Skypiea. A geografia e o ecossistema dos mangues são a atualização das ilhas do céu no mar branco de nuvens. É um momento que eu acho particularmente bonito e bem animado no anime também, as cores suaves nesses tons de verde e azul complementam bem os traços do Oda, que está com o seu estilo já muito bem definido nesta década de prática e familiaridade com os personagens.
Além disso, somos apresentados aos outros piratas da “Pior Geração” e a várias figurinhas que serão importantíssimas no elenco recorrente de One Piece daqui em diante. Os designs de personagem seguem criativos até dizer chega e não tem nenhum dos Supernovas que não seja super icônico no visual, que serão desenvolvidos no Novo Mundo com diferentes níveis de satisfação. Os filhos-da-puta mór, os grandes usufruídores do sistema de desigualdades imperante no mundo de One Piece, a elite da elite que vive no topo da Red Line e os mandantes do Governo Mundial aparecem finalmente e escancaram qual que vai ser a batalha final pela Liberdade de Luffy e aliados. Arlong, Crocodile, Enel, Lucci, Spandam e Moria eram peixes pequenos e reproduziam um sistema de raízes bem mais profundas e antigas, subordinados diretos ou não à vontade dos Dragões Celestiais.
É um outro grau de violência e degradação humana que vemos nos leilões de pessoas das diferentes raças e espécies que acontecem em Sabaody, e um tipo que toca muito de perto em cicatrizes da nossa realidade social. É sombria e bizarra pra caralho a imagem dos “Santos” em seus trajes de astronauta e jeito arrogante e infantilizado arrastando pessoas escravizadas por correntes e os tratando como animais de carga, não dividindo nem o mesmo ar que o povo “inferior” respira. E, porra, que soco bem dado o de Luffy na fuça de Charlos! A animação dessa cena é dos momentos perfeitos de adaptação em que o anime brilha.
Então, uma coisa leva a outra e rapidamente as ações e reações escalam até chegarem em Borselino Kizaru, o segundo dos três almirante da Marinha que os heróis encaram. O Macaco Amarelo e a sua “Justiça Preguiçosa” e impiedosa mais Sentomaru e seus Pacificadores estão tão infinitamente acima do nível de poder de tudo o que tínhamos visto antes que a intervenção de Rayleigh e da patinha-patinha no mi de Kuma são o que salvam Luffy e companhia da aniquilação completa e permanente. Mas eles são derrotados, massacrados, e separados.
Sem ter a menor ideia do que aconteceu com seus nakamas, o menino-borracha chora em desamparo e é um puta momento de cortar o coração. Neste ponto da história o espectador está tão perdido quanto e o clima de tensão e o sentimento de “agora fodeu” é muito real. As cenas de transição que o anime coloca das bolhas subindo e enchendo até estourar são a tradução desse sentimento. O checkpoint em Amazon Lily que vem em seguida vai ser não só narrativamente inteligente para levar o protagonista aonde ele precisa chegar como necessário para recuperarmos o fôlego uma última vez rumo aos infernos de Impel Down, da Guerra e do luto.
Serão muitos e muitos episódios correspondentes a muitos e muitos capítulos do mangá até o grupinho estar junto de novo e, se o ritmo não é dos melhores e parece que uma vida inteira se passa para a jornada coletiva pela realização dos sonhos, pelo desvelamento dos segredos da História e dos mistérios do mundo e pelo One Piece continuar, a recompensa emocional é gigantesca quando chega. A gente precisava sentir a saudade junto com Luffy para valorizar aquele grupo imperfeito de amigos que tem uma dinâmica tão divertida. Se não fosse pela bandeira hasteada da caveira com o chapéu de palha, aquelas águas de dramas e tragédias (e flashbacks tristes), com um revestimento de bobices, palhaçadas, loucuras, lutinhas e fantasias, seriam muito mais difíceis de navegar.
Sonic: O Filme
3.4 729Não sei qual é a pira de Hollywood com botar bonecos CG vindos de cartoons e/ou mundos de faz-de-conta com lógicas próprias e cheios de potencial para interagir com pessoas de carne e osso em nossa realidade ordinária (invariavelmente o norte-americano médio em algum recôndito ou metrópole famosa dos EUA). Na maior parte das vezes faria tão mais sentido só (re)criar a fantasia original em um novo estilo para novos tempos ou outra mídia, mas insistem em fazer esse “isekai” reverso, sei lá o porquê. Absolutamente ninguém está interessado no policial da cidadezinha de Green Valley (James Marsden), que quer (ou não) se mudar para a grande São Francisco, quando o nome do filme é Sonic: O filme (2020) e o personagem título é um ouriço azul super-maneiro e super-rápido. Mas aparentemente a tendência é essa, então que ela seja um bom parque de diversões temático!
Nesta versão, Sonic é uma criança solitária e hiperativa, órfão, refugiado, alvo de mais de um grupo interessado em seus poderes e potencial energético. Mas nada disso gera muito drama, porque o filme é leve e de ação. Apesar de ser fraco nessa ação, pouco inventivo nas cenas de correria em altíssima velocidade, e de ter pintado o Dr. Robotinik (Jim Carrey) com cores mais sombrias do que eu tava esperando. É o Jim Carrey com todas as suas caras e bocas, mas a sua caracterização é a de um tecnonazi de roupas pretas, bigode de fuhrer e corte militar, tudo estranhamente familiar, mais ainda em 2025 do que na data de lançamento. Achei interessante isso e o viés mais crítico aos milicos estadunidenses. Já que as forças armadas deles têm que estar lá representadas de alguma forma e o protagonista já é o “good cop” para fazer a média corporativa, que seja assim.
O design de Sonic é fofo, não tenta ser realista demais (ainda bem!) e a interação dele com os cenários e os atores “live-action” convence. James Marsden é bom em entrar nesse lugar mental da criança interior e reagir a um personagem que não tá ali de verdade, tipo um amigo imaginário. Porém é muito pobre existir somente esse único alienígena caricatural, uns anéis que criam portais e os drones do vilão como atrações nesse carrossel de aventuras. Porque tá muito mais pra carrossel ou roda gigante do que carrinho bate-bate, montanha-russa ou trem-fantasma esse brinquedo. Temos correria, muitas piadas e montagens espertinhas com velocidade, e até perseguições de carro no filme, mas a frequência é baixíssima e não existe uma proposta visual que seja interessante e diferente de tantas outras que já vimos quando estamos lidando com corredores e super poderes.
Faltou no filme a característica talvez mais distinta desse mascote dos videogames que é ser, além de rápido, legal pra caramba, maneiro, radical, descolado, etc. Era o apelo do personagem se comparado a italianos baixinhos, bigodudos e de chapéu vermelho de outros jogos. O Sonic aqui do filme é carismático, um cadinho irritante e com um arco dramático de aceitação e de ser adotado pela família do policial bom moço e pela comunidade de Green Hill, mas ele não é massa, da hora, eletrizante. Faltou tempero e faltou contraste com outros bonecos de outras cores e temperamentos para ele brilhar mais forte e mostrar mais da sua personalidade moleca. Aí quando aparece na cena final o Tails chegando para dar o ar de sua graça na continuação já fico mais animado, afinal sempre fui da turma que preferiu jogar com o segundo personagem, aquele com um conjunto alternativo de habilidades e características para desbloquear um outro estilo de jogo. Tomara que as sequências tenham mesmo mais estilo.
Seu Amigão da Vizinhança: Homem-Aranha (1ª Temporada)
3.6 48Seu amigão da vizinhança: Homem-Aranha reapresenta o herói da Marvel pela zilionésima vez e a série, em sua primeira temporada (2024), acerta justamente quando não repete só por repetir as convenções estabelecidas pelas décadas do personagem nos cinemas, gibis e outras séries animadas. É no mínimo curioso ver o elenco de apoio do personagem não ser o mesmo de sempre num universo que é paralelo quase colado ao MCU, mas que não fica preso a ele.
Os recursos infinitos vindos da Oscorp substituem o apadrinhamento de Stark nos filmes com Tom Holland e a figura paterna da vez é o próprio Norman, em uma versão instigante, sedutora, não puramente malévola. A mudança étnica é irrelevante, mas eu gosto dos designs de Norman e Harry. Eles são pretos e ricos e por sua riqueza conseguem jogar bem o jogo social. Norman usa o poder para conquistar/comprar respeito, conforme a "lição" que deixa para Peter, numa versão distorcida da famosa frase do tio Ben. No caso de Harry, sua fama em mídias sociais não significa amizades reais, que ele só vai começar a desenvolver com Peter e Niko ao longo da temporada.
O arco de Lonnie mostra como a discriminação e a marginalização tem a ver com questões de raça mas, sobretudo, com questões de grana, de geografia, de falta de acesso a espaços e a necessidade de ocupação de outros espaços que serão limitadores e definidores de seu futuro. Em oposição às oportunidades que caem nas mãos de Peter, de ser um herói "escolhido" pelo destino (na forma de um portal interdimensional/temporal) à escola de elite e ao estágio nos laboratórios Oscorp, Lonnie tinha todo o potencial do mundo mas é tragado pelas urgências da sobrevivência ao submundo das gangues, onde acabará ganhando seus poderes, mas quase como uma maldição. O conflito do final da temporada não ser entre os dois é levemente decepcionante pela não entrega do que a construção dava a entender que era o objetivo final.
No lugar disso recebemos um plano escalafobético que emburrece e diminui o personagem de Norman para amarrar a origem do herói com um loop temporal. Além disso, as versões de Octopus e Escorpião são legais e bem amarradas com os núcleos principais da série, enquanto as pontas do Doutor Estranho, do Demolidor e do Homem de Ferro são gratuitas, servem somente para aumentar o escopo desse MCU 2. E ficam sementes plantadas para as temporadas seguintes com os por enquanto subdesenvolvidos Nico Minoru, Dra. Conners, Amadeus Cho, as identidades civis de conhecidos heróis e vilões.
Estilisticamente eu gosto dos traços utilizados e da ideia de se tentar uma dinâmica/edição que remete aos quadrinhos com as capas na abertura, os quadros divididos, as viradas de página, as splash pages. Porém, se os designs são bons, os desenhos em movimento não agradam tanto, falta fluidez, é chapado, é estranho. É compreensivel que esta animação não seja bela e refinada como os longas para cinema do Aranha-verso da Sony, mas dá para ver que eles miraram em algo parecido, entre aquilo e a estética de quadrinhos dos anos 60 e a contemporânea do MCU, só que faltou orçamento, tempo ou criatividade para fazer mais com menos. Assim, a ação ação mesmo, o quebra-pau, o Aranha balançando na teia, não é de todo ruim, o 3D se justifica nessa coisa de parecer uma câmera se mexendo filmando coisas se mexendo. Só que em termos de ação, aí sim podemos dizer que já vimos coisas muito melhores e mais inventivas com o personagem.
Um Completo Desconhecido
3.5 234A música folk, os movimentos pelos direitos civis e a contracultura dos Estados Unidos dos anos 1960, a personalidade ao mesmo tempo magnética e evasiva da pessoa Bob Dylan, seu egoísmo no modo de lidar com seus relacionamentos, são elementos que informam sobre quem é o artista sem nunca revelar o segredo de sua arte ou a sua alma em profundidade e verdade, em Um completo desconhecido (2024). A caracterização de Timothée Chalamet para Dylan é contida e charmosa; da postura à voz, o ator claramente estudou muito para o papel e o tomou para si. Se atuar tem altas doses de fingimento para a criação de uma verdade (e toda arte é isso), a verdade de Robert Allen Zimmerman se esconde nas letras e performances de Dylan, aqui reinterpretadas por Chalamet.
James Mangold, o diretor e roteirista do filme, opta por não quebrar com a mística do músico, ao evitar didatismo e respostas fáceis para seu estilo ou comportamento. Ele é um puta compositor e um admirador dos artistas folks tradicionais e um poeta/cronista popular e um iconoclasta e um experimentador e um babaca. E um mistério. Uma coisa não anula nem justifica a outra. Quando o jovem Dylan chega em Nova York ele já está semi pronto e sua origem não é mais do que especulação no filme. Aí ele vai surpreendendo, para o bem e para o mal, nas relações que cria com seus padrinhos na arte Pete Seeger (Edward Norton) e Woody Guthrie (Scoot McNairy), a ativista e namorada Sylvie Russo (Elle Fanning), a cantora e amante Joan Baez (Monica Barbaro).
Como qualquer idealização sobre qualquer um ou qualquer coisa, a realidade é um balde de água fria. E não é diferente com quem apostava suas fichas em Dylan como o salvador do folk ou o homem de sua vida. Seu empresário (Dan Fogler) apostou na figura com todo o seu talento e as suas contradições e nisso ele acerta. Porque sabemos pelos letreiros finais e pelos spoilers da vida real que sua ousadia deu lucro. E atestamos a qualidade de sua arte quando a ouvimos nos vários trechos musicados do filme. É claro que seria Dylan o primeiro compositor a ganhar um Nobel de Literatura. E isso não exime sua pessoa de seus erros. Nem encontramos a fonte mágica de sua inspiração nesses erros ou mesmo nos acertos de sua biografia. Não há condenação nem julgamento. A inspiração aparece para o cara quando está escrevendo de madrugada no apartamento da amante ou quando acha curioso o som de um apito que compra de um vendedor ambulante na rua. Genialidade não se explica, mas se mostra. E os coadjuvantes do filme junto da câmera de Mangold são testemunhas dessa genialidade.
A forma fílmica parece básica e tradicional, mas carrega as suas sutilezas que contribuem para a aura de mistério do protagonista. Os olhares dizem muito. Quando está no palco com Joan, ele concentra o olhar nela mais do que em qualquer um em qualquer outro momento. As lentes focam nas emoções estampadas nos rostos dos atores, mas Dylan é difícil de decifrar. Exceto quando está com Joan. Ele parece mostrar vulnerabilidade na cena em que se despede de Sylvie, até que ele acende o cigarro. Parece pose, parece fuga, mas ele divide o cigarro com ela. Através das grades. Ele é filmado bastante de costas e contra a luz ao longo do filme e parece, mais para o final, não se importar e dar de costas para a tradição; porém, depois de quebrar tudo em Newport, "trair" Seeger e ser saudado pelo rockstar Johnny Cash (Boyd Holbrook), ele faz questão de visitar Guthrie uma última vez, antes de pegar a estrada em sua moto rumo ao desconhecido. São cenas em sequência muito bem escolhidas que criam no conjunto um senso de completude lacunar. As elipses e as faltas comunicam tanto quanto as letras das músicas, a escolha dos instrumentos musicais e os sons super bem captados de voz, gaita, violão ou guitarra elétrica. Comunicam mais do que as aparências, do que o "parecer ser" tanta coisa.
O Auto da Compadecida 2
3.0 444 Assista AgoraO auto da compadecida 2 (2024) é um filme que é pouco pelo tamanho do que representa o legado da peça original e de Ariano Suassuna. Ele se entende como uma farsa nesse trabalho ingrato que é dar sequência a uma obra tão querida e autenticamente nossa, brasileira, regional. Porém, mesmo se entendendo assim e dando vazão a um estilo propositadamente artificial e a comentários metalinguísticos sobre as suas repetições, o resultado não é tão saboroso.
Poderia ser uma repetição, um pastiche, do primeiro, mas com aquele gostinho que saciaria o nosso desejo de “mais do mesmo” de um prato muito muito bom que só é desfrutado muito raramente hoje em dia e nos recorda de nossa infância. Com o gosto do Nordeste encantado, teatral, exagerado, medieval, folclórico e carnavalesco dos cordéis, do teatro popular, da arte armorial. Com gosto de carne seca com macaxeira, cuscuz com leite, tapioca com manteiga de garrafa. No lugar disso, tivemos uma cópia do primeiro com versões menos autênticas das tramas, personagens, cenários, temas. Comemos o menu de uma rede de restaurantes de tema nordestino, sem a mão certa no preparo dos pratos populares que foram apropriados, processados e pasteurizados.
A trama é uma colcha de retalhos com a forma narrativa da contação desses causos vividos por João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) mais de duas decadas depois de quando os tinhamos deixado em Taperoá. Passarinhos de computação gráfica e ônibus de turistas chegam na cidade do sertão um pouco transformada, maquiada digitalmente, mas com os velhos problemas da seca, da desigualdade, da má política. A ressurreição milagrosa de João Grilo o alça a herói, santo e cabo eleitoral tanto do Coronel Ernani (Humberto Martins) quanto do radialista e vendedor Arlindo (Eduardo Sterblitch). Enquanto isso, Chicó se envolve com a filha do Coronel Clarabela (Fabiula Nascimento) e tenta reaver Rosinha (Virgínia Cavendish), seu grande amor.
Os personagens continuam carismáticos e as situações vividas por eles são até que divertidas porém empalidecem perto do original. O que só piora quando o clímax no tribunal do Além é tão “copia e cola” do que já foi feito antes, com um twist que o deixa mais psicológico e menos místico e mais sem graça. As muitas caras de Nachtergaele e a Compadecida de Taís Araújo são a versão expresso do café coado de Fernanda Montenegro, Maurício Gonçalves e Luís Melo.
Afinal, não haveria problema, até pela natureza teatral de sua origem, se fizessem uma mera reencenação/reinterpretação da peça original, desde que a direção e a estética fossem inspiradas o suficiente para justificar uma nova versão filmada. Mas é o mesmo Guel Arraes de antes que dirige aqui em parceria com Flávia Lacerda e eles não oferecem nenhuma ideia nova que valha a pena. O elenco também é majoritariamente o mesmo. Então, entre a versão original e a continuação que é homenagem e quase refilmagem porém com gosto de reciclagem ou cópia não tão boa, prefiro reassistir o original.