Haneke é mesmo um diretor difícil de digerir. A forma crua e sem enfeites como ele retrata a realidade em seus filmes não cativa todo mundo, principalmente pela narrativa, muitas vezes, econômica, que exige que prestemos mais atenção nos detalhes, e a falta de artifícios narrativos para explicar de forma mais clara o que está acontecendo. O Fato de Anne ter seu lado direito paralisado, por exemplo, só é falado um tempo depois do ocorrido, numa conversa com Alexandre, mas já percebemos isso no decorrer das cenas anteriores. Mas esses pontos tidos como negativos para os que não gostam do cinema de Haneke são os mesmos que me fazem me tornar cada vez mais fã dele. Para quem conhece a obra do diretor, a inquietação e o incômodo ao assistir seus filmes são esperados - e até bem-vindos -, e por aqui não é diferente: Amour recebe um tramento sem nenhum floreio ou concessão desde a primeira cena, que nos mostra a protagonista morta, nos impedindo de imaginar qualquer ilusório final feliz. O foco é voltado para como Anne foi parar ali, naquele estado. Sua narrativa econômica e, ao mesmo tempo, profunda exige que participemos dela, o que faz com que a forma crua com que Haneke retrata a história nos atinja de forma arrebatadora. Depois da cena do casal no concerto, por exemplo, o cenário do apartamento deles passa a ser o único do filme. Isso nos obriga a testemunhar, impotentes, todo o sofrimento dos protagonistas, sem nenhum momento de frescor. Com isso, até o fato de os outros personagens poderem sair do apartamento passa a ser frustrante. O planos fixos de câmera, que, por exemplo, nos mostra a espera ansiosa de um visitante faz com que sintamos essa ansiedade também; e a forma como ela se movimenta, submetida ao ritmo de Georges, atrelando nosso ritmo de observação à ele, faz com que nos sintamos observadores próximos, e a sensação de impotência em relação ao que acontece é amplificada, nos fazendo desejar, em alguns momentos, parar o filme para respirar um pouco. Porém, além de todo o sofrimento , também testemunhamos o tamanho "Amour" entre Anne e Georges. Um amor que é lindo e ao mesmo tempo cruel, que faz com que um ato de extremo desespero e violência seja, também, um ato de extrema compaixão e símbolo de sua nobreza e plenitude. Lindo, delicado, cruel, inquietante, incômodo, frustrante, torturante, doloroso... Real... Haneke...
“Há forças que me movem e que não consigo controlar. Médicos, amantes, comprimidos, drogas, álcool, trabalho. Nada ajuda. São forças secretas. Têm nome? Não sei. Talvez seja o processo de envelhecimento. Não tenho controle sobre essas forças. Eu me aproximo do espelho e olho para a minha cara, que se tornou tão familiar. E chego à conclusão de que esta combinação de carne, sangue, nervos e ossos reúne duas pessoas incompatíveis. De um lado, o sonho de intimidade, de ternura, interesses comuns. Do outro a violência, a obscenidade, o horror e a morte. Às vezes penso que têm a mesma origem. Não sei. Como poderia saber?”
Acho que poucos seriam capazes de produzir um texto tão poético e verdadeiro como esse. Mesmo para um produtor tão genial - e produtivo - como Bregman, Da Vida Das Marionetes é um filme raro, no qual coneguimos acompanhar um verdadeiro estudo sobre os nossos sentimentos mais primitivos e sobre o quão obscura nossa humanidade pode ser, e também nos faz contemplar os horrores que ela comporta de mãos completamente atadas, depois de cada máscara criada por Peter entre ele e a sociedade vir abaixo. E, depois de tudo, ainda conseguimos encontrar argumentos para defender Peter, que, a princípio, nos parece apenas uma pessoa fraca e cruel. Cada sequência do filme é mais sensacional que a outra. Meu preferido de Bergman, por enquanto.
É um bom filme, bonito. Mas se a história fosse melhor aproveitada, poderia ter virado clássico, sem esforço. As ideias de Peter Weir são boas e suas intenções, nobres. As interpretações dos jovens estão ótimas e carismáticas. A premissa então, é excelente; apreciar a arte de forma mais sensível, tê-la como espécie de liberdade e também como incentivo ao pensamento próprio e autônomo, tê-la como algo bom apesar da privação da liberdade que lhes é imposta, e também uma forma de lutar contra essa privação e contra seus próprios complexos conflitos juvenis... São elementos que Weir conseguiu combinar com naturalidade. Certamente, foi impactante na época. Mas a temática subversiva vem acompanhada de uma narrativa falha, muito conservadora e clichê, que acaba tranformando a história em um melodrama somente linear do meio até o fim, sem a naturalidade e o bom senso antes conseguidos. Isso se reflete na cena final, que soa quase falsa. Não fossem esses problemas, acho que o filme poderia emocionar mais pessoas, ou muito além do que apenas o público jovem.
É um drama adolescente - e com adolescentes - sem muitos clichês, e feito de forma decente. Só por isso já tem méritos, pois a maioria dos filmes com a temática decepcionam. Um dos pontos que faz o filme dar certo é o fato de o seu diretor ser o responsável pela adaptação de um livro próprio. Ele dá o tom perfeito para a história, que se desenvolve com muita naturalidade, transitando entre partes mais leves e divertidas com outras com maior carga dramática com fluidez e delicadeza. E ainda consegue algumas sequências bonitas esteticamente, apesar de o filme não pedir nada além do básico em aspectos técnicos. Como muitos já disseram aqui, as atuações, do trio principal aos coadjuvantes, estão excelentes, bem como a trilha sonora. Não parece um filme feito somente para adolescentes. Ele pode agradar a qualquer tipo de público. Garanto que os adolescentes não serão os únicos que se verem envolvidos ou emocionados com a história.
Com o seu visual deslumbrante à parte, achei o filme desapontante. Tecnicamente, o filme é muito bom, é até difícil de acreditar que o tigre Richard Parker não existe de verdade.
O filme é cansativo até a tempestade no navio. a partir daí, temos boas cenas, mas não demora muito a voltar a ser cansativo. Ele tem até alguns momentos marcantes e comoventes, que conseguem prender a atenção, mas é emocionalmente distante na maioria das vezes. E a narrativa também é falha e o ritmo é irregular. O fato de o próprio personagem, já mais velho, narrar a história nos indica que tudo acabou bem. A única coisa que nos resta é esperar o desenrolar da sua relação com Richard Parker, que, para mim, é o melhor do filme. Outro ponto negativo é a parada de Pi numa ilha carnívora, que não leva a absolutamente nada e parece servir apenas para preencher a história. Além de tudo, parece que, assim como outros famosos diretores, não conseguem entender o 3D, resultando em mais um mau uso da tecnologia, com cenas com objetos saltando da tela, dando sustinho nos espectadores. Nos prós, ficam a relação de Pi com Richard Parker, a maneira orgânica como o visual do filme se integra à sua história e os seus questionamentos e metáforas sobre a vida, que são realmente válidos. O final, por exemplo, quando fica a pergunta de qual história é a real, a do tigre ou a do cozinheiro, pode ser um caminho para tentar entender porque Ang Lee quis dar uma de diplomata, tentando agradar à todo mundo, ao não aprofundar a discussão religiosa, e também o porquê de as crenças de Pi não serem bem explicadas de maneira compreensível.
A princípio, a temática parece não levar a lugar nenhum, mas, parando um pouco para pensar, podemos entender o porquê desse tratamento para o tema. Para mim, a história do tigre é uma metáfora para a crença de Pi - ou das pessoas em geral - em Deus, ou nos deuses; algo imaginário que ele criou para diminuir sua dolorosa e verdadeira realidade, e passou a acreditar com todas as suas forças. Algo que ele criou para dar sentido à sua vida e a tornar menos fria e cruel. E outra pergunta fica no ar: até que ponto a fé e a esperança são importantes para a nossa própria sobrevivência?
Merece alguns prêmios no aspecto técnico, mas, no fim, acho que a história poderia ter sido melhor aproveitada, principalmente por seu aspecto fabular. Fica a sensação de que uma história incrível, foi, de certa forma, desperdiçada. Sensação essa que nem as reflexões que o filme propõe conseguem tirar.
Filme maravilhoso. Com certeza, um dos mais bonitos, senão o mais, da minha curta lista de filmes assistidos. Tudo bem que, maior do que a inocência de Chance, só a das pessoas ao seu redor, que conseguiram levar a situação longe demais, sem ao menos desconfiar do jardineiro. E mais, tranformaram-no em uma pessoa importante para o país inteiro. E como Chance ficou tanto tempo morando com os Rand, mesmo depois dos dois dias decididos pelo médico, não ficou lá tão bem explicado. Provavelmente é imparcialidade minha, mas acho que isso tudo cabe no contexto, e não passa nem perto de derrubar a premissa do filme... se não acham que cabe no contexto, entendam como "licença poética". Dá até para traçar um paralelo de Chance com Forret Gump. É uma crítica sutil à subjetividade desnecessária e ao poder e influência assustadora que a mídia pode exercer sobre a sociedade, graças à sua alienação. Uma espécie de alerta contra o conformismo, feito de forma elegante e simbólica. E ainda traz o monstro Peter Sellers numa performance magistral, talvez a maior de sua carreira. Além de tudo, o final é arrebatador. Quando o vi, cheguei a pensar se Chance era mesmo tão inocente assim. Afinal, a história não nos mostra nada do seu passado, e o fato de ele nunca ter saído de casa, nunca ter aprendido a ler e nem escrever é, no mínimo, estranho. Mas de repente me veio um "click"; Chance sempre fala de forma objetiva, fala sobre o que sabe, mas as pessoas buscam no contexto metáforas até certo ponto, plausíveis, mas inexistentes. Nós, assim como os personagems do filme, podemos tentar desvendá-la de formas diversas, tentando ver além do que a tela nos mostra, mas ela poderia ser interpretada como a objetividade de Chance, que não precisa ser desvendada: a cena final pode ser, simplesmente, o que ela é;
“Gentlemen, You Can't Fight In Here! This Is The War Room!”
O melhor é que a realidade pra tornar a história uma comédia não foi nem um pouco aumentada. É um híbrido de histórias verdadeiras - como o boato de que os rusos estariam envenenando a água do mundo - dentro de uma ficção, contada de forma engraçada e com um sarcasmo refinado que alcança até o nome dos personagens. Toda a tensão da Guerra-Fria é levada à proporções ridículas, bem como sua premissa - duas potências mundiais se armando de tudo quanto é jeito para garantir a paz - exposta em personagens exageradamente e deliberadamente caricatos, que são amplificados por atuações sensacionais, especialmente (e obviamente) por Peter Seller, brilhantes nos três papéis que faz. É um convite à reflexão sobre prepotência e ignorância humana; sarcástico, inteligente, e muito, mas muito bem interpretado, como poucos. Uma deliciosa amostra da genialidade de Kubrick
Não dá pra considerar a opinião de pessoas que não entenderam, à menos que não haja mesmo o que entender do filme. Para muitos, esse é o melhor filme do seu ano, e, para outros, é até considerado o pior. Acho que é mais uma hipérbole considerá-lo o pior, mas as críticas à lentidão e a pretensão exagerada que não é correspondida pela obra são ferozes. É um filme um tanto quanto controverso... tô doido pra ver
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Amor
4.2 2,2K Assista AgoraHaneke é mesmo um diretor difícil de digerir. A forma crua e sem enfeites como ele retrata a realidade em seus filmes não cativa todo mundo, principalmente pela narrativa, muitas vezes, econômica, que exige que prestemos mais atenção nos detalhes, e a falta de artifícios narrativos para explicar de forma mais clara o que está acontecendo. O Fato de Anne ter seu lado direito paralisado, por exemplo, só é falado um tempo depois do ocorrido, numa conversa com Alexandre, mas já percebemos isso no decorrer das cenas anteriores. Mas esses pontos tidos como negativos para os que não gostam do cinema de Haneke são os mesmos que me fazem me tornar cada vez mais fã dele.
Para quem conhece a obra do diretor, a inquietação e o incômodo ao assistir seus filmes são esperados - e até bem-vindos -, e por aqui não é diferente: Amour recebe um tramento sem nenhum floreio ou concessão desde a primeira cena, que nos mostra a protagonista morta, nos impedindo de imaginar qualquer ilusório final feliz. O foco é voltado para como Anne foi parar ali, naquele estado. Sua narrativa econômica e, ao mesmo tempo, profunda exige que participemos dela, o que faz com que a forma crua com que Haneke retrata a história nos atinja de forma arrebatadora. Depois da cena do casal no concerto, por exemplo, o cenário do apartamento deles passa a ser o único do filme. Isso nos obriga a testemunhar, impotentes, todo o sofrimento dos protagonistas, sem nenhum momento de frescor. Com isso, até o fato de os outros personagens poderem sair do apartamento passa a ser frustrante. O planos fixos de câmera, que, por exemplo, nos mostra a espera ansiosa de um visitante faz com que sintamos essa ansiedade também; e a forma como ela se movimenta, submetida ao ritmo de Georges, atrelando nosso ritmo de observação à ele, faz com que nos sintamos observadores próximos, e a sensação de impotência em relação ao que acontece é amplificada, nos fazendo desejar, em alguns momentos, parar o filme para respirar um pouco.
Porém, além de todo o sofrimento , também testemunhamos o tamanho "Amour" entre Anne e Georges. Um amor que é lindo e ao mesmo tempo cruel, que faz com que um ato de extremo desespero e violência seja, também, um ato de extrema compaixão e símbolo de sua nobreza e plenitude.
Lindo, delicado, cruel, inquietante, incômodo, frustrante, torturante, doloroso... Real... Haneke...
Da Vida das Marionetes
4.3 68“Há forças que me movem e que não consigo controlar. Médicos, amantes, comprimidos, drogas, álcool, trabalho. Nada ajuda. São forças secretas. Têm nome? Não sei. Talvez seja o processo de envelhecimento. Não tenho controle sobre essas forças. Eu me aproximo do espelho e olho para a minha cara, que se tornou tão familiar. E chego à conclusão de que esta combinação de carne, sangue, nervos e ossos reúne duas pessoas incompatíveis. De um lado, o sonho de intimidade, de ternura, interesses comuns. Do outro a violência, a obscenidade, o horror e a morte. Às vezes penso que têm a mesma origem. Não sei. Como poderia saber?”
Acho que poucos seriam capazes de produzir um texto tão poético e verdadeiro como esse. Mesmo para um produtor tão genial - e produtivo - como Bregman, Da Vida Das Marionetes é um filme raro, no qual coneguimos acompanhar um verdadeiro estudo sobre os nossos sentimentos mais primitivos e sobre o quão obscura nossa humanidade pode ser, e também nos faz contemplar os horrores que ela comporta de mãos completamente atadas, depois de cada máscara criada por Peter entre ele e a sociedade vir abaixo. E, depois de tudo, ainda conseguimos encontrar argumentos para defender Peter, que, a princípio, nos parece apenas uma pessoa fraca e cruel. Cada sequência do filme é mais sensacional que a outra. Meu preferido de Bergman, por enquanto.
Sociedade dos Poetas Mortos
4.3 2,4K Assista AgoraÉ um bom filme, bonito. Mas se a história fosse melhor aproveitada, poderia ter virado clássico, sem esforço.
As ideias de Peter Weir são boas e suas intenções, nobres. As interpretações dos jovens estão ótimas e carismáticas. A premissa então, é excelente; apreciar a arte de forma mais sensível, tê-la como espécie de liberdade e também como incentivo ao pensamento próprio e autônomo, tê-la como algo bom apesar da privação da liberdade que lhes é imposta, e também uma forma de lutar contra essa privação e contra seus próprios complexos conflitos juvenis... São elementos que Weir conseguiu combinar com naturalidade. Certamente, foi impactante na época. Mas a temática subversiva vem acompanhada de uma narrativa falha, muito conservadora e clichê, que acaba tranformando a história em um melodrama somente linear do meio até o fim, sem a naturalidade e o bom senso antes conseguidos. Isso se reflete na cena final, que soa quase falsa. Não fossem esses problemas, acho que o filme poderia emocionar mais pessoas, ou muito além do que apenas o público jovem.
As Vantagens de Ser Invisível
4.2 6,9K Assista AgoraÉ um drama adolescente - e com adolescentes - sem muitos clichês, e feito de forma decente. Só por isso já tem méritos, pois a maioria dos filmes com a temática decepcionam.
Um dos pontos que faz o filme dar certo é o fato de o seu diretor ser o responsável pela adaptação de um livro próprio. Ele dá o tom perfeito para a história, que se desenvolve com muita naturalidade, transitando entre partes mais leves e divertidas com outras com maior carga dramática com fluidez e delicadeza. E ainda consegue algumas sequências bonitas esteticamente, apesar de o filme não pedir nada além do básico em aspectos técnicos. Como muitos já disseram aqui, as atuações, do trio principal aos coadjuvantes, estão excelentes, bem como a trilha sonora. Não parece um filme feito somente para adolescentes. Ele pode agradar a qualquer tipo de público. Garanto que os adolescentes não serão os únicos que se verem envolvidos ou emocionados com a história.
Uma grata surpresa.
As Aventuras de Pi
3.9 4,4K Assista AgoraCom o seu visual deslumbrante à parte, achei o filme desapontante. Tecnicamente, o filme é muito bom, é até difícil de acreditar que o tigre Richard Parker não existe de verdade.
O filme é cansativo até a tempestade no navio. a partir daí, temos boas cenas, mas não demora muito a voltar a ser cansativo. Ele tem até alguns momentos marcantes e comoventes, que conseguem prender a atenção, mas é emocionalmente distante na maioria das vezes. E a narrativa também é falha e o ritmo é irregular. O fato de o próprio personagem, já mais velho, narrar a história nos indica que tudo acabou bem. A única coisa que nos resta é esperar o desenrolar da sua relação com Richard Parker, que, para mim, é o melhor do filme. Outro ponto negativo é a parada de Pi numa ilha carnívora, que não leva a absolutamente nada e parece servir apenas para preencher a história. Além de tudo, parece que, assim como outros famosos diretores, não conseguem entender o 3D, resultando em mais um mau uso da tecnologia, com cenas com objetos saltando da tela, dando sustinho nos espectadores.
Nos prós, ficam a relação de Pi com Richard Parker, a maneira orgânica como o visual do filme se integra à sua história e os seus questionamentos e metáforas sobre a vida, que são realmente válidos. O final, por exemplo, quando fica a pergunta de qual história é a real, a do tigre ou a do cozinheiro, pode ser um caminho para tentar entender porque Ang Lee quis dar uma de diplomata, tentando agradar à todo mundo, ao não aprofundar a discussão religiosa, e também o porquê de as crenças de Pi não serem bem explicadas de maneira compreensível.
A princípio, a temática parece não levar a lugar nenhum, mas, parando um pouco para pensar, podemos entender o porquê desse tratamento para o tema. Para mim, a história do tigre é uma metáfora para a crença de Pi - ou das pessoas em geral - em Deus, ou nos deuses; algo imaginário que ele criou para diminuir sua dolorosa e verdadeira realidade, e passou a acreditar com todas as suas forças. Algo que ele criou para dar sentido à sua vida e a tornar menos fria e cruel. E outra pergunta fica no ar: até que ponto a fé e a esperança são importantes para a nossa própria sobrevivência?
Merece alguns prêmios no aspecto técnico, mas, no fim, acho que a história poderia ter sido melhor aproveitada, principalmente por seu aspecto fabular. Fica a sensação de que uma história incrível, foi, de certa forma, desperdiçada. Sensação essa que nem as reflexões que o filme propõe conseguem tirar.
Muito Além do Jardim
4.1 274 Assista AgoraFilme maravilhoso. Com certeza, um dos mais bonitos, senão o mais, da minha curta lista de filmes assistidos. Tudo bem que, maior do que a inocência de Chance, só a das pessoas ao seu redor, que conseguiram levar a situação longe demais, sem ao menos desconfiar do jardineiro. E mais, tranformaram-no em uma pessoa importante para o país inteiro. E como Chance ficou tanto tempo morando com os Rand, mesmo depois dos dois dias decididos pelo médico, não ficou lá tão bem explicado. Provavelmente é imparcialidade minha, mas acho que isso tudo cabe no contexto, e não passa nem perto de derrubar a premissa do filme... se não acham que cabe no contexto, entendam como "licença poética". Dá até para traçar um paralelo de Chance com Forret Gump. É uma crítica sutil à subjetividade desnecessária e ao poder e influência assustadora que a mídia pode exercer sobre a sociedade, graças à sua alienação. Uma espécie de alerta contra o conformismo, feito de forma elegante e simbólica. E ainda traz o monstro Peter Sellers numa performance magistral, talvez a maior de sua carreira.
Além de tudo, o final é arrebatador. Quando o vi, cheguei a pensar se Chance era mesmo tão inocente assim. Afinal, a história não nos mostra nada do seu passado, e o fato de ele nunca ter saído de casa, nunca ter aprendido a ler e nem escrever é, no mínimo, estranho. Mas de repente me veio um "click"; Chance sempre fala de forma objetiva, fala sobre o que sabe, mas as pessoas buscam no contexto metáforas até certo ponto, plausíveis, mas inexistentes. Nós, assim como os personagems do filme, podemos tentar desvendá-la de formas diversas, tentando ver além do que a tela nos mostra, mas ela poderia ser interpretada como a objetividade de Chance, que não precisa ser desvendada: a cena final pode ser, simplesmente, o que ela é;
Chance andando no lago sem se afundar. Ela significará o que a gente quiser que ela signifique
Dr. Fantástico
4.2 684 Assista Agora“Gentlemen, You Can't Fight In Here! This Is The War Room!”
O melhor é que a realidade pra tornar a história uma comédia não foi nem um pouco aumentada. É um híbrido de histórias verdadeiras - como o boato de que os rusos estariam envenenando a água do mundo - dentro de uma ficção, contada de forma engraçada e com um sarcasmo refinado que alcança até o nome dos personagens. Toda a tensão da Guerra-Fria é levada à proporções ridículas, bem como sua premissa - duas potências mundiais se armando de tudo quanto é jeito para garantir a paz - exposta em personagens exageradamente e deliberadamente caricatos, que são amplificados por atuações sensacionais, especialmente (e obviamente) por Peter Seller, brilhantes nos três papéis que faz. É um convite à reflexão sobre prepotência e ignorância humana; sarcástico, inteligente, e muito, mas muito bem interpretado, como poucos. Uma deliciosa amostra da genialidade de Kubrick
A Árvore da Vida
3.4 3,1K Assista AgoraNão dá pra considerar a opinião de pessoas que não entenderam, à menos que não haja mesmo o que entender do filme. Para muitos, esse é o melhor filme do seu ano, e, para outros, é até considerado o pior. Acho que é mais uma hipérbole considerá-lo o pior, mas as críticas à lentidão e a pretensão exagerada que não é correspondida pela obra são ferozes. É um filme um tanto quanto controverso... tô doido pra ver