Biutiful é um filme do excelente diretor mexicano, Alejandro Gonzales Iñarritu, protagonizado pelo também excelente ator, Javier Bardem. Só por essas informações iniciais, já sabemos que podemos esperar uma obra de alta qualidade. A história se passa numa Barcelona bem diferente da bela e turística cidade que estamos acostumados a ver por aí. É um filme pesado, como de costume do diretor, que busca retratar mais uma vez a realidade do mundo caótico e cruel em que vivemos. Gravado em 2010, teve seu ator principal vencendo o Cannes de melhor ator, e algumas indicações de melhor filme estrangeiro.
"Você acha que cuida das crianças? Não seja ingênuo, Uxbal. O universo cuida delas."
Uxbal, vivido por Javier Bardem, tem a guarda de dois filhos pequenos e uma ex-mulher bipolar. Após a separação, vive em um cubículo alugado com as crianças. Para criá-los, Uxbal agencia imigrantes ilegais, como senegaleses e chineses, encontrando trabalho para os mesmos em troca de uma comissão. Além disso, vende seus dons mediúnicos de conversar com mortos, aos familiares em luto. Os senegaleses vendem produtos chineses pirateados e mal fabricados, nas ruas de Barcelona. A todo momento, a polícia faz batidas nos locais de venda, para tentar apreender os imigrantes e seus produtos. Para apaziguar a situação, Uxbal paga subornos frequentes a um policial. Já os chineses, parecem ser ainda mais explorados. Dormem na própria fábrica, praticamente amontoados e trabalham fabricando esses produtos. São explorados por seus próprios compatriotas que deram uma melhor sorte na vida.
Ao se consultar com um médico sobre fortes dores e sangue na urina que vinha sentindo há vários meses, Uxbal descobre um câncer terminal. Restam a ele apenas 2 meses de vida. Convivendo com as dores cada vez maiores e a angústia da morte próxima, Uxbal vai acumulando o máximo de grana para dar algum futuro a seus filhos. Para aumentar a renda, surge a oportunidade de vender o túmulo de seu pai, que havia morrido no México e trazido embalsamado para a Espanha. Ele e seu irmão desenterrariam o pai e o cremariam.
A polícia descobre que alguns senegaleses estão vendendo drogas e faz uma batida grande nas ruas, prendendo muitos deles, inclusive um amigo de Uxbal, Ekweme. Na tentativa de defendê-lo, o mesmo também vai preso pela polícia. Com a fiança paga pelo seu irmão, Uxbal vai buscar seus filhos na casa da ex mulher, que aproveita o momento para tentar se reconciliar. Mesmo vivendo como prostituta, transando com o próprio cunhado, e notavelmente sem qualquer controle sobre seus vícios, ela garante estar melhor dos transtornos que sofre. Naturalmente, o peso de estar em seus últimos dias de vida, faz Uxbal dar uma nova chance a ela, e a família volta a morar junto.
Na dura tarefa de acumular o máximo de dinheiro possível, Uxbal se apropria de parte de um dinheiro que seria usado para comprar aquecedores para os trabalhadores chineses, que passam frio ao dormir, e compra aquecedores velhos a um custo bem abaixo do mercado. O preço dessa atitude, no entanto, se mostra incalculavelmente maior que ele pensava. Na primeira noite com os aquecedores instalados, o gás vaza pelo cômodo trancado e abarrotado de chineses cansados e sofridos. Homens, mulheres e crianças, morrem dormindo. Uxbal fica transtornado com o ocorrido, demonstrando que apesar de contribuir com a exploração dos imigrantes, nutre grande afeto e senso de responsabilidade com os mesmos.
Como se todos esses transtornos subsequentes não fossem suficientes, Uxbal ainda descobre o filho largado sozinho em casa, enquanto a mulher viaja com a outra filha. Ele, então, sai novamente da casa com os filhos e volta a morar no antigo cubículo, que já está ocupado pela mulher de Ekweme, Ige, e seu bebê. Esta assume naturalmente a função de cuidar das crianças e do próprio Uxbal, que está cada vez mais enfermo. No entanto, nos últimos momentos de vida, Uxbal dá seu dinheiro a Ige e pede a ela que continue a cuidar dos mesmos. Ige entra em um conflito interno, pois enxerga sua grande chance de voltar ao Senegal com o dinheiro recebido, ao mesmo tempo em que não quer trair a confiança do amigo nem abandonar as crianças. Ao final, Uxbal morre ao lados dos filhos e reencontra seu pai, ainda mais jovem que ele.
Conclusão
Biutiful é mais um excelente filme, de um dos melhores diretores da atualidade, Alejandro Gonzales Iñarritu. Esta obra poderia ser resumida em uma única palavra: contradição. Contradição do título (biutiful se refere a beautiful, que significa belo) com a história retratada, que não tem nada de belo. Contradição do protagonista em quase todas as suas atitudes, onde atua diretamente na exploração de centenas de vidas desgraçadas, enquanto nutre afeto, respeito e até algum senso de responsabilidade para com os mesmos. A contradição da própria cidade em que é filmado, Barcelona, conhecida por suas belezas e glamour, mostrada da forma mais feia e cruel possível. Por fim, contradição até mesmo na duração do filme, pois o enredo em si, caberia em um espaço bem menor de tempo, o que o caracteriza como muito longo para quem prefere não enxergar a desgraça alheia.
Por sinal, esta última é a principal crítica que fazem a Biutiful, o que deixa claro a má vontade que temos quando nos deparamos com uma obra que detalha a vida na sua forma mais cruel, injusta e miserável. Para que nos alongarmos com a visão negativa do mundo, se o nosso mundo pessoal não é tão ruim assim, não é mesmo? Ora, as 2 horas e 28 minutos do filme são muito bem feitas, nada monótonas, e prendem a atenção do início ao fim a quem quer enxergar uma realidade que raramente se vê em seu mundinho egoísta.
Introdução Até logo, meu filho é um drama chinês dirigido por Wang Xiaoshuai e protagonizado por dois atores que venceram os respectivos Urso de Prata de melhor ator e melhor atriz, Wang Jingchun e Yong Mei. Os dois formam um casal que teve a história marcada pela morte trágica do filho. O enredo gira em torno desse drama familiar, contextualizando com a China contemporânea e as transformações vividas no país nas últimas décadas.
O tempo parou para nós faz tempo. Agora só estamos esperando envelhecer.
O casal Yaojun e Liyun trabalha em uma tradicional fábrica chinesa e vivem em uma modesta casa em Pequim, com seu filho Xingxing. Numa manhã qualquer, são avisados que seu filho havia se afogado na represa da região. Apesar de todos os esforços do pai em carregar o filho em seus braços, correndo até o hospital, o mesmo já chega sem vida. Uma tristeza profunda toma conta do casal, que apesar de quase nunca dialogar, conseguem apenas na expressão facial demonstrar todo o sofrimento que os abateu. Após o ocorrido, o casal resolve mudar de cidade e começar uma nova vida.
A forma como o filme Até logo, meu filho foi dirigido é bem peculiar, pois não existe uma sequência cronológica nas cenas. A todo momento somos jogados para um tempo diferente, seja no futuro ou no passado. De início, fica bem difícil entender o contexto e se situar, mas aos poucos vamos nos acostumando. Até porque, como são mais de 3 horas de filme seria impossível não se adaptar à esse formato.
É desse modo que vamos sendo apresentados a todos os fatos do enredo. Após a morte de Xingxing, entendemos que o casal adotou uma nova criança, mas que com o tempo foi ficando cada vez mais rebelde, a ponto de simplesmente fugir de casa, aumentando ainda mais a tristeza dos pais. Também descobrimos que Yaojun teve um caso com uma colega de trabalho e amiga da família por muitos anos. Esta reaparece um bom tempo depois, para trazer a notícia ao amante de que está grávida do mesmo.
Em mais um salto no tempo, retrocedemos ao momento em que Liyun tem uma segunda gravidez descoberta. Como a lei não permitia ter mais de um filho por casal, ela tentou esconder a situação o maior tempo possível, até que um dia passou mal no trabalho e sua chefe, que também era sua amiga, descobriu. Apesar da amizade, ela foi obrigada a abortar e levada praticamente à força. Esta ferida iria durar muito tempo para se cicatrizar, principalmente em sua amiga.
Um certo dia o filho do casal reaparece, com uma turma de amigos, solicitando a emancipação dos pais. Ao conseguir o que queria, ele some novamente. A parte final do filme é marcada pelo retorno do casal à Pequim, para se despedirem da amiga, causadora do aborto. Encontram uma cidade completamente diferente do que conheciam, embora sua modesta casa tenha ficado exatamente como fora deixada. Esse momento reconecta o casal a todo o ciclo de amizades que possuíam antes da perda do filho, demonstrado que nem mesmo o tempo, nem as marcas do passado, haviam rompido os laços.
O final de Até Logo, meu filho, se dá num momento de rara felicidade de Liyun e Yaojun, quando seu filho, que havia sumido, os liga para informar que está de volta à casa e pretende ficar com eles por um tempo. [spoiler]
Conclusão Até Logo, meu filho, é uma obra bem original que traz várias peculiaridades, como os saltos no tempo, a duração longa para uma história simples, os poucos diálogos e as longuíssimas cenas, típicas de uma paciência oriental. O filme aborda vários temas interessantes, como o contexto político da época, a forma de vida da classe média chinesa e sua mudança ao longo do tempo, a rigidez das leis e da política que interferiam direta e profundamente na vida das famílias, as dificuldades de lidar com as dores da vida e superar traumas antigos.
A atuação de Wang Jingchun e Yong Mei também é digna de nota. Impressionante como conseguiram com poucas falas, demonstrar toda a tristeza e angústia necessárias a seus papéis. Para o público ocidental, alguns detalhes de muitas cenas são uma atração à parte, como a comida chinesa e a estrutura modesta das casas, dentre outras.
Introdução O caso Richard Jewell é mais um filme do grande Clint Eastwood baseado em fatos reais. Os fatos estão relacionados ao atentado terrorista ocorrido em Atlanta, durante as Olimpíadas de 1996. Na ocasião, um dos seguranças do evento, Richard Jewell, foi acusado de ser o responsável pelo crime. O enredo do filme gira em torno da figura de Richard e a investigação que se desenrolou após o atentado.
Clint Eastwood dirigindo um filme aos 89 anos é sempre uma grande atração. Outra atração digna de nota é o excelente Sam Rockell, que neste filme faz o papel do amigo e advogado de Richard, Watson Bryant. O papel do protagonista é exercido por Paul Walter Hauser, que possui uma semelhança incrível com o Richard Jewell real, assim como a atriz Kathy Bates, que faz o papel de sua mãe, Bobi.
O filme O caso Richard Jewell inicia-se no momento em que Richard se apresenta a quem viria a ser seu advogado, Walter Bryant. Enquanto Richard trabalhava como uma espécie de auxiliar administrativo em uma empesa, Walter era um dos advogados da companhia. O emprego de Richard no local não durou muito, até porque seu grande desejo era se tornar policial, e uma vaga de trabalho como segurança em uma universidade, o chamou a atenção.
Nessa rotina de trabalho de Richard, conseguimos logo entender que ele era um aficcionado pela área de segurança, estudava e sabia muitas coisas envolvendo o tema, agia como um rigoroso discípulo da lei, além de ter essa obstinação em virar policial. Por vezes, seu rigor no trabalho soava exagerado, tanto que no novo emprego na universidade colecionava reclamações dos alunos por sua forma de agir. Assim, a experiência lá também acabou não durando muito tempo.
Seu próximo emprego foi como segurança em alguns eventos das Olimpíadas. Um dos eventos era o show das bandas Jack Mack e Heart Attack. Durante o show, Richard notou um mochila deixada embaixo de um banco. Seguindo sua postura meticulosa e profissional, o mesmo reportou a mochila aos policiais do evento, que não deram muita atenção ao fato, mas seguiram o protocolo por insistência do colega. Um especialista em bombas logo constatou que realmente se tratava de uma bomba, e assim, os seguranças e policiais começaram a evacuar a área, que acabou não sendo ágil o suficiente para evitar o pior. A bomba explodiu, feriu centenas de pessoas e matou outras duas.
Richard saiu do trágico acidente como um herói. Apontado como aquele que havia identificado a bomba, recebeu assédio de vários jornalistas, e até de uma editora de livros. Sua mãe nunca havia se sentido tão orgulhosa do filho. Alguns dias depois, porém, o FBI definiu Richard como o principal suspeito do atentado. O que começou como uma noite épica na vida de Richard e sua mãe, rapidamente se transformou em um inferno.
Ao ser chamado pelo FBI a prestar um depoimento, ele se viu obrigado a procurar um advogado. O único que conhecia era justamente Walter Bryant. Este havia deixado a empresa anterior e montado um escritório próprio, que parecia viver à míngua. A ligação de Richard soou à Walter e sua secretária como uma grande oportunidade de recomeçar sua carreira.
Escolhi você porquê foi o único na “Administração de Pequenas Empresas” que não me tratou como uma criança e me chamou de “saco de petiscos”, “balão”, “boneco Michelin” e “Mascote da Pillsbury”. Você foi o único que me tratou como ser humano!
Enquanto vive um inferno astral, Jewell cria um laço cada vez mais forte com seu advogado. A investigação sobre Richard avança mesmo sem qualquer prova de envolvimento, e o mesmo sempre se apresenta solícito aos policiais. Aos poucos porém, Walter tenta mostrar a seu cliente e amigo o tanto que está sendo injustiçado por uma instituição que ele tanto prezava.
Quando ele finalmente enxerga a realidade, eles iniciam um contragolpe à investigação. O advogado convoca uma coletiva de imprensa para que a mãe de Jewell faça um apelo dramático às autoridades. O próprio Richard confronta os policiais cobrando provas concretas sobre seu envolvimento. Após essas ações, em pouco tempo a investigação é desfeita, e Richard não é mais tratado como suspeito. O filme se encerra anos depois, com Richard finalmente conseguindo trabalhar como policial. Durante um dia qualquer de trabalho, seu amigo e advogado aparece para lhe dar uma grande notícia: encontraram o terrorista, Eric Rudolph.
Conclusão O caso Richard Jewell trata-se de um bom filme, com ótimas atuações e uma história que vale a pena ser lembrada. A forma como o FBI tratou as investigações e especialmente o investigado, beira a estereotipação e o preconceito. Para a polícia, um ex-policial obeso, solteiro, que vivia com a mãe e colecionava armas, se assemelhava ao perfil de um terrorista. Afinal, foi basicamente essa a única explicação para investigar Richard. Pelo menos, é o que se retrata no filme. Como um autêntico “baseado em fatos reais” sabemos que muitos detalhes podem não ser verdadeiros.
Este último ponto, inclusive, é o que pega mal na obra de Eastwood. Ao retratar a jornalista (Kathy Scruggs) que divulgou o início da investigação sobre Richard como uma profissional de métodos não muito éticos (como usar de favores sexuais para obter informações privilegiadas), o filme entrou em uma polêmica desnecessária. O jornal em que a mesma trabalhava veio a público desmentir essa conduta e criticar o diretor, alegando não haver qualquer indício de veracidade nessa questão, nem no próprio livro sobre Richard Jewell. Polêmicas à parte, O caso Richard Jewell é um filme que vale a pena ser visto.
Filme alemão lançado em 2006, Partículas Elementares baseia-se em um romance homônimo escrito por Michel Houellebecq e publicado em 1998. O ator principal, Moritz Bleibtreu, conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim de 2006. Traz uma história pouco comum, com pitadas de comédia e drama, repleto de sexualidade e um certo tom intelectual em seus diálogos.
Michael e Bruno são irmãos de mesma mãe mas pais diferentes. A mãe os deixou logo cedo para viver a onde hippie. Este abandono contribuiu significativamente para uma vida problemática dos dois, especialmente no quesito sexualidade. Michael tornou-se um cientista de respeito, mas praticamente um assexuado. Nunca se relacionou com mulheres e parece não sentir essa necessidade. Bruno tornou-se professor, e de forma antagônica ao seu irmão, enxerga sexo em todos os momentos e com todas as mulheres. Inclua-se aí, alunas, colegas de trabalho, desconhecidas, e até a própria mãe?! Embora tenha certa compulsão pelo sexo, não obtém muito êxito em suas tentativas.
Quando Michael é informado pelo cemitério onde sua avó está enterrada de que terão de remover seu túmulo para um outro local, surge a oportunidade de se reconectar ao seu passado. Passado este que ficou marcado pela amizade com uma das únicas mulheres de sua vida, Annabelle. Uma espécie de paixão platônica que ele continua a carregar consigo. Um reencontro entre os dois cria uma reaproximação intensa, que os leva a se relacionarem. E assim, Michael perde sua virgindade, finalmente.
Paralelamente, Bruno vive uma série de frustrações sexuais e amorosas. Isto o leva a um adoecimento psicológico e a procura por uma ajuda profissional. Em uma sessão de terapia, Bruno conta toda a sua história e deixa-nos claro, então, a dramaticidade de sua existência e o sofrimento pelo qual passou durante toda a sua vida, refletindo nos dias atuais. Esta história contribui também para entendermos o comportamento do próprio irmão. Como forma de tentar se recuperar do quadro de adoecimento em que se encontra, Bruno busca se reconectar com o pai, ocasião que acaba servindo apenas para demonstrar o quanto o pai era mais uma pessoa despreparada em sua vida.
Quando a mãe dos dois morre, Bruno resolve acampar em um acampamento hippie, talvez como uma forma de tentar entender a vida que a mãe havia levado. Neste acampamento, ele conhece um tipo de mulher que sempre desejou, Christianne, uma libertária sexual que o introduz ao mundo do swing. Logo depois, descobre-se que a mesma possuía uma doença crônica e grave, que a leva a paralisia mais à frente. Na cena mais marcante do filme, Christianne comete suicídio na sacada de seu próprio apartamento. Este acontecimento torna-se mais um na longa fila de momentos dolorosos da vida de Bruno. Ele acaba adoecendo novamente e voltando para a clínica psiquiátrica.
A grande mensagem que o filme Partículas Elementares tenta passar é de quanto a criação dos filhos é delicada, e como isto pode impactar drasticamente na vida adulta de uma pessoa. No caso específico do filme, dois irmão criados ou abandonados pela mesma mãe, tornaram-se pessoas problemáticas, especialmente no quesito sexualidade, embora com características totalmente opostas. A personagem de Christianne também demonstra que a liberdade sexual extrema pode estar atrelada a uma tentativa de fuga da realidade, ou de amenizar uma dor ou trauma, que no caso é uma doença crônica e severa.
A leitura do livro que deu origem ao filme com certeza poderia trazer inúmeros complementos a esta análise. É muito provável que temas tão ou mais importantes sejam retratados na obra, enquanto que no filme se resumem a uma cena rápida e pouco explorada. Citando duas como exemplo, a atração de Bruno pela mãe pode ser uma reflexão provocada sobre o complexo de Édipo. O fato de Michael ser “assexuado” por tanto tempo e estudar sobre reprodução assexuada, daria uma bela discussão filosófica também, mas é, novamente, muito pouco explorado. Enquanto a vida de Bruno é apresentada durante sua terapia, a de Michael é tratada com pouquíssimos detalhes.
Acredito que se tivesse lido o livro, reconheceria Partículas Elementares como mais um dos inúmeros filmes que derivam de um livro, e não conseguem representar com tanto primor a obra original. Isto porque, por si só, o filme já deixa muitas lacunas em seu enredo. De qualquer forma, é uma obra autêntica, mais profunda do que aparenta, dotada de uma complexidade que exige que se assista mais vezes.
O filme Os Últimos Rebeldes retrata a história de um dos vários movimentos de resistência nazista na Alemanha. A SwingJugend ou Juventude do Swing, foi um movimento juvenil formado por jovens de classe média, que adoravam “música degenerada” como jazz, swing e blues. Este tipo de música era tido pelos nazistas como inapropriada e portanto, aqueles que a apreciavam recebiam certo tipo de censura. A onda do swing foi tão relevante, que levou o Partido Nazista a perseguir esses jovens, fechar os locais em que eles se encontravam, e até enviar alguns desses jovens para campos de concentração. O filme conta com um elenco jovem de primeira, destaque para Christian Bale, Robert Sean Leonard e Frank Whaley.
A história de Os Últimos Rebeldes é focada em um grupo de 3 amigos, Peter, Arvid e Thomas, que estudam juntos e se reúnem para tocar e ouvir músicas e frequentar os bailes de swing. Vez ou outra, enfrentam grupos de nazistas que assediam as minorias. A amizade entre os 3 parece bem forte,
até que em um desses atos de rebeldia, contra um oficial da Gestapo, Peter acaba sendo detido e forçado a entrar para a JH (Juventude Hitlerista), uma espécie de escola nazista para treinar e doutrinar crianças e jovens. Para não deixar o amigo sozinho nessa situação, Thomas também entra para a instituição. Esta situação causa revolta em Arvid, que enxerga o ocorrido como traição ao movimento. Para piorar a relação entre os 3, Arvid acaba sendo atacado pela Gestapo, por posse de um disco de um dos artistas “degenerados”. Neste ataque, ele fica com alguns dedos quebrados e uma rebeldia ainda mais exaltada.
Enquanto Thomas e Peter vão se formando na escola nazista, o cerco vai se fechando cada vez mais aos bailes de swing e aos “inimigos” do Partido. Após uma discussão com nazistas, Arvid, cada vez mais tomado pela rebeldia, sentimento de traição e descontentamento com as pessoas que o cercavam, comete suicídio. Thomas começa a apresentar um comportamento cada vez mais “doutrinado”, a ponto de denunciar o próprio pai à Gestapo, que acaba sendo preso. O dono da livraria para qual Peter trabalha fazendo entregas, começa a ser investigado pela polícia nazista, que o pressiona para abandonar o emprego. Peter descobre que o mesmo atua com falsificação de documentos para os judeus, o que o leva a um conflito ético: as pessoas de bem estão sendo usadas pelos judeus para prestarem algum tipo de favor, ou realmente estão do lado deles por vontade própria? Afinal, seu pai havia sido assassinado por estar do lado dos judeus, embora não fosse um, levando sua família à dificuldades financeiras.
Após receber uma tarefa revoltante dos nazistas, Peter resolver voltar a um dos bailes de swing que ainda resistiam. Durante o evento, a Gestapo aparece para fechar o estabelecimento e perseguir os participantes. Dentre os oficiais nazistas, está Thomas. Os dois se enfrentam violentamente até perceberem o nível de inimizade em que chegaram. O filme encerra com Peter sendo detido e aparentemente, levado a um campo de concentração. Do outro lado, Thomas demonstra que, apesar de acomodado com a situação a qual se submeteu, ainda sente algum resquício de rebeldia “Swing Kid”.
Os Últimos Rebeldes possui um roteiro envolvente e apresenta uma história de resistência nazista ainda pouco conhecida. O ponto alto do filme, além das atuações dos bons e jovens Christian Bale e Robert Leonard, é a oposição dos pontos de vista dos nazistas, das minorias perseguidas e daqueles que, embora não concordem com o status quo, não se vêem em condições de fazer qualquer enfrentamento, por isso aderem ao caminho mais fácil.
Esta história de Os Últimos Rebeldes nos mostra o quanto era difícil manter um posicionamento autêntico, pensar e agir diferente da maioria, naqueles tempos sombrios. Muitos que compactuaram com o nazismo, o fizeram por não verem outra possibilidade ou alternativa, não necessariamente por concordar ou se identificar com a ideologia. Já aqueles que não abriram mão de suas convicções e enfrentaram a situação, sofreram as graves consequências. Além disso, não precisamos ir tão longe no tempo para perceber que, em situações de polarização e radicalismos, vizinhos viram espiões, amigos viram inimigos e famílias se auto sabotam, em questão de dias.
Swallow pode ser traduzido como “engolir” e este título se encaixa perfeitamente ao filme. Incompreensivelmente, o título oficial no Brasil é “Devorar”. Contudo, se fosse necessário reduzir toda a história a uma única palavra, seria exatamente essa, engolir. Hunter, muito bem interpretada por Haley Bennett, é uma jovem mulher, casada com Richie, interpretado por Austin Stowell. Richie não é rico apenas no nome, sua família é abastada e ele é um fiel herdeiro do legado do pai. Seu tempo é precioso, afinal, dirige uma grande corporação, e a atenção que o mesmo pode dar à esposa, é a mínima possível. Esta, por sua vez, vive dedicada ao lar, e aparenta desde sempre um ar misterioso, melancólico e tenso.
Em Swallow, Hunter e Richie formam um casal feliz e que se ama, aparentemente. Ao desenrolar a história, logo percebemos que a esposa se doa completamente ao marido, e recebe em troca todo o luxo e conforto que o dinheiro pode oferecer. O que ela mais sente falta, no entanto, é a atenção do marido, que está sempre ocupado ou disperso com suas outras responsabilidades. A família do marido claramente enxerga Hunter como uma figura decorativa, útil para cumprir seu papel de esposa e nada mais. Quando a mesma descobre que está grávida, seu papel ganha uma maior relevância, deve ser uma ótima esposa e uma ótima mãe.
Em paralelo a notícia da gravidez, Hunter passa a apresentar um comportamento estranho, o de engolir alguns objetos pequenos. Após o organismo expeli-los, ela ainda os guarda, nutrindo uma certa admiração, como se fossem algum troféu. Esse comportamento acaba se tornando uma verdadeira compulsão. De objetos pequenos ela passa a engolir objetos maiores, inclusive pontiagudos. Em uma dessas situações, ela se sente muito mal e é levada ao hospital, onde são retirados inúmeros objetos de seu corpo, para o desespero de seu marido e família. Enlouquecidos com a situação, Richie e seus pais decidem contratar uma psicóloga para tratar da esposa. Como se não bastasse, uma espécie de guarda costas, Luay, também é contratado, para literalmente vigiar Hunter diariamente.
As consultas com a psicóloga não dão nenhum resultado de início. Hunter se mostra bem resolvida, afirma que nunca houve nenhum problema relevante em sua criação que poderia ter desencadeado algum tipo de transtorno, e que ela está super bem. No entanto, a realidade se mostra diferente. Em casa, ela luta para vencer a compulsão, e nas poucas vezes que consegue se livrar de Luay, engole algum objeto.
Com o tempo, porém, a psicóloga começa a conquistar Hunter e alguns detalhes sobre seu distúrbio e sobre sua história, passam a ser revelados. Ela explica que engolir objetos a faz se sentir no controle da situação. Em uma outra consulta, ela conta que seu nascimento foi originado de um estupro, e que sua mãe não a abortou porque a família era muito religiosa e naturalmente contra o aborto. Apesar de carregar uma foto do estuprador consigo, ela garante à psicóloga que superou esse trauma.
Ao ouvir uma conversa de seu marido ao telefone, Hunter descobre que a psicóloga foi contratada para passar as informações de sua terapia a ele. Esta descoberta a leva a mais um surto, onde acaba engolindo um objeto pontiagudo. Logo após engolí-lo, ela passa muito mal e é levada às pressas a um hospital para nova cirurgia. A família de seu marido então, a obriga a se internar em uma clínica de reabilitação por 7 meses. Do contrário, Richie pediria o divórcio. Com a ajuda de Luay, que sentia compaixão pelo que ela estava passando, Hunter consegue fugir de casa antes mesmo de ser encaminhada à clínica.
Na fuga, Hunter tenta contato com sua mãe para pedir abrigo. O que ouve dela, no entanto, é que a casa está cheia e não teria espaço para ela. Seu próximo passo é tentar encontrar seu pai biológico. Ao encontrá-lo, ela o confronta, questionando o motivo dele ter feito o que fez e se sentia vergonha dela. O que ela ouve parece a fazer bem. O filme termina com Hunter realizando o aborto de seu filho e aparentando uma satisfação pessoal até então inédita.
Swallow é um filme que todo amante da psicologia deveria assistir. A forma como Hunter lidou com sua história de vida é chocante e faz todo o sentido. A compulsão em engolir objetos foi uma forma muito interessante de se explicar tudo o que a personagem sentia. O relacionamento com a mãe, com o marido e com a família do marido, são marcados por uma submissão completa. Literalmente, é como se Hunter engolisse toda a mágoa que as pessoas causavam a ela, como o único remédio para seguir em frente.
O seu sentimento de insignificância pela forma como surgiu ao mundo, é reforçado por ela sentir prazer em engolir objetos que causam mal a ela. É como se ela buscasse se ferir por não ser merecedora de uma vida digna. É possível ir mais além. O ato de engolir algo tão difícil e doloroso funciona como uma conquista, um momento raro de orgulho, que traz uma sensação também incomum de poder e de controle para uma pessoa de baixíssima auto estima. Tanto que os objetos, após expelidos, são guardados como troféus. Sensação de poder essa, que também foi experimentada pelo próprio pai, quando explica o que sentiu ao ter realizado o estupro.
Outras reflexões que ficam são, quantas mulheres não se sentem tão submissas ao casamento quanto Hunter, cada uma à sua maneira e com seus próprios distúrbios? Isto explicaria a cena final, focada em mulheres que entram e saem de um banheiro feminino onde um feto acabou de ser abortado? Porque será que Hunter só encontrou compaixão em uma mulher negra e em um imigrante sírio? Seriam estas, peças colocadas ao acaso ou outros grandes méritos do enredo?
Também não se pode deixar de citar em Swallow, a competência da direção em criar um ambiente tão tenso e melancólico como deveria ser, através de uma excelente fotografia e direção de arte, como um todo.
Waves é um drama estadunidense lançado em 2019 que busca retratar a realidade de uma família negra americana, de classe média alta, aparentemente bem estruturada mas que, como qualquer família da vida real, precisa enfrentar vários momentos difíceis. O desafio do roteiro e da direção é tornar esse enredo, aparentemente comum, em uma história marcante e bem detalhada, a ponto de fazer o espectador se identificar com a mesma em vários momentos e tirar reflexões importantes. Para nossa sorte, diga-se de passagem, conseguem fazê-lo com maestria.
O patriarca, Ronald Williams, tem dois filhos, Tyler e Emily, cuja mãe biológica faleceu quando os dois eram bem novos, cabendo à madrasta Catherine, o papel de mãe, que cumpre muito bem. Ronald é um pai muito exigente em relação ao filho Tyler, cobrando dele disciplina na vida de atleta de wrestling e nos estudos, pois acredita que para um negro vencer na vida deve se esforçar em dobro.
Devido a alta carga de treinamento e dedicação ao wrestling, Tyler acaba desenvolvendo uma lesão séria no ombro, o que teoricamente o impediria de voltar a luta pro resto da vida, e em sua cabeça, arruinaria seu futuro e sua reputação perante seu pai. Até por isso, tenta esconder de todos o diagnóstico dado pelo médico. Em uma de suas lutas, porém, ele sai contundido e a verdade vem à tona, para revolta de Ronald.
Paralelamente, sua namorada, Alexis, acaba engravidando e os dois decidem realizar o aborto, mantendo o fato em segredo. Ao chegar na clínica, porém, ela desiste da ideia, o que revolta o namorado. Os dois discutem no carro e inicia-se aí, um rompimento brusco do relacionamento entre eles.
Através das redes sociais Tyler passa a acompanhar a vida da ex namorada, demonstrando não ter superado o rompimento e um certo arrependimento por suas atitudes. Esse momento difícil na vida do rapaz o leva à um comportamento cada vez mais desregrado, tendo as drogas como seu refúgio. Os pais dele parecem não saber do drama que o filho enfrenta até que um acontecimento extremo chega para abalar duramente a vida de toda a família.
Na festa de formatura da ex namorada, Tyler, alcoolizado, surge de forma inesperada, após ofender brutalmente sua mãe a agredir seu pai para conseguir sair de casa. Ao ver sua ex com um suposto affair, ele se revolta e passa a segui-la na festa, até encontrar um momento mais oportuno para tirar alguma satisfação. Na discussão, Tyler acaba revidando um tapa recebido no rosto com um soco desproporcional, causando traumatismo craniano em Alexis, que vem a falecer algumas horas depois. Ele tenta fugir mas pouco tempo depois é preso pela polícia e condenado a prisão.
Neste momento o filme entra em uma espécie de segunda fase, onde a irmã de Tyler, Emily, torna-se a protagonista. Sentindo intensamente a desgraça ocorrida na vida do irmão e o abalo gerado na família, Emily se isola do mundo e assume um comportamento introspectivo. Para piorar, o relacionamento de seus pais se desgasta ao extremo, com sua mãe culpando Ronald pelo que aconteceu com o filho.
Com a chegada de um namorado, porém, Emily entra em uma nova fase da vida e parece se reerguer. Uma conversa franca com seu pai, ajuda-a a tirar a culpa que a mesma sentia por não ter impedido seu irmão de fazer o que fez. As novas experiências proporcionadas pelo namoro, dão um novo sentido à vida de Emily.
O elenco tem apenas Sterling K. Brown (Ronald Williams) como ator mais renomado, mas de forma geral todos cumprem bem seu papel, com destaque para o próprio Sterling e Taylor Russel (Emily). A trilha sonora também merece elogios, pois as músicas foram perfeitamente encaixadas pelo diretor, contribuindo muito para a ambientação e desenrolar das cenas. Algo raro de se ver por aí.
Analisando friamente, é possível perceber um certo exagero no roteiro de Waves, especificamente na morte acidental e na condenação de Tyler. Nada que atrapalhe a qualidade da obra. Waves é um filme que consegue aproveitar um drama familiar para criar uma história comovente, com diálogos fortes, cenas muito bem feitas e um enredo muito bem desenvolvido.
Um dos filmes mais atemporais da história do cinema, o Show de Truman flerta com várias questões sociais importantes ao mesmo tempo: flerta com a filosofia e, em especial, com o Mito da Caverna; com George Orwell e seu clássico 1984; flerta com os reality shows que surgiram pouco depois; flerta ainda, com a sociedade contemporânea, de forma geral.
Mas não é apenas o moral da história que se destaca nesta obra. O diretor Peter Weir mostra que seu grande trabalho em Sociedade dos Poetas Mortos não foi um acaso. Outro grande destaque trata-se do ator principal, Jim Carrey, que prova que seu talento vai muito além dos seus improvisos e atuações engraçadas nos filmes de comédia.
Truman Burbank é uma pessoa comum à primeira vista. Casado, vendedor de seguros, leva uma vida rotineira mas feliz, onde trata e é tratado por todos com muito respeito e educação. Seria um verdadeiro pacato cidadão gente boa, não fosse pelo fato de, na realidade, tratar-se de um astro de um programa de TV (Show de Truman). Truman foi vendido a uma empresa de entretenimento, que criou um programa televisivo para transmitir a vida de uma pessoa comum, com o objetivo de “inspirar e alegrar” os telespectadores, nas palavras de seu criador, Christof, interpretado por Ed Harris. Embora esta situação ocorra desde seu nascimento, ele não faz ideia da realidade.
O programa de TV transmite a vida do astro 24 horas por dia, e é um enorme sucesso de audiência. Todas as pessoas que surgem na vida dele são figurinistas ou coadjuvantes da obra. O merchandising ocorre a todo o momento, e todas as decisões, circunstâncias e caminhos tomados durante sua vida, como amizades e casamento, foram devidamente arquitetados pela direção do programa. O mais chocante de todos é a morte forjada do pai, que serviu para criar em Truman um forte trauma do mar, e assim impossibilitá-lo de sair da ilha que habita. Ilha esta, criada artificialmente para ambientar o espetáculo.
Como nada é perfeito, algumas falhas da produção ocorrem vez ou outra: um refletor que cai do céu, a chuva que só cai em cima dele, intrusos que burlam a segurança para tentar avisar Truman sobre o que se passa. Nada disso, no entanto, havia sido suficiente para desaliená-lo, até o momento em que seu próprio pai aparece e tenta falar com ele, mas logo é afastado por uma série de ocorrências arquitetadas que o levam pra longe. A partir desse momento, Truman começa a repensar sua vida e, ao lembrar de uma menina que conheceu na faculdade, mas que inexplicavelmente nunca pôde se aproximar, decide sair da cidade para explorar novos lugares e fugir da tediante rotina.
Ao iniciar esse movimento de mudar de vida, Truman começa a se deparar com muitas dificuldades sendo-lhe impostas para impedir o alcance desse objetivo, e passa a criar uma visão questionadora de tudo. Juntando-se a isso novos erros de produção que surgem, Truman vai se aproximando cada vez mais da verdade e a lutar contra suas próprias limitações. Quando ele finalmente entende que está sendo controlado por todos de alguma forma, consegue planejar uma fuga sem que ninguém perceba, mesmo que para isso tenha que encarar o trauma do mar. Nesta fuga em pleno “oceano”, a produção do programa apela para recursos bruscos, como o aumento do vento e nível das ondas, que quase matam o astro ao vivo.
Quando Truman consegue superar todas as adversidades artificiais, ele chega ao limite do cenário, e percebe que durante toda a sua vida esteve fechado naquele espaço. Neste momento o criador do Show de Truman surge no alto falante e explica a ele tudo o que aconteceu e o tenta convencer a se manter no espetáculo. No entanto, para o deleite de toda a audiência, ele resolve escapar e fugir daquela prisão.
O Show de Truman traz uma mensagem muito ligada à alienação e ao comodismo. Nos faz refletir sobre como a nossa rotina, por mais entendiante que possa ser, nos faz cair numa zona de conforto onde nem conseguimos enxergar possibilidade de saída. Retirando nossa ambição, capacidade de questionamento e resistência a uma vida de aparências. Esta obra é um retrato muito nítido da nossa sociedade atual, repleta de alienação, consumismo, entretenimento vazio, necessitada de aparências e aprovação social, pouco crítica e questionadora.
Magistralmente, essa pesada reflexão é tratada, por vezes, de forma cômica, e nos leva a dar algumas boas risadas, entre um choque de realidade e outro. Além disso, teve a proeza de antecipar a onda de reality shows que surgiu pouco tempo depois, como uma das mais bem sucedidas vertentes do entretenimento adulto. As próprias redes sociais tornaram-se, indiretamente, uma espécie de reality show, onde o tempo todo estamos acompanhando a vida das pessoas, quase que em tempo real. Por fim, também é interessante notar que qualquer semelhança da história de O Show de Truman com os influencers digitais de hoje, não é uma mera coincidência.
O Homem Elefante é um filme de David Linch, baseado na história real de Joseph Merrick (retratado como John Merrick), um homem desfigurado fisicamente, mas cuja beleza interna o tornou encantador até aos mais assustados olhos. O filme foi lançado em 1980 e recebeu inúmeras indicações ao Oscar, além de vencer outros vários prêmios, como o BAFTA de Melhor Filme, em 1981. Além do renomado diretor, conta com um elenco recheado de grandes nomes da época, como Anthony Hopkins, John Hurt, John Gielgud e Anne Bancroft.
A história se inicia com a mãe de Merrick sendo atacada por elefantes, fato que supostamente explicaria a má formação do filho. Na sequência, a obra avança para um Merrick já crescido e sendo atração em um “freak show” ou “show de horrores” nos arredores de Londres.
Em uma dessas apresentações, o médico Frederick Treves, interpretado por Anthony Hopkins, surge interessado em conhecer mais à fundo a “aberração”. Para tanto, ele apresenta-se à Barry, o homem de certa forma responsável por John e explorador da sua deficiência. Tendo o mesmo como uma fonte de renda, Barry mostra-se desde o início um aproveitador nato, e enxerga o interesse do médico como oportunidade de ganhar uma renda extra, apresentando mais intimamente a sua “atração” a ele.
Após ver o rapaz pela primeira vez, Treves reage com uma mescla de espanto e admiração, entendendo estar à frente de algo inédito para ele e para a ciência médica, como um todo. Assim, pede a Barry que leve-o até o hospital no dia seguinte, para poder examiná-lo. Barry assim o faz, mas a visita acaba durando mais tempo que o previsto, o que o deixa enfurecido e o leva a espancar Merrick quando este finalmente reaparece. A surra deixa Merrick mal de saúde e torna-se um pretexto para que o médico o leve novamente ao hospital, para tratá-lo por uns dias. A partir daí, inicia-se uma relação de médico e paciente entre os dois, que posteriormente evolui para amizade.
Os primeiros contatos entre Treves e Merrick são difíceis, pois o primeiro não tem qualquer informação sobre seu paciente, que dá a entender não saber falar, além de ter algum tipo de deficiência intelectual. Com o passar do tempo, porém, Merrick vai sentindo confiança e demonstrando que não só sabe falar, como é dotado de muita inteligência. Com o apoio da direção do Hospital, o doutor Treves consegue livrar Merrick de seu explorador, criando um lar para ele no próprio hospital.
A notícia do “homem elefante” começa a se espalhar por toda a cidade, e pessoas da alta classe concorrem para conhecer o astro improvável. Merrick se mostra uma pessoa doce, gentil, inteligente e digna de todo o respeito. Em nenhum momento a dor, o preconceito, e as deformidades físicas são tratadas por ele como motivo para se vitimizar ou culpar o mundo. Pelo contrário, sua postura de grandeza como ser humano o faz conquistar até a mais alta sociedade britânica, incluindo a Princesa de Gales e estrelas do teatro.
Como nem tudo são flores, os holofotes também trazem novos aproveitadores. Um dos funcionários do hospital passa a levar, em segredo, curiosos para conhecer a “atração”, em troca de alguns bons trocados. Em uma dessas visitas, Merrick acaba sendo raptado pelo seu eterno carrasco, Barry. Este o leva até a França, para recomeçar sua carreira no freak show. Felizmente, após algum tempo, com a ajuda de colegas do meio, o homem elefante consegue escapar e voltar até Londres. Na volta, ele recebe um grande assédio de curiosos que, espantados com a “aberração” quase o lincham em praça pública. Por sorte, a situação acaba chamando a atenção da polícia, que o leva ao reencontro de seu médico e amigo.
Voltando à vida digna de antes, Merrick se sente novamente bem e feliz. A felicidade, no entanto, faz com que ele resolva experimentar, pela primeira vez, a sensação de deitar-se em uma cama, como uma pessoa normal e realizada. Devido ao risco causado por suas deformidades, ele nunca pôde se dar ao luxo dessa experiência, de forma que dormia sempre sentado. Contudo, em plena consciência, Merrick retira os inúmeros travesseiros que apoiam sua coluna na cama, e deita-se, finalmente, para a morte.
Esta excelente produção merecia muito mais prêmios que os efetivamente conquistados. Algumas curiosidades reforçam a alta qualidade em reproduzir tão bela história: a maquiagem do homem elefante levava cerca de 8 horas para ser concluída e ficou extremamente semelhante ao caso real, tomando por base as fotos da época; essa mesma maquiagem levava cerca de 12 horas para ser completamente removida do ator John Hurt. Ator este que merece todas as honrarias pela dificílima e tão bem executada interpretação, valendo-lhe o BAFTA de melhor ator em 1981.
O Homem Elefante trata-se de uma história incrivelmente triste, mas que consegue retratar a beleza na sua mais assustadora forma. Uma história que expõe a fragilidade do ser humano, a intolerância e preconceito da sociedade e o conflito ético mesmo quando se faz o bem (Dr. Treves por vezes se vê como um explorador de Merrick, tal qual seu carrasco Barry, por tê-lo exposto ao mundo na tentativa de ampará-lo). Por fim, nos mostra que não culpar o mundo por nossas próprias mazelas e rejeitar o vitimismo, pode tornar digno, o mais aparente indigno dos homens.
Kanal é um filme polonês que retrata a resistência polonesa aos nazistas, no Gueto de Varsóvia. Conhecido como Levante de Varsóvia, esse ato de resistência dos habitantes da capital polonesa contra a ocupação nazista ocorreu em 1944, e contou com a coragem e bravura daqueles que preferiram morrer lutando, a sucumbir aos campos de concentração e suas câmaras de gás.
Apesar de ser tão antigo, a fotografia e produção de Kanal são dignas de muitos elogios e admiração. Logo em suas primeiras cenas, podemos nos ambientar à guerra e sua destruição, com imagens da cidade sendo destruída com lanças chamas, prédios sendo demolidos, e ruínas se multiplicando. Após sermos introduzidos à esse caos, surge um narrador apresentando-nos os personagens do filme.
Em fila indiana, os combatentes do levante vão caminhando e sendo anunciados um por um, com a informação de seus nomes ou apelidos, função e principais características: o comandante da companhia, Zadra, “um homem com um profundo senso de dever”; “tenente Sábio, instrui seus rapazes com mãos de ferro”; Esbelto, que “planeja construir aviões após a guerra”; “e finalmente, o Artista. Ele não é não um soldado, se apresentou à companhia ontem”. O narrador finaliza a apresentação dizendo: “observe-os enquanto vivem suas últimas horas”.
Personagens como o Esbelto, o Bússola e o Artista, são os mais curiosos. O início do filme se resume a apresentação dos personagens e algumas cenas de conflito com os nazistas. Vemos o Artista dando vida ao cenário infernal, tocando algumas músicas ao piano, para deleite de seus colegas. O tenente Sábio, casado e com um filho, se relacionando com uma jovem inocente, Halinka, que ainda está longe de descobrir a verdade sobre o affair. Bússola, por sua vez, estreita seu relacionamento com uma senhorita, Margarita. O filme dá a entender que trata-se de uma garota de programa que se apaixonou por ele.
Após algumas cenas de conflito e resistência bem sucedida aos alemães, em que Bússola sai ferido, o comandante recebe a ordem de fugir do local através da rede de esgoto. Esta ordem o deixa em choque e preocupado com a possível reação negativa de seus homens, que terão de fugir após toda a resistência que impuseram. Contudo, após a insatisfação causada com a notícia, o grupo se prepara para a fuga. É aí que o filme realmente vai ficando interessante e pesado.
Ao entrarem no esgoto o grupo logo se dispersa. Bússola e sua companheira ficam mais atrás em função de seus ferimentos, que ao longo do tempo vão deixando-o bastante debilitado. Sábio, Halinka e o Artista se juntam em um segundo grupo. O restante do conjunto avança boa parte unido, mas com o cansaço e a agonia de não encontrarem a saída, acabam se desintegrando mais à frente.
O ambiente sujo, fétido e nojento do esgoto, vai tornando as cenas cada vez mais impactantes. Enquanto o grupo avança pelo caminho, se deparam com muitas outras pessoas voltando desesperadas, em função de gases que vão sendo lançados lá dentro pelos nazistas. Algumas tentam se aventurar pelas saídas do esgoto, mas logo são mortas pelos alemães, que parecem estar em todos os pontos de escape. Com o passar do tempo, a situação vai ficando cada vez mais desesperadora, pois a sonhada saída nunca chega. São várias as bifurcações pelo caminho e ninguém sabe ao certo qual o trajeto correto.
Em um determinando momento, o Artista parece perder a esperança de escapar, e passa a tocar sua música vagando aleatoriamente pelo esgoto. Bússola sofre bastante durante o trajeto e só consegue evoluir graças ao esforço e dedicação da companheira. Nem o pútrido e repulsivo ambiente impede os dois amados de se beijarem e se tocarem. No fim, o casal encontra a tão desejada luz no fim do túnel, mas se deparam com uma grade e o rio logo adiante, que os impedem de escapar.
Em um momento de desespero, Sábio acaba contando a verdade à Halinka. Ela, armada, acaba se matando. O comandante e o sargento conseguem encontrar uma saída. Porém, ao perceber que o sargento mentiu ao dizer que o restante do grupo estava vindo logo atrás, o comandante atira e o mata. Sendo um “homem com um profundo senso de dever” não lhe resta outra alternativa que não voltar ao esgoto para buscar sua tropa. Sábio também consegue sua saída, mas dá logo de cara com os alemães, que o capturam junto a muitas outras pessoas.
Kanal, além de ser um filme muito impactante, é muito bem produzido e dirigido, inspira-se em uma história fantástica, e traz uma visão bem realista da destruição de uma guerra. Esta obra polonesa vai muito além do que estamos acostumados a ver em filmes do gênero. Misturando personagens muito bem desenvolvidos, relacionamentos intrigantes, ambientes caóticos e pesados e trilha musical marcante, Kanal é um filme que marcou sua época. Não à toa conquistou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, em 1957.
Embora possua todas essas qualidades, o seu tom pesado, violento e por vezes repulsivo, não é para qualquer público. Aqueles que admiram uma história marcante e uma produção realista, autêntica e corajosa, vão aproveitar bastante seus 91 minutos de duração. A experiência de assistir um filme antigo, em preto e branco, que retrata a guerra de forma muito diferente da que estamos acostumados na modernidade, sem dúvida, vale muito à pena.
Com um elenco recheado de bons e renomados atores, como Clint Eastwood, Laurence Fishburne, Bradley Cooper, Andy Garcia e Michael Peña, a Mula utiliza a história do idoso de 90 anos, Leo Sharp, que transportava drogas para o cartel de Sinaloa e foi preso em 2013, como inspiração. Esse idoso é interpretado por Clint Eastwood, que também dirige o filme. Seu personagem, Earl Stone, é um veterano de guerra que dedica a maior parte de seu tempo à floricultura, acumulando prêmios e participações em eventos da área.
Pode-se dizer que neste meio e entre os amigos, Earl é uma pessoa muito bem quista, mas fora dele, especialmente no meio familiar, ele é um fracasso. Seu relacionamento com a ex-mulher e com a filha é muito falho e quase inexistente, a ponto de o mesmo sequer comparecer ao casamento desta última. Claramente, sua prioridade sempre foi o trabalho e a família nunca foi muito sua preocupação.
Após sofrer uma ordem de despejo e ter que se desfazer da atividade de floricultura, que estava indo mal das pernas por conta da concorrência “online”, Earl recebe ao acaso um convite para trabalhar transportando uma carga. Em sua primeira experiência na nova atividade, Stone percebe que esta é uma interessante forma de ganhar um bom dinheiro fazendo o que gosta, dirigir quilômetros sozinho, e utilizar este dinheiro para se manter próximo da neta, a única pessoa da família com quem mantém um bom relacionamento. Mesmo após perceber que a carga se tratava de droga, e seu chefe um narcotraficante, ele assume o novo papel e adapta-se facilmente à nova rotina e aos “colegas de trabalho”.
Tata, apelido que ganha dos colegas do tráfico, vai ganhando o respeito do cartel e esbanjando jogo de cintura para lidar até com policiais desconfiados pelo caminho. O jogo de cintura não se limita ao trabalho. Apesar da avançada idade, o que não falta em Earl é vitalidade, em vários momentos ele surge dançando com mulheres, e até indo para cama com algumas garotas de programa. A história se desenrola com Earl avançando em sua rotina de trabalho enquanto, paralelamente, a polícia tenta chegar até o cartel.
Quando sua ex-esposa adoece gravemente, Tata se vê com uma decisão muito difícil de tomar. Continuar seu trabalho e entregar a carga no tempo determinado, ou largar tudo e ir visitar a enferma? Assim, pela primeira vez em sua vida, ele resolve priorizar a família, mesmo sabendo que essa decisão poderia lhe custar a vida. Nesse momento, sua filha resolve dar uma nova chance ao pai e busca se reaproximar. Earl demonstra estar finalmente consciente de todo o descaso que teve com sua família e arrependido de suas atitudes.
Ao voltar ao trabalho após o falecimento da ex-mulher, ele é ameaçado de morte pelos membros do cartel, devido ao seu atraso na missão. Neste momento, inclusive, a polícia consegue interceptar uma ligação que trata dessa ameaça, e a partir daí entra no encalço da “mula”. Algum tempo depois, conseguem encontra-lo na estrada e prendê-lo. No julgamento, Earl se declara culpado, recebendo uma pena de alguns anos de cadeia.
Embora a história que sirva de inspiração ao roteiro possibilite uma excelente narrativa, não é isso que se vê em A mula. O enredo é muito simples e explora mal a maioria das situações. Desde o convite que Earl recebe para o novo trabalho, até as “batidas policiais”, muitas pontas ficam soltas e sem uma construção lógica e adequada, como se surgissem ao acaso. O lado positivo fica com a importante mensagem de se valorizar e aproveitar a família, acima de tudo, inclusive do trabalho. Além disso, o filme conta com um elenco excelente, embora subaproveitado.
Também não se pode deixar de dizer que ver Clint Eastwood dirigindo e atuando aos seus 88 anos e em alto nível, é revigorante. Para quem admira seu trabalho e acompanha suas últimas atuações, A mula tem boas semelhanças com um de seus último filmes, Gran Torino, mas fica alguns degraus abaixo. Por fim, desde que a expectativa não seja elevada, é possível encarar The Mule como um bom passatempo de domingo e com uma bonita mensagem a ser transmitida.
Poder além da vida é um filme estadunidense de 2006, cujo título original é Peaceful Warrior, e baseado no livro de Dan Millman, Way of Peaceful Warrior. Apresenta uma ficção que se baseia na história real de Dan, e propõe uma reflexão filosófica, apelando a momentos de surrealismo para descrever a relação do protagonista com seu eu interior, representado por um homem de cabelos brancos e com aparentes superpoderes. O filme foi mais bem avaliado pelos populares do que pela crítica especializada, mas é sempre lembrado como um dos principais filmes que tratam da questão da autorreflexão e de histórias de superação. Após esta breve introdução, vamos à história do filme de forma resumida.
Dan é um ginasta que está prestes a se classificar às Olimpíadas, representando os Estados Unidos. Ele possui tudo que um jovem de sua idade poderia querer, beleza, dinheiro, mulheres, e sucesso na profissão. No entanto, um belo dia ele se esbarra com Sócrates, um senhor de cabelos brancos que deixa Dan intrigado por seu comportamento estranho. Ele passa a manter contato com Sócrates e receber diversos questionamentos do mesmo, causando algumas reflexões que Dan nunca havia feito, como por exemplo, se ele era realmente feliz com sua vida. De início, Dan se sentiu bastante incomodado com esses questionamentos mas acabou aceitando ser treinado por Sócrates para conseguir se aprimorar visando sua classificação olímpica.
Os métodos de treinamento de Sócrates não eram nada ortodoxos e visavam tocar à mente de Dan, não o seu corpo, de forma que este se conscientizasse de que deveria sentir o momento, esvaziar a cabeça de pensamentos e preocupações, viver o presente. Várias foram as lições passadas a Dan, que foi amadurecendo sobremaneira ao longo desse tempo, até que, em um momento de deslize, Dan sofreu um acidente de moto e teve uma fratura na perna. Com esta fratura, os médicos e seu treinador profissional decidiram que ele não teria condições para continuar no esporte, e seu sonho das Olimpíadas seria frustrado.
Nesse tempo de recuperação do acidente, Dan resolveu retomar o contato com Sócrates, que não via desde o acidente. Sócrates o ensinou uma nova lição, de que não deveria desistir do esporte, uma vez que o esporte era seu grande amor; a limitação física não seria um problema, pois ele deveria treinar por prazer, por amor, não por uma medalha de ouro ou qualquer outro reconhecimento externo. Assim, Dan voltou a treinar e após um tempo conseguiu recuperar seu bom desempenho, o que o levou a reaparecer no centro de treinamento e mostrar ao seu treinador e equipe que tinha totais condições de continuar no esporte, mesmo após ter sido descartado. Neste momento, Dan acaba descobrindo que Sócrates não era uma pessoa, era apenas uma projeção de sua própria intuição, que o forçava a criar consciência do que realmente deve ser valorizado na vida e de como deveria encarar os fatos e se portar como pessoa. O filme termina no momento em que Dan está participando da prova classificatória sem revelar o resultado final.
Concluo que o filme retrata uma história inspiradora de auto superação e mostra uma relação que se assemelha a um processo de coaching, entre Dan, que seria o coachee, e Sócrates, que seria o coach. Isso fica claro uma vez que Sócrates em nenhum momento demonstra opinião ou impõe alguma conclusão, apenas orienta Dan de forma que ele mesmo chegue às suas próprias conclusões. É uma espécie de coaching profissional, já que partiu de uma proposta de Sócrates para treinar Dan visando a conquista da classificação à Olimpíada, e pessoal, pois todas as reflexões trazidas remetem a vida de Dan como um todo, e suas ações como pessoa, não se restringindo à sua vida de atleta. Não se sabe se Dan alcança o sucesso da classificação, mas fica evidente o nível de amadurecimento pessoal alcançado, principalmente quando ele passa a tratar as pessoas de forma muito mais verdadeira e valorizar suas amizades, além de reconhecer seus erros se se tornar mais responsável.
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Biutiful
4.0 1,1KIntrodução
Biutiful é um filme do excelente diretor mexicano, Alejandro Gonzales Iñarritu, protagonizado pelo também excelente ator, Javier Bardem. Só por essas informações iniciais, já sabemos que podemos esperar uma obra de alta qualidade. A história se passa numa Barcelona bem diferente da bela e turística cidade que estamos acostumados a ver por aí. É um filme pesado, como de costume do diretor, que busca retratar mais uma vez a realidade do mundo caótico e cruel em que vivemos. Gravado em 2010, teve seu ator principal vencendo o Cannes de melhor ator, e algumas indicações de melhor filme estrangeiro.
"Você acha que cuida das crianças? Não seja ingênuo, Uxbal. O universo cuida delas."
História
Uxbal, vivido por Javier Bardem, tem a guarda de dois filhos pequenos e uma ex-mulher bipolar. Após a separação, vive em um cubículo alugado com as crianças. Para criá-los, Uxbal agencia imigrantes ilegais, como senegaleses e chineses, encontrando trabalho para os mesmos em troca de uma comissão. Além disso, vende seus dons mediúnicos de conversar com mortos, aos familiares em luto. Os senegaleses vendem produtos chineses pirateados e mal fabricados, nas ruas de Barcelona. A todo momento, a polícia faz batidas nos locais de venda, para tentar apreender os imigrantes e seus produtos. Para apaziguar a situação, Uxbal paga subornos frequentes a um policial. Já os chineses, parecem ser ainda mais explorados. Dormem na própria fábrica, praticamente amontoados e trabalham fabricando esses produtos. São explorados por seus próprios compatriotas que deram uma melhor sorte na vida.
Ao se consultar com um médico sobre fortes dores e sangue na urina que vinha sentindo há vários meses, Uxbal descobre um câncer terminal. Restam a ele apenas 2 meses de vida. Convivendo com as dores cada vez maiores e a angústia da morte próxima, Uxbal vai acumulando o máximo de grana para dar algum futuro a seus filhos. Para aumentar a renda, surge a oportunidade de vender o túmulo de seu pai, que havia morrido no México e trazido embalsamado para a Espanha. Ele e seu irmão desenterrariam o pai e o cremariam.
A polícia descobre que alguns senegaleses estão vendendo drogas e faz uma batida grande nas ruas, prendendo muitos deles, inclusive um amigo de Uxbal, Ekweme. Na tentativa de defendê-lo, o mesmo também vai preso pela polícia. Com a fiança paga pelo seu irmão, Uxbal vai buscar seus filhos na casa da ex mulher, que aproveita o momento para tentar se reconciliar. Mesmo vivendo como prostituta, transando com o próprio cunhado, e notavelmente sem qualquer controle sobre seus vícios, ela garante estar melhor dos transtornos que sofre. Naturalmente, o peso de estar em seus últimos dias de vida, faz Uxbal dar uma nova chance a ela, e a família volta a morar junto.
Na dura tarefa de acumular o máximo de dinheiro possível, Uxbal se apropria de parte de um dinheiro que seria usado para comprar aquecedores para os trabalhadores chineses, que passam frio ao dormir, e compra aquecedores velhos a um custo bem abaixo do mercado. O preço dessa atitude, no entanto, se mostra incalculavelmente maior que ele pensava. Na primeira noite com os aquecedores instalados, o gás vaza pelo cômodo trancado e abarrotado de chineses cansados e sofridos. Homens, mulheres e crianças, morrem dormindo. Uxbal fica transtornado com o ocorrido, demonstrando que apesar de contribuir com a exploração dos imigrantes, nutre grande afeto e senso de responsabilidade com os mesmos.
Como se todos esses transtornos subsequentes não fossem suficientes, Uxbal ainda descobre o filho largado sozinho em casa, enquanto a mulher viaja com a outra filha. Ele, então, sai novamente da casa com os filhos e volta a morar no antigo cubículo, que já está ocupado pela mulher de Ekweme, Ige, e seu bebê. Esta assume naturalmente a função de cuidar das crianças e do próprio Uxbal, que está cada vez mais enfermo. No entanto, nos últimos momentos de vida, Uxbal dá seu dinheiro a Ige e pede a ela que continue a cuidar dos mesmos. Ige entra em um conflito interno, pois enxerga sua grande chance de voltar ao Senegal com o dinheiro recebido, ao mesmo tempo em que não quer trair a confiança do amigo nem abandonar as crianças. Ao final, Uxbal morre ao lados dos filhos e reencontra seu pai, ainda mais jovem que ele.
Conclusão
Biutiful é mais um excelente filme, de um dos melhores diretores da atualidade, Alejandro Gonzales Iñarritu. Esta obra poderia ser resumida em uma única palavra: contradição. Contradição do título (biutiful se refere a beautiful, que significa belo) com a história retratada, que não tem nada de belo. Contradição do protagonista em quase todas as suas atitudes, onde atua diretamente na exploração de centenas de vidas desgraçadas, enquanto nutre afeto, respeito e até algum senso de responsabilidade para com os mesmos. A contradição da própria cidade em que é filmado, Barcelona, conhecida por suas belezas e glamour, mostrada da forma mais feia e cruel possível. Por fim, contradição até mesmo na duração do filme, pois o enredo em si, caberia em um espaço bem menor de tempo, o que o caracteriza como muito longo para quem prefere não enxergar a desgraça alheia.
Por sinal, esta última é a principal crítica que fazem a Biutiful, o que deixa claro a má vontade que temos quando nos deparamos com uma obra que detalha a vida na sua forma mais cruel, injusta e miserável. Para que nos alongarmos com a visão negativa do mundo, se o nosso mundo pessoal não é tão ruim assim, não é mesmo? Ora, as 2 horas e 28 minutos do filme são muito bem feitas, nada monótonas, e prendem a atenção do início ao fim a quem quer enxergar uma realidade que raramente se vê em seu mundinho egoísta.
Até Logo, Meu Filho
4.3 30Introdução
Até logo, meu filho é um drama chinês dirigido por Wang Xiaoshuai e protagonizado por dois atores que venceram os respectivos Urso de Prata de melhor ator e melhor atriz, Wang Jingchun e Yong Mei. Os dois formam um casal que teve a história marcada pela morte trágica do filho. O enredo gira em torno desse drama familiar, contextualizando com a China contemporânea e as transformações vividas no país nas últimas décadas.
O tempo parou para nós faz tempo. Agora só estamos esperando envelhecer.
História
O casal Yaojun e Liyun trabalha em uma tradicional fábrica chinesa e vivem em uma modesta casa em Pequim, com seu filho Xingxing. Numa manhã qualquer, são avisados que seu filho havia se afogado na represa da região. Apesar de todos os esforços do pai em carregar o filho em seus braços, correndo até o hospital, o mesmo já chega sem vida. Uma tristeza profunda toma conta do casal, que apesar de quase nunca dialogar, conseguem apenas na expressão facial demonstrar todo o sofrimento que os abateu. Após o ocorrido, o casal resolve mudar de cidade e começar uma nova vida.
A forma como o filme Até logo, meu filho foi dirigido é bem peculiar, pois não existe uma sequência cronológica nas cenas. A todo momento somos jogados para um tempo diferente, seja no futuro ou no passado. De início, fica bem difícil entender o contexto e se situar, mas aos poucos vamos nos acostumando. Até porque, como são mais de 3 horas de filme seria impossível não se adaptar à esse formato.
É desse modo que vamos sendo apresentados a todos os fatos do enredo. Após a morte de Xingxing, entendemos que o casal adotou uma nova criança, mas que com o tempo foi ficando cada vez mais rebelde, a ponto de simplesmente fugir de casa, aumentando ainda mais a tristeza dos pais. Também descobrimos que Yaojun teve um caso com uma colega de trabalho e amiga da família por muitos anos. Esta reaparece um bom tempo depois, para trazer a notícia ao amante de que está grávida do mesmo.
Em mais um salto no tempo, retrocedemos ao momento em que Liyun tem uma segunda gravidez descoberta. Como a lei não permitia ter mais de um filho por casal, ela tentou esconder a situação o maior tempo possível, até que um dia passou mal no trabalho e sua chefe, que também era sua amiga, descobriu. Apesar da amizade, ela foi obrigada a abortar e levada praticamente à força. Esta ferida iria durar muito tempo para se cicatrizar, principalmente em sua amiga.
Um certo dia o filho do casal reaparece, com uma turma de amigos, solicitando a emancipação dos pais. Ao conseguir o que queria, ele some novamente. A parte final do filme é marcada pelo retorno do casal à Pequim, para se despedirem da amiga, causadora do aborto. Encontram uma cidade completamente diferente do que conheciam, embora sua modesta casa tenha ficado exatamente como fora deixada. Esse momento reconecta o casal a todo o ciclo de amizades que possuíam antes da perda do filho, demonstrado que nem mesmo o tempo, nem as marcas do passado, haviam rompido os laços.
O final de Até Logo, meu filho, se dá num momento de rara felicidade de Liyun e Yaojun, quando seu filho, que havia sumido, os liga para informar que está de volta à casa e pretende ficar com eles por um tempo.
[spoiler]
Conclusão
Até Logo, meu filho, é uma obra bem original que traz várias peculiaridades, como os saltos no tempo, a duração longa para uma história simples, os poucos diálogos e as longuíssimas cenas, típicas de uma paciência oriental. O filme aborda vários temas interessantes, como o contexto político da época, a forma de vida da classe média chinesa e sua mudança ao longo do tempo, a rigidez das leis e da política que interferiam direta e profundamente na vida das famílias, as dificuldades de lidar com as dores da vida e superar traumas antigos.
A atuação de Wang Jingchun e Yong Mei também é digna de nota. Impressionante como conseguiram com poucas falas, demonstrar toda a tristeza e angústia necessárias a seus papéis. Para o público ocidental, alguns detalhes de muitas cenas são uma atração à parte, como a comida chinesa e a estrutura modesta das casas, dentre outras.
O Caso Richard Jewell
3.6 253 Assista AgoraIntrodução
O caso Richard Jewell é mais um filme do grande Clint Eastwood baseado em fatos reais. Os fatos estão relacionados ao atentado terrorista ocorrido em Atlanta, durante as Olimpíadas de 1996. Na ocasião, um dos seguranças do evento, Richard Jewell, foi acusado de ser o responsável pelo crime. O enredo do filme gira em torno da figura de Richard e a investigação que se desenrolou após o atentado.
Clint Eastwood dirigindo um filme aos 89 anos é sempre uma grande atração. Outra atração digna de nota é o excelente Sam Rockell, que neste filme faz o papel do amigo e advogado de Richard, Watson Bryant. O papel do protagonista é exercido por Paul Walter Hauser, que possui uma semelhança incrível com o Richard Jewell real, assim como a atriz Kathy Bates, que faz o papel de sua mãe, Bobi.
História
O filme O caso Richard Jewell inicia-se no momento em que Richard se apresenta a quem viria a ser seu advogado, Walter Bryant. Enquanto Richard trabalhava como uma espécie de auxiliar administrativo em uma empesa, Walter era um dos advogados da companhia. O emprego de Richard no local não durou muito, até porque seu grande desejo era se tornar policial, e uma vaga de trabalho como segurança em uma universidade, o chamou a atenção.
Nessa rotina de trabalho de Richard, conseguimos logo entender que ele era um aficcionado pela área de segurança, estudava e sabia muitas coisas envolvendo o tema, agia como um rigoroso discípulo da lei, além de ter essa obstinação em virar policial. Por vezes, seu rigor no trabalho soava exagerado, tanto que no novo emprego na universidade colecionava reclamações dos alunos por sua forma de agir. Assim, a experiência lá também acabou não durando muito tempo.
Seu próximo emprego foi como segurança em alguns eventos das Olimpíadas. Um dos eventos era o show das bandas Jack Mack e Heart Attack. Durante o show, Richard notou um mochila deixada embaixo de um banco. Seguindo sua postura meticulosa e profissional, o mesmo reportou a mochila aos policiais do evento, que não deram muita atenção ao fato, mas seguiram o protocolo por insistência do colega. Um especialista em bombas logo constatou que realmente se tratava de uma bomba, e assim, os seguranças e policiais começaram a evacuar a área, que acabou não sendo ágil o suficiente para evitar o pior. A bomba explodiu, feriu centenas de pessoas e matou outras duas.
Richard saiu do trágico acidente como um herói. Apontado como aquele que havia identificado a bomba, recebeu assédio de vários jornalistas, e até de uma editora de livros. Sua mãe nunca havia se sentido tão orgulhosa do filho. Alguns dias depois, porém, o FBI definiu Richard como o principal suspeito do atentado. O que começou como uma noite épica na vida de Richard e sua mãe, rapidamente se transformou em um inferno.
Ao ser chamado pelo FBI a prestar um depoimento, ele se viu obrigado a procurar um advogado. O único que conhecia era justamente Walter Bryant. Este havia deixado a empresa anterior e montado um escritório próprio, que parecia viver à míngua. A ligação de Richard soou à Walter e sua secretária como uma grande oportunidade de recomeçar sua carreira.
Escolhi você porquê foi o único na “Administração de Pequenas Empresas” que não me tratou como uma criança e me chamou de “saco de petiscos”, “balão”, “boneco Michelin” e “Mascote da Pillsbury”. Você foi o único que me tratou como ser humano!
Enquanto vive um inferno astral, Jewell cria um laço cada vez mais forte com seu advogado. A investigação sobre Richard avança mesmo sem qualquer prova de envolvimento, e o mesmo sempre se apresenta solícito aos policiais. Aos poucos porém, Walter tenta mostrar a seu cliente e amigo o tanto que está sendo injustiçado por uma instituição que ele tanto prezava.
Quando ele finalmente enxerga a realidade, eles iniciam um contragolpe à investigação. O advogado convoca uma coletiva de imprensa para que a mãe de Jewell faça um apelo dramático às autoridades. O próprio Richard confronta os policiais cobrando provas concretas sobre seu envolvimento. Após essas ações, em pouco tempo a investigação é desfeita, e Richard não é mais tratado como suspeito. O filme se encerra anos depois, com Richard finalmente conseguindo trabalhar como policial. Durante um dia qualquer de trabalho, seu amigo e advogado aparece para lhe dar uma grande notícia: encontraram o terrorista, Eric Rudolph.
Conclusão
O caso Richard Jewell trata-se de um bom filme, com ótimas atuações e uma história que vale a pena ser lembrada. A forma como o FBI tratou as investigações e especialmente o investigado, beira a estereotipação e o preconceito. Para a polícia, um ex-policial obeso, solteiro, que vivia com a mãe e colecionava armas, se assemelhava ao perfil de um terrorista. Afinal, foi basicamente essa a única explicação para investigar Richard. Pelo menos, é o que se retrata no filme. Como um autêntico “baseado em fatos reais” sabemos que muitos detalhes podem não ser verdadeiros.
Este último ponto, inclusive, é o que pega mal na obra de Eastwood. Ao retratar a jornalista (Kathy Scruggs) que divulgou o início da investigação sobre Richard como uma profissional de métodos não muito éticos (como usar de favores sexuais para obter informações privilegiadas), o filme entrou em uma polêmica desnecessária. O jornal em que a mesma trabalhava veio a público desmentir essa conduta e criticar o diretor, alegando não haver qualquer indício de veracidade nessa questão, nem no próprio livro sobre Richard Jewell. Polêmicas à parte, O caso Richard Jewell é um filme que vale a pena ser visto.
Partículas Elementares
3.5 38Filme alemão lançado em 2006, Partículas Elementares baseia-se em um romance homônimo escrito por Michel Houellebecq e publicado em 1998. O ator principal, Moritz Bleibtreu, conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Berlim de 2006. Traz uma história pouco comum, com pitadas de comédia e drama, repleto de sexualidade e um certo tom intelectual em seus diálogos.
Michael e Bruno são irmãos de mesma mãe mas pais diferentes. A mãe os deixou logo cedo para viver a onde hippie. Este abandono contribuiu significativamente para uma vida problemática dos dois, especialmente no quesito sexualidade. Michael tornou-se um cientista de respeito, mas praticamente um assexuado. Nunca se relacionou com mulheres e parece não sentir essa necessidade. Bruno tornou-se professor, e de forma antagônica ao seu irmão, enxerga sexo em todos os momentos e com todas as mulheres. Inclua-se aí, alunas, colegas de trabalho, desconhecidas, e até a própria mãe?! Embora tenha certa compulsão pelo sexo, não obtém muito êxito em suas tentativas.
Quando Michael é informado pelo cemitério onde sua avó está enterrada de que terão de remover seu túmulo para um outro local, surge a oportunidade de se reconectar ao seu passado. Passado este que ficou marcado pela amizade com uma das únicas mulheres de sua vida, Annabelle. Uma espécie de paixão platônica que ele continua a carregar consigo. Um reencontro entre os dois cria uma reaproximação intensa, que os leva a se relacionarem. E assim, Michael perde sua virgindade, finalmente.
Paralelamente, Bruno vive uma série de frustrações sexuais e amorosas. Isto o leva a um adoecimento psicológico e a procura por uma ajuda profissional. Em uma sessão de terapia, Bruno conta toda a sua história e deixa-nos claro, então, a dramaticidade de sua existência e o sofrimento pelo qual passou durante toda a sua vida, refletindo nos dias atuais. Esta história contribui também para entendermos o comportamento do próprio irmão. Como forma de tentar se recuperar do quadro de adoecimento em que se encontra, Bruno busca se reconectar com o pai, ocasião que acaba servindo apenas para demonstrar o quanto o pai era mais uma pessoa despreparada em sua vida.
Quando a mãe dos dois morre, Bruno resolve acampar em um acampamento hippie, talvez como uma forma de tentar entender a vida que a mãe havia levado. Neste acampamento, ele conhece um tipo de mulher que sempre desejou, Christianne, uma libertária sexual que o introduz ao mundo do swing. Logo depois, descobre-se que a mesma possuía uma doença crônica e grave, que a leva a paralisia mais à frente. Na cena mais marcante do filme, Christianne comete suicídio na sacada de seu próprio apartamento. Este acontecimento torna-se mais um na longa fila de momentos dolorosos da vida de Bruno. Ele acaba adoecendo novamente e voltando para a clínica psiquiátrica.
A grande mensagem que o filme Partículas Elementares tenta passar é de quanto a criação dos filhos é delicada, e como isto pode impactar drasticamente na vida adulta de uma pessoa. No caso específico do filme, dois irmão criados ou abandonados pela mesma mãe, tornaram-se pessoas problemáticas, especialmente no quesito sexualidade, embora com características totalmente opostas. A personagem de Christianne também demonstra que a liberdade sexual extrema pode estar atrelada a uma tentativa de fuga da realidade, ou de amenizar uma dor ou trauma, que no caso é uma doença crônica e severa.
A leitura do livro que deu origem ao filme com certeza poderia trazer inúmeros complementos a esta análise. É muito provável que temas tão ou mais importantes sejam retratados na obra, enquanto que no filme se resumem a uma cena rápida e pouco explorada. Citando duas como exemplo, a atração de Bruno pela mãe pode ser uma reflexão provocada sobre o complexo de Édipo. O fato de Michael ser “assexuado” por tanto tempo e estudar sobre reprodução assexuada, daria uma bela discussão filosófica também, mas é, novamente, muito pouco explorado. Enquanto a vida de Bruno é apresentada durante sua terapia, a de Michael é tratada com pouquíssimos detalhes.
Acredito que se tivesse lido o livro, reconheceria Partículas Elementares como mais um dos inúmeros filmes que derivam de um livro, e não conseguem representar com tanto primor a obra original. Isto porque, por si só, o filme já deixa muitas lacunas em seu enredo. De qualquer forma, é uma obra autêntica, mais profunda do que aparenta, dotada de uma complexidade que exige que se assista mais vezes.
Os Últimos Rebeldes
3.9 54O filme Os Últimos Rebeldes retrata a história de um dos vários movimentos de resistência nazista na Alemanha. A SwingJugend ou Juventude do Swing, foi um movimento juvenil formado por jovens de classe média, que adoravam “música degenerada” como jazz, swing e blues. Este tipo de música era tido pelos nazistas como inapropriada e portanto, aqueles que a apreciavam recebiam certo tipo de censura. A onda do swing foi tão relevante, que levou o Partido Nazista a perseguir esses jovens, fechar os locais em que eles se encontravam, e até enviar alguns desses jovens para campos de concentração. O filme conta com um elenco jovem de primeira, destaque para Christian Bale, Robert Sean Leonard e Frank Whaley.
A história de Os Últimos Rebeldes é focada em um grupo de 3 amigos, Peter, Arvid e Thomas, que estudam juntos e se reúnem para tocar e ouvir músicas e frequentar os bailes de swing. Vez ou outra, enfrentam grupos de nazistas que assediam as minorias. A amizade entre os 3 parece bem forte,
até que em um desses atos de rebeldia, contra um oficial da Gestapo, Peter acaba sendo detido e forçado a entrar para a JH (Juventude Hitlerista), uma espécie de escola nazista para treinar e doutrinar crianças e jovens. Para não deixar o amigo sozinho nessa situação, Thomas também entra para a instituição. Esta situação causa revolta em Arvid, que enxerga o ocorrido como traição ao movimento. Para piorar a relação entre os 3, Arvid acaba sendo atacado pela Gestapo, por posse de um disco de um dos artistas “degenerados”. Neste ataque, ele fica com alguns dedos quebrados e uma rebeldia ainda mais exaltada.
Enquanto Thomas e Peter vão se formando na escola nazista, o cerco vai se fechando cada vez mais aos bailes de swing e aos “inimigos” do Partido. Após uma discussão com nazistas, Arvid, cada vez mais tomado pela rebeldia, sentimento de traição e descontentamento com as pessoas que o cercavam, comete suicídio. Thomas começa a apresentar um comportamento cada vez mais “doutrinado”, a ponto de denunciar o próprio pai à Gestapo, que acaba sendo preso. O dono da livraria para qual Peter trabalha fazendo entregas, começa a ser investigado pela polícia nazista, que o pressiona para abandonar o emprego. Peter descobre que o mesmo atua com falsificação de documentos para os judeus, o que o leva a um conflito ético: as pessoas de bem estão sendo usadas pelos judeus para prestarem algum tipo de favor, ou realmente estão do lado deles por vontade própria? Afinal, seu pai havia sido assassinado por estar do lado dos judeus, embora não fosse um, levando sua família à dificuldades financeiras.
Após receber uma tarefa revoltante dos nazistas, Peter resolver voltar a um dos bailes de swing que ainda resistiam. Durante o evento, a Gestapo aparece para fechar o estabelecimento e perseguir os participantes. Dentre os oficiais nazistas, está Thomas. Os dois se enfrentam violentamente até perceberem o nível de inimizade em que chegaram. O filme encerra com Peter sendo detido e aparentemente, levado a um campo de concentração. Do outro lado, Thomas demonstra que, apesar de acomodado com a situação a qual se submeteu, ainda sente algum resquício de rebeldia “Swing Kid”.
Os Últimos Rebeldes possui um roteiro envolvente e apresenta uma história de resistência nazista ainda pouco conhecida. O ponto alto do filme, além das atuações dos bons e jovens Christian Bale e Robert Leonard, é a oposição dos pontos de vista dos nazistas, das minorias perseguidas e daqueles que, embora não concordem com o status quo, não se vêem em condições de fazer qualquer enfrentamento, por isso aderem ao caminho mais fácil.
Esta história de Os Últimos Rebeldes nos mostra o quanto era difícil manter um posicionamento autêntico, pensar e agir diferente da maioria, naqueles tempos sombrios. Muitos que compactuaram com o nazismo, o fizeram por não verem outra possibilidade ou alternativa, não necessariamente por concordar ou se identificar com a ideologia. Já aqueles que não abriram mão de suas convicções e enfrentaram a situação, sofreram as graves consequências. Além disso, não precisamos ir tão longe no tempo para perceber que, em situações de polarização e radicalismos, vizinhos viram espiões, amigos viram inimigos e famílias se auto sabotam, em questão de dias.
Devorar
3.7 398 Assista AgoraSwallow pode ser traduzido como “engolir” e este título se encaixa perfeitamente ao filme. Incompreensivelmente, o título oficial no Brasil é “Devorar”. Contudo, se fosse necessário reduzir toda a história a uma única palavra, seria exatamente essa, engolir. Hunter, muito bem interpretada por Haley Bennett, é uma jovem mulher, casada com Richie, interpretado por Austin Stowell. Richie não é rico apenas no nome, sua família é abastada e ele é um fiel herdeiro do legado do pai. Seu tempo é precioso, afinal, dirige uma grande corporação, e a atenção que o mesmo pode dar à esposa, é a mínima possível. Esta, por sua vez, vive dedicada ao lar, e aparenta desde sempre um ar misterioso, melancólico e tenso.
Em Swallow, Hunter e Richie formam um casal feliz e que se ama, aparentemente. Ao desenrolar a história, logo percebemos que a esposa se doa completamente ao marido, e recebe em troca todo o luxo e conforto que o dinheiro pode oferecer. O que ela mais sente falta, no entanto, é a atenção do marido, que está sempre ocupado ou disperso com suas outras responsabilidades. A família do marido claramente enxerga Hunter como uma figura decorativa, útil para cumprir seu papel de esposa e nada mais. Quando a mesma descobre que está grávida, seu papel ganha uma maior relevância, deve ser uma ótima esposa e uma ótima mãe.
Em paralelo a notícia da gravidez, Hunter passa a apresentar um comportamento estranho, o de engolir alguns objetos pequenos. Após o organismo expeli-los, ela ainda os guarda, nutrindo uma certa admiração, como se fossem algum troféu. Esse comportamento acaba se tornando uma verdadeira compulsão. De objetos pequenos ela passa a engolir objetos maiores, inclusive pontiagudos. Em uma dessas situações, ela se sente muito mal e é levada ao hospital, onde são retirados inúmeros objetos de seu corpo, para o desespero de seu marido e família. Enlouquecidos com a situação, Richie e seus pais decidem contratar uma psicóloga para tratar da esposa. Como se não bastasse, uma espécie de guarda costas, Luay, também é contratado, para literalmente vigiar Hunter diariamente.
As consultas com a psicóloga não dão nenhum resultado de início. Hunter se mostra bem resolvida, afirma que nunca houve nenhum problema relevante em sua criação que poderia ter desencadeado algum tipo de transtorno, e que ela está super bem. No entanto, a realidade se mostra diferente. Em casa, ela luta para vencer a compulsão, e nas poucas vezes que consegue se livrar de Luay, engole algum objeto.
Com o tempo, porém, a psicóloga começa a conquistar Hunter e alguns detalhes sobre seu distúrbio e sobre sua história, passam a ser revelados. Ela explica que engolir objetos a faz se sentir no controle da situação. Em uma outra consulta, ela conta que seu nascimento foi originado de um estupro, e que sua mãe não a abortou porque a família era muito religiosa e naturalmente contra o aborto. Apesar de carregar uma foto do estuprador consigo, ela garante à psicóloga que superou esse trauma.
Ao ouvir uma conversa de seu marido ao telefone, Hunter descobre que a psicóloga foi contratada para passar as informações de sua terapia a ele. Esta descoberta a leva a mais um surto, onde acaba engolindo um objeto pontiagudo. Logo após engolí-lo, ela passa muito mal e é levada às pressas a um hospital para nova cirurgia. A família de seu marido então, a obriga a se internar em uma clínica de reabilitação por 7 meses. Do contrário, Richie pediria o divórcio. Com a ajuda de Luay, que sentia compaixão pelo que ela estava passando, Hunter consegue fugir de casa antes mesmo de ser encaminhada à clínica.
Na fuga, Hunter tenta contato com sua mãe para pedir abrigo. O que ouve dela, no entanto, é que a casa está cheia e não teria espaço para ela. Seu próximo passo é tentar encontrar seu pai biológico. Ao encontrá-lo, ela o confronta, questionando o motivo dele ter feito o que fez e se sentia vergonha dela. O que ela ouve parece a fazer bem. O filme termina com Hunter realizando o aborto de seu filho e aparentando uma satisfação pessoal até então inédita.
Swallow é um filme que todo amante da psicologia deveria assistir. A forma como Hunter lidou com sua história de vida é chocante e faz todo o sentido. A compulsão em engolir objetos foi uma forma muito interessante de se explicar tudo o que a personagem sentia. O relacionamento com a mãe, com o marido e com a família do marido, são marcados por uma submissão completa. Literalmente, é como se Hunter engolisse toda a mágoa que as pessoas causavam a ela, como o único remédio para seguir em frente.
O seu sentimento de insignificância pela forma como surgiu ao mundo, é reforçado por ela sentir prazer em engolir objetos que causam mal a ela. É como se ela buscasse se ferir por não ser merecedora de uma vida digna. É possível ir mais além. O ato de engolir algo tão difícil e doloroso funciona como uma conquista, um momento raro de orgulho, que traz uma sensação também incomum de poder e de controle para uma pessoa de baixíssima auto estima. Tanto que os objetos, após expelidos, são guardados como troféus. Sensação de poder essa, que também foi experimentada pelo próprio pai, quando explica o que sentiu ao ter realizado o estupro.
Outras reflexões que ficam são, quantas mulheres não se sentem tão submissas ao casamento quanto Hunter, cada uma à sua maneira e com seus próprios distúrbios? Isto explicaria a cena final, focada em mulheres que entram e saem de um banheiro feminino onde um feto acabou de ser abortado? Porque será que Hunter só encontrou compaixão em uma mulher negra e em um imigrante sírio? Seriam estas, peças colocadas ao acaso ou outros grandes méritos do enredo?
Também não se pode deixar de citar em Swallow, a competência da direção em criar um ambiente tão tenso e melancólico como deveria ser, através de uma excelente fotografia e direção de arte, como um todo.
As Ondas
3.9 185Waves é um drama estadunidense lançado em 2019 que busca retratar a realidade de uma família negra americana, de classe média alta, aparentemente bem estruturada mas que, como qualquer família da vida real, precisa enfrentar vários momentos difíceis. O desafio do roteiro e da direção é tornar esse enredo, aparentemente comum, em uma história marcante e bem detalhada, a ponto de fazer o espectador se identificar com a mesma em vários momentos e tirar reflexões importantes. Para nossa sorte, diga-se de passagem, conseguem fazê-lo com maestria.
O patriarca, Ronald Williams, tem dois filhos, Tyler e Emily, cuja mãe biológica faleceu quando os dois eram bem novos, cabendo à madrasta Catherine, o papel de mãe, que cumpre muito bem. Ronald é um pai muito exigente em relação ao filho Tyler, cobrando dele disciplina na vida de atleta de wrestling e nos estudos, pois acredita que para um negro vencer na vida deve se esforçar em dobro.
Devido a alta carga de treinamento e dedicação ao wrestling, Tyler acaba desenvolvendo uma lesão séria no ombro, o que teoricamente o impediria de voltar a luta pro resto da vida, e em sua cabeça, arruinaria seu futuro e sua reputação perante seu pai. Até por isso, tenta esconder de todos o diagnóstico dado pelo médico. Em uma de suas lutas, porém, ele sai contundido e a verdade vem à tona, para revolta de Ronald.
Paralelamente, sua namorada, Alexis, acaba engravidando e os dois decidem realizar o aborto, mantendo o fato em segredo. Ao chegar na clínica, porém, ela desiste da ideia, o que revolta o namorado. Os dois discutem no carro e inicia-se aí, um rompimento brusco do relacionamento entre eles.
Através das redes sociais Tyler passa a acompanhar a vida da ex namorada, demonstrando não ter superado o rompimento e um certo arrependimento por suas atitudes. Esse momento difícil na vida do rapaz o leva à um comportamento cada vez mais desregrado, tendo as drogas como seu refúgio. Os pais dele parecem não saber do drama que o filho enfrenta até que um acontecimento extremo chega para abalar duramente a vida de toda a família.
Na festa de formatura da ex namorada, Tyler, alcoolizado, surge de forma inesperada, após ofender brutalmente sua mãe a agredir seu pai para conseguir sair de casa. Ao ver sua ex com um suposto affair, ele se revolta e passa a segui-la na festa, até encontrar um momento mais oportuno para tirar alguma satisfação. Na discussão, Tyler acaba revidando um tapa recebido no rosto com um soco desproporcional, causando traumatismo craniano em Alexis, que vem a falecer algumas horas depois. Ele tenta fugir mas pouco tempo depois é preso pela polícia e condenado a prisão.
Neste momento o filme entra em uma espécie de segunda fase, onde a irmã de Tyler, Emily, torna-se a protagonista. Sentindo intensamente a desgraça ocorrida na vida do irmão e o abalo gerado na família, Emily se isola do mundo e assume um comportamento introspectivo. Para piorar, o relacionamento de seus pais se desgasta ao extremo, com sua mãe culpando Ronald pelo que aconteceu com o filho.
Com a chegada de um namorado, porém, Emily entra em uma nova fase da vida e parece se reerguer. Uma conversa franca com seu pai, ajuda-a a tirar a culpa que a mesma sentia por não ter impedido seu irmão de fazer o que fez. As novas experiências proporcionadas pelo namoro, dão um novo sentido à vida de Emily.
O elenco tem apenas Sterling K. Brown (Ronald Williams) como ator mais renomado, mas de forma geral todos cumprem bem seu papel, com destaque para o próprio Sterling e Taylor Russel (Emily). A trilha sonora também merece elogios, pois as músicas foram perfeitamente encaixadas pelo diretor, contribuindo muito para a ambientação e desenrolar das cenas. Algo raro de se ver por aí.
Analisando friamente, é possível perceber um certo exagero no roteiro de Waves, especificamente na morte acidental e na condenação de Tyler. Nada que atrapalhe a qualidade da obra. Waves é um filme que consegue aproveitar um drama familiar para criar uma história comovente, com diálogos fortes, cenas muito bem feitas e um enredo muito bem desenvolvido.
O Show de Truman
4.2 2,7K Assista AgoraUm dos filmes mais atemporais da história do cinema, o Show de Truman flerta com várias questões sociais importantes ao mesmo tempo: flerta com a filosofia e, em especial, com o Mito da Caverna; com George Orwell e seu clássico 1984; flerta com os reality shows que surgiram pouco depois; flerta ainda, com a sociedade contemporânea, de forma geral.
Mas não é apenas o moral da história que se destaca nesta obra. O diretor Peter Weir mostra que seu grande trabalho em Sociedade dos Poetas Mortos não foi um acaso. Outro grande destaque trata-se do ator principal, Jim Carrey, que prova que seu talento vai muito além dos seus improvisos e atuações engraçadas nos filmes de comédia.
Truman Burbank é uma pessoa comum à primeira vista. Casado, vendedor de seguros, leva uma vida rotineira mas feliz, onde trata e é tratado por todos com muito respeito e educação. Seria um verdadeiro pacato cidadão gente boa, não fosse pelo fato de, na realidade, tratar-se de um astro de um programa de TV (Show de Truman). Truman foi vendido a uma empresa de entretenimento, que criou um programa televisivo para transmitir a vida de uma pessoa comum, com o objetivo de “inspirar e alegrar” os telespectadores, nas palavras de seu criador, Christof, interpretado por Ed Harris. Embora esta situação ocorra desde seu nascimento, ele não faz ideia da realidade.
O programa de TV transmite a vida do astro 24 horas por dia, e é um enorme sucesso de audiência. Todas as pessoas que surgem na vida dele são figurinistas ou coadjuvantes da obra. O merchandising ocorre a todo o momento, e todas as decisões, circunstâncias e caminhos tomados durante sua vida, como amizades e casamento, foram devidamente arquitetados pela direção do programa. O mais chocante de todos é a morte forjada do pai, que serviu para criar em Truman um forte trauma do mar, e assim impossibilitá-lo de sair da ilha que habita. Ilha esta, criada artificialmente para ambientar o espetáculo.
Como nada é perfeito, algumas falhas da produção ocorrem vez ou outra: um refletor que cai do céu, a chuva que só cai em cima dele, intrusos que burlam a segurança para tentar avisar Truman sobre o que se passa. Nada disso, no entanto, havia sido suficiente para desaliená-lo, até o momento em que seu próprio pai aparece e tenta falar com ele, mas logo é afastado por uma série de ocorrências arquitetadas que o levam pra longe. A partir desse momento, Truman começa a repensar sua vida e, ao lembrar de uma menina que conheceu na faculdade, mas que inexplicavelmente nunca pôde se aproximar, decide sair da cidade para explorar novos lugares e fugir da tediante rotina.
Ao iniciar esse movimento de mudar de vida, Truman começa a se deparar com muitas dificuldades sendo-lhe impostas para impedir o alcance desse objetivo, e passa a criar uma visão questionadora de tudo. Juntando-se a isso novos erros de produção que surgem, Truman vai se aproximando cada vez mais da verdade e a lutar contra suas próprias limitações. Quando ele finalmente entende que está sendo controlado por todos de alguma forma, consegue planejar uma fuga sem que ninguém perceba, mesmo que para isso tenha que encarar o trauma do mar. Nesta fuga em pleno “oceano”, a produção do programa apela para recursos bruscos, como o aumento do vento e nível das ondas, que quase matam o astro ao vivo.
Quando Truman consegue superar todas as adversidades artificiais, ele chega ao limite do cenário, e percebe que durante toda a sua vida esteve fechado naquele espaço. Neste momento o criador do Show de Truman surge no alto falante e explica a ele tudo o que aconteceu e o tenta convencer a se manter no espetáculo. No entanto, para o deleite de toda a audiência, ele resolve escapar e fugir daquela prisão.
O Show de Truman traz uma mensagem muito ligada à alienação e ao comodismo. Nos faz refletir sobre como a nossa rotina, por mais entendiante que possa ser, nos faz cair numa zona de conforto onde nem conseguimos enxergar possibilidade de saída. Retirando nossa ambição, capacidade de questionamento e resistência a uma vida de aparências. Esta obra é um retrato muito nítido da nossa sociedade atual, repleta de alienação, consumismo, entretenimento vazio, necessitada de aparências e aprovação social, pouco crítica e questionadora.
Magistralmente, essa pesada reflexão é tratada, por vezes, de forma cômica, e nos leva a dar algumas boas risadas, entre um choque de realidade e outro. Além disso, teve a proeza de antecipar a onda de reality shows que surgiu pouco tempo depois, como uma das mais bem sucedidas vertentes do entretenimento adulto. As próprias redes sociais tornaram-se, indiretamente, uma espécie de reality show, onde o tempo todo estamos acompanhando a vida das pessoas, quase que em tempo real. Por fim, também é interessante notar que qualquer semelhança da história de O Show de Truman com os influencers digitais de hoje, não é uma mera coincidência.
O Homem Elefante
4.4 1,0KO Homem Elefante é um filme de David Linch, baseado na história real de Joseph Merrick (retratado como John Merrick), um homem desfigurado fisicamente, mas cuja beleza interna o tornou encantador até aos mais assustados olhos. O filme foi lançado em 1980 e recebeu inúmeras indicações ao Oscar, além de vencer outros vários prêmios, como o BAFTA de Melhor Filme, em 1981. Além do renomado diretor, conta com um elenco recheado de grandes nomes da época, como Anthony Hopkins, John Hurt, John Gielgud e Anne Bancroft.
A história se inicia com a mãe de Merrick sendo atacada por elefantes, fato que supostamente explicaria a má formação do filho. Na sequência, a obra avança para um Merrick já crescido e sendo atração em um “freak show” ou “show de horrores” nos arredores de Londres.
Em uma dessas apresentações, o médico Frederick Treves, interpretado por Anthony Hopkins, surge interessado em conhecer mais à fundo a “aberração”. Para tanto, ele apresenta-se à Barry, o homem de certa forma responsável por John e explorador da sua deficiência. Tendo o mesmo como uma fonte de renda, Barry mostra-se desde o início um aproveitador nato, e enxerga o interesse do médico como oportunidade de ganhar uma renda extra, apresentando mais intimamente a sua “atração” a ele.
Após ver o rapaz pela primeira vez, Treves reage com uma mescla de espanto e admiração, entendendo estar à frente de algo inédito para ele e para a ciência médica, como um todo. Assim, pede a Barry que leve-o até o hospital no dia seguinte, para poder examiná-lo. Barry assim o faz, mas a visita acaba durando mais tempo que o previsto, o que o deixa enfurecido e o leva a espancar Merrick quando este finalmente reaparece. A surra deixa Merrick mal de saúde e torna-se um pretexto para que o médico o leve novamente ao hospital, para tratá-lo por uns dias. A partir daí, inicia-se uma relação de médico e paciente entre os dois, que posteriormente evolui para amizade.
Os primeiros contatos entre Treves e Merrick são difíceis, pois o primeiro não tem qualquer informação sobre seu paciente, que dá a entender não saber falar, além de ter algum tipo de deficiência intelectual. Com o passar do tempo, porém, Merrick vai sentindo confiança e demonstrando que não só sabe falar, como é dotado de muita inteligência. Com o apoio da direção do Hospital, o doutor Treves consegue livrar Merrick de seu explorador, criando um lar para ele no próprio hospital.
A notícia do “homem elefante” começa a se espalhar por toda a cidade, e pessoas da alta classe concorrem para conhecer o astro improvável. Merrick se mostra uma pessoa doce, gentil, inteligente e digna de todo o respeito. Em nenhum momento a dor, o preconceito, e as deformidades físicas são tratadas por ele como motivo para se vitimizar ou culpar o mundo. Pelo contrário, sua postura de grandeza como ser humano o faz conquistar até a mais alta sociedade britânica, incluindo a Princesa de Gales e estrelas do teatro.
Como nem tudo são flores, os holofotes também trazem novos aproveitadores. Um dos funcionários do hospital passa a levar, em segredo, curiosos para conhecer a “atração”, em troca de alguns bons trocados. Em uma dessas visitas, Merrick acaba sendo raptado pelo seu eterno carrasco, Barry. Este o leva até a França, para recomeçar sua carreira no freak show. Felizmente, após algum tempo, com a ajuda de colegas do meio, o homem elefante consegue escapar e voltar até Londres. Na volta, ele recebe um grande assédio de curiosos que, espantados com a “aberração” quase o lincham em praça pública. Por sorte, a situação acaba chamando a atenção da polícia, que o leva ao reencontro de seu médico e amigo.
Voltando à vida digna de antes, Merrick se sente novamente bem e feliz. A felicidade, no entanto, faz com que ele resolva experimentar, pela primeira vez, a sensação de deitar-se em uma cama, como uma pessoa normal e realizada. Devido ao risco causado por suas deformidades, ele nunca pôde se dar ao luxo dessa experiência, de forma que dormia sempre sentado. Contudo, em plena consciência, Merrick retira os inúmeros travesseiros que apoiam sua coluna na cama, e deita-se, finalmente, para a morte.
Esta excelente produção merecia muito mais prêmios que os efetivamente conquistados. Algumas curiosidades reforçam a alta qualidade em reproduzir tão bela história: a maquiagem do homem elefante levava cerca de 8 horas para ser concluída e ficou extremamente semelhante ao caso real, tomando por base as fotos da época; essa mesma maquiagem levava cerca de 12 horas para ser completamente removida do ator John Hurt. Ator este que merece todas as honrarias pela dificílima e tão bem executada interpretação, valendo-lhe o BAFTA de melhor ator em 1981.
O Homem Elefante trata-se de uma história incrivelmente triste, mas que consegue retratar a beleza na sua mais assustadora forma. Uma história que expõe a fragilidade do ser humano, a intolerância e preconceito da sociedade e o conflito ético mesmo quando se faz o bem (Dr. Treves por vezes se vê como um explorador de Merrick, tal qual seu carrasco Barry, por tê-lo exposto ao mundo na tentativa de ampará-lo). Por fim, nos mostra que não culpar o mundo por nossas próprias mazelas e rejeitar o vitimismo, pode tornar digno, o mais aparente indigno dos homens.
Kanal
4.1 18 Assista AgoraKanal é um filme polonês que retrata a resistência polonesa aos nazistas, no Gueto de Varsóvia. Conhecido como Levante de Varsóvia, esse ato de resistência dos habitantes da capital polonesa contra a ocupação nazista ocorreu em 1944, e contou com a coragem e bravura daqueles que preferiram morrer lutando, a sucumbir aos campos de concentração e suas câmaras de gás.
Apesar de ser tão antigo, a fotografia e produção de Kanal são dignas de muitos elogios e admiração. Logo em suas primeiras cenas, podemos nos ambientar à guerra e sua destruição, com imagens da cidade sendo destruída com lanças chamas, prédios sendo demolidos, e ruínas se multiplicando. Após sermos introduzidos à esse caos, surge um narrador apresentando-nos os personagens do filme.
Em fila indiana, os combatentes do levante vão caminhando e sendo anunciados um por um, com a informação de seus nomes ou apelidos, função e principais características: o comandante da companhia, Zadra, “um homem com um profundo senso de dever”; “tenente Sábio, instrui seus rapazes com mãos de ferro”; Esbelto, que “planeja construir aviões após a guerra”; “e finalmente, o Artista. Ele não é não um soldado, se apresentou à companhia ontem”. O narrador finaliza a apresentação dizendo: “observe-os enquanto vivem suas últimas horas”.
Personagens como o Esbelto, o Bússola e o Artista, são os mais curiosos. O início do filme se resume a apresentação dos personagens e algumas cenas de conflito com os nazistas. Vemos o Artista dando vida ao cenário infernal, tocando algumas músicas ao piano, para deleite de seus colegas. O tenente Sábio, casado e com um filho, se relacionando com uma jovem inocente, Halinka, que ainda está longe de descobrir a verdade sobre o affair. Bússola, por sua vez, estreita seu relacionamento com uma senhorita, Margarita. O filme dá a entender que trata-se de uma garota de programa que se apaixonou por ele.
Após algumas cenas de conflito e resistência bem sucedida aos alemães, em que Bússola sai ferido, o comandante recebe a ordem de fugir do local através da rede de esgoto. Esta ordem o deixa em choque e preocupado com a possível reação negativa de seus homens, que terão de fugir após toda a resistência que impuseram. Contudo, após a insatisfação causada com a notícia, o grupo se prepara para a fuga. É aí que o filme realmente vai ficando interessante e pesado.
Ao entrarem no esgoto o grupo logo se dispersa. Bússola e sua companheira ficam mais atrás em função de seus ferimentos, que ao longo do tempo vão deixando-o bastante debilitado. Sábio, Halinka e o Artista se juntam em um segundo grupo. O restante do conjunto avança boa parte unido, mas com o cansaço e a agonia de não encontrarem a saída, acabam se desintegrando mais à frente.
O ambiente sujo, fétido e nojento do esgoto, vai tornando as cenas cada vez mais impactantes. Enquanto o grupo avança pelo caminho, se deparam com muitas outras pessoas voltando desesperadas, em função de gases que vão sendo lançados lá dentro pelos nazistas. Algumas tentam se aventurar pelas saídas do esgoto, mas logo são mortas pelos alemães, que parecem estar em todos os pontos de escape. Com o passar do tempo, a situação vai ficando cada vez mais desesperadora, pois a sonhada saída nunca chega. São várias as bifurcações pelo caminho e ninguém sabe ao certo qual o trajeto correto.
Em um determinando momento, o Artista parece perder a esperança de escapar, e passa a tocar sua música vagando aleatoriamente pelo esgoto. Bússola sofre bastante durante o trajeto e só consegue evoluir graças ao esforço e dedicação da companheira. Nem o pútrido e repulsivo ambiente impede os dois amados de se beijarem e se tocarem. No fim, o casal encontra a tão desejada luz no fim do túnel, mas se deparam com uma grade e o rio logo adiante, que os impedem de escapar.
Em um momento de desespero, Sábio acaba contando a verdade à Halinka. Ela, armada, acaba se matando. O comandante e o sargento conseguem encontrar uma saída. Porém, ao perceber que o sargento mentiu ao dizer que o restante do grupo estava vindo logo atrás, o comandante atira e o mata. Sendo um “homem com um profundo senso de dever” não lhe resta outra alternativa que não voltar ao esgoto para buscar sua tropa. Sábio também consegue sua saída, mas dá logo de cara com os alemães, que o capturam junto a muitas outras pessoas.
Kanal, além de ser um filme muito impactante, é muito bem produzido e dirigido, inspira-se em uma história fantástica, e traz uma visão bem realista da destruição de uma guerra. Esta obra polonesa vai muito além do que estamos acostumados a ver em filmes do gênero. Misturando personagens muito bem desenvolvidos, relacionamentos intrigantes, ambientes caóticos e pesados e trilha musical marcante, Kanal é um filme que marcou sua época. Não à toa conquistou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes, em 1957.
Embora possua todas essas qualidades, o seu tom pesado, violento e por vezes repulsivo, não é para qualquer público. Aqueles que admiram uma história marcante e uma produção realista, autêntica e corajosa, vão aproveitar bastante seus 91 minutos de duração. A experiência de assistir um filme antigo, em preto e branco, que retrata a guerra de forma muito diferente da que estamos acostumados na modernidade, sem dúvida, vale muito à pena.
A Mula
3.6 391 Assista AgoraCom um elenco recheado de bons e renomados atores, como Clint Eastwood, Laurence Fishburne, Bradley Cooper, Andy Garcia e Michael Peña, a Mula utiliza a história do idoso de 90 anos, Leo Sharp, que transportava drogas para o cartel de Sinaloa e foi preso em 2013, como inspiração. Esse idoso é interpretado por Clint Eastwood, que também dirige o filme. Seu personagem, Earl Stone, é um veterano de guerra que dedica a maior parte de seu tempo à floricultura, acumulando prêmios e participações em eventos da área.
Pode-se dizer que neste meio e entre os amigos, Earl é uma pessoa muito bem quista, mas fora dele, especialmente no meio familiar, ele é um fracasso. Seu relacionamento com a ex-mulher e com a filha é muito falho e quase inexistente, a ponto de o mesmo sequer comparecer ao casamento desta última. Claramente, sua prioridade sempre foi o trabalho e a família nunca foi muito sua preocupação.
Após sofrer uma ordem de despejo e ter que se desfazer da atividade de floricultura, que estava indo mal das pernas por conta da concorrência “online”, Earl recebe ao acaso um convite para trabalhar transportando uma carga. Em sua primeira experiência na nova atividade, Stone percebe que esta é uma interessante forma de ganhar um bom dinheiro fazendo o que gosta, dirigir quilômetros sozinho, e utilizar este dinheiro para se manter próximo da neta, a única pessoa da família com quem mantém um bom relacionamento. Mesmo após perceber que a carga se tratava de droga, e seu chefe um narcotraficante, ele assume o novo papel e adapta-se facilmente à nova rotina e aos “colegas de trabalho”.
Tata, apelido que ganha dos colegas do tráfico, vai ganhando o respeito do cartel e esbanjando jogo de cintura para lidar até com policiais desconfiados pelo caminho. O jogo de cintura não se limita ao trabalho. Apesar da avançada idade, o que não falta em Earl é vitalidade, em vários momentos ele surge dançando com mulheres, e até indo para cama com algumas garotas de programa. A história se desenrola com Earl avançando em sua rotina de trabalho enquanto, paralelamente, a polícia tenta chegar até o cartel.
Quando sua ex-esposa adoece gravemente, Tata se vê com uma decisão muito difícil de tomar. Continuar seu trabalho e entregar a carga no tempo determinado, ou largar tudo e ir visitar a enferma? Assim, pela primeira vez em sua vida, ele resolve priorizar a família, mesmo sabendo que essa decisão poderia lhe custar a vida. Nesse momento, sua filha resolve dar uma nova chance ao pai e busca se reaproximar. Earl demonstra estar finalmente consciente de todo o descaso que teve com sua família e arrependido de suas atitudes.
Ao voltar ao trabalho após o falecimento da ex-mulher, ele é ameaçado de morte pelos membros do cartel, devido ao seu atraso na missão. Neste momento, inclusive, a polícia consegue interceptar uma ligação que trata dessa ameaça, e a partir daí entra no encalço da “mula”. Algum tempo depois, conseguem encontra-lo na estrada e prendê-lo. No julgamento, Earl se declara culpado, recebendo uma pena de alguns anos de cadeia.
Embora a história que sirva de inspiração ao roteiro possibilite uma excelente narrativa, não é isso que se vê em A mula. O enredo é muito simples e explora mal a maioria das situações. Desde o convite que Earl recebe para o novo trabalho, até as “batidas policiais”, muitas pontas ficam soltas e sem uma construção lógica e adequada, como se surgissem ao acaso. O lado positivo fica com a importante mensagem de se valorizar e aproveitar a família, acima de tudo, inclusive do trabalho. Além disso, o filme conta com um elenco excelente, embora subaproveitado.
Também não se pode deixar de dizer que ver Clint Eastwood dirigindo e atuando aos seus 88 anos e em alto nível, é revigorante. Para quem admira seu trabalho e acompanha suas últimas atuações, A mula tem boas semelhanças com um de seus último filmes, Gran Torino, mas fica alguns degraus abaixo. Por fim, desde que a expectativa não seja elevada, é possível encarar The Mule como um bom passatempo de domingo e com uma bonita mensagem a ser transmitida.
Poder Além da Vida
3.8 351 Assista AgoraPoder além da vida é um filme estadunidense de 2006, cujo título original é Peaceful Warrior, e baseado no livro de Dan Millman, Way of Peaceful Warrior. Apresenta uma ficção que se baseia na história real de Dan, e propõe uma reflexão filosófica, apelando a momentos de surrealismo para descrever a relação do protagonista com seu eu interior, representado por um homem de cabelos brancos e com aparentes superpoderes. O filme foi mais bem avaliado pelos populares do que pela crítica especializada, mas é sempre lembrado como um dos principais filmes que tratam da questão da autorreflexão e de histórias de superação. Após esta breve introdução, vamos à história do filme de forma resumida.
Dan é um ginasta que está prestes a se classificar às Olimpíadas, representando os Estados Unidos. Ele possui tudo que um jovem de sua idade poderia querer, beleza, dinheiro, mulheres, e sucesso na profissão. No entanto, um belo dia ele se esbarra com Sócrates, um senhor de cabelos brancos que deixa Dan intrigado por seu comportamento estranho. Ele passa a manter contato com Sócrates e receber diversos questionamentos do mesmo, causando algumas reflexões que Dan nunca havia feito, como por exemplo, se ele era realmente feliz com sua vida. De início, Dan se sentiu bastante incomodado com esses questionamentos mas acabou aceitando ser treinado por Sócrates para conseguir se aprimorar visando sua classificação olímpica.
Os métodos de treinamento de Sócrates não eram nada ortodoxos e visavam tocar à mente de Dan, não o seu corpo, de forma que este se conscientizasse de que deveria sentir o momento, esvaziar a cabeça de pensamentos e preocupações, viver o presente. Várias foram as lições passadas a Dan, que foi amadurecendo sobremaneira ao longo desse tempo, até que, em um momento de deslize, Dan sofreu um acidente de moto e teve uma fratura na perna. Com esta fratura, os médicos e seu treinador profissional decidiram que ele não teria condições para continuar no esporte, e seu sonho das Olimpíadas seria frustrado.
Nesse tempo de recuperação do acidente, Dan resolveu retomar o contato com Sócrates, que não via desde o acidente. Sócrates o ensinou uma nova lição, de que não deveria desistir do esporte, uma vez que o esporte era seu grande amor; a limitação física não seria um problema, pois ele deveria treinar por prazer, por amor, não por uma medalha de ouro ou qualquer outro reconhecimento externo. Assim, Dan voltou a treinar e após um tempo conseguiu recuperar seu bom desempenho, o que o levou a reaparecer no centro de treinamento e mostrar ao seu treinador e equipe que tinha totais condições de continuar no esporte, mesmo após ter sido descartado. Neste momento, Dan acaba descobrindo que Sócrates não era uma pessoa, era apenas uma projeção de sua própria intuição, que o forçava a criar consciência do que realmente deve ser valorizado na vida e de como deveria encarar os fatos e se portar como pessoa. O filme termina no momento em que Dan está participando da prova classificatória sem revelar o resultado final.
Concluo que o filme retrata uma história inspiradora de auto superação e mostra uma relação que se assemelha a um processo de coaching, entre Dan, que seria o coachee, e Sócrates, que seria o coach. Isso fica claro uma vez que Sócrates em nenhum momento demonstra opinião ou impõe alguma conclusão, apenas orienta Dan de forma que ele mesmo chegue às suas próprias conclusões. É uma espécie de coaching profissional, já que partiu de uma proposta de Sócrates para treinar Dan visando a conquista da classificação à Olimpíada, e pessoal, pois todas as reflexões trazidas remetem a vida de Dan como um todo, e suas ações como pessoa, não se restringindo à sua vida de atleta. Não se sabe se Dan alcança o sucesso da classificação, mas fica evidente o nível de amadurecimento pessoal alcançado, principalmente quando ele passa a tratar as pessoas de forma muito mais verdadeira e valorizar suas amizades, além de reconhecer seus erros se se tornar mais responsável.