“Não me belisca os peitos, porra! Por que é que vocês acham que mulher gosta de ser beliscada?”
Primeiro de tudo, A Mulher que Inventou o Amor é uma pornochanchada, significa dizer que, mesmo que não tenha sexo explícito, o público ia ao cinema pelo teor erótico. Claro que muitos cineastas utilizaram do gênero para falar de outros temas, e até o subverteram, mas é bom ter em mente o que o rótulo de pornochanchada traz consigo. A Mulher que Inventou o Amor é mais que uma pornochanchada ao mesmo tempo que ainda o é.
Me pergunto comigo mesmo durante a exibição como as pessoas reagiriam a A Mulher que Inventou o Amor hoje em dia, um período sem espaço para a subjetividade, onde uma personagem com trajetória tão simples como Bella Baxter causa polêmica. Vejamos, o filme de Jean Garret começa com uma analogia quase batida de tão óbvia da mulher como um pedaço de carne, mas não deixa de ser efetiva, li uma review por aqui que utiliza do manequim dos créditos iniciais para afirmar que esse filme “é uma história sobre uma mulher ou uma boneca, ou uma mulher que torna-se boneca, ou uma boneca que torna-se mulher”, ninguém resumiu melhor.
Dado o exemplo de outra pornochanchada, em A Dama da Lotação de Neville d'Almeida, a personagem principal, interpretado por Sônia Braga, “se entrega a todos para continuar amando seu marido”, como dito no cartaz do filme, já na obra de Garret é quase o contrário: a emancipação da personagem não se dá pelo sexo (ou melhor, não SOMENTE pelo sexo), Tallulah (Aldine Müller) é considerada uma pessoa agressiva por simplesmente assumir um papel de gênero considerado masculino, ela começa a enxergar o homem como carne, não existe mais o tal amor romântico. Este filme é muito mais denunciatório que empoderador, seja lá o que isto quer dizer. Em determinado momento o diretor apresenta uma plateia comum assistindo a um filme de sexo no cinema, nos sentimos incomodados com um personagem masculino que assedia a protagonista do filme, Garret tá quase jogando na cara do público a hipocrisia do espectador.
-publicado em 20 de abril de 2024 no letterboxd @stollendance -
“You people are insane! You're wasting your lives making shit! Nobody cares! These movies are terrible!”
Ed Wood acompanha a trajetória do entusiasta a diretor de cinema Edward Davis Wood Jr. (Johnny Depp), que sonha em fazer seus próprios filmes e durante esse processo é acompanhado de outras figuras tão excêntricas e peculiares quanto ele mesmo, como um já decadente e viciado Bela Lugosi (Martin Landau, que ganhou um Oscar por sua performance), a apresentadora de filmes de horror Vampira (Lisa Marie, na época casada com Tim Burton) uma espécie de protótipo de Elvira da época, o assumido homossexual Bunny Breckinridge (Bill Murray) e muitos outros personagens interpretados por nomes de peso: a surpreendente Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Vincent D’Onofrio, etc.
Mesmo com uma trama por vezes melancólica, Ed Wood é inteiramente permeado por um charme e senso de humor únicos que contagiam o expectador, uma ótima escolha para uma história que poderia ter sido adaptada de forma bem mais dramática e pessimista e, dentre várias escolhas da direção de Burton gosto como, mesmo que peculiares, os personagens de Ed Wood nunca beiram a caricatura, característica típica das obras do diretor, uma escolha possivelmente motivada por se tratar de pessoas reais (muitas delas ainda vivas na época), os personagens do longa são únicos por natureza.
Para mim, Ed Wood é uma cinebiografia por acaso (ou talvez a forma correta de se fazer uma cinebiografia), isso faz algum sentido? após sua morte, Wood ganhou o título de Pior Diretor de Todos os Tempos por conta de seus filmes (Glen ou Glenda, A Noiva do Monstro e o mais famoso de todos: Plano 9 do Espaço Sideral), certamente Burton reconheceu-se na paixão de Wood pelo cinema e contou a história do infame diretor da melhor maneira possível, sem esconder ou mascarar quem ele era, conhecemos sobre seu cross-dressing, sobre suas relações pessoais e profissionais.
E que saudade que eu tava de ver um filme bom e criativo do Burton, recentemente ele vem se envolvendo em projetos sem alma (o que foi aquele live action de Dumbo?) ou que parecem quase uma autoparódia (O Lar das Crianças Peculiares ou sei lá como chama esse filme).
As performances de Ed Wood também são incrivelmente fenomenais, Depp captura bem a paixão e determinação de Wood pelo cinema, Bill Murray dispensa palavras, Sarah Jessica Parker está DIVINA, mas o destaque mesmo fica para Martin Landau, que parece mais com Bela Lugosi do que o próprio (esse filme poderia se chamar Bela Lugosi e eu não reclamaria), o único desempenho que considerei abaixo da média foi de Lisa Marie como Vampirq, mas pudera, é um papel difícil e fiquei sabendo que ela foi dublada nesse filme. Estranhamente, o preto e branco faz com a película pareça contemporânea, não um filme dos anos 1990.
A cena mais emblemática para mim é o encontro de Wood, considerado O Pior Piretor…, com Orson Welles, eleito O Melhor Diretor…, ambos estão na mesma situação, renegados por Hollywood, desesperados por financiamento. Nesse momento me vem à mente o quase-filme de Welles no Brasil, a semelhança de Ed Wood com José Mojica (ambos enfrentaram a Igreja Católica durante a produção de suas obras de horror), penso em como a suposta rixa entre Lugosi e Karloff daria uma ótima temporada de Feud e, por fim, me questiono o que Sganzerla acharia de Ed Wood. Li que Ed Wood foi um fracasso financeiro e retornou apenas US$ 13,8 milhões contra um orçamento de US$ 18 milhões, de certa forma isso soa naturalmente correto.
-publicado 14 de julho de 2024 no letterboxd @stollendance -
Vinte minutos iniciais de “Encontros e Desencontros”, é inevitável, penso se tratar da versão americana de um filme do Wong Kar-Wai sobre amor e solidão na cidade, mas, seja lá o que isso quer dizer, não é, são substancialmente diferentes no enfoque e opostos na abordagem.
Durante o resto do longa, continuo voltando para seu nome original, “Lost in Translation”, acho graça na ironia porque “Encontros e Desencontros” não é ruim, porém “Lost in Translation” é um dos títulos mais acertivos e adequados que um filme já recebeu. Por certo, a obra de Sofia Coppola se equipara ao processo de uma tradução onde, na teoria, o sentido das palavras deveria ser equivalente, mas, na prática, as palavras nunca serão as mesmas.
Os personagens de Lost in Translation estão perdidos, sozinhos no meio da multidão da metrópole. Diferente do público, eles ainda não sabem que vão se interessar um pelo outro, é um exercício inesperado e gradual. O espectador imagina milhares de possíveis cenários para o fim dessa história, exceto um: o final que aconteceria na vida real, justamente o escolhido por Coppola. Não estamos em In the Mood for Love, seja factual ou imaginária, não há qualquer tipo de tensão, não há flerte e não há motivo para trair sem que haja uma testemunha. A síntese está justo na cena final, quando os dizeres incompreensíveis do protagonista são entendidos por ambos os lados.
O filme também aborda um embate cultural que assumo não ser intencional (Sofia Coppola não é uma diretora conhecida pela consciência racial), e que pode ser interpretado de muitas formas.
-publicado 15 de julho de 2024 no letterboxd @stollendance -
“Are we still talking about tennis?” Você não sabe o que é o tênis. É o que explica a personagem Tashi (Zendaya) ainda na primeira metade de Rivais, ela desenvolve seu pensamento: Tênis é uma relação.
Por alguns minutos, os dois jogadores compreendem a linguagem um do outro e, como numa dança, conduzem a partida para uma conclusão, mas logo fica claro que esse diálogo não se resume somente aos dois rivais, a arquibancada também compreende o diálogo. Não existe espaço somente para dois, há sempre um terceiro elemento. É sobre isso que Challengers se trata do minuto inicial ao final.
Luca Guadagnino, o diretor de Challengers, faz do público a terceira parte deste triângulo, não assumimos o papel de voyeur, somos voz ativa. Numa era hipersexualizada onde o corpo tanto importa, o diretor faz o que parece impossível; o filme mais sexual e tesudo não possui uma única cena de sexo.
Challengers é composto por três personagens que por vezes são mal intencionados, invejosos, ciumentos e incrivelmente falhos em diferentes graus, eles são errôneos e isso faz com que todos sejam extremamente humanos. O suor e os feromônios se misturam com rancor.
É por isso que Guadagnino é um dos meus diretores favoritos da atualidade, suas obras dividem opiniões (considero Call Me your Name e Suspiria obras primas contemporâneas, já Bones and All acho bem ruinzinho), mas todas deixam o espectador impactado com o que acabou de assistir, isso é inegável, não dá para ser indiferente a Guadagnino.
-publicado 2 de agosto de 2024 no letterboxd @stollendance -
Enquanto os minutos de I, Tonya passavam, não pude deixar de pensar sobre quão expressiva é a ambiguidade que o filme transmite, a trilogia nacional A Menina que Matou os Pais conta o mesmo caso criminal sob diferentes perspectivas e precisou de três longas para isso.
I, Tonya poderia ter sido uma obra biográfica dramática, assustadora ou com um teor que buscasse inocentar a protagonista, mas Craig Gillespie não escolhe percorrer nenhum desses caminhos, a melhor maneira de retratar a realidade é através do humor, I, Tonya tira sarro da América e de toda a sociedade americana, Tonya Harding não é uma escória da sociedade, sua vida é um dos relatos mais pontuais sobre o modo de vida estadunidense, Tonya pode ser um monstro ou uma heroina dependendo de quando é conveniente para a mídia que ela seja.
Mas como numa tragédia grega, nós ainda torcermos para que Tonya vença, mesmo sabendo desde o primeiro minuto de projeção que ela não vai. O filme é consciente sobre suas limitações quanto a verdade do incidente, a verdadeira-verdade é inalcançável e transita pelo meio de todas as versões do caso, Gillespie está mais preocupado em contar uma boa história, se o filme buscasse moralidade, hoje estaríamos assistindo a cinebiografia de Nancy Kerrigan. E claro, o êxito de I, Tonya não seria possível sem Margot Robbie, com uma performance que passa desde The Red Shoes até Carrie.
-publicado 3 de agosto de 2024 no letterboxd @stollendance -
A Bela Adormecida é a animação mais visualmente impressionante da Disney! O filme todo é um primor e cada frame parece um quadro, sendo um dos últimos que tiveram supervisão do próprio Disney. Apesar de sua beleza, o filme em si foi um fracasso comercial, levando o estúdio a parar de adaptar contos de fadas, algo que permaneceu por três décadas, até o lançamento de A Pequena Sereia, em 1989.
A princesa Aurora aparece por apenas 18 minutos do longa e é a protagonista com menos falas de todos os filmes da Disney, de forma que o protagonismo do longa passa para as três fadas madrinhas, que tomam todas as principais decisões da trama. A passividade de Aurora, e sua atitude alheia aos acontecimentos centrais, fazem com que seus momentos na animação consigam transmitir sua verdadeira personalidade e aspirações, em contraste com os outros personagens, que passam o tempo ocupados com a trama. Aurora é a princesa mais fashionista de todas, seu vestido remete a Dior e suas madeixas a Brigitte Bardot, ela também teve como inspiração a atriz Audrey Hepburn. Aurora foi criada em meio um ambiente totalmente feminino.
Há uma magia em A Bela Adormecida, magia em questão que faz falta nas adaptações atuais, é um conto de fadas em seu estado mais puro.
-publicado 10 de agosto de 2024 no letterboxd @stollendance -
Uma breve história sobre a produção de Imaculada: o desenvolvimento do filme começou em 2014, e foi ainda nesse ano que Sydney Sweeney fez um teste para a produção, a partir de um roteiro escrito por Andrew Lobel. Mas nem tudo são flores, e forças do além queriam impedir a execução de Imaculada, ou pelo menos foi o que pareceu, já que a produção entrou naquele estágio que chamamos de Development hell (quando um filme ou projeto está com sua produção parada).
O destino indicava que Imaculada afinal nunca sairia do papel, quer dizer, isso até o longínquo ano de 2022, quando Sweeney, após seu papel de destaque na série de televisão Euphoria, comprou os direitos do roteiro e abordou o colaborador Michael Mohan para dirigi-lo. Foi Mohan o responsável por transformar em freiras, as alunas do ensino médio do primeiro roteiro, alteração que teve como motivação atender às expectativas de Sweeney e do público. Fim da história…
Ou será que não? Talvez o não desenvolvimento de Imaculada em 2014 fosse um indicativo de que esta talvez tivesse sido a melhor coisa a se fazer. Não me leve a mal, Sydney é uma ótima atriz, mas nem mesmo sua satisfatória performance é capaz de salvar uma obra que parece acabar sem conhecer a si própria, sim, Imaculada parece não compreender a própria mensagem que pretende passar. O resultado da produção é tão insosso, esquecível e decepcionante que mesmo as possíveis revelações da trama acabam passando batidas, já que Imaculada não faz questão alguma nem de tentar criar algum tipo de tensão.
De certa forma, Imaculada representa tudo que há de pior no “terror inteligente” atual, por exemplo, eu não sou aquele tipo de espectador que reclama de finais em aberto, mas o desfecho de Imaculada é tão claramente criado para viralizar na internet ou demonstrar o talento da protagonista, que chega a ser irritante. Afinal, por que assistir Imaculada num ano em que tivemos A Primeira Profecia?
-publicado 13 de setembro de 2024 no letterboxd @stollendance -
Tim Burton ainda se diverte (e está mais vivo do que nunca).
Os últimos anos de produções cinematográficas foram tomados por reboots, remakes, live actions, prequels, spin-offs, e principalmente sequências de clássicos (as vezes não tão clássicos assim) realizadas anos após o filme original.
A Disney, em especial, parece sofrer uma crise de histórias originais, de modo que grande parte de seu catálogo clássico de animações já possui uma versão live action, mas pudera, seus últimos lançamentos originais receberam uma recepção bem amena do público e da crítica (Elementos, Wish: O Poder dos Desejos), e já temos confirmação de sequências para os próximos 10 anos! (Frozen 3, Os Incríveis 3, Toy Story 5, Moana 2, Zootopia 2).
Entretanto, este fenômeno não é exclusivo, nem tampouco foi inventado pela Disney. O diferencial de Beetlejuice Beetlejuice é que este não se escora unicamente na nostalgia para prender o público, a verdade é que essa sequência pode até ser lida como um filme solo, uma produção nova. Burton não tem medo de mexer com personagens clássicos e amados pelo público, nem de mexer drasticamente com o universo da trama. Afinal de contas, já que é pra mexer, que mexa logo tudo, né?
O clima de diversão dos bastidores reflete na tela, num momento da película Lydia (Winona Ryder) menciona o mestre italiano do horror Mario Bava, em outro, Burton separa uma cena pós crédito inteira para recriar uma sequência de It’s Alive, clássico B dos anos 70, sem falar da piada do Soul Train e de todos os momentos em que o diretor para a história apenas para contemplar a beleza de sua esposa Monica Bellucci.
Beetlejuice Beetlejuice também foi a primeira vez que muitos atores mais jovens do elenco trabalharam com efeitos práticos (e não somente uma tela verde). O terceiro ato é caótico no bom sentido da palavra e possui uma sequência musical com Donna Summer que me fez rir bastante no cinema. Relembrando tudo isso, talvez eu goste mais dessa sequência que do filme original… a única coisa que me questionei foi: por que diabos o lançamento não foi no Halloween?!
-publicado 14 de setembro de 2024 no letterboxd @stollendance -
MaXXXine comprova que Mia Goth é, de fato, uma estrela e põe em cheque a competência de Ti West como diretor. Sejamos sinceros, o último filme da trilogia iniciada em X - A Marca da Morte (2022) é inconsistente, confuso e por vezes até irritante, mas quando foi que nós, enquanto sociedade, proibimos a existência do filme de terror “ruim”?
Não é tão fácil encontrar a resposta do porquê Maxxxine foi recebido de forma mais amena que seus antecessores pela crítica e possivelmente não há uma única resposta para essa pergunta, o fato é que Maxxxine é uma superprodução perto dos outros filmes, e isso reflete na tela: muitas cenas externas, participações especiais, cenários grandiosos, maquiagem, figurino, efeitos, enfim, é bastante coisa para um diretor acostumado com um orçamento praticamente nulo, como Ti West.
Durante sua exibição, fica a impressão de que toda essa parafernália hollywoodiana também se estende ao roteiro do longa, a trama de Maxxxine quer percorrer tantos caminhos, explorar tantas referências e dizer tanta coisa que, no fim, acaba não desenvolvendo nenhuma delas, e sem nem mesmo mortes criativas ou sequências eletrizantes, Maxxxine é mesmo um filme que não diz nada, isto é, quase nada.
Mas estou sendo severo com Maxxxine e sei disso, sei também que essas estrelas não são por acaso. Voltemos para a trilogia de filmes, para mim, a trajetória de Maxine/Pearl foca em dois aspectos da vida humana que desde sempre foram convertidos em Poder: Sexo e Juventude. As obras de Ti West deixam evidente que esses elementos são efêmeros, e que seus personagens não vão alcançá-los sem antes se libertarem das amarras sociais vigentes.
Em X - A Marca da Morte, quase uma refrescante paródia de um conhecido slasher da década de 1970, acompanhamos um lado menos higienizado e decadente do fim da Revolução Sexual, em contraste com a repulsa e a impotência dos corpos velhos, representados por Pearl e seu marido Howard.
Já em Pearl (2022), descobrimos que a personagem título tem muito mais a ver com a protagonista de X do que pensamos, mas se por um lado Maxine é determinada a fazer o que for preciso para alcançar o estrelato, Pearl é insegura, desequilibrada e reprimida sexualmente, aspecto representado mais explicitamente pela icônica sequência do espantalho.
Dito isto, a qual local pertence Maxxxine? enquanto fã da franquia, certamente nunca esperei que esse terceiro filme superasse a qualidade de Pearl, um clássico instantâneo e, após o fim da sessão, afirmo com franqueza que Maxxxine (como esperado) não executa tal proeza, porém se equipara a X - A Marca da Morte, que é bonitinho, mas também tem seus defeitos. Será que estamos sendo injustos ao tentar comparar Maxxxine com a obra prima do gênero que foi Pearl? na realidade não odeio Maxxxine, mesmo que este não acrescente absolutamente nada a franquia, é bom ver Mia em tela e alguns poucos momentos não são esquecíveis (os breves debates do filme sobre puritanismo, pânico moral, conservadorismo, a cena da arma…).
O maior problema é que Maxxxine quer ser um thriller oitentista, mas sem a carga sexual, quer ser um Giallo, mas sem o erotismo (o filme até faz bastante referências sexuais, mas todas parecem plásticas demais para causar algum impacto). Ainda que em diversas ocasiões o filme flerte com os momentos “absurdos” típicos do terror, de alguma forma Maxxxine ainda parece se levar a sério demais, e desse pecado nenhuma sequência ruim do gênero conseguiu se salvar.
Questiono, será que Maxxxine se sustenta numa revisão? o que me manteve entretido na sala de cinema foi a revelação do assassino, que já é meio esculhambada, já que Maxxxine em momento algum tentar criar suspeitos plausíveis ou desenvolver qualquer personagem novo e um consequente clima de suspense, inclusive, o filme tenta solucionar todos os arcos apresentados na primeira metade com essa única revelação, tem quem compre, eu (hoje) não.
-publicado 12 de julho de 2024 no letterboxd @stollendance -
Qual a chance de um grupo de crianças fãs dos monstros clássicos da Universal, encontrem os próprios porque a mãe de um deles comprou o diário de Van Helsing em uma venda de garagem, dias antes de um evento sobrenatural que ocorre de 100 em 100 anos?
Levando em consideração o número considerável de possibilidades que poderiam ser trabalhadas com esse plot, The Monster Squad chega a ser frustrante para o telespectador. O que mais incomoda são os diálogos, parecem várias esquetes de humor sem unidade, resultando em crianças com falas de adultos e referências à cultura pop sem emoção alguma.
No fim, tenho a impressão de que acabei de ver uma paródia dos filmes de aventura oitentistas. Quero dizer, a amizade entre Phoebe e Frankenstein é fofa e, mesmo que curto, o confronto de Drácula com Frankenstein é interessante, mas as crianças não possuem personalidade alguma e são imemoráveis.
Tópicos: - Comer chocolate do chão deveria ser algo ruim? - Salvar seus filhos de criaturas do inferno reconstrói seu casamento? - A adolescente "virgem" lembra muito a Xuxa nos anos 1980.
-comentário postado originalmente em 11 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Esse filme me surpreendeu positivamente, eu não esperava que ele fosse abordar temas tão polêmicos, como a AIDS, ainda mais naquela época. Obviamente esses assuntos são tratados de forma leve, o que não impede que sejam realistas.
Por ser de 1994, você provavelmente encontrará inúmeras problemáticas que não eram tão discutidas no século passado. De qualquer forma, Priscilla é um filme sobre família, seja ela de sangue ou suas duas amigas, com quem você viaja pelo deserto em um ônibus lavanda.
-comentário postado originalmente em 10 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Terminei recentemente e ainda estou em dúvida sobre o que realmente acho desse filme. Não quero ser injusto e julgá-lo totalmente ruim, então vou elencar alguns pontos positivos:
1. O filme retrata de forma realista a depressão e a ansiedade através de suas duas protagonistas. 2. Kirsten Dunst faz um bom trabalho ao representar o processo de transição da depressão para a melancolia de Justine, mas quem realmente chama atenção é Charlotte Gainsbourg, é possível visualizar todas as inseguranças, anseios e medos de Claire.
Tirando esses pontos, o filme não vai muito além. Se estende com personagens, subtramas e situações inúteis.
Recomendo o filme, se: - Você for niilista; - Você for rico ou triste, de preferência os dois ao mesmo tempo; - Você acreditar que todas as crenças, verdades e valores tradicionais são desprovidos de fundamento, sentido e de utilidade (niilismo).
-comentário postado originalmente em 9 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Se anteriormente Mojica utilizou aranhas e outros animais peçonhentos em seus filmes, na década de 1970 foi preciso mais do que aranhas e comer carne vermelha na sexta santa para chocar o público.
Aqui o cineasta flerta com a metalinguagem, a trama fala diretamente sobre LSD e sua relação com as perversões sexuais cometidas pelos personagens, uma resposta às críticas de intelectuais da época (fazer cinema no Brasil já é um processo complicado, imagine fazer terror!).
Mesmo entregando o repugnante e o nojento prometido, esteticamente falando é maravilhoso. Também deixo meu elogio ao uso da música nacional.
- review postada originalmente em 27 de maio de 2021 no meu letterboxd @stollendance -
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A Mulher que Inventou o Amor
3.9 34 Assista Agora“Não me belisca os peitos, porra!
Por que é que vocês acham que mulher gosta de ser beliscada?”
Primeiro de tudo, A Mulher que Inventou o Amor é uma pornochanchada, significa dizer que, mesmo que não tenha sexo explícito, o público ia ao cinema pelo teor erótico. Claro que muitos cineastas utilizaram do gênero para falar de outros temas, e até o subverteram, mas é bom ter em mente o que o rótulo de pornochanchada traz consigo. A Mulher que Inventou o Amor é mais que uma pornochanchada ao mesmo tempo que ainda o é.
Me pergunto comigo mesmo durante a exibição como as pessoas reagiriam a A Mulher que Inventou o Amor hoje em dia, um período sem espaço para a subjetividade, onde uma personagem com trajetória tão simples como Bella Baxter causa polêmica. Vejamos, o filme de Jean Garret começa com uma analogia quase batida de tão óbvia da mulher como um pedaço de carne, mas não deixa de ser efetiva, li uma review por aqui que utiliza do manequim dos créditos iniciais para afirmar que esse filme “é uma história sobre uma mulher ou uma boneca, ou uma mulher que torna-se boneca, ou uma boneca que torna-se mulher”, ninguém resumiu melhor.
Dado o exemplo de outra pornochanchada, em A Dama da Lotação de Neville d'Almeida, a personagem principal, interpretado por Sônia Braga, “se entrega a todos para continuar amando seu marido”, como dito no cartaz do filme, já na obra de Garret é quase o contrário: a emancipação da personagem não se dá pelo sexo (ou melhor, não SOMENTE pelo sexo), Tallulah (Aldine Müller) é considerada uma pessoa agressiva por simplesmente assumir um papel de gênero considerado masculino, ela começa a enxergar o homem como carne, não existe mais o tal amor romântico. Este filme é muito mais denunciatório que empoderador, seja lá o que isto quer dizer. Em determinado momento o diretor apresenta uma plateia comum assistindo a um filme de sexo no cinema, nos sentimos incomodados com um personagem masculino que assedia a protagonista do filme, Garret tá quase jogando na cara do público a hipocrisia do espectador.
-publicado em 20 de abril de 2024 no letterboxd @stollendance -
Ed Wood
4.0 594 Assista Agora“You people are insane! You're wasting your lives making shit! Nobody cares! These movies are terrible!”
Ed Wood acompanha a trajetória do entusiasta a diretor de cinema Edward Davis Wood Jr. (Johnny Depp), que sonha em fazer seus próprios filmes e durante esse processo é acompanhado de outras figuras tão excêntricas e peculiares quanto ele mesmo, como um já decadente e viciado Bela Lugosi (Martin Landau, que ganhou um Oscar por sua performance), a apresentadora de filmes de horror Vampira (Lisa Marie, na época casada com Tim Burton) uma espécie de protótipo de Elvira da época, o assumido homossexual Bunny Breckinridge (Bill Murray) e muitos outros personagens interpretados por nomes de peso: a surpreendente Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Vincent D’Onofrio, etc.
Mesmo com uma trama por vezes melancólica, Ed Wood é inteiramente permeado por um charme e senso de humor únicos que contagiam o expectador, uma ótima escolha para uma história que poderia ter sido adaptada de forma bem mais dramática e pessimista e, dentre várias escolhas da direção de Burton gosto como, mesmo que peculiares, os personagens de Ed Wood nunca beiram a caricatura, característica típica das obras do diretor, uma escolha possivelmente motivada por se tratar de pessoas reais (muitas delas ainda vivas na época), os personagens do longa são únicos por natureza.
Para mim, Ed Wood é uma cinebiografia por acaso (ou talvez a forma correta de se fazer uma cinebiografia), isso faz algum sentido? após sua morte, Wood ganhou o título de Pior Diretor de Todos os Tempos por conta de seus filmes (Glen ou Glenda, A Noiva do Monstro e o mais famoso de todos: Plano 9 do Espaço Sideral), certamente Burton reconheceu-se na paixão de Wood pelo cinema e contou a história do infame diretor da melhor maneira possível, sem esconder ou mascarar quem ele era, conhecemos sobre seu cross-dressing, sobre suas relações pessoais e profissionais.
E que saudade que eu tava de ver um filme bom e criativo do Burton, recentemente ele vem se envolvendo em projetos sem alma (o que foi aquele live action de Dumbo?) ou que parecem quase uma autoparódia (O Lar das Crianças Peculiares ou sei lá como chama esse filme).
As performances de Ed Wood também são incrivelmente fenomenais, Depp captura bem a paixão e determinação de Wood pelo cinema, Bill Murray dispensa palavras, Sarah Jessica Parker está DIVINA, mas o destaque mesmo fica para Martin Landau, que parece mais com Bela Lugosi do que o próprio (esse filme poderia se chamar Bela Lugosi e eu não reclamaria), o único desempenho que considerei abaixo da média foi de Lisa Marie como Vampirq, mas pudera, é um papel difícil e fiquei sabendo que ela foi dublada nesse filme. Estranhamente, o preto e branco faz com a película pareça contemporânea, não um filme dos anos 1990.
A cena mais emblemática para mim é o encontro de Wood, considerado O Pior Piretor…, com Orson Welles, eleito O Melhor Diretor…, ambos estão na mesma situação, renegados por Hollywood, desesperados por financiamento. Nesse momento me vem à mente o quase-filme de Welles no Brasil, a semelhança de Ed Wood com José Mojica (ambos enfrentaram a Igreja Católica durante a produção de suas obras de horror), penso em como a suposta rixa entre Lugosi e Karloff daria uma ótima temporada de Feud e, por fim, me questiono o que Sganzerla acharia de Ed Wood. Li que Ed Wood foi um fracasso financeiro e retornou apenas US$ 13,8 milhões contra um orçamento de US$ 18 milhões, de certa forma isso soa naturalmente correto.
-publicado 14 de julho de 2024 no letterboxd @stollendance -
Encontros e Desencontros
3.8 1,8KVinte minutos iniciais de “Encontros e Desencontros”, é inevitável, penso se tratar da versão americana de um filme do Wong Kar-Wai sobre amor e solidão na cidade, mas, seja lá o que isso quer dizer, não é, são substancialmente diferentes no enfoque e opostos na abordagem.
Durante o resto do longa, continuo voltando para seu nome original, “Lost in Translation”, acho graça na ironia porque “Encontros e Desencontros” não é ruim, porém “Lost in Translation” é um dos títulos mais acertivos e adequados que um filme já recebeu. Por certo, a obra de Sofia Coppola se equipara ao processo de uma tradução onde, na teoria, o sentido das palavras deveria ser equivalente, mas, na prática, as palavras nunca serão as mesmas.
Os personagens de Lost in Translation estão perdidos, sozinhos no meio da multidão da metrópole. Diferente do público, eles ainda não sabem que vão se interessar um pelo outro, é um exercício inesperado e gradual. O espectador imagina milhares de possíveis cenários para o fim dessa história, exceto um: o final que aconteceria na vida real, justamente o escolhido por Coppola. Não estamos em In the Mood for Love, seja factual ou imaginária, não há qualquer tipo de tensão, não há flerte e não há motivo para trair sem que haja uma testemunha. A síntese está justo na cena final, quando os dizeres incompreensíveis do protagonista são entendidos por ambos os lados.
O filme também aborda um embate cultural que assumo não ser intencional (Sofia Coppola não é uma diretora conhecida pela consciência racial), e que pode ser interpretado de muitas formas.
-publicado 15 de julho de 2024 no letterboxd @stollendance -
Rivais
3.6 580 Assista Agora“Are we still talking about tennis?”
Você não sabe o que é o tênis. É o que explica a personagem Tashi (Zendaya) ainda na primeira metade de Rivais, ela desenvolve seu pensamento: Tênis é uma relação.
Por alguns minutos, os dois jogadores compreendem a linguagem um do outro e, como numa dança, conduzem a partida para uma conclusão, mas logo fica claro que esse diálogo não se resume somente aos dois rivais, a arquibancada também compreende o diálogo. Não existe espaço somente para dois, há sempre um terceiro elemento. É sobre isso que Challengers se trata do minuto inicial ao final.
Luca Guadagnino, o diretor de Challengers, faz do público a terceira parte deste triângulo, não assumimos o papel de voyeur, somos voz ativa. Numa era hipersexualizada onde o corpo tanto importa, o diretor faz o que parece impossível; o filme mais sexual e tesudo não possui uma única cena de sexo.
Challengers é composto por três personagens que por vezes são mal intencionados, invejosos, ciumentos e incrivelmente falhos em diferentes graus, eles são errôneos e isso faz com que todos sejam extremamente humanos. O suor e os feromônios se misturam com rancor.
É por isso que Guadagnino é um dos meus diretores favoritos da atualidade, suas obras dividem opiniões (considero Call Me your Name e Suspiria obras primas contemporâneas, já Bones and All acho bem ruinzinho), mas todas deixam o espectador impactado com o que acabou de assistir, isso é inegável, não dá para ser indiferente a Guadagnino.
-publicado 2 de agosto de 2024 no letterboxd @stollendance -
Eu, Tonya
4.1 1,4K Assista AgoraEnquanto os minutos de I, Tonya passavam, não pude deixar de pensar sobre quão expressiva é a ambiguidade que o filme transmite, a trilogia nacional A Menina que Matou os Pais conta o mesmo caso criminal sob diferentes perspectivas e precisou de três longas para isso.
I, Tonya poderia ter sido uma obra biográfica dramática, assustadora ou com um teor que buscasse inocentar a protagonista, mas Craig Gillespie não escolhe percorrer nenhum desses caminhos, a melhor maneira de retratar a realidade é através do humor, I, Tonya tira sarro da América e de toda a sociedade americana, Tonya Harding não é uma escória da sociedade, sua vida é um dos relatos mais pontuais sobre o modo de vida estadunidense, Tonya pode ser um monstro ou uma heroina dependendo de quando é conveniente para a mídia que ela seja.
Mas como numa tragédia grega, nós ainda torcermos para que Tonya vença, mesmo sabendo desde o primeiro minuto de projeção que ela não vai. O filme é consciente sobre suas limitações quanto a verdade do incidente, a verdadeira-verdade é inalcançável e transita pelo meio de todas as versões do caso, Gillespie está mais preocupado em contar uma boa história, se o filme buscasse moralidade, hoje estaríamos assistindo a cinebiografia de Nancy Kerrigan. E claro, o êxito de I, Tonya não seria possível sem Margot Robbie, com uma performance que passa desde The Red Shoes até Carrie.
-publicado 3 de agosto de 2024 no letterboxd @stollendance -
A Bela Adormecida
3.6 465A Bela Adormecida é a animação mais visualmente impressionante da Disney! O filme todo é um primor e cada frame parece um quadro, sendo um dos últimos que tiveram supervisão do próprio Disney. Apesar de sua beleza, o filme em si foi um fracasso comercial, levando o estúdio a parar de adaptar contos de fadas, algo que permaneceu por três décadas, até o lançamento de A Pequena Sereia, em 1989.
A princesa Aurora aparece por apenas 18 minutos do longa e é a protagonista com menos falas de todos os filmes da Disney, de forma que o protagonismo do longa passa para as três fadas madrinhas, que tomam todas as principais decisões da trama. A passividade de Aurora, e sua atitude alheia aos acontecimentos centrais, fazem com que seus momentos na animação consigam transmitir sua verdadeira personalidade e aspirações, em contraste com os outros personagens, que passam o tempo ocupados com a trama. Aurora é a princesa mais fashionista de todas, seu vestido remete a Dior e suas madeixas a Brigitte Bardot, ela também teve como inspiração a atriz Audrey Hepburn. Aurora foi criada em meio um ambiente totalmente feminino.
Há uma magia em A Bela Adormecida, magia em questão que faz falta nas adaptações atuais, é um conto de fadas em seu estado mais puro.
-publicado 10 de agosto de 2024 no letterboxd @stollendance -
Imaculada
3.0 535 Assista AgoraUma breve história sobre a produção de Imaculada: o desenvolvimento do filme começou em 2014, e foi ainda nesse ano que Sydney Sweeney fez um teste para a produção, a partir de um roteiro escrito por Andrew Lobel. Mas nem tudo são flores, e forças do além queriam impedir a execução de Imaculada, ou pelo menos foi o que pareceu, já que a produção entrou naquele estágio que chamamos de Development hell (quando um filme ou projeto está com sua produção parada).
O destino indicava que Imaculada afinal nunca sairia do papel, quer dizer, isso até o longínquo ano de 2022, quando Sweeney, após seu papel de destaque na série de televisão Euphoria, comprou os direitos do roteiro e abordou o colaborador Michael Mohan para dirigi-lo. Foi Mohan o responsável por transformar em freiras, as alunas do ensino médio do primeiro roteiro, alteração que teve como motivação atender às expectativas de Sweeney e do público. Fim da história…
Ou será que não? Talvez o não desenvolvimento de Imaculada em 2014 fosse um indicativo de que esta talvez tivesse sido a melhor coisa a se fazer. Não me leve a mal, Sydney é uma ótima atriz, mas nem mesmo sua satisfatória performance é capaz de salvar uma obra que parece acabar sem conhecer a si própria, sim, Imaculada parece não compreender a própria mensagem que pretende passar. O resultado da produção é tão insosso, esquecível e decepcionante que mesmo as possíveis revelações da trama acabam passando batidas, já que Imaculada não faz questão alguma nem de tentar criar algum tipo de tensão.
De certa forma, Imaculada representa tudo que há de pior no “terror inteligente” atual, por exemplo, eu não sou aquele tipo de espectador que reclama de finais em aberto, mas o desfecho de Imaculada é tão claramente criado para viralizar na internet ou demonstrar o talento da protagonista, que chega a ser irritante. Afinal, por que assistir Imaculada num ano em que tivemos A Primeira Profecia?
-publicado 13 de setembro de 2024 no letterboxd @stollendance -
Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice
3.4 592 Assista AgoraTim Burton ainda se diverte (e está mais vivo do que nunca).
Os últimos anos de produções cinematográficas foram tomados por reboots, remakes, live actions, prequels, spin-offs, e principalmente sequências de clássicos (as vezes não tão clássicos assim) realizadas anos após o filme original.
A Disney, em especial, parece sofrer uma crise de histórias originais, de modo que grande parte de seu catálogo clássico de animações já possui uma versão live action, mas pudera, seus últimos lançamentos originais receberam uma recepção bem amena do público e da crítica (Elementos, Wish: O Poder dos Desejos), e já temos confirmação de sequências para os próximos 10 anos! (Frozen 3, Os Incríveis 3, Toy Story 5, Moana 2, Zootopia 2).
Entretanto, este fenômeno não é exclusivo, nem tampouco foi inventado pela Disney. O diferencial de Beetlejuice Beetlejuice é que este não se escora unicamente na nostalgia para prender o público, a verdade é que essa sequência pode até ser lida como um filme solo, uma produção nova. Burton não tem medo de mexer com personagens clássicos e amados pelo público, nem de mexer drasticamente com o universo da trama. Afinal de contas, já que é pra mexer, que mexa logo tudo, né?
O clima de diversão dos bastidores reflete na tela, num momento da película Lydia (Winona Ryder) menciona o mestre italiano do horror Mario Bava, em outro, Burton separa uma cena pós crédito inteira para recriar uma sequência de It’s Alive, clássico B dos anos 70, sem falar da piada do Soul Train e de todos os momentos em que o diretor para a história apenas para contemplar a beleza de sua esposa Monica Bellucci.
Beetlejuice Beetlejuice também foi a primeira vez que muitos atores mais jovens do elenco trabalharam com efeitos práticos (e não somente uma tela verde). O terceiro ato é caótico no bom sentido da palavra e possui uma sequência musical com Donna Summer que me fez rir bastante no cinema. Relembrando tudo isso, talvez eu goste mais dessa sequência que do filme original… a única coisa que me questionei foi: por que diabos o lançamento não foi no Halloween?!
-publicado 14 de setembro de 2024 no letterboxd @stollendance -
MaXXXine
3.1 679 Assista AgoraMaXXXine comprova que Mia Goth é, de fato, uma estrela e põe em cheque a competência de Ti West como diretor. Sejamos sinceros, o último filme da trilogia iniciada em X - A Marca da Morte (2022) é inconsistente, confuso e por vezes até irritante, mas quando foi que nós, enquanto sociedade, proibimos a existência do filme de terror “ruim”?
Não é tão fácil encontrar a resposta do porquê Maxxxine foi recebido de forma mais amena que seus antecessores pela crítica e possivelmente não há uma única resposta para essa pergunta, o fato é que Maxxxine é uma superprodução perto dos outros filmes, e isso reflete na tela: muitas cenas externas, participações especiais, cenários grandiosos, maquiagem, figurino, efeitos, enfim, é bastante coisa para um diretor acostumado com um orçamento praticamente nulo, como Ti West.
Durante sua exibição, fica a impressão de que toda essa parafernália hollywoodiana também se estende ao roteiro do longa, a trama de Maxxxine quer percorrer tantos caminhos, explorar tantas referências e dizer tanta coisa que, no fim, acaba não desenvolvendo nenhuma delas, e sem nem mesmo mortes criativas ou sequências eletrizantes, Maxxxine é mesmo um filme que não diz nada, isto é, quase nada.
Mas estou sendo severo com Maxxxine e sei disso, sei também que essas estrelas não são por acaso. Voltemos para a trilogia de filmes, para mim, a trajetória de Maxine/Pearl foca em dois aspectos da vida humana que desde sempre foram convertidos em Poder: Sexo e Juventude. As obras de Ti West deixam evidente que esses elementos são efêmeros, e que seus personagens não vão alcançá-los sem antes se libertarem das amarras sociais vigentes.
Em X - A Marca da Morte, quase uma refrescante paródia de um conhecido slasher da década de 1970, acompanhamos um lado menos higienizado e decadente do fim da Revolução Sexual, em contraste com a repulsa e a impotência dos corpos velhos, representados por Pearl e seu marido Howard.
Já em Pearl (2022), descobrimos que a personagem título tem muito mais a ver com a protagonista de X do que pensamos, mas se por um lado Maxine é determinada a fazer o que for preciso para alcançar o estrelato, Pearl é insegura, desequilibrada e reprimida sexualmente, aspecto representado mais explicitamente pela icônica sequência do espantalho.
Dito isto, a qual local pertence Maxxxine? enquanto fã da franquia, certamente nunca esperei que esse terceiro filme superasse a qualidade de Pearl, um clássico instantâneo e, após o fim da sessão, afirmo com franqueza que Maxxxine (como esperado) não executa tal proeza, porém se equipara a X - A Marca da Morte, que é bonitinho, mas também tem seus defeitos. Será que estamos sendo injustos ao tentar comparar Maxxxine com a obra prima do gênero que foi Pearl? na realidade não odeio Maxxxine, mesmo que este não acrescente absolutamente nada a franquia, é bom ver Mia em tela e alguns poucos momentos não são esquecíveis (os breves debates do filme sobre puritanismo, pânico moral, conservadorismo, a cena da arma…).
O maior problema é que Maxxxine quer ser um thriller oitentista, mas sem a carga sexual, quer ser um Giallo, mas sem o erotismo (o filme até faz bastante referências sexuais, mas todas parecem plásticas demais para causar algum impacto). Ainda que em diversas ocasiões o filme flerte com os momentos “absurdos” típicos do terror, de alguma forma Maxxxine ainda parece se levar a sério demais, e desse pecado nenhuma sequência ruim do gênero conseguiu se salvar.
Questiono, será que Maxxxine se sustenta numa revisão? o que me manteve entretido na sala de cinema foi a revelação do assassino, que já é meio esculhambada, já que Maxxxine em momento algum tentar criar suspeitos plausíveis ou desenvolver qualquer personagem novo e um consequente clima de suspense, inclusive, o filme tenta solucionar todos os arcos apresentados na primeira metade com essa única revelação, tem quem compre, eu (hoje) não.
-publicado 12 de julho de 2024 no letterboxd @stollendance -
Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar
3.8 369 Assista Agoratem tantos momentos icônicos aqui que ainda não absorvi tudo
-comentário postado originalmente em 12 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Deu a Louca nos Monstros
3.5 251Qual a chance de um grupo de crianças fãs dos monstros clássicos da Universal, encontrem os próprios porque a mãe de um deles comprou o diário de Van Helsing em uma venda de garagem, dias antes de um evento sobrenatural que ocorre de 100 em 100 anos?
Levando em consideração o número considerável de possibilidades que poderiam ser trabalhadas com esse plot, The Monster Squad chega a ser frustrante para o telespectador. O que mais incomoda são os diálogos, parecem várias esquetes de humor sem unidade, resultando em crianças com falas de adultos e referências à cultura pop sem emoção alguma.
No fim, tenho a impressão de que acabei de ver uma paródia dos filmes de aventura oitentistas. Quero dizer, a amizade entre Phoebe e Frankenstein é fofa e, mesmo que curto, o confronto de Drácula com Frankenstein é interessante, mas as crianças não possuem personalidade alguma e são imemoráveis.
Tópicos:
- Comer chocolate do chão deveria ser algo ruim?
- Salvar seus filhos de criaturas do inferno reconstrói seu casamento?
- A adolescente "virgem" lembra muito a Xuxa nos anos 1980.
-comentário postado originalmente em 11 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Frankenstein Criou a Mulher
3.4 21hoje pode parecer muito mais uma novela gótica do que um filme de terror
-comentário postado originalmente em 11 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
A Hora do Espanto
3.6 625 Assista AgoraMe diverti MUITO assistindo esse filme??
Tudo parece que foi feito para te entreter, principalmente se você for um fã de vampiros!
OBS: em certos momentos tem uma tensão sexual que funciona muito bem.
- comentário postado originalmente em 10 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Priscilla, a Rainha do Deserto
3.8 628 Assista AgoraEsse filme me surpreendeu positivamente, eu não esperava que ele fosse abordar temas tão polêmicos, como a AIDS, ainda mais naquela época. Obviamente esses assuntos são tratados de forma leve, o que não impede que sejam realistas.
Por ser de 1994, você provavelmente encontrará inúmeras problemáticas que não eram tão discutidas no século passado. De qualquer forma, Priscilla é um filme sobre família, seja ela de sangue ou suas duas amigas, com quem você viaja pelo deserto em um ônibus lavanda.
-comentário postado originalmente em 10 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Vidas sem Destino
3.7 668gosto das músicas
-comentário postado originalmente em 10 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Melancolia
3.8 3,1K Assista AgoraTerminei recentemente e ainda estou em dúvida sobre o que realmente acho desse filme. Não quero ser injusto e julgá-lo totalmente ruim, então vou elencar alguns pontos positivos:
1. O filme retrata de forma realista a depressão e a ansiedade através de suas duas protagonistas.
2. Kirsten Dunst faz um bom trabalho ao representar o processo de transição da depressão para a melancolia de Justine, mas quem realmente chama atenção é Charlotte Gainsbourg, é possível visualizar todas as inseguranças, anseios e medos de Claire.
Tirando esses pontos, o filme não vai muito além. Se estende com personagens, subtramas e situações inúteis.
Recomendo o filme, se:
- Você for niilista;
- Você for rico ou triste, de preferência os dois ao mesmo tempo;
- Você acreditar que todas as crenças, verdades e valores tradicionais são desprovidos de fundamento, sentido e de utilidade (niilismo).
-comentário postado originalmente em 9 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
Elvira, a Rainha das Trevas
3.4 1,4Kelvira apedrejada por ser gostosa
- comentário postado originalmente em 8 de julho de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
A Casa que Pingava Sangue
3.5 87 Assista AgoraA melhor parte do filme é o título.
Pior conto: O segundo.
Nem ao menos deveria fazer parte do filme, já que não tem relação alguma com a casa assombrada.
Melhor conto: O terceiro.
Crianças e bruxaria são assustadores.
- review postada originalmente em 30 de maio de 2021 na minha conta no letterboxd @stollendance -
O Despertar da Besta
3.8 82Se anteriormente Mojica utilizou aranhas e outros animais peçonhentos em seus filmes, na década de 1970 foi preciso mais do que aranhas e comer carne vermelha na sexta santa para chocar o público.
Aqui o cineasta flerta com a metalinguagem, a trama fala diretamente sobre LSD e sua relação com as perversões sexuais cometidas pelos personagens, uma resposta às críticas de intelectuais da época (fazer cinema no Brasil já é um processo complicado, imagine fazer terror!).
Mesmo entregando o repugnante e o nojento prometido, esteticamente falando é maravilhoso. Também deixo meu elogio ao uso da música nacional.
- review postada originalmente em 27 de maio de 2021 no meu letterboxd @stollendance -