Dirigido por
Duração
"Em decorrência do mal de Alzheimer, os filhos de Dona Zélia chegam a conclusão de que ela não tem mais condições de morar sozinha e com isso decidem pôr o seu apartamento para alugar. Lucas, seu neto caçula, decide filmar o desmonte do apartamento, a fim de fazer uma investigação da sua história familiar, a partir dos objetos que compunham o imóvel".
Sem anúncios
Aproveite o melhor do Filmow sem interrupções
Logo no início, um letreiro: "este é um filme caseiro". Apesar de ser uma descrição sincera, essa admoestação prévia parece limitar a nossa apreciação ao âmbito pessoal, íntimo. E isso causou-me um primeiro problema: como tenho uma relação muito peculiar com o conceito de "família" (desgosto do cunho contratual que é delegado acerca de algumas tradições entre parentes), achei o filme cerimonioso em excesso, num mau sentido. Por mais que a emoção do narrador e de seus pais fosse legítima, algo na relação com a personagem-título soava carregada de algo não tão espontâneo quanto a sinopse deixa entrever. A ponto de, em determinado momento, surgir outro visto: "neste filme, todos se amam". Foi necessário advertir-nos disso. Não que duvidássemos dos sentimentos dos envolvidos, mas o filme - em sua "caseirice" - denuncia o quão programados pelo Capitalismo nós somos, até mesmo naquilo que parece mais individual: as lembranças da avó, vistas de fora, são confundidas com fetichização, e uma das interações entre o diretor-personagem e a sua avó parece uma tarefa de gincana, em dado momento. Ele faz perguntas para ela que parece já conhecer a resposta. E, visivelmente solitária, ela aceita o pacto: responde, encena a si mesma, no afã por demonstrar-se amada para a câmera. Involuntariamente, o filme torna-se o testemunho de quantas representações sociais somos obrigados a fazer diuturnamente, o que fica ainda mais explícito em toda a seqüência do velório: por mais que a voz de Lucas emocione-nos, transmita sinceridade em seu afeto, a empatia com aquelas pessoas parece travada (a despeito do impacto de algumas imagens - vide os hematomas de atropelamento no rosto da mãe). Enquanto assistia ao filme, e comparava o que ocorria ali ao que eu próprio precisarei vivenciar - visto que minha mãe também é idosa - incomodava-me muito com uma barreira instaurada entre o filme e a realidade, mais de uma vez confrontada por intertítulos ("este filme é uma ficção"). Conheço pessoalmente o realizador e acho-o sobremaneira singelo, mas o filme desencavou aquilo que mais desgosto no cotejo com as famílias alheias: a percepção ensaiada de alguns rituais de encontro, advindas de anseios classistas. Sempre que o narrador falava sobre "a casa da vovó", eu enxergava menos a senhorinha carinhosa que não foi abraçada por ele nas imagens e mais uma mulher incapacitada, que vivia no primeiro andar de um apartamento (agora alugado) numa região muito movimentada e barulhenta. O Alzheimer progressivo surge como efeito colateral de uma adesão pouco evitável ao ritmo despersonalizador das rotinas empregatícias. Por mais caseiro que seja (logo, prenhe de amor), o curta-metragem parece assim também: técnico, com hora de começar e terminar, um objeto a ser contemplado em instantes pontuais de "permissão afetiva". Não sei se estou conseguindo fazer-me entender - estou medindo bastante as palavras, para não machucar o neto aturdido pela perda - mas... O filme pareceu-me travado, aquém da emoção demonstrada na fala do rapaz que segura a câmera. Que seja apenas uma impressão torta. Como eu sempre digo (e acredito): quem sabe é quem sente! (WPC>)