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20 Maio 2004Duração
O escritor Chow Mo-Wan retorna a Hong Kong para escrever um romance. Ele se hospeda em um hotel barato em Wanchai, assumindo a personalidade de playboy e conquistador. Chow inicia uma série de relações amorosas com quatro diferentes mulheres que se hospedam no quarto 2046, que fica em frente ao seu.
Enquanto isso, atormentado pelas lembranças dos anos que passou em Singapura, Chow escreve uma história de ficção científica chamada "2046". Na história os passageiros de um trem fazem uma interminável viagem rumo a um destino misterioso, onde esperam reencontrar suas memórias perdidas.
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Tem Alguns Spoilers...
2046: quarto de sexo, ano político, trem para o futuro. Wong Kar-wai leva para as telas uma história que parece memórias vivas de alguém que viveu a sarjeta de sua alma, com drama e paixões reais de um homem... Um espectro da noite, uma sombra vampira que caminhava nos becos em busca de prazer.
Nas trevas desse mundo decadente, no centro dessa névoa noturna, está Chow Mo-wan, um escritor boêmio que veste o cinismo como armadura. Ele transita por quartos de aluguel barato e madrugadas enfumaçadas, cheias de álcool e falsa riqueza, fingindo ser um conquistador implacável, mas agindo como um náufrago emocional, com caráter de cova rasa, que disfarça suas dores nos vícios, esconde seu vazio com sorrisos, e sua fraqueza em sedução. Cada mulher que cruza o seu caminho é um eco doloroso de um passado que ele não consegue enterrar, mas se vinga nelas como se elas fossem assassinas de sua vida infeliz.
Na história, o corredor estreito do hotel parece o mundo de Chow, um microcosmo promíscuo, um lugar onde ele espreita suas vítimas para operar sua vingança emocional através das mulheres que ele atrai para a sua teia. A primeira é a misteriosa Su Li-zhen, vivida pela imponente Gong Li. Ela é o fantasma da dor e do ódio do seu passado encarnado, uma jogadora de luvas pretas que carrega mistério e segredos, e o mesmo nome do seu antigo amor. Chow tenta, desesperadamente, resgatar nela o que já morreu, mas só encontra o eco de sua própria incapacidade de seguir em frente.
Depois, surge a doçura melancólica de Wang Jing-wen, vivida por Faye Wong. Com ela, Chow divide a cumplicidade da escrita, cigarros no telhado e uma parceria intelectual que parecia prometer um futuro mais leve, uma vida conjugal mais feliz. Mas o coração dela já pertence a outro, tornando sua presença um amor inalcançável que ele só consegue possuir através das páginas quase sórdidas que ele escreve.
Mas é com Bai Ling que o filme sangra e pulsa sua artéria com mais força. Numa atuação avassaladora de Zhang Ziyi, Bai Ling se despe de sua armadura de cortesã por amor a Chow, mas colide contra a parede suja e gelada do escritor. A rejeição que ela sofre é o ponto mais doloroso da obra: a tragédia de uma mulher que se entrega por inteiro a um homem que escolheu viver como entulho de uma ruína. Para Chow, ela é o alvo perfeito de sua vingança silenciosa contra a vida infeliz que teve.
Toda essa ciranda de desilusões orbita sob o peso de um número: 2046. Wong Kar-wai usa esse elemento com uma inteligência genial, dando a ele três significados que se fundem na tela:
O Quarto de Sexo: O quarto 2046 da pensão é o espaço físico onde a luxúria, as lágrimas e as madrugadas de escrita acontecem. É a sua tumba, seu confessionário, o lugar onde Chow vive sua vida falsa, morta e infeliz.
O Ano Político: 2046 representa o fim do prazo de 50 anos de autonomia prometidos a Hong Kong pela China após a devolução de 1997. É o ano em que a promessa de "nenhuma mudança" expira. O medo do futuro político, onde a liberdade será congelada, espelha o medo dos próprios personagens de perderem sua identidade.
O Trem para o Futuro: O livro de ficção científica que Chow escreve para esquecer sua dor. No romance, 2046 é um lugar para onde as pessoas viajam de trem para recuperar suas memórias perdidas, porque lá nada muda, e elas nunca voltam de lá para contar onde foram. Nessa ficção, Chow cria androides de reações lentas que habitam o trem espacial e que são a projeção perfeita dele mesmo. Elas demoram a responder ao toque e ao afeto, assim como ele demorou anos para perceber o amor que tinha nas mãos. Chow não escreve para prever o futuro; ele transpõe sua vida real, suas dores e sua sarjeta emocional para uma ficção fria e metálica, sem vida e sem esperança, provando que o ser humano, em qualquer época ou planeta, sempre será prisioneiro daquilo que sente.
Quando "2046" acaba, ele nos deixa com uma sensação de boca seca. Para quem assiste à obra esperando a redenção romântica tradicional, na expectativa de que Chow finalmente aprenda com seus erros e encontre o porto seguro nos braços de Bai Ling ou das outras mulheres, o diretor Wong Kar-wai entrega um desfecho árido e realista. Não há finais felizes para os que escolheram fazer morada na própria dor.
Nesses mundos de 2046, Chow termina como começou: sozinho, trancado em seu cinismo, nas sombras de sua luxúria, da sua promiscuidade e dos vícios que o fizeram incapaz de desembarcar do trem das suas memórias. Mostrando que a relação mais dolorosa do filme não é com nenhuma de suas amantes, mas sim a dele com o espelho podre de sua alma presa.
A descida ao inferno pessoal do protagonista é traduzida em tela por uma produção artística viva, que apresenta o cinema noir sob uma perspectiva puramente oriental e existencial. A direção de Wong Kar-wai nos faz mergulhar na intimidade desses personagens como se estivéssemos invadindo seus segredos mais ocultos.
A fotografia é um espetáculo à parte: as cores saturadas, os tons vermelhos e verdes que pulsam na tela sob a fumaça de cigarro cortada por feixes de luz, criando uma atmosfera sufocante e hipnótica, como um sonho, onde as sombras parecem engolir os atores.
No meio desse mundo envolto em brumas e sombras, o filme contrasta de forma brutal suas duas eras. Enquanto os anos 60 são quentes, suados e decadentes, as sequências do futuro no trem para 2046 trazem um visual melancólico e quase cyberpunk. Os efeitos visuais das androides e da estrutura metálica do expresso futurista não buscam o espetáculo tecnológico vazio, mas sim o isolamento. É um futuro frio, de luzes artificiais e neons distantes, que serve como o cenário perfeito para o congelamento da alma de Chow.
"2046: Os Segredos do Amor" é um filme foda porque se recusa a ser fácil. Ele usa a beleza plástica e a melancolia do bolero para nos arrastar numa dança de drama, sexo e ficção, até a sarjeta da alma despedaçada de alguém que é o resto do mundo, e que nos faz lembrar de que o futuro só começa de verdade quando temos a coragem de enterrar o nosso passado.
"Siboney, yo te quiero, yo me muero por tu amor... Ven aquí que te quiero, y que todo tesoro eres tú para mí."
O filme conta uma parte da vida do protagonista de “Amor à flor da pele”, após os acontecimentos do filme. Enquanto Amor à flor da pele apresenta uma sensualidade nas entrelinhas que acaba sendo mais interessante e conquistando quem assiste, esse outro é menos contido - mas combina com a estética e a mensagem que o filme quer passar. Além disso, o fato de a história que o personagem principal escreve se entrelaçar às suas histórias se torna muito interessante e, ao mesmo tempo, bem moderno. As técnicas de composição das cenas também são muito boas. Recomendo totalmente.
Um filme padrão Wong-Kar-Way ótima trilha, fotografia, takes lindos e um ótimo elenco como sempre. Embora eu ache um ótimo filme, acho ele inferior ao anterior que é uma obra-prima achei um pouco confuso em alguns momentos e tive um pouco de dificuldade para entender quem era quem ás vezes. Gostaria que o diretor continuasse fazendo filmes em sequência nunca canso do estilo dele.
"O amor é uma questão de tempo. Não adianta encontrar a pessoa certa cedo demais, nem tarde demais."
Filme belíssimo sobre amores que foram e que poderiam ter sido. Gostei mais desse que de Amores expressos e Anjos caídos. Meu preferido desse diretor continua sendo Felizes Juntos.
A partir técnica impecável, porém um filme chato e maçante.