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Hang the DJ – O espetacular episódio de Black Mirror
A força do amor genuíno quebra qualquer sistema
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Já assisti Hang the DJ algumas vezes. Me lembro que a sensação que tive da primeira a última vez foi a mesma. Espetacular. Inspiradora. Na época que eu vi pela primeira vez eu fiz o questionamento: Será que poderá existir um sistema que de fato, através de informações coletadas durante diversos processos de relacionamentos em um âmbito controlado poderia encontrar um par ideal, infalível? Seria então o amor um processo apreendido, apenas uma palavra que designa uma conexão profunda entre pessoas? Sim e não foram respectivamente as minhas respostas, depois de um tempo contemplando a obra prima que este episódio representa.
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Em seguida, optei por conversar com uma amiga sobre o episódio, trazendo essas questões. Me lembro que ela disse uma coisa que faz todo sentido: Porque uma pessoa precisa passar necessariamente por experiências ruins e difíceis para encontrar a felicidade e o amor? Refleti sobre isso. Alegria não pressupõe algum sofrimento prévio, e isso é fato. Mas o sistema em Hang the DJ faz isso. Vai refinando a relação de Frank e Amy com essa premissa. No início, no encontro deles prévio, é nítido que eles se sentem confortáveis, plenos, seguros, como se aquela interação entre eles fosse durar pra sempre. Mas era só por 12 horas, e assim sendo, logo em seguida, o sistema os designou para outros relacionamentos longos onde imperam, do lado de Frank, o desprezo e o nojo, e do lado da Amy, a monotonia e a indiferença. E depois de 1 ano (e um encontro ocasional entre Amy e Frank), eles voltaram a ser pareados pelo sistema.
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Na primeira vez que vi eu não liguei os pontos, mas depois de ter visto todo o episódio eu me dei conta de que a única coisa que o aplicativo está fazendo é testá-los, confrontá-los, colocando em prova o sentimento de um pelo outro colocando entraves e dificuldades em contraposição a um suposto sistema infalível. Então percebi que não é que o sistema pressuponha que eles precisam ter mais experiências ruins para que assim possam valorizar com mais propriedade as experiências boas que tiveram e assim refinar o relacionamento, ele apenas coloca o amor em prova o tempo todo para que tanto Frank quanto Amy tomem uma decisão em relação ao próprio sistema. Dessa forma, o objetivo do sistema é saber se o amor construído lá naquelas 12 pequenas horas é tamanho que possa superar as inflexíveis regras de um sistema, de modo a sobrepujá-lo. E bom, quando o amor genuíno acontece, não há sistema que o limite. Porém essa é a premissa fundamental do sistema! A rebelião contra ele é sinônimo de sucesso e a obediência a ele sinônimo de fracasso, o que reforça minha ideia de que um sistema bem delimitado e dentro de certos parâmetros pode ao menos contribuir para que se encontrar um par ideal.
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Então percebi que não é que o amor possa ser delimitado, quantificado, ou que se trate de uma simples conexão vívida entre duas pessoas, como uma interpretação de um resultado de reações químicas cerebrais vinculadas ao desejo, ou mesmo como o resultado de uma sublimação. Ainda acredito que o amor é a maior forma de transcendência que existe, a maior expressão de um encontro genuíno, a forma ímpar de encontrar a unicidade do outro e assim fazê-lo de maneira a multiplicar a alegria, no caso do amor apaixonado, pluralmente. E nenhum sistema no mundo poderia delimitá-lo, expressá-lo de forma plena. Porém, Hang the DJ demonstra que é possível aproximar duas pessoas por suas características idiossincráticas específicas, e que através delas torna-se maior a probabilidade de que aquelas pessoas que tem afinidades desenvolvam esse amor, o que em parte nos mostra que o amor, ainda que não possa ser medido em dimensões fundamentalmente humanas por objetos, algo que significaria objetiva-lo e reduzi-lo a uma mera coisa, ainda pode ser tendenciado pelas mais diversas formas de expressão humanas desenvolvidas, dentre elas aquelas que se baseiam na refinada precisão matemática de um app.
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No campo da hipótese, acredito que o sistema não os juntou tão aleatoriamente como Amy sugeriu, e também certamente ele não os venceu pelo cansaço. Tampouco parece ser um sistema refinado e ultra técnico que fez comparativos entre comportamentos, pensamentos e reações, para determinar quem combina com quem, como sugeriu Frank. Parece mais ser um programa, intuitivo e simples, que de maneira precisa compreende as relações humanas e suas configurações e a partir delas coloca um sentimento genuíno demonstrado em xeque através de uma capacidade unicamente humana: tomar uma decisão frente àquilo que nos limita, nesse caso, o aparente inflexível sistema. Frank e Amy tinham leveza e bom humor entre ambos, e se relacionavam de uma forma que provavelmente o sistema identificou como algo parecido com compatibilidade, testando isso durante todo o episódio através da separação, das experiências.
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É provável que a curiosidade de Frank em saber o tempo de duração tenha sido programada, levada em conta, afinal, a curiosidade é uma prerrogativa humana, e o sistema pode ter identificado de alguma forma que nas características de personalidade de Frank, apresentava-se uma característica curiosa que eminentemente o faria quebrar o pacto que eles (Frank e Amy) fizeram de não olhar o tempo, e assim, mais uma vez, os colocariam em teste.
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Só que durante o episódio, eu fiquei com uma coisa na cabeça. As reações dos outros eram sempre robóticas, e eles também não faziam outra coisa a não ser interagir naquele sistema. Então quando veio a cena que a Amy joga o “Coach” fora e diz pra ele contar até quatro, eu percebi que quando ela jogava as pedras no lago, sempre batia quatro vezes antes de afundar, e daí veio o estalo: Isso é um programa! Os próprios Amy e Frank eram parte do sistema, uma das 1000 consciências que eram testadas, apenas 1% de um App! Adorei o plot twist, e então percebi que tudo fazia sentido. O App. Testava as consciências de cada um, e assim determinava se o par era mesmo ideal. Com isso a questão do tempo perdido em relacionamentos se dissipou, já que não eram as duas pessoas em si, mas suas consciências que foram de alguma forma copiadas. Deu um nó na minha cabeça, achei fantástico e reforçou todas as considerações que eu havia feito antes. O diálogo final entre Amy e Frank foi belíssimo, com ambos em perfeita cumplicidade em prol de superar o sistema, o amor em seu ápice, por que de fato desde que eles se conheceram o sistema tentou separá-los e o legal é que eles se dão conta disso de uma forma muito natural e completamente decididos em prol de um sentimento mútuo, de um doar-se e desvincular-se de si mesmo em prol do outro, do significado construído, do amor em forma de magia.
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Hang the DJ é meu episódio favorito de Black Mirror e é sem dúvidas um dos episódios mais espetaculares de series que eu já vi. E pra mim, a mensagem principal é: “O amor transcende àquilo que é sistemático, embora um sistema preciso possa tendenciar a ocasião de um amor genuíno.” A vida é feita de momentos, e se puder haver desígnio e criatividade juntos, o momento, ainda que momentâneo, instantâneo e imediato, se torna espiritualmente eterno.
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Últimos recados
oi Diego.
Prazer em conhecê-lo espero que possamos desenvolver uma amizade.
Abraço
André
É um filme bom no geral, com uma trilha sonora marcante, bem fiel ao universo da F1 em termos de enredo e efeitos visuais. Porém, também é um filme que é pouco imersivo, principalmente para um fã de Fórmula 1, na medida em que o progresso da fictícia equipe APX é surreal demais pra se comprar a ideia. É preciso uma gigantesca suspensão de descrença.
Em alguns momentos eu pensei: "Esse filme parece aquele filme do Rocky Balboa de 2006, mas no lugar de boxe, temos automobilismo"