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“Não há nada para escrever. Tudo o que você precisa fazer é se sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar” – Ernest Hemingway.
Quando a protagonista recebe o manuscrito de seu ex-marido, que até então ela acreditava ser um escritor que não iria para frente, ela é fisgada já nas primeiras linhas, e assim vai até o final do livro. Se antes ela achava que o ex-marido era fraco, o livro é como se fosse a confirmação do contrário. É criativo e forte. Em uma das cenas, a personagem principal (Amy Adams), diz que o ex a chamava de “Animal Noturno”, e o livro tem o título “Animais Noturnos”. Possivelmente, os animais noturnos, que são retratados como assassinos e estupradores, são a analogia daquilo que o personagem de Jake Gyllenhaal sentiu ao perder a mulher para um outro homem, dado que ele constata sob a chuva, vendo os dois em um carro. Há uma cena em que Susan (Amy Adams), diz que se arrependeria de abortar o filho de Tony (Gyllenhaal), e é justamente o momento que Tony os flagra juntos. A filha parece não ter sido abortada, vemos o momento em que Susan liga para ela, mas ela não tem conhecimento de que Tony é seu pai, assim como a figura do policial Bobby, que diz não ter esposa, mas tem uma filha que nem sabe de sua existência. Não sabendo desse fato, Tony possivelmente escreveu o livro como uma metáfora, onde sua filha foi morta e também sua mulher – a família morta é a família que Tony perdeu ao se separar da inconstante esposa.
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Em uma cidade fria, de paisagens ermas e distantes, as relações sociais seguem rumo semelhante, ríspidas e diretas, atravessam os ouvidos como o mais profundo frio. É curioso perceber como todo contraste é construído no ápice do filme, quando vemos a casa do personagem principal em chamas, momento com tons de laranja e vermelho, opõem-se diretamente ao clima central do filme, que é sumamente de tonalidade branca, gelada. São justamente as chamas de um passado distante que movem o problemático protagonista, desmotivado e provavelmente depressivo. O fogo interno que o desloca é o contraste maior da cidade natal que o consome no grosso gelo de memórias indesejáveis. "Manchester à Beira-Mar" é, substancialmente, um filme sobre a memória e a batalha que travamos contra as lembranças mais desconfortáveis.
O resto no site: https://eliasdourado.com/manchester-beira-mar-2016-globo-de-ouro/
Últimos recados
Fala meu querido, onde posso ler mais dos seus poemas?
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Gábor Bódy é um dos principais nomes do cinema húngaro. Traduzir seus três principais filmes não foi uma tarefa fácil. Foram quase exatas 4000 entradas, e não quaisquer, algumas bem complicadas de se traduzir. É com muito prazer que trago a síntese de sua obra pela primeira vez no Brasil, ao menos no mundo virtual. Bódy morreu com apenas 39 anos e erigiu películas colossais.
Comecei seu trabalho pelo monumental Narciso e Psique, que filme espetacular! Mais de 4 horas, legendas difíceis... sensacional. Tendo em visto o seu teor mítico, Narciso nos evoca tudo aquilo que é corpóreo, uma estética do corpo. Psique, como no mito de Eros, representa a alma, suas paixões e conflitos. Os dois tentam se enlaçar cada vez mais, a independência dos dois, porém, se sobressai, de modo que o toque e a relação são falhas, mas não o espelhamento. Os dois invertem os papéis, o corpo quer conhecer a alma e vice-versa, isso sem a necessidade de uma união.
Os sofrimentos de Psique envolvem a carne, o sexo, a violação – o sangue não aprisiona a alma, mas a liberta, mostra ao impalpável o vociferar de um prazer oculto, a sensação de estar aí, no mundo. Narciso, ao contrário, busca o transcendental, um horizonte capaz de fixar seus escritos, um mundo onde as nuvens sejam seus quadros, contemplados por todos os mortais.
Narciso é essencialmente espelho, como no mito. Para Lacan, em sua teoria do imaginário, é precisamente o narcisismo o movimento primeiro para a constituição de um “eu”, aquele contemplar de si mesmo dentro da mente e diante do espelho. Aquela imagem refletida mostra a si a presença ontológica, uma estrutura vivente, espécie de “eu ideal”. Seu corpo se dissolve pelo mundo, em imagens, fragmentos aos olhos dos outros. A alteridade revela o “eu real”, aquele que é presentificado. Psique é aquela que tudo aguenta, a alma. Vaga por entre o silêncio e a balbúrdia à procura de repouso. Sozinha, a alma não tem protagonismo, é mera luz obliterada pelos temerosos cantos escuros. Frente aos outros, porém, consegue acumular os vislumbres da existência, os desejos do corpo.
Tomemos como exemplo Descartes e Hobbes. O primeiro assume um dualismo entre corpo e alma, o segundo um monismo corpóreo. É mister lembrarmos que, a partir de Descartes, a noção de uma pessoa “psicológica” recebe estatuto ontológico, posto que o “eu” indaga a sua própria existência e a conclui como dado claro e distinto. Em Hobbes, tudo é corpo, mesmo a imagem do “corpo” de Deus, as paixões se explicam através do movimento, assim como o próprio pensar. A constituição de seu pensamento se dá na física.
Narciso e Psique vivem nessa realidade hobbesiana, indo até os limites do corpo com o objetivo de encontrar um ideal estético. Para Psique, a beleza de seus poemas está no concreto, no erótico, na capacidade de fazer o leitor sentir que se deita com ela. Para Narciso, o belo é abstrato, o etéreo, a metáfora. Um tem ao outro dentro de si, e por isso mesmo não se misturam, a alma está em Narciso e o corpo em Psique, há uma certa completude egoísta, em especial na monomania de Narciso, preocupado somente com os seus escritos. Quanto mais Psique se aproxima, tanto mais o espelho torna distante, o oposto ocorre. É preciso pô-lo em esquecimento para que este reflita outra imagem, pois esquecer é fadar o imaginário à morte.
Para o antropólogo Gilbert Durand, o imaginário se forma com a consciência da morte. A humanidade cria imagens, símbolos, arquétipos, mitos, tudo isso como tentativa de reverter a morte. Heidegger dizia: “a possibilidade da impossibilidade”. Esse impossível nos chama ao “cuidado”, ao querer cuidar, comunicar. Essa comunicação forma o imaginário, formas de linguagem que dizem o outro, alegoria. Agoreuein é justamente “dizer o outro”, e esse “outro” é comunicado aos outros. Tudo se põe em relação de alteridade.
Além das situações metafísicas, essa obra-prima de Gábor Bódy também se mostra feminista, pondo Psique em sua plena liberdade intelectual e sexual. O sexo, como a guerra, só funciona com uma previsão de paz. O orgasmo revela essa abertura ao mundo, uma declaração de tempos mais tranquilos. Se não funciona, a guerra surge posteriormente, nas tensões sobre aquilo que é ausente.
Achei interessante o fato de haver vários narradores. Parece que um não fica contente com o outro e faz questão de reafirmá-lo. Isso me pareceu uma forma de reforçar os diferentes estados do corpo e da alma, eles não são tão simples para um único narrador, não há onisciência por parte de quem narra. Como o filme se divide em três partes, classifiquei cada uma delas da seguinte maneira: alma poética, alma política e alma errante. Tendo em vista que Psique é a personagem principal, e não Narciso, cada capítulo pode ser assim categorizado. Na primeira parte, temos o amor pela poesia, a ânsia da alma em tudo ver, tudo experimentar. Esse desejo acaba desencadeando na política, reino dos outros, e é neles que de tudo se experiencia. Já a terceira parte reflete essa errância, as viagens terminais da alma por aquilo que acha mais necessário.
Há uma clara destruição do poético pelo político, a peça de Narciso é destruída pelo símbolo do pilar grego em ruína. Narciso e Psique se unem na morte, o corpo e a alma, ambos vão embora, a união se dá na impossibilidade. É interessante sabermos um pouco sobre Sándor Weöres, o autor do livro. Seus poemas receberam adaptações musicais por Zoltán Kodály e Ligeti, o que mostra a sua relevância no cenário. O filme é uma verdadeira obra de arte, visual e filosófica. Está no panteão dos grandes filmes húngaros, ao lado de obras como as de Miklós Jancsó e Béla Tarr. Não deixem de ver esse filmaço!
Minha tradução disponível em: makingoff.org