Últimas opiniões enviadas
(08/11/2025)
Comentários soltos a respeito do filme:
- Talvez o longa sobre permanência da memória e a necessidade que esse movimento exerce na resistência da história mais perspicaz da filmografia do Kleber desde Paz a Esta Casa. Duas cenas fundamentais nesse processo envolvem o filho de Armando/Marcelo: a primeira, ao personagem do pai ler a carta em que o filho afirma já estar "esquecendo da mamãe" e a segunda, no presente, onde o mesmo já adulto pontua não lembrar de quase nada do pai. Mas, para a minha grata surpresa, essa dinâmica está firmemente consolidada em suas imagens invasivas que a montagem sobrepõe em segmentos pontuais, em fotos e retratos que a câmera faz questão de enfatizar em zooms ou aproximações, está no cerne do conflito dramático que faz o protagonista de Moura continuar em Recife, culminando em sua tragédia - aquela que o dispositivo não filma, mas reverbera na manchete de um jornal, visto em uma digitalização pelo notebook.
- Pensando nessa perspectiva da permanência da memória, é curioso que o último plano do filme seja mais representativo a respeito do abandono dos cinemas de rua e a reutilização de suas estruturas do que Retratos Fantasmas inteiro. O lampejo de sagacidade que faltou ao Kleber naquele documentário é recuperado aqui.
- Fantástico como é um filme entregue a um sentimento vertiginoso de paranóia constante, potencializada por uma decupagem que se apropria de uma meticulosidade na organização da mise-en-scène, mas sempre instiga suas imagens com um acúmulo de atmosfera. A analogia mais simplória são as alusões a tubarão: existe um temor iminente de algo que se aproxima lentamente, que vai intimidando até sua catarse definitiva no clímax (ou melhor: anti-clímax).
- Kleber trabalha seu acúmulo justamente em uma montagem sobrecarregada de planos e imagens que se atropelam e se sobrepõem - o que é paradoxal, uma vez que é um longa muito positivamente controlado, até suave em como desdobra cada ação até a terceira parte; sua câmera se reorganiza pelos espaços, sempre muito fluida em percorrer os cenários seguindo os eventos, continuamente desconfiada de gestos inofensivos, olhares, entradas e saídas de personagens no campo e assombrada por aquilo que reside no extracampo. Há uma recorrência em close-ups médios que gerenciam esse enclausuramento e destacam ainda mais os olhares nervosos de Armando para o seu redor.
- Muito vai se destacar a performance de Wagner Moura - extraordinário em transmitir a exaustão e a carga de dor e melancolia que se fundem ao receio de seus olhares em alerta - e, por isso mesmo, acho válido abrir um espaço para ressaltar o flashback com a Alice Carvalho. Se existia alguém com dúvida do talento dela, essa curta sequência é a resposta.
(Revisão - 24/01/2025)
Mais do que um cuspe declarado a todas as más tendências propagadas e enfiadas goela abaixo do público nos quase 20 anos da soberania industrial da Marvel/Disney e da mancha nociva da trilogia Batman do Christopher Nolan - que resultou no escárnio dos espectadores casuais e de uma parcela malfadada da crítica pós-Ebert acerca de inúmeros trabalhos desmerecidos por aquilo que eram, em essência, sua proposta artística - , Madame Teia é virtuoso para além da sua inserção no contexto amplo em que foi lançado - suas formas, contornos e mecanismos são os mais expressivos possíveis; sua Nova York é vivaz, pulsa energia e exuberância de uma realidade fantástica seja nas vielas e avenidas até mesmo as luzes dos prédios através das janelas do apartamento de luxo do Ezequiel.
O mérito de S.J. Clarkson aqui é pensar uma narrativa fundamentada no movimento uniforme das coisas, onde tudo está em constante progressão. Isso vai desde a premissa - em resumo, é uma larga perseguição de gato e rato durante duas horas e das maneiras mais essencialistas possíveis; não existe grandiloquência além de uma estrutura primitiva que posiciona um antagonista implacável na caça de seus alvos e as investidas da protagonista para manter as três jovens em segurança - até o modo como a cineasta trabalha com a decupagem: sua câmera estabelece uma presença constante em movimentações circulares, zooms, travellings e planos holandeses nessa reafirmação de uma correria desenfreada pela sobrevivência, ampliando o peso desse avanço incontrolável nesse jogo de caçador e presa.
Essa interferência que o movimento estabelece no tempo - da cena, das imagens em sequência, da progressão emocional da caçada de Ezequiel - é sentida também no trabalho que Clarkson faz ao lado da montadora Leigh Folson Boyd em jogar com as variantes do futuro decididas no presente através das fusões e transições que confundem a materialidade dos acontecimentos e impulsiona essa aceleração da temporalidade dos segmentos. É, talvez, o mais objetivo dos filmes da Marvel/Sony justamente por se apropriar desse fluxo para dispor seus vínculos dramáticos - a solidão de Cassie, o destino amaldiçoado de Ezequiel - sem aprofundamentos densos, mas com resoluções mais práticas, as vezes em um só plano.
De resto, o que já foi dito inúmeras vezes: é delicioso ver uma obra com tamanho gosto por se sujeitar aos prazeres mais antiquados para um público mal-habituado a filmes que se pareçam filmes e não um stand da San Diego Comic Con. Sem medo de frontalizar nada e contra tudo aquilo que é (mal) institucionalizado como "bem fazer". Sem temor de charfundar na plasticidade mais edificante possível.
(01/09/2025)
Um tanto lamentável como quase todas as discussões de Sinners povoam mais as linhas do roteiro do que a materialização em imagens que consigam dar corpo ao que almeja discorrer. Coogler encontra alguns bons momentos em sua caminhada, até mesmo em como vai preparando o terreno em antecipações bem enervantes - a abertura com aquela dimensão mitológica e as tensões que afunilam a "morte" de um dos gêmeos na festa ou a quase entrada de um vampiro depois que a problemática se firma - , mas sua confiança parece mais nessa pomposidade estilizada, de planos sinuosos mais interessados em um embelezamento estético do que uma funcionalidade de fato. Sobra instantes que pedem uma firulagem mais contida de decupagem e um tempo maior para firmar alguns laços que vão ser vitais - a dinâmica dos irmãos e a profundidade emocional mesmo soa mais verbalizada do que executada.
E isso é uma constante no longa: muito mais é falado do que expresso. O discurso sobre a presença da música na cultura afroamericana pelas décadas estaciona em alguns monólogos esticados e, quando finalmente encontra espaço para ser concretizado, resume-se a uma cena tão hiperbólica que atinge a redundância. As coisas ficam mais instáveis quando a narrativa se abre graficamente para o horror; o elemento vampiresco da narrativa até eclode com alguma tensão inicial na primeira aparição da Hailee Steinfeld transformada, mas vai perdendo potência e até mesmo o encanto a medida que avança - e de novo, servindo como mecanismo de regurgitar linhas do script, mas nunca alinhar tais diálogos com suas imagens. O próprio confronto do clímax se inicia nessa antecipação bem delineada, mas resolve isso em um set-piece de ação pouco imaginativo de suas possibilidades e muito mal-iluminado - compreendo a baixa iluminação pelo contexto, mas existe a diferença entre pouquíssima luz e um breu tão extremo que fui forçado a me aproximar da tela pra enxergar em certas cenas; mais uma herança malfadada desse hiper-realismo em Hollywood.
Se muito é comentado sobre a crise estética na atualidade, Sinners me fez ponderar que essa veneração à estética em si também é uma crise: afinal, do que adianta tantas composições visuais estilisticamente vistosas se quase nunca encontram uma ressonância? Do que serve uma "fotografia bonita" se tampouco ela me comunica algo acerca daqueles personagens? Do que adianta a potência da imagem se ela existe apenas por um certo encantamento primário de formas que, de tão "belas" soam mecânicas, higienizadas demais em algum grau? Não é a monstruosidade que a cinefilia performática amou atirar ódio gratuito e desmedido, mas queria ter experienciado essa obra na qual vocês se apaixonaram.