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Preparativos para entender o mundo de Red Dead Redemption e mitologia do velho oeste americano. 1/?
A cena das crianças se divertindo com os escorpiões sendo atacados pelas formigas até morrerem já traz um certo tom do filme: a violência é observada quase como entretenimento. Em seguida a gente vê o massacre de vários inocentes e luta mortal entre bandidos e autoridades, os adultos não são tão diferentes das crianças, apenas brincam com violência em escala maior
Chave de leitura 1: quando você terminar o filme, volte e assista de novo os 15 primeiros minutos. O final “fecha” o começo: é um ciclo. E isso combina com a sensação de inferno cotidiano, meio como a ideia de Dante como se a rotina da perdição fosse sempre a mesma volta, o mesmo corredor, o mesmo erro retornando.
Chave de leitura 2: assista de novo além dos 15 minutos (depois de algumas semanas ou meses), mas com uma hipótese na cabeça: o professor e o duplicado são a mesma pessoa duas faces, dois impulsos, um só sujeito. A partir daí, dá pra notar algo interessante: as mulheres parecem enxergar “um homem só”, mesmo quando ele tenta separar as coisas.
Spoiler leve:
Da perspectiva da esposa, o telefonema da cabine pública pode funcionar como um tipo de “álibi emocional”: ele mesmo liga pra casa dele para “performa” alguém que não é ele. Para nos enganar acreditar nele, o diretor justa põe ele ligando pra ele mesmo e a gente interpreta como o duplicado, isso seria criar um duplicado com o “efeito kuleshov” justapondo o duplicado falando com ele, mas pra sua esposa pode ser a outra, por isso ela pergunta “você tá mentindo pra mim?”. Ela lê aquilo como mentira , a tentativa de dividir uma vida que, na prática, é uma só.
Da perspectiva da outra mulher, tem um ponto ainda mais cruel: ele nunca diz que é ou foi casado. Ou seja, a própria realidade afetiva do personagem é rachada e ele administra a rachadura por omissão o que causaria uma crise de identidade masculina.
No fim, como se o caos fosse uma ordem esperando ser decifrada, o personagem está preso numa teia sistematicamente bem feita. Uma teia tem lógica, tem padrão, mas, pra quem está preso nela, essa “ordem” vira desespero. A teia é o medo se percebe o canalha que é, e também o caos que sufoca.
Uma terceira chave de leitura (que acho muito forte) é a crise de identidade masculina virando terror psicológico. Villeneuve pega o núcleo do Saramago e transforma em pesadelo: não só “quem sou eu?”, mas “quem eu finjo ser?”, e o pânico de ver a própria máscara ganhar corpo.
E aqui dá pra dizer sem exagero: o livro e o filme são dois acertos, cada um no seu idioma. No livro, a crise é mais existencial no geral (não só masculina, mas a masculina também tá ali), e o “terror” é mais o espanto filosófico da identidade. Tem também o personagem do “bom senso”, que funciona muito bem ali, mas não caberia do mesmo jeito no cinema.
Você não precisa ler o livro pra ver o filme e também não acho que um seja “melhor” que o outro. São experiências diferentes, que podem ser degustadas separadamente, e que juntas ficam ainda mais ricas. Saramago eu amo; Villeneuve, nas adaptações, costuma ser coerente com o tipo de história que quer contar e aqui ele foi cirúrgico.
Últimos recados
Hey bem vindo! :)
Opa
Preparativos para entender o mundo de Red Dead Redemption e mitologia do velho oeste americano. 2/?
Que filme bom! moderação em tudo; pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no
torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade o que
engrandece a ação (Hamlet falando pro atores) A questão de ter uma luta de terras e valorização futura por conta da passagem de trem de plano de fundo de roteiro mostra como uma história de vingança pode ser bem articulada com as questões de impactos na história, socias e em nossas vidas. É claro tem varias questões aqui de formação do mito dos desbravador Estadunidense e tals. Mas assim, mesmo você não sabendo nada disso, é uma boa história contada, fiquei muito reticente em assistir esse filme e achar ele bom porque só uma galera mais velha que eu fica falando desse filme de maneira nostálgica e é uma galera que gosta do filme Bons Companheiros ( que não meu tipo de filme favorito). Mais Era uma vez no Oeste é filme bom, pode assistir. Tem até elementos que vejo influenciou na filmografia de novelas brasileiras dos anos 80 e 90 que fui percebendo