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Crítica – Prólogo 1/9
Assim: as atuações são boas, e há momentos em que a série funciona. Mas ae minha pergunta é: o diretor os roteiristas tava com muito boleto pra pagar? ae eles pensaram assim "deixa eu pegar esse trabalho aqui ae vou fazer o mínimo só pra quitar uma dividas que tenho" como se o objetivo fosse entregar um produto competente o suficiente para cumprir tabela, sem ambição real de aprofundar o que o próprio tema exige.
A minha pergunta mais profunda é: que história, afinal, eles queriam contar aqui?
Tava lendo uma matéria na Veja falando que o diretor disse que se inspirou no mundo do crime do Rio e queria contar só história Mirna e da Suzana Guerra e ainda a matéria disse que eles descrevem isso como a trama da máfia brasileira.
Só que aí vira contradição pura: como você promete “máfia brasileira” e reduz o centro da narrativa a uma treta familiar, deixando todo o resto como decoração? Cadê o peso social disso, as engrenagens, o custo pra cidade, a política, o dinheiro circulando, o medo como administração do cotidiano? Como você chama de “máfia” e não fala sobre as contradições que isso traz pra sociedade? ou então fala que não é uma história de máfia e deixa gourmetizado mesmo
Mesmo ela podendo ser boa (o suficiente pra pagar os boletos) ela chega a ser medíocre e profana ao falar que se trata da máfia brasileira ao querer gourmetizar isso. A série deveria assumir esse recorte com honestidade, sem vender a ideia de “máfia brasileira” como se fosse um retrato amplo do fenômeno. Do jeito que está, o resultado soa “embelezado” e superficial: uma embalagem forte para um conteúdo que não sustenta o peso do que anuncia. E por isso, mesmo sendo tecnicamente aceitável, termina medíocre, não por falta de potencial, mas por escolher o atalho do rótulo grandioso sem entregar as implicações que ele exige.
Eu acho isso muito triste, o problema centra é a direção e os roteiristas. Vou destrinchar essa crítica episódio por episódio aqui
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Hey bem vindo! :)
Opa
Chave de leitura 1: quando você terminar o filme, volte e assista de novo os 15 primeiros minutos. O final “fecha” o começo: é um ciclo. E isso combina com a sensação de inferno cotidiano, meio como a ideia de Dante como se a rotina da perdição fosse sempre a mesma volta, o mesmo corredor, o mesmo erro retornando.
Chave de leitura 2: assista de novo além dos 15 minutos (depois de algumas semanas ou meses), mas com uma hipótese na cabeça: o professor e o duplicado são a mesma pessoa duas faces, dois impulsos, um só sujeito. A partir daí, dá pra notar algo interessante: as mulheres parecem enxergar “um homem só”, mesmo quando ele tenta separar as coisas.
Spoiler leve:
Da perspectiva da esposa, o telefonema no público pode funcionar como um tipo de “álibi emocional”: ele liga pra casa e “performa” alguém que não é ele, pra depois quando o duplicado liga ele o diretor usa o famoso "efeito kuleshov" justapondo o dulicado falando com ele, mas pra sua esposa pode ser outra, por isso ela pergunta "você tá mentindo pra mim?". Ela lê aquilo como mentira , não só fato, mas tentativa de dividir uma vida que, na prática, é uma só.
Da perspectiva da outra mulher, tem um ponto ainda mais cruel: ele nunca diz que é ou foi casado. Ou seja, a própria realidade afetiva do personagem é rachada e ele administra a rachadura por omissão o que causaria uma crise de identidade masculina.
No fim, como se o caos fosse uma ordem esperando ser decifrada, o personagem está preso numa teia sistematicamente bem feita. Uma teia tem lógica, tem padrão, mas, pra quem está preso nela, essa “ordem” vira desespero. A teia é o medo se percebe o canalha que é, e também o caos que sufoca.
Uma terceira chave de leitura (que acho muito forte) é a crise de identidade masculina virando terror psicológico. Villeneuve pega o núcleo do Saramago e transforma em pesadelo: não só “quem sou eu?”, mas “quem eu finjo ser?”, e o pânico de ver a própria máscara ganhar corpo.
E aqui dá pra dizer sem exagero: o livro e o filme são dois acertos, cada um no seu idioma. No livro, a crise é mais existencial no geral (não só masculina, mas a masculina também tá ali), e o “terror” é mais o espanto filosófico da identidade. Tem também o personagem do “bom senso”, que funciona muito bem ali, mas não caberia do mesmo jeito no cinema.
Você não precisa ler o livro pra ver o filme e também não acho que um seja “melhor” que o outro. São experiências diferentes, que podem ser degustadas separadamente, e que juntas ficam ainda mais ricas. Saramago eu amo; Villeneuve, nas adaptações, costuma ser coerente com o tipo de história que quer contar e aqui ele foi cirúrgico.