Sudeste da Ásia, 2034. Só há escuridão. O sol não aparece. Após grandes erupções vulcânicas no mar de Celebes, os loucos governam países, comunidades, enclaves e cidades. Epidemias cataclísmicas devastaram o continente. São milhões de mortos e milhões de pessoas desaparecidas.
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Um retrato de governo totalitário e militarizado, em um futuro próximo onde o sol nunca nasce, uma pandemia de gripe conhecida como "assassina das trevas" devasta a população, cuja memória é afetada, drones patrulham as ruas, enquanto mulheres disputam vagas de trabalho com robôs e são submetidas a abusos físicos terríveis.
Exceto pela presença dos drones, nada parece estar diferente no 'micro'; dentro das casas, nenhum produto hipertecnológico, tudo segue parecido com a realidade que conhecemos. São abordados a importância da memória e do patriotismo da nação filipina em face da forte influência do ocidente, o que abre caminho para o governo fascista imposto pelo presidente Nirv.
A fotografia p&b em alto contraste com linhas bem definidas evidenciando os tons mais escuros, injeta beleza nos planos longos e distantes que o diretor usa, dilatando o tempo. Diaz nega as convenções de decupagem, plano e contraplano, movimentos de câmera e closes, abrindo o quadro ao máximo, sempre vemos a totalidade do ambiente onde a ação ocorrerá - o que aumenta a sensação de solidão, isolamento e o estado de desesperança dos vários personagens sob aquele regime.
Quando um padre é torturado por ter acolhido um provável rebelde, lembrei do padre Júlio Lancelotti sendo perseguido por ajudar a população de rua faminta, ao ponto de tentarem passar um projeto de lei que multaria e limitaria a doação de comida aos moradores de rua.
Nossos primos filipinos do filme têm bastante em comum conosco, tal história poderia facilmente se passar no Brasil, onde o fantasma do neofascismo estava fortalecido na época do lançamento de "Ang Hupa" e tornou-se uma ameaça constante desde então. Apesar do tom pessimista de um amanhã obscuro em mais de um sentido ser algo marcante do filme de Lav Diaz, ele termina numa nota otimista, com a promessa de algo próximo de uma democracia e a queda daquele ícone de opressão, expresso no banner de Nirv, exaurido de seu significado tão logo foi derrubado ("Boa noite, senhor! Uma lona para você. Use no telhado ou na parede da sua casa."), não sendo nada mais que seu significante: o material de sua impressão. Agora, enfim, útil para o povo.
Eu não posso acreditar do camarada lançar um filme desse pouco antes da pandemia!
O filme é repleto de imensas e assombrosas similaridades aos tempos atuais; creio que Filipinas como sistema político tenha passado por muitas coisas parecidas do que vivemos aqui na América do Sul, e nisso Lav Diaz mais uma vez expõe toda a imbecilidade dos detentores do poder e sua megalomania. Seu cordão narrativo é brilhante como em todos seus filmes, fazendo o espectador imergir em toda a sofrência possível de ser transmitida por meio de um audio-visual.
Engraçado acharem a duração longa, sendo que esse é um dos curtinhos do diretor kkkkk
Direção e fotografia primorosa. Uma história que flui naturalmente, basta estar disposto a acompanhá-la. É um filme pra degustar.
Não precisava dessas 4 horas e meia né