Cesare é a mulher mais bonita de uma vila de pescadores italiana onde os homens se juntam todas as noite numa taverna. Entre conversas e bebidas, eles realizam o que chamam de "jogo da lei", ritual no qual escolhem aleatoriamente um dos presentes para mandar e humilhar. Assuntos sobre a moral e paixões proibidas também são reveladas.
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Me encantou mais pela forma como Dassin coduz sua câmera especialmente nas cenas iniciais e pela óbvia beleza emanada por Lollobrigida. O roteiro me pareceu um tanto confuso, com muitos personagens um tanto insignificantes e a própia "lei" vigente é um pouco mal explorada.
Um pequeno tesouro (infelizmente) pouco conhecido. "La Legge" é um filme que trata do poder, aquele mantido pela força e ameaça. A vila de pescadores é a representação de uma ordem estabelecida à revelia da maioria dos habitantes, e o domínio é "legitimado" sem contestações significativas, como sendo a "ordem natural das coisas". E Gina Lollobrigida é aquela que serpenteia por aquele mundo petrificado reafirmando sua autonomia, gargalhando da repressão mumificada. A atriz transborda uma sensualidade espontânea que ameaça derrapar na vulgaridade mas não o faz. É um símbolo da mulher dona de si mesma num perigoso mundo dominado por dinheiro e espermatozoides. Melina Mercouri rouba as cenas em que aparece, uma das melhores personagens do filme. E Yves Montand incorporou um repugnante Matteo Brigante, a alma imunda interpretada com brilhantismo. Apenas a Mastroianni não foi dada oportunidade de demonstrar com mais desenvoltura suas qualidades como ator.
"A Lei dos Crápulas" tem seus pontos baixos. Mas é um filme que dá grande prazer em assistir.
"Há aqueles que nascem para serem líderes e fazerem as leis; e há aqueles que nascem para obedecê-las"... Frase extraída desse interessante filme de Jules Dassin, e que já dá boas pistas sobre o porque o cineasta foi banido do cinema norte-americano, durante à "caça às bruxas" (macarthismo), pois é aqui evidente o caráter crítico em relação à exploração das classes populares (no contexto do filme) por parte daqueles que detém o poder político e econômico. Embora rodado em francês, "La Loi" possui uma estética claramente influenciada pelo neo-realismo italiano. Destaque p\ o criativo trabalho de direção, a começar pela cena de abertura, na qual a grua percorre todos os andares de um prédio retratando o cotidiano de cada núcleo de personagens da história.
HUMILHAÇÃO E(M) ALEGORIAS
Boa parábola sobre o patriarcado e os ecos de feudalismo na modernidade, com elenco homogêneo - destaque para a deliciosa Gina Lolobrigida e Melina Mercouri (à época novata na sétima arte) - além da direção competente do sempre ótimo Jules Dassin (de "Riffi" e "Nunca aos Domingos").
"A Lei dos Crápulas" tem lá seus defeitos, principalmente o tal jogo que dá título ao longa que aparece pouquíssimo na trama e a dificuldade para engrenar os personagens de Mercouri e Montand no começo. Mas nada que tire o brilho do todo, sobretudo as alegorias representando a submissão dos aldeões ao sistema de humilhação (física ou simbólica) que garante a manutenção do/no poder para poucos, bem como enfoca as diferenças ao lidar com isso a partir do lugar social ocupado pelos personagens, especialmente no caso das mulheres (o premonitório exemplar de "Ana Karenina" perto do abajur de Mercouri, pra ficar num exemplo só).
No universo de Dassin, embora os párias tenham vez e voz, manda quem pode e obedece quem tem juízo. O pessimismo é regularidade na obra de Dassin e, rumo ao final, o tom de tragédia anunciada compõe o horizonte para o clímax em todas as subtramas. Essa abordagem de "Lei dos Crápulas", portanto, não chega a ser novidade para quem já conhece outros exemplares da filmografia do cineasta - embora no finalzinho se esboce um pouco do bom humor e entusiasmo que veríamos no longa seguinte de Dassin, o maravilhoso ode ao prazer hedonista "Nunca aos Domingos". Recomendado.